Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Assim dizia o Maharishi


Bhagavan Ramana Maharishi, o “grande vidente” de Arunachala, Índia, faz consistir toda a libertação e auto-realização do homem na distinção nítida entre o seu grande Eu divino (alma) e o seu pequeno ego humano (corpo-mente-emoções).

Passaremos a reproduzir uma série de perguntas que seus discípulos lhe fizeram e cujas respostas esclarecem admiravelmente esse ponto central.

Pergunta: – Como conseguir a minha auto-realização? 

Maharishi: – Já estás auto-realizado, se te libertares do pensamento “Não alcancei libertação”. Esse erro de identificares o Eu com o não-Eu, o ego, tem de ser superado. A felicidade do Eu é sempre tua – e tu despertarás para o teu verdadeiro Eu no momento em que ultrapassares esse impedimento: o ego, a egoidade, a ego-ilusão. Abre mão desse equívoco – e estarás livre para seres o Eu, que na verdade és. 

P – Não conviria que fôssemos buscar a solidão para realizarmos o nosso verdadeiro Eu?

M – Solidão é por toda a parte. Não a procures fora de ti, mas dentro de ti. Pode um homem estar imerso na lufa-lufa do mundo, e, no entanto, viver em profunda solidão, se estiver perfeitamente calmo dentro de si mesmo. Alguém vive em plena floresta, e não tem solidão, se não tiver domínio sobre suas energias internas; esse não é homem solitário. A solidão é um estado da alma. Quem está apegado a qualquer objeto externo não vive em solidão, esteja onde estiver. O homem interiormente calmo está em solidão, sempre e por toda a parte. 

P – Não conviria que o homem em busca da verdade abandonasse, antes de tudo, as suas posses?

M – O que ele deve, antes de tudo, abandonar é o possuidor, e não as posses. Quem se abandona a si mesmo, isto é, o seu pseudo-eu e encontra o seu verdadeiro Eu, esse tem tudo e não necessita de nada mais.

P – Não deveria eu abandonar os afazeres mundanos a fim de adquirir a consciência cósmica?

M – O teu único impedimento é o pensamento “eu trabalho”. Pondera calmamente: “quem é esse que trabalha?” – e o trabalho deixará de ser empecilho para ti; e os teus trabalhos terão o mesmo resultado de antes. 

P – Não convinha, pelo menos, que eu abandonasse casa e família? 

M – Que mal te fazem casa e família? Descobre primeiro quem és tu. Também no meio do sansara (agitação) do mundo pode o homem atingir auto-realização. Não é necessário ser monge para ter iluminação interna. Quem assim pensa, troca o erro “eu sou um homem mundano” pelo erro “eu sou um monge” – quando é necessário libertar-se tanto desta como daquela ilusão, a fim de chegar ao puro “EU SOU”. O que em mim há de essencial não é afetado por lugares e circunstâncias. Por isto: podemos realizar o nosso Eu em qualquer lugar, suposto que esse desejo seja maior que outro desejo qualquer.

Huberto Rohden em, A Grande Libertação

Do profano adicto ao Vencedor Cósmico

No zênite da sua experiência cósmica, vive o homem a suprema Realidade do Universo, em toda a sua plenitude e integridade; vive o UNO em todos os DIVERSOS; percebe a presença do eterno Nirvana em todos os Sansaras temporários. 

E, por isto, pode o homem cósmico amar sinceramente todas as Existências finitas na Essência Infinita, porque percebe o Creador em todas as creaturas. 

A aversão do mundo experimentada pelo místico culminou na conversão ao mundo vivida pelo homem cósmico. Após o penúltimo estágio evolutivo, que é a fuga do mundo, atinge o homem cósmico o último, que é a convivência com o mundo — não mais a convivência do profano, que é derrota, mas a convivência do iniciado, que é vitória. O estágio antepenúltimo do profano escravo, e o penúltimo do desertor místico, fundiram-se no último do vencedor cósmico. 

Esse homem enxerga a sacralidade do Infinito em todas as profanidades finitas, e assim todas as profanidades de outrora são sacralizadas pelo conhecimento da Verdade Libertadora, a Verdade de que o Infinito está em todos os Finitos, e todos os Finitos estão no Infinito. Os DIVERSOS de fora são iluminados pelo UNO de dentro — o homem cósmico vive e saboreia este UNI-VERSO. 

A fim de chegar a essa visão de transparência cósmica, enxergando o Infinito em todos os Finitos, deve o homem contemplar primeiro a Luz do Infinito em si mesma, isoladamente, longe das coisas opacas do mundo dos Finitos; só depois de se identificar totalmente com essa Luz como tal, isolada, transcendente, e viver intensamente essa experiência mística, é que o homem pode ver, mais tarde, essa Luz, como imanente em todas as coisas do mundo objetivo e profano — a opacidade de ontem se converteu na transparência de hoje. 

Somente o homem habituado a ser solitário com Deus pode ser solidário com o mundo — a solidão com Deus do mundo lhe confere a necessária invulnerabilidade para poder ser solidário com o mundo de Deus, sem alegria escravizante. O homem meramente social e sociável, que nada sabe da feliz solidão mística, a sós com Deus, esse não pode ser solidário com o mundo sem desertar da solidão com Deus. 

Essa solidão em Deus deve ter-se tornado no homem uma segunda natureza, uma querência, um lar, um céu, um paraíso, em que ele poderia habitar eternamente. 

Mas... essa profunda verticalidade da solidão clama por uma vasta horizontalidade de ação. Meditação e contemplação querem manifestar-se em ação. Estranhamente, esta palavrinha "ação", de duas sílabas, está contida naquelas palavras maiores, de quatro sílabas. O homem de genuína meditação e contemplação é de irresistível ação e atividade. 

Do homem que algo espera do mundo nada pode o mundo esperar. 

Só o homem, assim liberto do mundo pela experiência da Verdade, pode afirmar sem perigo e amar sinceramente todas as coisas do mundo, porque deixou de ser escravo e se tornou senhor do mundo. 
"O Cristianismo é uma afirmação do mundo, que passou pela negação do mundo". (Albert Schweitzer
"Homem! renuncia ao mundo, entrega-o a Deus! e depois recebe-o de volta, purificado, das mãos de Deus!" (Mahatma Gandhi)  
"Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo... Quem perder a sua vida ganhá-la-á; mas quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á" (Jesus, o Cristo)
"Eu morro todos os dias, e é por isto que vivo — mas já não sou eu que vivo, o Cristo vive em mim". (Paulo de Tarso)
De maneira que chegamos a esse estranho paradoxo da Verdade integral: Quem nunca negou internamente o mundo profano não pode sem perigo afirmar o mundo; a aversão do mundo pela negação deve preceder à conversão ao mundo pela afirmação — isto é libertação, equidistante da escravidão do profano e da deserção do místico. 

Com isto, não negamos, todavia, que a deserção mística seja melhor que a escravidão profana; pelo contrário, afirmamos que a deserção mística é um meio necessário para conseguir a libertação final. Todos os mestres espirituais da humanidade insistem na necessidade da negação pela mística para que o homem possa conseguir a libertação total pela afirmação da Verdade. 

Todas as coisas do mundo objetivo iludem e escravizam o homem que não tenha experimentado a Verdade do seu mundo interior; só depois desse encontro real e definitivo com a Verdade do seu Eu Divino, é que as coisas do ego humano podem ser aceitas sem perigo — e até com auxiliares de auto-realização — porque, depois dessa experiência da Verdade, a alegria de outrora se converteu na imunidade de agora. Só então podem as delícias do Nirvana (ananda) ser saboreadas em todas as formas do Sansara, sem perigo, sem remorsos, sem vacilações. 

[...] O homem, embora pareça ser um exilado aqui na terra, sabe no seu íntimo que pode encontrar aqui um lar, uma querência temporária, que não está necessariamente em conflito com a querência eterna, mas pode ser um prelúdio compatível com a vida eterna; ele quer poder afirmar a existência terrestre sem amargura, sem remorsos, sem nenhum senso de culpa, porque sabe que o reino de Deus deve e pode ser proclamado sobre a face da terra, para que haja um novo céu e uma nova terra. Sabe que é ele, e só ele, que pode e deve libertar da corruptibilidade a natureza, que até à presente hora, geme e sofre dores de parto, ansiando pela gloriosa liberdade dos filhos de Deus, que receberam as "primícias do espírito". 

Mas, enquanto as coisas do mundo lhe são opacas, simples objetos profanos, não pode o homem repousar nelas sem inquietação interior, sem uma futura conversão; só quando ele vê em todas as coisas externas outras tantas formas e veículos finitos da Realidade Infinita; só quando o eterno UNO transparece dos efêmeros DIVERSOS — só quando o homem descobre o verdadeiro UNI-VERSO — Deus em tudo e tudo em Deus — só então pode ele reconciliar-se, definitiva e jubilosamente, com o mundo dos Finitos sem desertar do Infinto. 

E então ingressa o homem na grande Família Cósmica, que é o reino de Deus em toda a sua Integridade e Plenitude. 

Quando a vivência profana passa pela visão mística, e quando a visão mística culmina na experiência cósmica — então o Verbo se faz carne e habita no homem cheio de graça e verdade; então o homem diversitário do mundo profano se une ao homem unitário da solidão mística — e desse casamento nasce a maravilhosa prole do homem universitário, o homem cósmico, o homem crístico, a Luz do mundo.
(Clique no nome do autor para adquirir original do livro deste texto)  

Da serpente mental à pomba espiritual

Todo homem, depois de atingir certa altura na senda da vida espiritual, sabe e sente que há, entorno e dentro dele, um misterioso ALGO, uma Força que lhe dá segurança, serenidade, alegria, felicidade. 

É uma invisível Presença, à qual os homens dão muitos nomes — Cristo, Buda, Tao, Brahman, ou outro nome simbólico, mas que continua inominável. 

E que outra coisa seria esse misterioso ALGO senão a própria VIDA universal enquanto sentida pelo homem individual?...

Esse ALGO não produzido, causado, merecido pelo homem — é gratuito mas não lhe é dado arbitrariamente; para que esse ALGO gratuito apareça, deve o homem crear um ambiente propício, condições favoráveis para que essa poderosa Presença Invisível se torne sensível. 

A Presença é mística — mas a experiência da sua presença depende da ética. Quando o homem se afasta dos caminhos da Verdade, da Justiça, do Amor, da Honestidade, da Benevolência, da Solidariedade, então essa deliciosa Presença empalidece e acaba por se eclipsar de todo — até que o homem volte ao caminho reto. 

A Graça de Deus — dizem os teólogos — depende da  do homem. 

Graça é Força e Luz — Fé é canal e veículo para elas. 

Envolto e permeado por essa Invisível Presença, sente-se o homem seguro e invulnerável, como que no meio de rijo baluarte, cuja porta só abre pelo lado de dentro; ninguém a pode abrir senão ele; por falta de ética ele abre essa porta — e, neste caso, os seus inimigos penetram no baluarte — e lá se vai a segurança e a paz da alma!... 

Quando o homem descobre esse "tesouro oculto", vai, cheio de alegria, vende tudo que tem, dá-o aos pobres, porque ele é rico, e procura adquirir esse "tesouro nos céus". 

E é o início de uma vida nova...

Não é um "remendo novo em roupa velha" — é uma túnica nupcial toda nova e inteiriça, de alto a baixo. 

O homem profano vive só para si e seu pequeno ego. Alguns vivem para o alargamento desse ego, que é a família e parentela; outros, mais avançados, incluem no seu interesse o seu grupo social ou religioso, o partido, a igreja, o povo, a nação; os mais avançados chegam ao ponto de incluir a humanidade toda no seu interesse — esses são então os grandes altruístas, os homens humanitários, filantrópicos, caritativos, os benfeitores da humanidade, como diz a publicidade. 

O Homem Cósmico vai além dessa fronteira da ética humanitária, que, no melhor dos casos, lhe serve de preliminar para a sua última aventura mística, o encontro com o Infinito, o Absoluto. 

O homem que, em verdade, possa dizer "já não vivo eu, o Cristo é quem vive em mim", "eu e o Pai somos um" — esse ultrapassou as fronteiras deste mundo e o seu reino já não é mais deste mundo, embora ainda esteja no mundo. E como esse homem nada mais espera do mundo, pode o mundo esperar tudo desse homem. Enquanto o homem necessita do mundo e da sociedade, ele é um "necessitado", um pobre mendigo — e que poderia um indigente dar a seus semelhantes? O mundo só necessita de um homem que já não necessita do mundo, mas encontrou plena suficiência em Deus. 

Esse homem não necessita de dinheiro, nem de política nem de prestígio social — basta que se deixe guiar pela Invisível Presença, que é como que uma linha reta através de todos os ziguezagues da vida. 

A serpente mental só se move em serpentinas ou ziguezagues; só conhece meios violentos e astúcias — armas, mentiras, política, diplomacia, camuflagens de toda a espécie; nenhuma serpente se pode mover em linha reta, num terreno limpo, porque necessita dos objetos vizinhos que lhe deem resistência para se mover. 

A pomba espiritual voa em linha reta, nem necessita da terra para se mover, basta-lhe o ar invisível; a sua vida é toda retilínea, simples, envolta na pureza e desnudez da Verdade e Sinceridade. 

"Aquele que está em mim — disse o Mestre — é maior do que aquele que está no mundo... Eu venci o mundo..."

Essa Presença Invisível é como a alma, que permeia e vitaliza o corpo todo, mas não é percebida em parte alguma. É como o grande Inconsciente Cósmico que acompanha todos os Conscientes humanos. E o homem só é realmente feliz quando mantém o contato com essa Força Anônima que está para além e dentro de todas as forças nominadas... 

Todos os ponderáveis só têm valor por causa desse Imponderável...

Despertar e reforçar esse poderoso Imponderável é sabedoria, santidade e sanidade...

Huberto Rohden em, Roteiro Cósmico (Clique no nome do autor para adquirir original do livro deste texto)      

Da dependência egóica à autonomia do Ser


[...] Quando o homem atinge a plenitude da sua consciência ou conscientização, nada mais sabe ele de um aquém ou de um além, porque a dimensão espacial do Finito se dilui na indimensão do Infinito. O mesmo se dá com o conceito ilusório de tempo, que se dilui na verdade do eterno, que é a ausência do tempo. Quando o homem-ego ultrapassa a sucessividade analítica da sua mente e entra, como homem-Eu, na simultaneidade intuitiva da razão, então tudo isto se torna natural, evidente e compreensível. 

A logoterapia não apela, portanto, para nenhum elemento heterônomo ao homem, mas penetra no âmago do elemento autônomo dele. 

Por via de regra, o homem só conhece as suas periferias sensoriais ou, quando muito, a sua zona semiperiférica mental. Mas nem os sentidos nem a mente representam a realidade central do homem; atingem o factual, mas não o real. Para além de todas as facticidades desponta a realidade

A logoterapia prática, portanto, é o mais completo realismo, quando ultrapassa as facticidades periféricas ou semiperiféricas e entra na zona da realidade central. Para além de todas as facticidades irrealistas jaz a realidade real.

O homem irreal ou semi-real deve ser plenamente realizado, para que o seu ego doente seja saturado pelo seu Eu sadio. No homem pleni-real não há males. Todos os males de que o homem sofre vêm da zona do seu ego mental, da sua persona (termo latino para máscara). Somente o contato com a individualidade real pode curar a personalidade irreal; somente a verdade pode libertar o homem da inverdade, que gera os males. 

A origem e a libertação dos males da humanidade


[...] O ser hominal, ao aparecer no cenário da história, apareceu como negativamente livre, livre de alguma coisa, mas sem saber para que era livre. Livre da escravidão do instinto vital do mundo infra-hominal, graças ao poder mental, mas ainda não plenamente livre para um fim racional (espiritual). 

Essa zona mental é do homem-ego, primeira etapa evolutiva do ser hominal e na qual o grosso da humanidade se acha até hoje: o homem-ego se sente livre de, mas não se sabe ainda livre para que  e para quem

É esta a zona crítica da liberdade sem responsabilidade

Todos os males da humanidade podem ser sintetizados neste binômio: liberdade sem responsabilidade. 

Neste plano, o homem age livremente em nome do seu ego separatista, e não age responsavelmente em nome do seu Eu unitivo: age egoicamente, não age cosmicamente. E, como todo mal está na egoidade unilateral e como todo bem está na cosmicidade onilateral, segue-se com a lógica férrea da lei inexorável de que o homem, no plano da egoidade sem cosmicidade, não pode deixar de ser vítima dos males produzidos por essa egoidade separatista, e nessa zona dos males perseverará o homem enquanto não despertar nele a consciência da sua cosmicidade unitiva, única capaz de o redimir dos males.

A união cósmica é a verdade, a separação egóica é uma ilusão

A ilusão produz os males, a verdade produz os bens e nos liberta dos males. Ilusão é treva, verdade é luz — as trevas só poderão ser dissipadas pela atuação da luz. 

A verdade é o conhecimento consciente da Realidade, da Essência, do Uno do Universo. Conhecer esta Realidade é a verdade, e esta verdade conhecida é libertadora — "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". 

Os males da vida humana são, portanto, produto do ego ilusório, e só poderão ser abolidos pelo despertamento do Eu verdadeiro. É perfeitamente inútil e totalmente impossível querer abolir os males ego-produzidos pelo próprio ego, por mais inteligente que ele seja. Nenhum ego pode libertar-nos dos males a que o ego se escravizou. Escravocrata não abole escravidão; escravocrata faz escravos, mas não liberta escravos. Enquanto o homem escravizado pelo ego ilusório não ultrapassar a dimensão dessa egoidade ilusória e escravizante, não haverá redenção dos males que a egoidade engendrou. Querer libertar o ego pelo ego, é funesto círculo vicioso, em que a humanidade vive há milhares de anos. Pode o ego modificar os sintomas dos males por ele creados, mas não os pode erradicar e abolir definitivamente, enquanto não entrar na nova dimensão do Eu redentor

Na natureza infra-hominal o Uno do Universo age diretamente, sem encontrar obstáculo, porque a natureza não possui suficiente liberdade para opor obstáculo à atuação do poder cósmico. 

Com o aparecimento do fator consciente ou semiconsciente do ser hominal, em sua fase mental, surgiu a possibilidade duma obstrução; o homem-ego pode fechar os seus canais ao influxo da fonte cósmica. 

Essa obstrução dos canais ocorre toda vez que o ego hominal considera a sua egoidade como fonte da própria Realidade, do Poder, da Vida e Saúde. Esta ilusão egóica é a razão porque o homem sofre os males. A ilusão separatista do ego obstrui os canais entre o homem e o cosmos. 

A libertação desses males é possível unicamente pela transição da ilusão para a verdade, porque só a consciência da verdade liberta o homem dos males que a inverdade creou nele. 

A verdade, porém, é esta: Eu e o Infinito (Pai) somos um; o Infinito está em mim, e eu estou no Infinito; as obras que eu faço não sou eu (o ego finito) que as faz, mas é o Infinito em mim que as faz. 

Quando o homem se convence definitivamente de que o seu ego humano não é a Fonte, mas canal, que deve estar ligado conscientemente à Fonte, ao Infinito, ao Uno, ou Único, à Essência, então fluem para dentro dele, e através dele, as águas da Vida, da Saúde e Felicidade. 

A presença objetiva da Vida, Saúde e Felicidade é um fato permanente e universal; mas a consciência desta presença é um problema. Enquanto o homem não tiver a consciência nítida desta presença cósmica não será liberto dos seus males. O homem pode ter câncer, paralisia, tuberculose, lepra ou outra doença, dentro da presença e onipresença da Vida, Saúde e Felicidade do Cosmos; pode também ser o maior dos malfeitores dentro dessa presença. O que o redime desses males e dessas maldades não é o fato objetivo da presença cósmica, é, sim, a consciência subjetiva dessa presença. 

O homem-ego ignora essa presença — o homem-Eu sabe dessa presença cósmica, divina. Por isto, somente a verdade do Eu pode redimir o homem da ilusão do ego

Auto-realização e cosmoterapia são manifestações da consciência da presença de Deus no homem.

Huberto Rohden em, Cosmoterapia - a cura dos males humanos pela consciência cósmica
(clique no nome do autor para adquirir original)

O nascimento do homem cósmico


[...] O homem, no estágio hominal da sua evolução ego, pode sucumbir à ilusão de ser uma entidade separada do grande Uno, da Alma do Universo, separado de Deus; é este o seu erro de origem, o seu "pecado original". E não há nenhum "batismo", nenhum mergulho que o possa libertar dessa ilusão, a não ser o mergulho na verdade do Eu. Só quando o homem mergulhar na Fonte profunda do seu Eu verdadeiro é que ele é liberto da ilusão de sua egoidade. "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" — é este o único "batismo" real, o único mergulho redentor. 

O homem-ego vive na ilusão "eu faço vida, saúde e felicidade", e com esta ignorante arrogância obstrui ele o caminho à verdade de que ele deve receber da Fonte do Uno a Vida, a Saúde e a Felicidade. 

A humanidade de hoje vive ainda na ilusória ego-consciência, julgando-se Fonte, quando é apenas canal. 

Quando despertará o homem ego-consciente a cosmo-consciência?

O homem-ego prefere remediar em vez de redimir.

Os remédios são remendos, mas não redenção. 

Remédios podem ser "remendo novo em roupa velha", mas a roupa velha do ego continua roupa velha, por mais remendada e remediada. Nunca se torna uma "nova creatura em Cristo", como o Eu, que não é remendado, mas remido. 

Remédios, podem, quando muito, desobstruir o caminho que o ego obstruiu, mas não podem curar o mal. Somente a alma da natureza pode curar. 

Sendo que a natureza é inconscientemente cósmica, pode Deus curar através dela, porque ela é um canal puro e dócil através da qual fluem a Vida, a Saúde e a Felicidade da Fonte Infinita. Mas, se o ego hominal, conscientemente anti-cósmico, intervier, obstruindo os canais ou turvando a limpidez das suas águas, então não pode a natureza exercer sua atividade curadora. 

Vida, Saúde e Felicidade fazem parte integrante da natureza, quer fora, quer dentro do homem. Elas existem dentro de cada homem, em estado potencial e implícito; e o homem bem orientado as pode fazer existir em estado atual e explícito, pode levar à eclosão a sua incubação.

Para fazer passar da incubação para a eclosão essas potencialidades latentes, deve o homem conscientizar a presença da Realidade, que é o seu Eu divino, o seu grande Uno. E a primeira condição para o despertamento desse Eu divino é não identificar-se com seu ego humano, ilusoriamente tido pelo Eu divino. Essa conscientização do seu Eu verdadeiro — que é Vida, Saúde e Felicidade — o libertará do seu ego ilusório, que é a causa de todos os males do homem. 

Na razão direta em que o homem se desegoficar (des-iludir) e se cosmificar (veracificar), participará o seu ego humano da Vida, Saúde e Felicidade do seu Eu divino. 

A Realidade do eterno Uno divino permeará todas as Facticidades do efêmero ego humano.

A soberania da sua substância divina será proclamada sobre todas as tiranias das circunstâncias humanas. 

E nascerá o homem cósmico.

"Eu já venci o mundo".

Huberto Rohden em, Cosmoterapia - a cura dos males humanos pela consciência cósmica(clique no nome do autor para adquirir original)

A eterna busca da alma pelo seu centro

"Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me em selva tenebrosa." - Dante Alighieri, A Divina Comédia
O arquétipo do Caminho, da Jornada, da Peregrinação fala da eterna busca da alma pelo seu centro. Ele se torna consciente quando percebemos que nossas vidas traçam um longo percurso cujo sentido e significado vai se revelando à medida que avançamos na nossa caminhada. geralmente é por volta da metade da vida que entramos em contato com esse arquétipo. Isso porque, já percorremos um bom pedaço da estrada e podemos olhar para trás e avaliar nosso percurso, bem como podemos olhar para frente e ajustar nossos passos rumo a objetivos mais abrangentes e diferenciados. É o momento ideal para se fazer um "balanço", uma avaliação de nossa proposta de vida e permitir mudanças revitalizadoras, novos trajetos e pontos de vista. 

Aqui vamos falar um pouco sobre quatro aspectos que se relacionam com a vivência desse arquétipo e dos símbolos correlatados. 

O Jardim das delícias

Esse é o princípio de tudo: o jardim do Éden, como aparece na tradição judaíco-cristã, mas também de inúmeras outras formas análogas em várias culturas. Há sempre um início paradisíaco, uma condição original de abundância, plenitude, felicidade, inocência, onde todos os seres convivem em harmonia e não em escassez, doença e morte. A ideia de um paraíso perdido, uma Idade de Ouro que remonta à origem dos tempos, é um arquétipo universal que revela a nostalgia por uma condição de harmonia que foi perdida e para a qual desejamos retornar. 

Efetivamente todos nós já experimentamos uma condição de plenitude no início de nossas vidas, dentro do útero materno: lá a temperatura, o alimento, a proteção estavam sempre presentes sem que precisássemos fazer qualquer esforço; lá onde não havia separação, dualidade, angústia ou perdas e estávamos imersos e fundidos na totalidade. No entanto, se quisermos crescer e nos desenvolver chega o momento em que temos que abandonar esse paraíso e como no Gênesis, somos expulsos da nossa inocência ou inconsciência original para que possamos aprender, a desenvolver a consciência e iniciar a jornada. 

Esse período inicial é muito importante porque permanece como referência de um estado de harmonia e plenitude que já foi vivido realmente e que, portanto, pode ser recuperado. Nos momentos mais difíceis e dolorosos essa vivência inicial pode servir como a chamada "luz no fim do túnel" e ser nossa guia rumo à saída para o sol. Porém, se nos recusamos a sair desse paraíso, ele rapidamente se transforma e pode nos devorar, impedindo nosso crescimento e desenvolvimento. A "Mãe Amorosa" se revela então como a "Deusa Destruidora", os animais amigos se transmutam em dragões e monstros ameaçadores. Assim, querendo ou não, somos lançados na outra etapa do caminho. 

O início da Jornada: o Labirinto

Toda vez que abandonamos uma situação conhecida e cômoda, que, no entanto já estava esgotada em suas possibilidades de crescimento, é como se saíssemos do regaço materno, da segurança do paraíso para nos perder no caos de um mundo sem referências, a selva tenebrosa de Dante. Esse início de jornada pode ser voluntário ou forçado por uma circunstância adversa que a vida nos proporciona, mas em ambos os casos é sempre um período difícil. Não há sinais de orientação, não há estradas retas e bem demarcadas, não sabemos para onde ir, como ir e o quê procurar. Temos que ir andando as apalpadelas, tateando, caindo e levantando. É um período de perambulação, mas também de grandes possibilidades de evolução. Nos tornamos peregrinos, buscadores e experimentadores e é exatamente esta incerteza que abre espaço para o "novo" surgir. 

Caminhar dentro do caos com paciência, persistência e abertura para certos erros, faz surgir uma nova luz, uma nova percepção e o labirinto se revela como um caminho espiralado que pode nos levar ao centro, ao tesouro perdido, à harmonia e a paz do paraíso. Mas, durante a caminhada no labirinto não sabemos se estamos próximos ou não do centro. O caminho de retorno também não é evidente e assim temos que aprender a enfrentar nossos medos e não fugir dos desafios. Isso nos leva a próxima característica simbólica da jornada. 

As tarefas do percurso. O Herói

Ao aceitarmos a caminhada e os desafios que ela nos propõem, começamos a vivenciar outro arquétipo que nos ajuda a cumprir nossas tarefas: o arquétipo do herói. Este arquétipo é a vivência do desenvolvimento da nossa força, das nossas habilidades, do nosso saber, das potencialidades ignoradas que vão se aprimorando à medida que enfrentamos nossos monstros interiores.

É preciso muita coragem para entrar no labirinto e se perder antes de poder se encontrar. No entanto, esta não é a prova mais difícil. Depois de termos vencido nossos medos, nossas fragilidades e limitações e termos cumprido com as tarefas que a vida nos propõem, começa outra etapa que é o aprendizado da humildade. Temos que reconhecer que mesmo sendo heroico, o ego está subordinado a um princípio maior, e que só a conexão com este princípio pode proporcionar sentido e significado a todas as conquistas obtidas. O herói não pode ficar preso na armadilha de sua própria habilidade e força em vencer os dragões, ele deve vencer também a sua vaidade e prosseguir a caminhada rumo ao centro. Para isso ele tem que reconhecer que sua força provém exatamente desse centro. Esse reconhecimento permite que o arquétipo do herói se transmute no arquétipo do Sábio e é essa vivência de sabedoria que finalmente nos leva de volta à casa, ao paraíso perdido. 

Retorno ao Centro

Estar no centro é a vivência de recuperação da harmonia, da paz e do equilíbrio perdido. É a volta à casa, à experiência de plenitude original, só que agora não mais vivida inconscientemente como no início. Agora a experiência é produto de uma busca consciente e voluntária.  

A caminhada no labirinto se transforma em "circum-ambulação", ou seja, caminhamos agora em torno do centro, de onde emana nossa força e alento. Estamos novamente próximos da fonte original de inesgotável abundância, felicidade, amor, beleza e sabedoria. Quando o ego e o Self se encontram há uma intersecção do mundo visível com o invisível, um casamento do Céu com a Terra, do sagrado com o profano e abre-se a porta para transformações profundas que vão além da compreensão intelectual. A personalidade se amplia para receber a vivência do numinoso e finalmente exercer sua totalidade. 

Depois de conseguirmos chegar ao centro e sermos abençoados com essa vivência temos que retornar à vida cotidiana e compartilhar o que recebemos, compartilhar o tesouro encontrado. Só assim se completa o círculo da jornada que temos que percorrer infinitas vezes durante a vida. O arquétipo do caminho se revela enfim como uma pulsação em torno do centro, em um ir e voltar, um achar e perder o rumo, em idas e vindas constantes que vão tecendo um desenho com mil cores e formas, que se desmancham e voltam a se formar, como as belas mandalas de areia tibetanas. E assim como as mandalas nos ensinam, também o nosso caminhar nos revela que o essencial está sempre presente e está além de todos os caminhos. Ele engloba tudo: o paraíso inicial, o labirinto das ilusões, as lutas do herói, a chegada ao centro e se faz presente em todos os grande e pequenos momentos, a cada gesto e curva do caminho.

Vera L. P. de Almeida 
     

A mística fortaleza do interior do coração

O verdadeiro lugar de paz em meio à agitação da vida moderna deve ser encontrado dentro do próprio eu, por meio da moderação exterior e da meditação interior. [...] Depois de ter esgotado todos os meios e esperanças do mundo, em todas as direções, para onde pode o homem voltar-se a não ser para sua própria fonte divina?

Fixe toda a atenção no Eu Superior que está ancorado no centro cardíaco. Assim, tudo o que você fizer durante o dia será decerto uma ação divinamente inspirada e um serviço verdadeiro. O Eu Superior é uma verdadeira fonte de poder: volte-se para ele e receba orientação construtiva para a tarefa de vida diária. 

Uma vez que o Eu Superior é sentido no coração como presença viva, ele eleva a consciência acima do domínio das partes ligadas ao desejo egoísta, liberta-a dos altos e baixos do humor e das emoções que essa oscilação acarreta. Provê um senso de interna satisfação, completa e independente de circunstâncias externas. 

Ansiedades se acalmam e inquietudes desaparecem quando a entrega ao Eu Superior cresce e se desenvolve no coração da pessoa. E essa atitude despreocupada se justifica, pois ao grau da sua entrega corresponde o grau da ativa intervenção do Poder Divino em seus assuntos. 

Se isso acontece, se a pessoa se entrega a si própria sem reservas à primeira e mais débil expansão da Graça no recôndito do coração, então as bençãos da Graça com o tempo frutificarão gloriosamente. Temos de aprender, pela prática, a arte de nos recolher a qualquer momento à mística fortaleza do interior do coração. 

O Eu Superior pode sempre ouvir um chamado, pois seu esconderijo não está distante: é o coração da pessoa. Mas se o chamado não for feito, se for feito sem fé ou se não for sustentado com paciência, a resposta não virá. 

O paradoxo é que o Eu Superior é ao mesmo tempo universal e individual. É universal porque domina todos os seres humanos como um único poder. É individual porque cada um o encontra dentro de si. É tanto o espaço quanto o ponto no espaço. É o espírito infinito e, contudo, é também a presença sagrada no coração de cada um. 

Se dizemos que o Eu Superior está dentro do coração, seria grande erro pensar que isso significa estar Ele limitado ao coração, pois o coração está em Seu interior também. Esse aparente paradoxo dará lugar à reflexão e à intuição. O misterioso relacionamento entre o ego e o Eu Superior foi assim expresso por Jesus: "O Pai está no Filho e o Filho está no Pai".

Paul Brunton   

A prece absoluta e a comunhão com Deus


Tão logo nos tornemos mais e mais conscientemente unos com a Mente Crística ou Universal, todas as nossas necessidades e desejos nos chegam juntamente com o suprimento correspondente. De fato, somos unos eternamente com esta Mente Divina e precisamos apenas tomar consciência desta verdade para podermos testemunhar o atendimento de cada vontade ou pensamento justo. Fica assim claro que esta percepção de unidade do homem com a Mente Crística, estabelecida "no princípio" pelo relacionamento sempre existente entre Deus e Sua ideia, o homem, dispensa todo esforço consciente para ocorrer e ser mantido. A percepção desta verdade é o fio conector com a Consciência Divina. 

Por ser através da prece que todo bem é alcançado, precisamos compreender amplamente o que é a prece e de que modo devemos orar. Na maioria das igrejas ortodoxas, orar é suplicar ou pedir a um Deus presente em alguma parte do céu para que atenda a algum mortal doente ou pecador presente em alguma parte da terra. A comprovação universal do fracasso desse tipo de prece nos serve para concluirmos não ser ela a prece verdadeira, e que o Deus a quem ela se destinava não chegou a ouvi-la. O intelecto humano observou que tais preces não obtinham respostas, e passou a procurar pelo verdadeiro Deus e pelo correto conceito de prece. 

Jesus nos ensinou que "o reino de Deus está dentro de nós". Portanto, é para dentro que a prece deve ser dirigida, ao ponto da Consciência em que a Vida Universal Se manifesta individualizadamente como o nosso ser. Aprendemos que "no princípio criou Deus o céu e a terra... e Deus viu tudo quanto fizera e achou bom". Sendo "bom", o universo deve inevitavelmente ser completo, harmônico e perfeito, de forma que, em vez de orarmos para que o bem nos ocorra, devemos fazer de nossas preces um reconhecimento da onipresença do Bem. O conceito mais elevado, então, revela a prece como afirmação do bem e negação da existência do erro. Quando a prece resulta no emprego de fórmulas, a tendência é nos fazer voltar à antiga prece ortodoxa, o que acarretaria enorme redução de seu poder. Entretanto, se a prece utilizar afirmações espontâneas e sinceras da natureza infinita de Deus, do Bem, e da harmonia e perfeição de Sua criação, o homem e o universo, verdadeiramente quem estiver assim orando estará se aproximando da prece absoluta, que é a comunhão com Deus.

A comunhão com Deus é a prece verdadeiramente eficaz. É o desenvolvimento da Presença e do Poder de Deus na Consciência individual. Estar em "comunhão com Deus" é, na verdade, estar ouvindo a "pequenina Voz suave". Nesta comunhão, ou prece, não há palavras que são passadas de um homem a Deus: há a consciência da Presença de Deus percebida como revelação da Verdade e do Amor divinos, vindos interiormente ao homem. Esta é uma sagrada condição de ser, que nunca deixa o homem na mesma condição em que o havia encontrado. 

Joel S. Goldsmith      

A Oração Centrante a prática das "Boas-Vindas"


Muitos de nós quando iniciamos a prática da Oração Centrante ou alguma forma de oração contemplativa, começamos a experimentar em um dado momento uma paz interior que parece crescer e se espalhar em nossa vida diária. Esse processo também nos deixa mais conscientes do surpreendente contraste em áreas onde não estamos tão pacificados. Isto sobressai mais quando encontramos as emoções aflitivas, aquelas emoções e "comentários mentais" que nos impedem de nos enraizar na Presença de Deus e na paz diária. Elas oscilam das emoções muito "frias" da apatia, do pesar, medo, assim por diante, até as emoções "quentes" da raiva, lascívia, orgulho, etc. Reagir com aversão ou com indulgência não vai ajudar na transformação dessas emoções no amor e na compaixão que Deus deseja para nós. 

Elas são manifestações do falso eu, ou do nosso senso de separação de Deus, quando nossos programas emocionais para a felicidade são frustrados ou bloqueados. Nosso desejo de estar com eles, aceitá-los, apresentá-los a Deus, sem abandonarmo-nos  a eles ou sem julgá-los, torna possível DESMANTELAR os programas emocionais que alimentam o falso eu e o redirecionamento de todos os nossos desejos e necessidades de completude, a Deus. 

Na prática da Oração Centrante, aprendemos experimentalmente que nossa verdadeira identidade se encontra na Presença de Deus, que nossa vida verdadeira está na Vida de Deus e Sua ação DENTRO DE NÓS. Aprendemos que os distúrbios emocionais e comentários de nossa mente reforçam o sofrimento em nossa vida e necessitam, por isso de compaixão e aceitação e precisam também ser trazidas a Deus para que a paz seja encontrada. Uma maneira de se fazer isso é a prática de "Boas-vindas". A prática é simples e direta, mas necessita um grande coração e bastante fé. 

Quando nos tornamos conscientes de emoções aflitivas, pensamentos ou comentários da mente damos os seguintes passos:
  1. Concentre-se e esteja Presente: à energia do sentimento, pensamento, emoção, sensação corpórea, comentário mental (sem se identificar com eles, consentir neles ou ser levados por eles). Em suma, atenção ao momento presente, à emoção ou sentimento, aqui e agora, do jeito que ela é. Perceber que eu não sou minhas emoções, sentimentos, etc. Eu observo, mas não sou aquilo que observo

  2. Dar as boas-vindas, verbalizar internamente sua intenção de entregar, devolver, esta experiência aflitiva ao Espírito de Deus EM NOSSO ÍNTIMO. Aceitando nossa humanidade, damos as boas-vindas à experiência, oferecendo-a em compaixão, por amor à Presença e Ação de Deus DENTRO DE NÓS. Mais uma vez, como na prática da Oração Centrante, prontificamo-nos à Presença e Ação de Deus em nós, para curar e solucionar este sentimento, pensamento, emoção, sensação ou comentário mental.

  3. Desapegar-se. Desapegamo-nos de nossos desejos desordenados a resultados ou escapismos. Expressamos internamente os seguintes desapegos: Desapego-me de meu desejo de poder, controle, estima e afeição, segurança, desejo ou insistência em mudar a situação que dá origem às emoções conflitivas (pensamento, sentimento, sensação, comentário, ou evento). 
Esta prática pretende nos ajudar diretamente a redirecionar nossa necessidades inapropriadas para Deus, para além dos programas emocionais que criamos para nós, ainda numa tenra idade, talvez a partir de nossa necessidade naquela época, ou pela falta de amor apropriado em nossa criação, mas que mesmo assim alimentam nosso sofrimento e senso de separação neste momento de nossas vidas.

Obviamente, há outras circunstâncias, em que esta prática não é apropriada, ou em que nos sentimos esmagados, tais como circunstâncias abusivas ou perigosas, ou em que o simples sentimento, ou a lembrança se tornam muito pesados. Em tais caos, a prática da oração ativa ou "guarda do coração", pode ser mais apropriada. Esta prática é pensada para nos ajudar no desapego, em Deus, quando mais necessitamos, e facilitar a abertura ao Amor de Deus e da Graça para nos trazer a transformação e libertação daqueles obstáculos à uma resposta plena ao amor de Deus

É importante nisso tudo estar comprometido com uma disposição para o amor compassivo em relação às feridas de nossa humanidade. Compaixão conosco mesmos!

O livro "Intimidade com Deus", de Thomas Keating, aprofunda a questão dos nossos programas emocionais para a felicidade, desembocando nos centros de energia por controle, auto-estima, segurança, que em si são coisas boas, mas que devem estar equilibrados.  

Os frutos da Vida Contemplativa no dia a dia


"... A oração não pode subsistir sem que uma ação brote dela. A vida contemplativa sem ação fica estagnada e a ação sem a oração contemplativa, leva a um desgaste e a um andar em círculos. A oração contemplativa como que peneira nossa visão contemplativa e nossas ideias sobre o que deveríamos fazer. Ela nos capacita a unir as duas e trazer o espírito de nosso compromisso contemplativo na vida diária. Nosso centrar em Deus nos acompanha na vida diária, seja em outras formas de oração, seja em nossos relacionamentos, seja em nosso trabalho... Todas as nossas ações devem brotar desse Centro. A Oração Centrante nos ajuda não apenas a estar enraizados em nossa natureza espiritual, mas a expressar nosso verdadeiro ser. Expressamos uma liberdade interior que manifesta mais e mais a mente de Cristo em nossa vida particular, através do brotar e fluir do Espírito e das Beatitudes. Assim, com nosso jornadear mais e mais profundamente em direção à fonte da Oração Centrante, que é a vida Trinitária dentro de nós, seus efeitos nos conduzem mais poderosamente para fora, em direção à união a que chamamos de Comunhão dos Santos: a capacidade de nos relacionarmos uns com os outros com o amor incondicional com o qual Cristo se relaciona conosco".

Thomas Keating, Intimidade com Deus - Ed. Paulinas

Os frutos da oração e união com Deus


Quando estamos enraizados na Fonte do Amor e os obstáculos a um maior amor e serviço foram transformados DENTRO DE NÓS, somos capazes de dar com maior sabedoria, maior profundidade e maior desprendimento. E nosso próprio poço não seca, porque ele está sendo continuamente completado com a Água Viva de que Jesus falou. 

Alguns dos modos pelos quais nos abrimos à essa Água Viva podem incluir os seguintes:

  • Um gosto adquirido pelo silêncio em nossas vidas.
  • Uma maior capacidade de desapego durante o curso de nossas vidas.
  • Aprende-se a amar incondicionalmente. 
  • Vê-se a bondade fundamental nos outros.
  • Aprende-se a ser abertos para dar e receber mais completamente.
  • Um enriquecimento mais completo na vida de oração.
  • Uma maior clareza concernente às motivações na vida. 
  • Cura e reconciliação dentro de si mesmo e com os outros. 
  • Serviço o mundo e uma escuta genuína aos clamores dos necessitados. 
A Tradição nos ensina que alguns dos frutos da oração e união com Deus, de viver no Reino de Deus, são doloroso. Sentimos a dor do mundo, de nossos irmãos, de todas as criaturas de modo mais agudo. A dureza do coração se dissolve e ficamos sintonizados com a Presença de Deus, no mundo em nossa volta.

Por conseguinte experimentamos:
  • Maior sensibilidade às injustiças no mundo.
  • Maior desejo de nos arriscarmos pelos outros, e pelo amor do Reino de Deus.
  • Os frutos da Oração Contemplativa são a realização das Bem-aventuranças. E elas falam de felicidade num sentido contrário aos valores do mundo.
  • Ao nos desarmarmos, tornando-nos mais vulneráveis ao sofrimento em nós mesmos e nos outros, encontramos a verdadeira felicidade. 
Intimidade com Deus, Edições Paulinas

Os frutos da Oração Centrante

"A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva" (Ap 21,6)

Somos introduzidos à Oração Centrante como sendo um método para nos abrirmos a uma RELAÇÃO CONSCIENTE E ÍNTIMA com Deus. Aprendemos sobre o uso da Palavra espiritual na prática da mesma oração.

Os frutos da Oração Centrante são experienciados na vida diária, não necessariamente no período em que praticamos a mesma.

Não há uma relação direta de causa e efeito na Oração Centrante, mas existem os frutos. A oração não é praticada em virtude dos frutos, mas a fidelidade à prática trará os frutos com toda certeza.

Nossa capacidade de amar e servir como uma manifestação do amor, são os frutos desse relacionamento com Deus.

A atitude de consentir na Presença e Ação de Deus em nós passa a fazer parte da nossa vida diária. Há um ritmo na prática, os pensamentos surgem, DEIXAMOS QUE ELES PASSEM, NÃO OPOMOS NENHUMA RESISTÊNCIA AOS PENSAMENTOS E NÃO NOS APEGAMOS A NENHUM. Acontece um desapego pacífico e alegre no dia a dia. O desapego impacta nossa vida diária na medida em que recebemos a graça de "largar". Aprendemos a viver plenamente o MOMENTO PRESENTE, nem nos agarrando a nada nem "empurrando" o que está diante de nós.

Experimenta-se uma nova liberdade de agir a partir do Reino de Deus DENTRO DE SI MESMO, ao invés das compulsões ditadas pelos programas emocionais para a felicidade QUE ALIMENTAM O SISTEMA DE NOSSO FALSO EU.

Descobrimos que a base de nosso ser, de nossa vida, brota não das necessidades de nosso falso eu, nossas compulsões ditadas pelo medo, mas antes brotam do Reino Interior.

Os primeiros frutos podem se refletir num gosto para o silêncio, a solidão, para uma simplicidade de vida. Geralmente os frutos são notados primeiramente por outras pessoas, ainda antes que possamos percebê-los.

Os frutos da Oração Centrante podem nos tocar ou a outros, das seguintes maneiras:

  • CRESCIMENTO PESSOAL — aumento da empatia, capacidade de ouvir, sensibilidade aos outros, menos julgadores, uma abertura à mudança e transformação.
  • RELACIONAMENTOS — menos reações veementes aos outros, maior aceitação dos outros, mais atenção.
  • SERVIÇO AOS OUTROS — Chamados ao Serviço de vários tipos em comunidades espirituais ou seculares.

O Padre Thomas Keating foi perguntado sobre o que seria melhor — servir os mais necessitados ou praticar a Oração Centrante em silêncio. Ele respondeu: "É a mesma coisa... são dois lados da mesma moeda".

Creio que ele realmente estava dizendo como a nossa jornada interior e exterior, brotam ambas, de nosso relacionamento com Deus, e a prática do relacionamento é verdadeira seja na nossa abertura a Deus no silêncio, seja servindo e amando a Deus em e através de sua Criação ao nosso redor. 

Intimidade com Deus, Edições Paulinas

O poder da oração do coração


Quando entramos com a mente no coração e ali ficamos na presença de Deus, então todas as nossas preocupações mentais se transformam em oração. O poder da oração do coração é precisamente que, por meio dela, tudo que está em nossa mente se transforma em oração.

Quando dizemos a alguém: "Vou rezar por você", assumimos um compromisso muito importante. É uma pena que esse comentário muitas vezes não passe de uma expressão de interesse. Mas, quando aprendemos a descer com nossa mente em nosso coração, todos os que fazem parte de nossa vida são guiados à presença curativa de Deus e tocados por ele no centro de nosso ser. Falamos aqui de um mistério para o qual palavras são inadequadas. É o mistério em que o coração, centro de nosso ser, é transformado por Deus em seu coração, um coração grande o bastante para abraçar todo o universo. Pela oração, carregamos em nosso coração toda a dor e tristezas humanas, todos os conflitos e agonias, toda a tortura e a guerra, toda a fome, solidão e miséria, não por causa de alguma grande capacidade psicológica ou emocional, mas porque o coração de Deus uniu-se ao nosso.

Aqui vislumbramos o sentido das palavras do místico Jesus:

"Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque eu sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas. Sim, o meu jugo é fácil de carregar, e o meu fardo é leve" (Mateus 11, 29-30).

Jesus nos convida a aceitar seu fardo, que é o do mundo todo, um fardo que inclui o sofrimento humano em todos os tempos e lugares. Mas esse fardo divino é leve e podemos carregá-lo quando NOSSO CORAÇÃO SE FUNDE no coração manso e humilde de Deus.

Vemos aqui o íntimo relacionamento entre oração e ministério. O objetivo primordial de transmitir a mensagem a todo aquele que tem "fome e sede", é a disciplina de oração e também da transmissão da mensagem. Enquanto a transmissão da mensagem significar apenas que nos preocupamos muito com as pessoas e seus problemas; enquanto significar um número interminável de atividades que dificilmente conseguimos coordenar, ainda dependeremos muito de nosso coração tacanho e ansioso. Mas quando nossas preocupações são elevadas ao coração de Deus e ali se transformam em oração, transmissão da mensagem e oração se tornam duas manifestações do mesmo amor universal de Deus.
Vimos como a oração do coração se nutre de orações breves, é incessante e inclui tudo. Essas três características mostram como a oração do coração é o alento da vida espiritual e de toda transmissão da mensagem. Na verdade, essa oração não é apenas uma atividade importante, mas o próprio centro da nova vida que queremos representar e na qual queremos transmitir em todas as nossas atividades. As características da oração do coração deixam claro que ela exige uma disciplina pessoal. Para levar uma vida de oração não podemos passar sem orações específicas. Precisamos dizê-las de uma forma que nos ajude a ouvir melhor o Espírito que reza em nós. Precisamos continuar a incluir em nossa oração todas as pessoas com as quais e para as quais vivemos e trabalhamos. Essa disciplina vai nos ajudar a passar de uma transmissão da mensagem de forma entontecedor, fragmentário e muitas vezes frustrante para uma transmissão integradora, holística e muito gratificante. Ela não vai facilitar a transmissão da mensagem, mas simplificá-la; não vai torná-la doce e piedosa, mas sim espiritual; não vai fazê-la indolor e sem lutas, mas tranquila.

Henri J. M. Nouwen em, A espiritualidade do Deserto e o Ministério contemporâneo

A palavra que nos ajuda a descer com a mente ao coração

A tranquila repetição de uma única palavra ajuda-nos a descer com a mente ao coração. Essa repetição nada tem a ver com mágica. Não tem o propósito de enfeitiçar Deus, nem de forçá-Lo a nos ouvir. Pelo contrário, uma palavra ou sentença repetida com frequência ajuda-nos a nos concentrar, a nos mover para o centro, a criar uma tranquilidade interior e, assim, a OUVIR A VOZ DE DEUS. Quando simplesmente tentamos ficar sentados em silêncio e esperar que Deus nos fale, nos vemos bombardeados por intermináveis pensamentos e ideias conflitantes. Mas quando usamos uma sentença bastante simples como: "Ó Deus, vem em meu auxílio", ou uma palavra como "Pai" ou "Poder Superior", é mais fácil deixar as muitas distrações passarem sem nos deixarmos iludir por elas. Essa oração simples, repetida com facilidade, esvazia aos poucos nossa vida interior apinhada e cria o espaço sossegado onde habitamos com Deus. É como uma escada pela qual descemos ao coração e subimos a Deus. Nossa escolha de palavras depende de nossas capacidades e das circunstâncias do momento, mas é melhor usar palavras que melhor toquem nosso coração. 

Quando temos fidelidade a essa oração simples e a praticamos com regularidade, ela nos conduz devagar a uma experiência de descanso e nos abre à presença ativa de Deus. Além disso, em um dia muito agitado, podemos levar essa oração conosco. Quando, por exemplo, passamos, no início da manhã, 20 minutos sentados na presença de Deus com palavras tipo: "O Senhor é meu pastor", elas lentamente constroem em nosso coração um pequeno ninho para si mesmas e ali ficam o restante de nosso dia agitado. Até enquanto falamos, estudamos, cuidamos do jardim ou construímos alguma coisa, a oração continua em nosso coração e nos mantêm conscientes da orientação onipresente de Deus. A disciplina não é agora dirigida para um discernimento mais profundo do que significa chamar Deus de nosso Pastor, mas para a ÍNTIMA EXPERIÊNCIA da ação de Deus em tudo que pensamos, dizemos ou fazemos. 

Henri J. M. Nouwen em, A espiritualidade do Deserto e o Ministério contemporâneo
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey