Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

A Oração do Coração é a oração da Verdade


A oração hesicástica, que leva ao descanso em que a alma habita com Deus, é a oração do coração. Para nós que damos tanta importância à mente, aprender a rezar com o coração e a partir dele tem importância especial. Os monges do deserto nos mostram o caminho. Embora não exponham nenhuma teoria sobre a oração, suas narrativas e seus conselhos concretos apresentam as pedras com as quais os autores espirituais ortodoxos mais tardios construíram uma espiritualidade magnífica. Encontramos a melhor formulação da oração do coração nas palavras do místico russo Teófano, o Recluso: "Rezar é descer com a mente ao coração e ali ficar diante da face do Senhor, onipresente, onividente, dentro de nós". Rezar é ficar na presença de Deus com a mente no coração, isto é, naquele ponto de nossa existência em que não há divisões nem distinções e onde somos totalmente um. Ali habita o Espírito de Deus e ali acontece o grande encontro. Ali, o coração fala ao coração, porque ali ficamos diante da face do Senhor, onividente, dentro de nós. É bom saber que aqui a palavra "coração" é usada como a fonte de todas as energias físicas, emocionais, intelectuais, volitivas e morais. 

No coração, originam-se impulsos impenetráveis, além de sentimentos, disposições e desejos conscientes. O coração também tem suas razões e é o centro da percepção e do entendimento. Finalmente, ele é a sede da vontade: faz planos e chega a uma boa decisão. Assim, é o órgão central e unificador de nossa vida pessoal. Nosso coração determina nossa personalidade e é, portanto, não só o lugar onde Deus habita, mas também o lugar ao qual o Eu inferior dirige seus ataques mais ferozes. Esse coração é o lugar da oração. A oração do coração dirige-se a Deus a partir do nosso centro da pessoa e, assim, afeta toda a nossa compaixão. 

Um dos monges do deserto, Macário, o Grande, diz: "A tarefa principal do atleta (isto é, do monge) é entrar em seu coração". Isso não significa que devemos procurar encher nossa oração de sentimento; significa que devemos esforçar-nos para deixar que ela remodele toda a nossa pessoa. O discernimento mais profundo dos monges do deserto é que entrar no coração é entrar no Reino de Deus. Em outras palavras, o caminho para Deus é pelo coração. Isaac, o Sírio, escreve:

"Procure entrar na câmara do tesouro... que está dentro de você e então descobrirá a câmara do tesouro do céu. Pois ambas são a mesma coisa. Se conseguir entrar em uma, você verá ambas. A escada para este Reino está escondida dentro de você, em sua alma. Se você purificar a alma, ali verá os degraus da escada que deve subir". 

E João de Cárpato diz: "É preciso grande esforço e luta na oração para alcançar aquele estado da mente que é livre de toda perturbação; é um céu dentro do coração (literalmente 'intrecardíaco'), o lugar onde, como o apóstolo Paulo assegura, "Cristo está em vós". 

Em suas falas, os monges do deserto nos indicam uma visão bastante holística de oração. Eles nos afastam de nossas práticas intelectuais, nas quais Deus se transforma em um dos muitos problemas com os quais temos de lidar. Mostram-nos que a verdadeira oração penetra no âmago de nossa alma e não deixa nada sem tocar. A oração do coração não nos permite limitar nosso relacionamento com Deus à palavras interessantes ou emoções piedosas. Por sua própria natureza, essa oração transforma todo o nosso ser em Deus, precisamente porque abre os olhos de nossa alma à verdade de nós mesmos e também à verdade de Deus. A oração do coração nos exorta a não esconder absolutamente nada de Deus e a nos entregar incondicionalmente a sua misericórdia.

Assim, a oração do coração é a oração da verdade. Desmascara as muitas ilusões sobre nós mesmos e sobre Deus e nos conduz ao verdadeiro relacionamento com o Deus misericordioso. Essa verdade é o que nos dá o "descanso". Quando ela se abriga em nosso coração, somos menos distraídos por pensamentos mundanos e nos voltamos mais sinceramente para o Deus de nossos corações e do Universo. Assim, as palavras de Jesus: "Felizes os corações puros: eles verão a Deus" (Mateus 5,8) tornam-se reais em nossa oração. As provações e as lutas continuam até o fim de nossas vidas, mas com um coração puro ficamos tranquilos, mesmo em meio a uma existência agitada.

Henri Nouwen        

Oração Centrante


"Quando orares, entra no teu quarto fecha a porta e ora ao teu pai em segredo; e teu pai que vê tudo num lugar oculto, recompensar-te-á. Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras". (Mateus, 6, 6-7)

"No centro do nosso ser, existe um ponto como que vazio, intocado pelo pecado e pela ilusão, um ponto de pura verdade, um ponto, uma centelha que pertence inteiramente a Deus... Este pontinho "de nada" e de absoluta pobreza é pura glória de Deus em nós... É como um diamante puríssimo, a brilhar na luz invisível do céu. Isso existe em todos os homens, e se pudéssemos vê-lo, veríamos esses milhões de pontos de luz a juntar-se na face e no ardor de um sol que faria desaparecer completamente toda a escuridão e toda a crueldade da vida..." (Thomas Merton)

Sente-se quieto e relaxado, coluna ereta. Use uma cadeira ou banquinho de meditar, ou sente-se na posição do Buda. O importante é que a posição seja confortável e lhe permita ficar tão imóvel quanto possível na sua oração, pois a quietude do corpo favorece a quietude do espírito. 

  1. Tranquilize-se na Fé e no Amor a Deus, O qual habita no centro do seu ser. Respire suavemente, acalme-se na presença do Senhor que te ama e espera...
  2. Escolha uma palavra que lhe agrade (por exemplo Deus, Pai, Amor, Paz, Fé, etc.) e deixe-a presente, sustentando seu ser para Deus com amor e fé. Não perca muito tempo escolhendo essa palavra, pois você não vai se concentrar em seu significado, nem ficar refletindo sobre ela. Ela te servirá como âncora, para te "segurar" na Presença de Deus. Peça ao Deus da sua compreensão que o ilumine na escolha dessa Palavra que será a partir de então a sua palavra espiritual.

    Pode usar essa pequena oração para iniciar, todas às vezes:

    "Poder Superior, esta Palavra Espiritual é minha intenção de permanecer em tua presença nessa oração. Através dela, eu consinto em vossa Presença e Ação em minha vida e abro mão de todos os meus "projetos pessoais" para a felicidade. Procurando apenas me aquietar e desapegar-me de meus pensamentos, incluindo minhas emoções, abrindo-me à escuta e à vossa presença amorosa em minha vida. Que assim seja".
  3. A cada vez que você perceber sua mente vagando (ela adora fazer isso, é como o macaquinho irrequieto, pulando de galho em galho), simplesmente retorne à Presença de Deus, repetindo mentalmente sua palavra espiritual. O importante nessa oração é nosso ser desnudo, calado, quieto, em adoração, diante do Ser que habita nosso ser e nos faz ser. Nesse momento, somos, para Deus apenas. Não vamos falar, não vamos pedir. Ele sabe do que precisamos. Vamos fazer espaço para Ele em nós. 
"Se queres ouvir o Inominável, mergulha
no Santuário interno de teu próprio ser,
e ali, meditando rente ao altar-mor, 
talvez consigas aprender que Ele tem uma voz,
À qual, se fores sábio, obedecerás".

Leonardo da Vinci 

Experiência Cósmica


É algo para além da mística, ou então uma mística universal. O místico foge do mundo para se encontrar com Deus, mas o homem na experiência cósmica penetra tão profundamente na alma do universo, que atinge o Deus do mundo no mundo de Deus. Naturalmente, não é o homem que realiza essa experiência — ela lhe "acontece" num novo "querer" místico, numa fome e sede, num flamejante entusiasmo, numa irresistível paixão por essa estupenda Realidade que está para além de todos os nomes, como a Vida, o Espírito, o Amor, a beatitude...

Para o mundo profano em derredor, esse homem deve necessariamente parecer um louco ou alucinado, um anormal — e, de fato, anormal ele é, se por normal se entende essa cegueira habitual dos inexperientes e essa insensibilidade paquidérmica dos profanos. Esse homem é normal "para cima", supra-normal, e não anormal "para baixo", infra-normal, como certos doentes. Mas, como o homem comum nada sabe do supra-normal, ao passo que tem algum conhecimento do infra-normal — que admira que coloque o supra-normal no plano dos infra-normais? Cada um pensa e fala segundo a medida do seu conhecimento — ou da sua ignorância, porquanto "o conhecido está no cognoscente segundo a capacidade do cognoscente". O homem normal pode conhecer o infra-normal, que para ele é um "menos", mas não pode saber o que seja o supra-normal, porque é para ele um "mais". Ninguém pode conceber coisa maior do que ele mesmo é; o nosso "ser" é a bitola do nosso "conhecer" — o agir segue o ser. 

Entretanto, são esses homens de experiência cósmica os únicos que garantem o fogo da espiritualidade sobre a face da terra. São como impetuosos incêndios do fogo autônomo, de cuja alma os outros recebem luz e calor, alguma centelha ou algum clarão emitidos pelo vasto incêndio da experiência cósmica desses poucos que alimentam os muitos. 

Huberto Rohden em, Ídolos ou Ideal? 

Onde estão as ilusões senão numa mente adormecida?


Não busques fora de ti mesmo. Pois o teu intento falhará e tu chorarás a cada vez que um ídolo cair por terra. O Céu não pode ser achado onde ele não está e não pode existir paz a não ser no Céu. Cada ídolo que cultuas quando Deus chama, nunca te responderá em Seu lugar. Não existe nenhuma outra resposta que possas substituir pela de Deus e na qual possas achar a felicidade que a Sua resposta traz. Não busque fora de ti. Pois toda a tua dor simplesmente vem de uma busca fútil pelo que queres, insistindo quanto ao lugar aonde tem que ser achado. E se não estiver, ali? Preferes estar certo ou ser feliz? Fica contente por ter sido dito a ti aonde habita a felicidade e não busques mais em outra parte. Tu falharás. Mas te é dado conhecer a verdade e não buscá-la fora de ti mesmo. 

Ninguém que venha aqui deixa de ter ainda esperança, alguma ilusão remanescente, ou algum sonho que haja alguma coisa fora dele próprio que lhe trará felicidade e paz. Se todas as coisas estão nele, isso não pode ser assim. E portanto, com a sua vinda, ele nega a verdade a respeito de si mesmo e busca algo que seja mais do que tudo, como se uma parte do todo estivesse separada e pudesse ser achada aonde todo o resto não está. Esse é o propósito que o ego concede ao corpo: que busque aquilo que falte a ele, e lhe dê aquilo que o faz completo. E assim ele vaga, sem objetivos, em busca de alguma coisa que não pode achar, acreditando que ele é o que não é. 

A ilusão remanescente o impelirá a buscar milhares de ídolos e outros milhares além desses. E cada um falhará, todos, exceto um: pois ele morrerá sem compreender que o ídolo que ele busca é apenas a sua própria morte. A forma da morte apresenta estar fora dele. Entretanto, de fato, ele busca matar o Filho de Deus no interior de si mesmo e provar que é vitorioso sobre ele. Esse é o propósito que cada ídolo tem, pois esse é o papel que lhe é atribuído e esse é o papel que não pode ser cumprido. 

Sempre que tentas alcançar uma meta segundo a qual a melhoria do corpo é colocada como meta principal, estas tentando trazer para ti a tua própria morte. Pois acreditas que podes sofrer devido à falta, e falta é morte. Fazer sacrifícios é desistir e assim ficar sem, tendo sofrido a perda. E por essa desistência abre-se mão da vida. Não busques fora de ti mesmo. A busca implica em não seres íntegro por dentro e tens medo de olhar para a tua própria devastação, preferindo buscar o que és fora de ti mesmo. 

Ídolos têm que cair porque não têm vida e o que é sem vida é um sinal de morte. Tu viestes para morrer e que mais poderias esperar senão perceber os sinais da morte que buscas? Nenhuma tristeza e nenhum sofrimento proclamam outra mensagem que não seja o encontro de um ídolo que representa uma paródia da vida, que por não ter vida é realmente a morte concebida como algo real ao qual se atribui forma viva. Contudo, cada um desses ídolos tem que falhar, desmoronar e se deteriorar porque uma forma de morte não pode ser vida e o que é sacrificado não pode ser íntegro. 

Todos os ídolos desse mundo foram feitos para manter a verdade dentro de ti afastada do teu conhecimento, e para manter a aliança com a ilusão, segundo o qual tens que achar o que está fora de ti mesmo para seres completo e feliz. É em vão que se cultua ídolos esperando achar a paz. Deus habita dentro de ti e tua completude está Nele. Nenhum ídolo toma o Seu lugar.Não o és para ídolos. Não busque fora de ti mesmo. Vamos esquecer o propósito que foi dado ao ego pelo passado. Pois de outra forma, o futuro será como o passado, não mais do que uma série de ilusões deprimentes nos quais todos os ídolos falham a ti, um por um, e tu vês a morte e o desapontamento em toda à parte. 

Para mudar tudo isso e abrir um caminho de esperança e de libertação dentro daquilo que aparentava ser um círculo sem fim de desespero, tu apenas necessitas decidir que não sabes qual é o propósito do mundo. Tu lhe dás metas que ele não tem e dessa forma decides para quê ele serve. Tentas ver nele um lugar de ídolos achados fora de ti mesmo, com o poder de fazer com que o que está dentro seja completo, dividindo o que tu és entre os dois. Tu escolhes as tuas ilusões, pois são o que desejas, percebido como se tivessem sidi dados a ti. Os teus ídolos fazem o que queres que façam e têm o poder que tu lhes atribuis. E tu os persegues em vão nas ilusões, porque queres o seu poder para ti. 

Entretanto, onde estão as ilusões senão numa mente adormecida? E é possível que uma ilusão tenha sucesso em fazer com que o retrato que ela projeta fora de si mesmo seja real? Economiza tempo, meu irmão, aprende para quê o tempo serve. E apressa o fim dos ídolos em um mundo que se fez triste e doente por ter ídolos. A tua mente santa é um altar a Deus, e onde Ele está nenhum ídolo pode habitar. O medo de Deus não é senão o medo da perda dos ídolos. Não é o medo da perda da tua realidade. Mas tu fizeste da tua realidade um ídolo, o qual tens que proteger contra a luz da verdade. E todo o mundo vem a ser o meio pelo qual esse ídolo pode ser salvo. Desse modo, a salvação parece ameaçar a vida e oferecer a morte. 

Não é assim. A salvação busca provar que a morte não existe, que só a vida existe. O sacrifício da morte não é nenhuma perda. Um ídolo não pode tomar o lugar de Deus. Permite que Ele te lembre do Seu Amor por ti e não busques afogar a Voz de Deus em cantos de profundo desespero para ídolos de ti mesmo. Não busques fora do teu Pai a tua esperança. Pois a esperança da felicidade não é desespero. 

Um Curso em Milagres        

Quietude é pureza e sacralidade


Como tornar clara uma água turva?

Deixando-a quieta — e ela se clarificará por si mesma.

Todo ruído, tanto físico como mental, é impureza e profanidade — ao passo que o silêncio e a quietude são pureza e sacralidade. 

Depois de dois ou três dias de contínuo silêncio e meditação, entra a alma numa grande receptividade espiritual, de maneira que qualquer sementinha de verdade brota com espontânea facilidade. O terreno à beira da estrada, entre pedras ou no meio dos pinheiros, se transforma em terra fértil, arada, adubada, chovida, como aquela parábola do semeador que produziu 30, 60, 100 por um. 

Deus é eternamente inativo — e, no entanto, não deixa nada por fazer. 

Homem! Pratica inação — e não haverá nada que não possa ser feito!

Deixa que cada coisa siga seu curso natural e não interfiras com coisa alguma — e tudo sairá certo!

Todas as coisas da natureza operam silenciosamente — e Deus é o rei do silêncio...

Huberto Rohden em, Ídolos ou Ideal  

Anseio do silêncio

Estou casado de falar,
De falar com homens,
De falar comigo mesmo.
Estou cansado até de falar com Deus...
Todas as minhas perguntas,
Ruidosas,
Insistentes,
Sangrentas,
Esbarram sempre com muralhas de granito,
Resvalam sempre de paredes marmóreas,
Agonizam sempre, exaustas, sem resposta...
Por que todo esse falar?
Esse intérmino interrogar?
Esse estéril pesquisar?
Resolvi substituir o ruidoso falar
Pelo silencioso calar.
O ruído é dos homens,
O silêncio é de Deus.
Voltei as costas aos dias ensolarados
Da minha inteligência consciente,
Abismei-me na noite estrelada
De minha alma intuitiva,
Mas do Universo de Deus.
E pus-me a escutar a melodia
Do magno silêncio
Que envolve a luminosa escuridão
Do grande Anônimo de mil nomes.
E, quando desci ao ínfimo nadir
Do meu silene Nirvana,
Atingi o supremo zênite
Do teu solene Himalaia,
Ó taciturna Divindade...
Fundiram-se então, em místico amplexo,
O meu silêncio do Aquém
E o teu silêncio do Além...
E eu compreendi o Incompreensível...
Conheci o Incognoscível...
Dei nome ao Inominável...
Disse o Indizível...
E do fundo dessa vacuidade do silêncio
Brotou a plenitude da sapiência...
Que me veio de grandes profundidades
E das excelsas altitudes...
Aí! Como o velho ruído me falsificou!
Como me roubou a fidelidade
Que devo a mim mesmo!...
Ah! Como esse novo silêncio me purifica!
Como me restitui a fidelidade
A mim mesmo!...
Como me re-virgina
De todas as minhas prostituições!
Como me restitui a castidade
Do meu divino Eu!
Como me envolve e penetra
Com a sacralidade das fontes eternas!

Refugiei-me, dentro de mim mesmo,
À solene solidão das matas,
A vastidão dos desertos,
A pureza das montanhas
E cessou a tormentosa tensão dos nervos,
Adormeceu a insensatez da vida profana
E sinto sossego de mim mesmo...
Convalesci da enfermidade dos ruídos
Para a grande sanidade do silêncio...
Calei-me
E Deus me fala...

Huberto Rohden em, Escalando o Himalaia

Do ego pessoal ao Eu Cósmico


Para o homem leigo e inexperiente, o silêncio é uma simples ausência de ruídos, sobretudo de ruídos físicos. 

E, como o ego humano vive no ruído e do ruído, o silêncio representa para o homem leigo a morte.

O homem comum se afoga literalmente no oceano pacífico do silêncio. 

Silêncio é receita — ruído é despesa. E quem tem mais despesa do que receita abre falência. 

Aliás, esta nossa pobre humanidade de hoje está permanentemente falida.

O leigo possui horror ao silêncio — esse horror é o conceito radicalmente falso sobre o silêncio. 

O leigo entende por silêncio não falar nem ouvir nada. Outros, mais avançados, incluem no silêncio também a ausência de ruído mental e emocional, nada pensar e nada desejar. 

Mas entre mil pessoas não encontramos uma que entenda por silêncio uma grande atitude de presença cósmica ou uma fascinante plenitude univérsica. Só pensam em silêncio como ausência e à vacuidade e, como a natureza tem horror à ausência e à vacuidade, esses inexperientes não podem amar e querer bem ao silêncio, que não lhes parece fecundação e enriquecimento da alma. 

Até que o homem possa ouvir a voz dos Mestres, deve ele ter se tornado totalmente surdo aos ruídos profanos. 

Enquanto o homem vive na falsa concepção, que quase todos nós aprendemos nos colégios e nas igrejas, de que meditação consista em analisar determinados textos sacros, estão todas as portas fechadas e nunca aprenderemos a arte divina do silêncio fecundo e enriquecedor. 

Meditar não é pensar. Meditar é esvaziar-se totalmente de qualquer conteúdo do ego e colocar-se, plenamente consciente, como canal vazio, diante da plenitude da Fonte, ou em linguagem da Sagrada Escritura: "Sê quieto — e saberás que Eu Sou Deus". 

Ou ainda: "Deus resiste aos soberbos (ego-plenos) e dá sua graça aos humildes (ego-vácuos)". Segundo a eterna matemática cósmica, a cosmo-plenitude plenifica somente a ego-vacuidade, mas não plenifica a ego-plenitude. 

Disto sabia Maria quando exclamou diante de Isabel: "Deus encheu de bens aos famintos e despediu vazios os fartos". Ou ainda no Sermão da Montanha de Jesus: "Bem-aventurados os que têm fome e sede da justiça (verdade), porque eles serão saciados". 

O silêncio-presença e o silêncio-plenitude são uma ausência e uma vacuidade do ego humano que tem intenso desejo de Teo-presença e da Teo-plenitude. 

Quem não vislumbrou, ou pelo menis farejou o Absoluto, o Uno, em longos e profundos mergulhos de silêncio, não sente a vacuidade dos Relativos e o desejo do Absoluto. 

Pela vacuidade do silêncio prolongado, a plenitude da alma flui irresistivelmente para dentro da vacuidade do cosmos humano. 

O silêncio é a linguagem do espírito — que é interrompido pelo falar. 

Na razão direta que o ego diminuir os seus ruídos, tanto mais facilmente pode ser invadido pelo silêncio do Eu Superior. Convém lembrar que esse silêncio não é ausência e vacuidade, mas é presença plenitude. O mais intenso silêncio do Uno é a mais absoluta presença e a mais total plenitude. 

O silêncio do ego creado pelo Eu Superior é 100% consciência e 0% pensamento. 

Perfeitamente silencioso é aquele que tem 100% de consciência do seu Eu Cósmico e 0% de pensamento do seu ego humano. 

O iniciado que for capaz de impor silêncio total ao seu ego e permitir a voz total do seu Eu racional, esse está na fonte de todos os conhecimentos; enxerga de cima, de uma visão cosmorâmica, todas as baixadas das leis cósmicas. 

Esta voz do silêncio cósmico tem de ser treinada diariamente, por algumas horas, até que se torne fácil e espontânea, convertendo em atitude permanente os atos intermitentes. 

Quando, finalmente, o homem assim treinado pode dizer: os atos que eu faço, já não são meus, mas são da minha atitude; de mim mesmo, do meu ego pessoal, eu nada posso fazer, quem faz estes atos é o meu Eu Cósmico.

Huberto Rohden em, Einstein — O Enigma do Universo

O instante santo e a resposta silenciosa


Em quietude meditativa todas as coisas são respondidas e todos os problemas serenamente resolvidos. Em conflito, não pode haver resposta nem resolução, pois o propósito do conflito é fazer com que a solução não seja possível e assegurar que nenhuma resposta seja simples. Um problema estabelecido no conflito não tem resposta, pois é visto de formas diferentes. E o que seria uma resposta de um ponto de vista, não é uma resposta em uma luz diferente. Tu estás em conflito. Assim, tem que ficar claro que não podes responder a coisa alguma, pois o conflito não tem efeitos limitados. Entretanto, se Deus deu uma resposta, necessariamente existe um caminho no qual os teus problemas estão resolvidos, pois o que é Vontade de Deus já foi feito. 

Assim, o tempo não pode estar envolvido e cada problema pode ser respondido agora. Entretanto, em teu estado mental, a solução tem que ser impossível. Por conseguinte, Deus tem que ter dado um caminho para alcançar um outro estado mental, no qual a resposta já está presente. Tal é o instante santo. É aqui que todos os teus problemas devem ser trazidos e deixados. É aqui que devem estar, pois aqui está a resposta para eles. E onde está a resposta, o problema não pode deixar de ser simples e facilmente resolvido. Não tem sentido tentar resolver um problema onde a resposta não pode estar. Entretanto, com a mesma certeza, ele não pode deixar de ser resolvido se for trazido para onde a resposta se encontra. 

Não tentes solucionar nenhum problema a não ser na segurança do instante santo. Pois lá o problema será respondido e resolvido. Fora não haverá solução, pois lá não existe nenhuma resposta que possa ser achada. Em nenhum outro lugar jamais se pergunta uma questão única e simples. O ego só pode perguntar uma questão dupla. Uma questão com muitas respostas não pode ter resposta. Nenhuma delas será satisfatória. O ego não coloca uma pergunta para que ela seja respondida, mas apenas para reafirmar seu ponto de vista. 

O ego não coloca senão uma questão. Ela é a seguinte: "Dessas ilusões, qual é a verdadeira? Quais delas estabelecem a paz e oferecem alegria? E quais podem trazer um modo de escapar de toda a dor da qual é feito esse mundo?" Seja qual for à forma que tome a questão, o seu propósito é o mesmo. Ele pergunta apenas para estabelecer o erro como algo real e responde na forma de preferências. "Que erro preferes? Esse é o que deverias escolher. Os outros não são verdadeiros. O que pode o corpo conseguir que queiras mais do que tudo? Ele é teu criado e também teu amigo. Basta dizer a ele o que queres e ele irá servir-te amorosamente e bem". E isso não é uma pergunta, pois te diz o que queres e aonde ir para consegui-lo. Não deixa espaço para que as suas crenças sejam questionadas, exceto pelo fato de afirmar algo em forma de pergunta. 

Uma pseudo-questão não tem resposta. Ela dita a resposta enquanto pergunta. Assim, todo o questionamento dentro do ego é uma forma de propaganda dele mesmo. Onde as respostas representam as perguntas, elas não acrescentam nada de novo e nada se aprende. Uma questão honesta é um instrumento de aprendizado que pergunta alguma coisa que não sabes. Não estabelece condições para a resposta, mas apenas pergunta qual deveria ser a resposta. Mas, ninguém em estado de conflito está livre para colocar essa questão, pois ele não quer uma resposta honesta em que o conflito termine.

Só dentro do instante santo é possível que uma questão honesta seja honestamente colocada. E do significado da questão vem a significação da resposta. Aqui é possível separar os teus desejos da resposta, de tal forma que ela possa ser dada e também ser recebida. A resposta é dada em todos os lugares. No entanto, é só aqui que ela pode ser ouvida. Uma resposta honesta não exige sacrifício porque responde a questões verdadeiramente colocadas. As questões do ego apenas pergunta de quem se exige o sacrifício, sem perguntar se o sacrifício tem qualquer significado. E desse modo, a não ser que a resposta diga "de quem", ela permanecerá irreconhecível, inaudível, e assim a pergunta é preservada de forma intacta porque deu a resposta a si mesma. O instante santo é o intervalo no qual a mente está suficientemente silenciosa para ouvir a resposta que não está atrelada à questão colocada. Ele oferece algo novo e diferente da questão. Como poderia a questão ser respondida se ela apenas se repete? Portanto, não tentes solucionar nenhum problema em um mundo no qual a resposta foi barrada. Em vez disso, traze o problema ao único lugar que guarda a resposta amorosamente para ti. Aqui estão as respostas que irão solucionar os teus problemas, porque estão à parte deles e vêem o que pode ser respondido: o que é a pergunta. Dentro do mundo do ego, as respostas simplesmente levantam uma outra questão, embora deixem a primeira sem resposta. No instante santo, podes trazer a pergunta até à resposta e receber a resposta que foi feita para ti.  

Um Curso em Milagres

O Sacramento do Silêncio


         O que eu possa dizer a Deus ou de Deus não é importante — importantíssimo é aquilo que Deus pode dizer a mim. E Deus dirá a coisa importante a mim, se eu crear em mim ambiente propício para ouvi-LO. 
         Mas, para que Deus possa falar, eu devo calar. 
         Deus não me fala se eu não me calar.
         O silêncio do ego provoca o verbo de Deus.
         A minha ruidosa ignorância afugenta a silenciosa sapiência de Deus. 
         O meu ruído é estéril, o silêncio de Deus é fecundo. 
         Quem fala esteriliza a mente.
         Quem pensa esteriliza a alma.
         Quem não fala e nem pensa, fertiliza a alma.
         Para além das palavras e pensamentos, começa a consciência espiritual. 
       É necessário primeiro pensar mentalmente e depois conscientizar-se espiritualmente — e jorra para dentro de mim a plenitude da Realidade Divina. 
         O sacramento do silêncio e da solitude produz a consciência espiritual. 
         Muitos sabem falar eloquentemente.
         Alguns sabem pensar corretamente.
         Mas... o silêncio é a agonia do ego. E por isso, os ególatras têm horror ao silêncio, porque têm horror ao egocídio — prelúdio para a ressurreição do Eu Crístico no homem. 
         Para quem viveu do barulho por 30, 50 80 anos, afoga-se no mar do silêncio. E por isso tenta se agarrar a qualquer tábua de salvação. 
         O ambiente vital do ego é ruído, seja material, seja mental, seja emocional — o ego não vive sem ruídos e barulhos de toda espécie. Quando então lhe falta esse indispensável elemento vital, sente-se o ego como que sem ar, sem alimento e, se não consegue adaptar-se ao ambiente do silêncio, acaba morrendo de asfixia ou inanição.

Huberto Rohden em, De Alma para Alma 

A sabedoria e a disciplina do silêncio


Durante o período de seu aprendizado, deve o iniciante praticar a lei do silêncio e exercitar-se na meditação. No entanto, em época nenhuma, no mundo profano, a mente humana foi tão bombardeada por tantos, tão veementes, tão variadas e contraditórias sugestões como a propaganda, cinemas, televisões, discursos, palestras, aulas, jornais que constituem verdadeiros exércitos à invadir-nos a mente a cada instante onde nos encontramos.

Todos esses meios objetivam tomar de assalto às mentes e injetar em seu interior milhões de mensagens, vibrações e tendências com interesse de nos dirigir o destino, de profanar nossos templos mentais. Isso fortalece o homem no seu ego. O ego vive do barulho e no barulho — morre o silêncio. Acostumado a esse mundo da obrigação de expressar suas opiniões, da obediência ao lema "ter que comunicar-se", sob pena de ficar ultrapassado, é ferida de morte nossa maior riqueza: "o silêncio" como poderoso catalisador espiritual e da purificação das impurezas do ego. 

Diante de tantos estímulos esquecemos que "a principal missão do homem em sua vida é dar luz a si mesmo, é tornar-se aquilo que ele é potencialmente" (Erich Fromm em, Análise do homem).

Mesmo no mundo profano muito se criou e mudou a partir da intuição silenciosa. Compreendemos porque então Einstein quase sempre silencioso, Chaplin acreditou tanto na comunicação isenta de palavras, não obstante, no nosso mundo atual prestar verdadeiro culto as comunicações não silenciosas. Huberto Rohden dizia: 

"Quem muito fala, pouco pensa. Falar é a melhor forma de não ter pensamentos. É como se alguém passasse constantemente a enxada pelo chão, raspando, raspando, e cortando qualquer plantinha que, por ventura, quisesse brotar. Nada terá tempo de brotar e crescer". 

Só quem não fala pode pensar e quem consegue levar a mente a um estado de calma, sem pensamentos, mas se conserva plenamente vígil, esse receberá a intuição, inspiração e revelação. 

Quando o homem se habitua ao silêncio auscultativo, entre ele na "comunhão dos santos". Perguntaram ao grande Heráclito de Éfeso, o que ele aprendera em tantos decênios de filosofia; respondeu: "aprendi a falar comigo mesmo, isto é, falar sem palavras, em espírito e verdade". Quando o homem fala, Deus se cala. Quando o homem se cala, Deus fala. Huberto Rohden, numa metáfora nos ensina: 

"Sabes o que é o calado de um navio? O calado de um navio é a medida do seu afundamento na água; quanto mais carregado está o navio, mais calado tem, mais afunda na água. Só quando o homem está assim, afundado em Deus, é que realmente está calado. E para que o homem tenha este calado de profundeza, deve ele estar devidamente carregado de espiritualidade. O homem não espiritual é superficial, sem calado suficiente, flutuando e boiando na superfície das coisas ilusórias do ego". 

Tais ensinamentos estão exibidos nos livros sacros quando dizem: "Cala-te e saberás que eu sou Deus..." A Bíblia, no livro de Reis, capítulo 6, versículo 7, à respeito da construção do Templo de Salomão, diz: "Quando se edificou o edifício do Templo, isso se fez com pedras perfeitamente ajustáveis desde a pedreira, de modo que ao construir o Templo não se ouvia barulho de martelo, nem picareta, nem nenhum instrumento de ferro". 

Acostumados aos estímulos do mundo profano, a expressar nossas opiniões sem entraves, esta regra iniciática encerra para nós, sem dúvida, uma das maiores dificuldades. Limitar-se a somente ver, ouvir e calar parece-nos quase insuportável. Este exercício severo obriga-nos, no entanto, a disciplinar as ideias e trabalhar a pedra bruta com sutileza e silêncio. Não estando mais levado a pular de uma para outra ideias, haverá de se surpreender um dia, quando verificar que uma mesma ideia, vista e analisada por ângulos diferentes, encerra um conteúdo até então insuspeitado que adquire dimensões incomuns. 

A lei do silêncio, nada mais é, portanto, que um perpétuo exercício do pensamento. Calar não consiste somente em nada dizer, mas também em deixar de fazer qualquer reflexão dentro de si, quando se escuta alguém falar. O silêncio que nós mesmos nos impomos, terá como resultado de não podermos nos encontrar em estado de contradição com quem fala. 

Por essa disciplina livremente consentida, quando fizermos abstração total de nossas próprias concepções, afim de melhor assimilar as dos oradores, compreende-lo e poder distinguir pela reflexão e pelo raciocínio, que então intervém em nós mesmos, conseguiremos encontrar a verdade em nossas próprias conclusões. 

Tudo isso há de se manifestar por uma calma absoluta, posto que a calma é a filha da meditação. 

Todavia, não se deve confundir com silêncio o mutismo e enquanto o primeiro é um "prelúdio" de abertura e revelação, o segundo é o encerramento da mesma. O silêncio envolve os grandes ensinamentos, o mutismo o esconde. Um assinala o progresso, o outro a regressão.

O mundo profano reverencia seus mortos ilustres com "um minuto" de silêncio. Khalil Gibran afirma que silêncio se assenta no contentamento; mas que a recusa, a rebelião e a desobediência habituam no no silêncio e esta parece ter sido também a visão de Ghandi quando consagrou toda uma vida à missão de restituir a independência à Índia e aos Hindus.

A disciplina do silêncio ensina ao Aprendiz e permite o indispensável "recuo sobre ele mesmo", que o libertará definitivamente da perniciosa influência de sua existência anterior e o fará descobrir, ao mesmo tempo, que a luz que veio procurar no Templo já habitava dentro dele

Só um homem capaz de guardar silêncio, quando necessário, pode ser seu próprio senhor. Devemos entender plenamente este preceito, onde se privilegia o amadurecimento das ideias e se esclarece a verdadeira palavra, comunicada no segredo da alma a cada ser, pois "não somos seres humanos vivenciando experiências espirituais, mas sim, seres espirituais vivenciando experiências humanas".

A sabedoria do silêncio é, pois, uma arte complexa, que não consente somente a calar a palavra exterior, mas que se torna realmente completo com o silêncio interior do pensamento para que a verdade possa intimamente revelar-se e manifestar-se na nossa consciência.

João F. dos Santos   

  

O silêncio e o calor interior das emoções espirituais

O mais positivo aspecto do silêncio é proteger o "fogo interior". O silêncio guarda o calor interior das emoções espirituais. Esse calor interior é a vida do Espírito Santo dentro de nós. Assim, o silêncio é a disciplina pela qual o fogo interior de Deus é cultivado e mantido. 

Quando se esquece continuamente aberta a porta da sauna, o calor lá de dentro não demora a escapar por ela; do mesmo modo a alma, no desejo de dizer muitas coisas, dissipa a lembrança de Deus pela porta da fala, mesmo se tudo que disser for bom. Daí em diante, o intelecto, embora sem ideias apropriadas, despeja um tumulto de pensamentos confusos para todos que encontra, pois já não tem o Espírito Santo para manter o entendimento livre da fantasia. Ideias de valor sempre se esquivam da verbosidade e ficam alheias a confusão e a fantasia. Portanto, o silêncio oportuno é precioso, pois é nada menos que a mãe dos pensamentos mais sábios. 

Fizeram-nos acreditar que os sentimentos, as emoções e até os impulsos interiores de nossa alma têm de ser partilhados com os outros. Expressões como: "obrigado por partilhar isso comigo" ou "Foi bom partilhar isso com você" mostram que, na maior parte do tempo, a porta da sauna está aberta. De fato, os que preferem viver em seu canto e não expor sua vida interior muitas vezes criam apreensão e são considerados inibidos, anti-sociais ou simplesmente esquisitos. Mas questionemos se nossos modos profusos de tudo compartilhar não são mais compulsivos que virtuosos; se, em vez de criar comunidade, não tendem a nivelar nossa vida juntos. Com frequência chegamos a casa de volta de uma reunião com a sensação de que nos tiraram algo precioso ou de que pisaram em solo sagrado

A boca não é a porta pela qual entra qualquer mal. Os ouvidos e os olhos são essa porta. A boca é porta só de saída. O que precisa ser guardado é a vida do Espírito dentro de nós. Em especial nós que queremos dar testemunho da presença do Espírito de Deus no mundo precisamos cuidar do fogo interior com o máximo cuidado

Nossa principal tarefa é cuidar fielmente do fogo interior para que, quando realmente for necessário, ele ofereça calor e luz para os viajantes perdidos. Ninguém expressou isso com maior convicção que o pintor holandês Vincent Van Gogh:

Talvez haja um grande fogo em minha alma, contudo ninguém jamais vem aquecer-se nele, e os passantes só vêem uma fumacinha saindo pela chaminé e seguem seu caminho. Olhe aqui, o que é preciso fazer? É preciso cuidar do fogo interior, ser tal em si mesmo, esperar com paciência, mas com quanta impaciência a hora em que alguém venha e se sente —talvez para ficar? Que aquele que crê em Deus espere a hora que chegará mais cedo ou mais tarde.

Vincent Van Gogh conhecia a tentação de abrir todas as portas para que os passantes vissem o fogo e não apenas a fumaça saindo pela chaminé. Mas também percebeu que, se isso acontecesse, o fogo se extinguiria e ninguém encontraria calor e nova força. Sua vida é vigoroso exemplo de fidelidade ao fogo interior. Como pregadores, nossa maior tentação é usar palavras demais — elas enfraquecem nossa fé e nos deixam insensíveis. Mas o silêncio é disciplina sagrada, é guarda do Espírito Santo.

Henry J. M. Nouwen em, A espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo 

A Consciência Cósmica e as religiões

Em contato com o fluxo da Consciência Cósmica, todas as religiões hoje conhecidas e nomeadas desaparecerão. A alma humana passará por uma revolução. A Religião dominará a raça de forma absoluta. Não dependerá da tradição; não será tema de crença ou descrença; não será uma parte da vida, pertencendo a determinadas horas, momentos ou ocasiões; não estará contida em livros sagrados ou na boca de sacerdotes; não viverá nas igrejas e em encontros com dias marcados; sua vida não dependerá de orações, hinos ou discursos; não estará sujeita a revelações especiais, às palavras de deuses que viriam à terra para ensinar os homens; não estará contida na Bíblia ou em bíblias; não terá como missão o salvar os homens de seus pecados ou garantir-lhes a entrada no céu; não pregará a imortalidade futura ou glórias futuras, pois a glória e a imortalidade já existirão. A evidência da imortalidade viverá em cada coração, assim como a vista existe em cada olho. Duvidar da existência de Deus e da vida eterna será tão impossível como hoje o é duvidar da existência. A evidência de ambas será a mesma. A religião governará cada minuto de cada dia da vida. Igrejas, sacerdotes, ritos, credos, orações, todos os agentes, todos os intermediários entre o homem como indivíduo e Deus estarão para sempre substituídos por uma relação direta e livre de erros. O pecado já não existirá e a salvação já não será desejada. Os homens não se preocuparão com a morte ou com o futuro, com o reino dos céus, com o que pode suceder ao corpo atual, depois que cessar essa vida. Cada alma saberá que é imortal, sentirá que o universo inteiro, com tudo o que contém de bom e de belo, lhe pertence para sempre. O mundo habitado pelos homens que possuem Consciência Cósmica estará tão distante do mundo atual como esse está do mundo que existia antes do advento da autoconsciência.

Richard Maurice Bucke, M.D em,
Consciência Cósmica - Estudo da Evolução da Mente Humana

Que é Consciência Cósmica?

Que é Consciência Cósmica? Esse trabalho é uma tentativa de resposta a essa pergunta. Não obstante, parece-nos razoável explicá-lo em um prefácio breve, escrito em linguagem tão simples quanto possível, como forma de abrir as portas a uma exposição mais elaborada, que deve ser alcançada no corpo do trabalho. Consciência Cósmica seria, pois, uma forma de consciência mais elevada do que normalmente possuída pelo homem comum. Essa é chamada autoconsciência e é aquela faculdade sobre a qual repousa toda a nossa vida (tanto a subjetiva como a objetiva), que não é comum em nós e nos animais mais elevados, exceto naquela pequena porção que deriva dos poucos indivíduos que tiveram a consciência mais elevada, acima mencionada. Para que se torne o assunto mais claro, é necessário compreender que há três formas, ou graus, de consciência. (1) Consciência Simples, possuída pela metade superior do reino animal. Em função dessa faculdade, um cachorro ou um cavalo tem tanta consciência dos fatos sobre si mesmo como o homem; eles também estão conscientes de seus membros e corpo e sabem que aqueles são uma parte de si mesmos. (2) Acima dessa Consciência Simples, que tanto homem como animais possuem, o homem tem outra, denominada Autoconsciência. Em virtude dessa faculdade, o homem está consciente não apenas das árvores, das pedras, da água, de seus próprios membros e corpo, mas torna-se consciente de si mesmo como entidade distinta, separada do restante do universo. É tão bom quanto certo que nenhum animal possa ter consciência de si mesmo dessa forma. Ainda mais, por meio da autoconsciência, o homem (que sabe como o animal sabe) torna-se capaz de tratar seus próprios estados mentais como objetos de consciência. O animal está imerso em sua consciência como um peixe no mar. Ele não pode, nem em imaginação, livrar-se dela por um só instante, para conhecê-la como é. Mas o homem, em virtude da autoconsciência, pode colocar-se fora de si mesmo e pensar: "Sim, o pensamento que me ocorreu sobre aquele assunto é verdadeiro; Eu sei que é verdadeiro e sei que sei que é verdadeiro". Perguntaram ao escritor: "Como você sabe que os animais não podem pensar da mesma maneira?" A resposta é simples e conclusiva: não há evidência de que um animal possa pensar assim, pois, se pudesse, imediatamente o saberíamos. Entre duas criaturas que vivem juntas, como os cachorros ou os cavalos e o homem, cada um deles autoconsciente, a coisa mais natural do mundo seria que se estabelecesse a comunicação. Ainda da forma como é, com psicologias tão diversas como as que temos, nós o fazemos, através da observação de seus atos, penetrando na mente do cachorro quase que tão livremente que percebemos o que aí se passa. Sabemos que o cachorro vê e ouve, cheira e prova; sabemos que possui inteligência, pois adapta os meios ao fim e que raciocina. Caso fosse autoconsciente, nós o saberíamos a muito tempo. E se não sabemos é porque nenhum cachorro, cavalo ou elefante jamais teve autoconsciência. Ainda há mais: na autoconsciência do homem está armazenado tudo o que não é humano. A linguagem está para o objetivo assim como a autoconsciência está para o subjetivo. Autoconsciência e linguagem (dois em um, pois são duas metades de uma mesma coisa) são condições SINE QUA NON para a vida humana social: os costumes, instituições, indústrias de toda espécie, todos os tipos de arte. Se algum animal possuísse autoconsciência, certamente construiria sobre essa faculdade mestra, tal como o fez o homem, uma superestrutura de linguagem, com hábitos racionais, indústrias e arte. Mas nenhum animal o fez, donde podemos concluir que nenhuma animal tem autoconsciência. 

Como o homem domina a autoconsciência e a linguagem, isso criou um enorme abismo entre ele e as criaturas mais elevadas que possuem apenas consciência. 

Consciência Cósmica é uma terceira forma, tão acima da Autoconsciência como essa se encontra acima da Consciência Simples. Nessa forma, sobrexistem tanto a Autoconsciência como a Consciência Simples, da mesma forma que a Consciência Simples sobrexiste quando a Autoconsciência é adquirida; mas, acrescida a elas, está a nova faculdade, tantas vezes mencionada e tantas a ser mencionada nesse volume. 

A principal característica da Consciência Cósmica é, como o próprio nome indica, a consciência do cosmo, da vida e da ordem do universo. Não podemos explicar aqui o que significam essas palavras. O objetivo desse trabalho é lançar alguma luz sobre elas. Há muitos elementos que pertencem ao sentido cósmico, além do fato central já mencionado. Entre esses, alguns podem ser relacionados. Juntamente com a consciência do cosmo ocorre uma ILUMINAÇÃO INTELECTUAL que por si mesma situaria o indivíduo em novo plano de existência, convertendo-o, praticamente, em membro de uma nova espécie. Acrescente-se a isso um ESTADO DE EXALTAÇÃO MORAL, um indescritível SENTIMENTO DE ELEVAÇÃO, EXALTAÇÃO e JÚBILO e uma aceleração do sentido moral totalmente surpreendente e mais importante, tanto para o indivíduo como para a raça, do que o poder intelectual. Juntamente com isso surge o que poderíamos chamar de um sentido da imortalidade, uma consciência da vida eterna, não como convicção de que algum dia a alcançará, mas como certeza DE QUE JÁ A POSSUI. 

Somente a experiência pessoal ou um prolongado estudo dos homens que passaram para a NOVA VIDA possibilitar-nos-á compreender a sua essência real. Mas, para esse escritor, parece que o revisar ainda que imperfeita e brevemente, casos em que a mencionada condição existiu valeria a pena. Ele espera que seu trabalho tenha dupla utilidade: primeiramente, ampliando o horizonte geral da vida humana, pela compreensão, em nossa visão mental, dessa importante fase e pela capacitação para compreender, de alguma forma, o verdadeiro STATUS de certos homens que, até o presente, ou são exaltados, pela média dos indivíduos autoconscientes, ao nível dos deuses, ou, no outro extremo, são considerados loucos. E, em segundo lugar, espera proporcionar ajuda a seus companheiros homens num sentido mais lato e importante. A posição por ele adotada é de que nossos descendentes tarde ou cedo alcançarão, como raça, a condição de consciência cósmica, tal como, há muito tempo, nossos antepassados passaram da Consciência Simples à Autoconsciência. Ele crê que este degrau da evolução até hoje vem sendo galgado, pois é evidente para ele que os homens, de posse da faculdade em pauta, se tornam cada vez mais numerosos e que também, enquanto raça, nos estamos aproximando cada vez mais daquele estágio de autoconsciência no qual se faz a transição para a Consciência Cósmica. Ele compreende que, admitida a necessária hereditariedade,  qualquer indivíduo que ainda não tenha passado da idade pode entrar na Consciência Cósmica. Ele sabe que contatos inteligentes com MENTES COSMICAMENTE CONSCIENTES ajudam indivíduos autoconscientes a ascender ao plano mais elevado. Assim, ele espera que, pondo o assunto em discussão, ou pelo menos facilitando esse contato, possa ajudar homens e mulheres a realizarem o passo infinitamente mais importante da questão. 

Richard Maurice Bucke, M.D em,
Consciência Cósmica - Estudo da Evolução da Mente Humana
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey