Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

O estado de "união com Deus"


Seria um grande erro acreditar que, quando a filosofia diz que o divino habita em todas as coisas, que ele habita por igual em todas as coisas.

O homem não é Deus. Mesmo assim, ele pode se aproximar tão intimamente, submergir-se tão completamente na Sua Presença, que o que os místicos chamam de estado de “união com Deus” pode ser aceito. A proximidade telepática que algumas vezes existe entre dois amantes, familiares ou amigos que estão separados, é uma leve sugestão da proximidade telepática que existe entre o ego humano que se harmonizou com sua alma divina. 

Poderemos entrar em comunhão interna mística com Deus, mas não poderemos nos tornar Deus. Aqueles que proclamam tal autodeificação falsa, inutilmente fazem essa afirmação grotesca e exagerada de algo que, por si mesmo, já é suficientemente uma tremenda verdade. 

Na minha afirmação de que cada ser humano poderá desenvolver a divindade em si mesmo, não quero dizer que nós, pobres mortais, possamos alguma vez chegar ao nível do Todo Poderoso. Quero dizer com isso que temos em nós algo que está conectado e relacionado a Deus: nosso eu mais elevado, cuja descoberta e união com ele representam o limite da nossa possível realização.

A alegação do místico de que conhece a Deus, quando somente conhece a parte mais profunda de seu próprio ser, é um tipo de vaidade particular dele. Seja qual for a consciência transcendental e última que possa descobrir, continuará algo a existir além de todo o seu escrutínio. A Mente do Mundo é impenetrável para a mente humana. Tal conclusão agnóstica, entretanto, não invalida a alegação mais legítima do místico de que a alma humana pode ser conhecida e de que a união inabalável com ela é alcançável. 

O que é possível de alcançar, falando em termos de um simbolismo espacial, e que é a única maneira satisfatória de tratar tal questão transcendental, será a união com um único PONTO dentro do infinito imensurável de Deus. 

O místico que vagamente fala que está unido a Deus, certamente sabe que essa experiência não o pôs na direção do universo. 

Nenhuma mente humana poderá apreender o Poder de Vida Único em toda a Sua magnitude, em toda a Sua compreensão de Si mesmo e de Seu Universo.

Mortal algum pode penetrar o mistério da Mente Suprema na própria natureza dela – quer dizer, na existência inativa e estática dessa Mente. O Deus Supremo não só está além da concepção humana, mas também além da percepção mística. Mas a Mente em seu estado ativo, dinâmico, isso é, a Mente do Mundo, ou melhor, seu raio em nós chamado de Eu Superior, ESTÁ dentro do alcance da percepção, da comunhão e mesmo da união humanas. É isso o que o místico realmente encontra quando acredita ter encontrado Deus. 

Normalmente se diz que esse estado é nada menos que “a união com Deus”. O que realmente é alcançado é o seu eu mais elevado, o raio do sol divino refletido no homem, de fato a alma imortal – continuando sempre o próprio Deus totalmente além da capacidade de compreensão finita do homem. Entretanto, a experiência mística é autêntica, e o conflito entre as interpretações não desfaz sua autenticidade.

Sobre a iluminação


A iluminação é tanto uma oferenda da Graça Divina como uma realização do eu.

Filosoficamente falando, ela tanto é uma experiência como uma realização.

É um estado alcançado por muitos poucos e só após grande luta.

Naquele que se ilumina ocorrerá uma translucidez da mente que faz com que todas as coisas, todas as pessoas e todos os eventos adquiram um sentido mais profundo e divino. A vida, a partir de então, terá um significado belo e maravilhoso.

Todos os problemas desaparecem de sua mente como se nunca houvessem existido. Não haverá mais nele a necessidade de se preocupar com quem quer ou com qualquer coisa que seja. “Deus está em nós e tudo vai bem no mundo.” Não existirá mais nenhuma situação atormentadora a ser esclarecida, nenhuma decisão difícil a ser tomada, nenhuma busca a ser realizada através de longas lutas, auto disciplinas e inevitáveis desilusões. Ele agora possui o segredo de todas as coisas, o bem aventurado estado da iluminação. 

Até então, ele só havia sido parcialmente ele mesmo. A partir de agora, com essa radiante entrada no eterno, passará a ser completamente ele mesmo. Dessa forma, ele poderá falar com os outros, mover-se no mundo e desenvolver relacionamentos, inteiramente a partir de seu centro, direto de sua origem, sem nenhuma distorção, hipocrisia e insinceridades. 

Por fim, isso será a verdadeira normalidade, a existência como ela deveria ser e que nunca havia sido descoberta. 

Ele alcançou o prazer e a liberdade da vida espontânea. O selvagem poderá também ter isso, mas inteiramente em um nível mais inferior. 

Quando o conhecimento da alma não seja meramente intelectual, independente do quão convincente possa ser, não seja somente uma questão de crença, independente do quão firme ela possa ser, mas uma conscientização inabalável da existência sempre presente, ele será o conhecimento verdadeiro, a revelação autêntica e a salvação bem aventurada. 

Esse estado foi alcançado, na sua inteireza, por somente poucas pessoas a cada século, mas foi vislumbrado, pelo menos uma vez, durante o tempo de vida de muitas pessoas mais.

Vislumbre espiritual e realização permanente


Ter a experiência intermitente do eu interno é uma coisa; mas ter a experiência contínua dele, é outra bem diferente.
A união emocional com o Eu Superior será insuficiente, pois êxtases fugidios não é a realização suprema. Melhor será a inabalável serenidade apresentada pelo sábio.

Um vislumbre é algo fora do comum e extraordinário. Entretanto, em um sábio, a presença divina estará sempre presente e a consciência dela, nele, lhe vem sem esforço, com facilidade e de forma natural.

Quando o mistério de todas as coisas é resolvido nele, não meramente de forma intelectual, mas na própria experiência, não somente em sua pessoa, mas na transcendência dela, não somente na profundidade da meditação, mas no mundo da atividade, quando a resposta a ele lhe é revelada como a Presença, como Deus, e claramente percebida como o Sentido, como a Mente Única, então se for para que fale, ele dirá: “Assim é!” E isso não será um vislumbre de um iniciante, mas o insight permanente do sábio.

À proporção que a mente humana se desenvolve ela forma concepções mais e mais elevadas da divindade até que, finalmente, se eleva acima de si mesma durante uma experiência tremenda. Submergir-se-á então na própria divindade e, quando retorne à vida normal, não precisará mais das práticas da Busca. Aqui, não me refiro à experiência que vários místicos a chamaram de ‘vislumbre’, mas a algo de natureza permanente que, em essência, não mais a abandonará.
 
O vislumbre, o qual ocorre entre as condições da mente existentes antes e após a ele, necessariamente apresenta um contraste marcante – até mesmo dramático – em relação às condições ordinárias da mente. Ele a abre às alturas iluminadas da existência humana. Entretanto, tal experiência inevitavelmente atrairá reações humanas a ela, as quais são incorporadas ao próprio vislumbre, tornando-se parte dele. A iluminação final, verdadeira e permanente, será pura, livre de quaisquer reações, calma, equilibrada e translúcida.
 
Tal Vislumbre, mesmo na sua maior potência, como no NIRVIKALPA indiano ou no SATORI japonês, será apenas intermitente. Caso se torne contínuo, como um fato estabelecido tanto durante o estado de atividade como no de repouso, EM AMBOS, só então estará completo.
 
A consciência da Verdade será perene e constante. Não meramente vislumbrada. O indivíduo terá de nascer nela – nas palavras de Jesus – repetidamente, e percebê-la de forma permanente. Ele terá de se identificar com ela. 

Um bom número de pessoas experimentou o Vislumbre como uma erupção que se inicia e logo termina, mas poucos experimentaram uma iluminação permanente de seu ser, como um platô que se estende ao longo de uma grande distância em uma alta elevação.
 
A diferença entre esses dois estados de iluminação foi simbolicamente mostrada por Al Hujwari, um escritor sufi do século onze. Ele disse que aqueles que chegaram ao estado permanente, chegaram “ao santuário, enquanto que aqueles que chegaram ao estado transitório, somente alcançaram o portal”.

Sobre a natureza da iluminação


O insight é alcançado gradualmente ou de súbito, como alegam os zen budistas? Ambas as alegações estão corretas, se as considerarmos como partes de uma visão mais ampla e integral.

Começamos cultivando sentimentos intuitivos. Esses vêm a nós de forma infrequente, no início, e, portanto tal processo será gradual e longo. Eventualmente, chegamos a um ponto – um ponto bem avançado – aonde o ego percebe sua própria limitação, sua impotência e dependência, e realiza que não pode elevar-se só por si até a iluminação última. Então, ele deveria se entregar totalmente ao Eu Superior e pôr seu desenvolvimento posterior na Misericórdia e Graça do Poder que existe além dele. Terá assim que passar por um período de espera, numa aparente inatividade, estagnação espiritual e de incapacidade de sentir o fervor e devoção que anteriormente sentia. Isso será uma espécie de noite escura da alma. Então, lentamente, começará a sair dessa fase, a qual, com frequência, traz depressão mental e frustração emocional – até chegar a uma fase mais elevada aonde sente-se totalmente resignado à vontade de Deus ou do destino, a aceitando de maneira calma e pacífica e não exaltada. Com paciência, espera pela ocasião aonde a sabedoria infinita lhe traga aquilo que antes buscava tão ardentemente, mas que agora se encontra tão desapegado disso como desapegado está das ambições mundanas. Após essa fase, de súbito e inesperadamente, virá no âmago da noite escura, uma tremenda Realização de um estado sem ego, um sentimento imenso de liberação de si mesmo, como se conhecia até agora, e uma conscientização avassaladora da infinitude, universalidade e inteligência da Vida. Com isso, novas percepções das Leis do Cosmos lhe serão reveladas subitamente. O aspirante então deverá passar do nível intuitivo para o insight.

O ser iluminado

A iluminação não é o resultado de uma purificação moral e de uma disciplina emocional. Tais qualidades são necessárias, mas são só preparatórias. Ela resulta das tentativas conscientes de alcançar o Real e da eliminação do ilusório. Essa capacidade de discriminação se evidenciará, no indivíduo, através dos tipos de valores aos quais, no mundo, ele esteja apegado, ou nas reflexões com seu pensamento que faça em relação ao mundo, ou ainda nas rejeições do ego que, deliberadamente, faça durante sua meditação. Ela se inicia seja por meio das investigações do intelecto, seja devido ao sentimento de cansaço em relação ao mundo. Gradualmente, ela se estabelece por completo na vida dele. 

Tornar-se estabelecido na Realidade será deixar de lado a busca de todas essas experiências temporárias e transitórias que vêm através de técnicas específicas, sejam elas técnicas de yoga ou pelo uso de drogas alteradoras do estado normal da consciência, e em assumir o caminho filosófico.

Em algum lugar além da meditação e do yoga, com seus inícios e interrupções, com seus êxtases e períodos de aridez, encontra-se a existência sempre permanente. Nesse nível, é onde o indivíduo deverá se estabelecer.

Precisamos conhecer a verdade, o conhecimento e a sabedoria, mas isso não será o suficiente. Precisamos vivenciar a experiência mística real da elevação, o sentimento vital de que ‘eu sou’, mas isso não será o suficiente. Pois precisamos sintetizar essas duas experiências numa realização intuitiva perene e total, a qual o Eu Superior nos traz. Ela é a Graça. Ela significa, por fim, emergir – renascido!

Tornar o aspirante pronto, por meio de uma preparação de sua mente e coração, é o que leva tanto tempo, tantos anos, na maioria dos casos. Mas a iluminação em si será um acontecimento único e curto, cujo efeito se estabelecerá de forma permanente. E, quando for para o ego sair de campo, ele o fará com a rapidez de um relâmpago. 

As ações de um ser que haja alcançado esse grau de elevação são inspiradas diretamente pelo Eu Superior e, consequentemente, não são ditadas por desejos, propósitos ou paixões pessoais. Elas não são realizadas através do ego, mas através de uma vontade mais elevada que a sua. Já que não existem pensamentos deliberadamente conscientes, nem tentativas de formulações lógicas e ordenadas das ideias, também não haverá hesitações e tendências duvidosas. Só haverá pensamentos, sentimentos e ações espontâneas, conduzidos todos pela intuição.

Será, então, melhor chegar a esse domínio superior sem conhecimento disso. Pois com a ausência do orgulho e devido à presença da humildade, o ego se verá impedido de boicotá-lo. 

O sábio e o ego


Plotino (filósofo grego) deu ênfase a que seria melhor que aquele que se ilumina não estivesse consciente de que agia de forma virtuosa, corajosa ou sábia, e de que praticasse a contemplação de forma harmoniosa, livre da interferência de imagens mentais ou de pensamentos. Pois assim não saberia que ele – sua pessoa – fizesse isso e, portanto, nenhum egoísmo iria manchar sua consciência, sendo ele assim seu puro ser. Tal sábio fará o que quer que precise ser feito por si mesmo como criatura humana – seja isso uma ação física ou mental – e responderá a todas as situações que exigem uma resposta humana; mas nem a ação nem a resposta acontecerão vindas do ego pessoal. Isso não quer dizer que, na sua vida no mundo, ele se veja com a perda de sua identidade – somente que se perceberá afastado do pensamento, desejo e motivação autocentrados e voltados para o mundo, que é o que impulsiona a existência da maioria das pessoas. Sua iluminação será algo tão natural como sua respiração. Assim, não precisará estar consciente de seu estado elevado, como se isso fosse algo à parte adicionado às suas outras qualidades. 

Quem é o sábio?

O sábio é um ser humano que vive na constante lembrança da verdade. Ele realizou a existência do Eu Superior e sabe que faz parte de Sua vida imortal e infinita. Ele fez a peregrinação até o ser essencial, retornou novamente e caminha entre os homens, fala sua língua e dá testemunho da Verdade, ao viver entre eles.

Sua relação com o Eu Superior é de direta consciência de Sua presença, não como um ser separado d’Ele, mas como Sua própria essência.

Uma comunhão íntima e um dialogo pessoal com esse eu mais elevado permanecem como fatos prazerosos – o Amado sempre o acompanha nunca o deixando. Nunca mais se sentirá só. 

Há o sentimento de que vive no Eu em vez de no ego; embora esse esteja presente, estará dominado e submisso. 

Essa Consciência estará presente em todos os momentos, como parte de todas as suas ações e sentimentos. Em verdade, ela será a essência de cada experiência, capacitando-o assim a passar por elas de maneira mais feliz.

Ele não possui residência fixa, nem endereço permanente, pois, como o vento, ele vem e vai de nenhum lugar para qualquer lugar. O destino ou o serviço poderão fixar seu corpo, por certo tempo, ou por uma vida, em algum lugar, mas não o prenderão. 

Para aquele que chegou a tal compreensão, que continuamente sente que É, que constantemente se lembra de que ISSO é, os rituais, as cerimônias, os mantras e as orações não são somente desnecessários, mas uma perda de tempo. 

A coruja, que claramente vê à meia-noite, é um símbolo antigo e apropriado do sábio, cuja mente sempre repousa, e é iluminada, pela Mente Infinita. 

Nesse ponto, todas as doutrinas escritas, não importa quão antigas, reverenciadas e estabelecidas possam ser, poderão ser descartadas. Suas necessidades, a partir de então, só poderão ser satisfeitas em si mesmo.

Ele será capaz de retornar à sua consciência e retirar sua atenção do ego. E isso não somente quando queira, mas permanecendo nela durante toda sua vida. 

Ele se verá envolto pela atmosfera da consciência do Eu Superior, mesmo quando esteja no meio de atividades sociais. Sua quietude interna não será menos evidente aí do que quando esteja em solitude. 

Poderá assim estar intensamente ocupado com questões no mundo, mas permanecer fixo na presença sagrada. 

Desta maneira, permanecerá no centro do movimento do mundo, mas imóvel e impassível. 

Ele terá não só paz mental – uma atitude filosófica diante dos eventos de sua vida pessoal – mas também paz NA mente; uma liberdade em relação à luta contra impulsos inferiores e tendências ignóbeis.

O que de fato o sábio é?


Existe muita confusão nos círculos místico-religiosos, tanto no oriente como no ocidente, a respeito do que o sábio de fato é, sobre o que um mestre espiritualmente iluminado realmente experimenta, sobre o que ele diz e faz, enquanto vive no mundo das pessoas comuns, e sobre como se comporta e se apresenta. Em relação a isso, a verdade inextricavelmente está limitada pela superstição, o fato pelo exagero e a sabedoria pelo sentimentalismo. Também ocorre uma grande confusão sobre o que o Real é, com seus atributos e aspectos; quer dizer, sobre as reações, interpretações e experiências humanas sobre ISSO. 

A visão convencional do que é um ser humano que chegou a Deus precisa ser revisionada. Pois não existe nível mais elevado que a existência humana possa alcançar.

Sem a experiência direta da natureza interna das coisas, sem a revelação pessoal do Eu Superior, o único tipo de conhecimento que o ser humano poderá possuir será obtido através do uso do pensamento lógico e pela memória. A cosmogonia de um sábio é verdadeiramente científica, pois é uma descrição exata do que de fato existe enquanto que aquele outro tipo de conhecimento é algo meramente argumentativo.

A filosofia utiliza o homem realizado não como um deus para veneração servil e obediência cega, mas como um ideal para admiração efetiva e análise reverente. 

Se devotar a ele como se fosse a um deus e colocá-lo acima de qualquer questionamento, só confundirá nosso pensamento sobre ele e obstruirá nossa compreensão a seu respeito. 

Entretanto, um tal sábio terá não só desenvolvido todas as suas forças no mais alto grau de maturidade, mas também atingido um perfeito equilíbrio delas. Sua psique é governada pela realidade. 

Ele é um embaixador do infinito, um emissário para todos os homens dos planos mais elevados de seu próprio ser. É o elo entre o mundo da vida convencional e o mundo sublime do ser místico. 

Um iluminado é a encarnação consciente do Eu Superior enquanto que o homem comum existe na ignorância sobre o que seu coração preserva. Os chineses dizem que o iluminado é o “Homem Completo”. Ele é a rara flor de uma era. 

O sábio é somente um ser humano, não um deus. Ele está limitado no poder, no ser e no conhecimento. Mas, por trás, e mesmo nele – mas não dele – há o poder, o ser e o conhecimento ilimitados. Portanto, reverenciamos não o homem em si, mas o que ele representa.

Suas afirmações deveriam ser profundamente estudadas e seu comportamento meticulosamente analisado.

Nele, o poder superior se manifesta e, através dele, flui a inspiração para os outros.

Os sábios iluminados


Os Mestres existem não como uma comunidade especial em um distante Tibete, mas como indivíduos espalhados em diferentes partes do mundo. Eles possuem seus poderes estranhos e segredos enigmáticos, mas não são as demonstrações sensacionalistas e teatrais que ocultistas imaginativos gostariam que acreditássemos que fossem.

Eles pertencem a uma ordem espiritual invisível que não precisa ser uma visível organização, pois essa nunca poderia expressar tal ordem e só limitaria sua universalidade e falsificaria seus insights.

Quanto mais espiritualmente forte o ser humano se torne, menos ele necessitará de se apoiar em outros semelhantes. Consequentemente, os místicos avançados têm pouco ou nenhuma necessidade de unirem-se a qualquer sociedade, fraternidade ou comunidade. Toda conversa sobre adeptos e mestres como membros de tais associações, vivendo juntos no Tibete ou em outro lugar, é uma fantasia absurda.

A raridade de tais seres humanos entre nós mostra o que facilmente se vê – sua realização é difícil de alcançar. Também nos mostra que a maioria deles não retorna novamente á terra. Eles prosseguem adiante. Mas a tradição diz que eles não seguem sem antes, pelo menos, iniciarem uma outra pessoa.
Eles são tão poucos, seu valor para a sociedade tão grande, que, devido á densa escuridão ao nosso redor, sua presença entre nós é a maior das bênçãos.

A sucessão de salvadores tem existido desde que a raça humana existe. O poder infinito, que conduz a evolução dela, sempre poderá ser confiado de que mandará esses seres iluminados, de acordo com suas próprias leis e quando a necessidade humana os solicitar. 

Entretanto, seres humanos que chegaram à suprema glória da iluminação espiritual, que realizaram ao máximo suas possibilidades divinas, são raros em qualquer era e muito mais raros ainda na nossa era materialista. 

O estudo da história desde tempos remotos mostrará que, quando quer que sábios e santos surgiram, existiram grandes males no mundo de seu tempo e que eles sempre foram figuras excepcionais entre seus conterrâneos. Suas memórias foram cuidadosamente guardadas por aqueles que sabiam da importância dos valores corretos. Essa importância permanece hoje em dia e o que esses seres de evidente sabedoria e sacralidade tiveram a dizer, sobre as leis superiores da vida e sobre a natureza mais elevada do ser humano, permanece tão verdadeiro hoje quanto antes. 

Contudo, pode ser que tais seres humanos estejam desaparecendo do cenário mundial e que seus sucessores atuais sejam de um segundo ou terceiro grau, possuidores de uma iluminação mais superficial e de uma percepção mais limitada. 

A existência do sábio, como um tipo humano, é difícil de ser evidenciada simplesmente porque a existência dele, como indivíduo, é difícil de ser confirmada. Ele é quase único no planeta. Por questões práticas, será melhor se dizer que ele é muito mais um Ideal do que uma Atualidade.

O homem verdadeiramente auto-realizado

Há diferenças dignas entre o iluminado genuíno e o falso. Mas indicarei somente alguns dos pontos que se podem observar no homem verdadeiramente auto-realizado. Antes de mais nada, ele não deseja tornar-se líder de um novo culto; portanto, não condescende com nenhuma das tentativas de atrair publicidade ou atenção que caracterizam os nossos salvadores modernos. Nunca procura chamar a atenção pela singularidade do ensinamento, da sua fala, vestuário ou modos. Na verdade, nem mesmo deseja aparecer como instrutor; não procura seguidores, nem pede que discípulos se unam a ele. Embora possua imenso poder espiritual, poder que é capaz de influenciar nossa vida irresistivelmente, parecerá completamente inconsciente disso. Não afirma possuir poderes extraordinários e é totalmente sem afetação ou fingimento. As coisas que incitam paixão, amor ou ódio nos homens não parecem tocá-lo; ele é indiferente a elas, assim como a Natureza o é para com os comentários que fazemos ao louvarmos a luz do sol, ou a imprecarmos contra as tempestades. Pois, temos de reconhecer nele um ser humano liberto, livre de todo o limite que o desejo e a emoção podem colocar sobre nós. Ele caminha desapegado dos pensamentos ansiosos ou das paixões sedutoras que devoram os corações dos homens. Embora aja e viva de forma simples e natural, temos consciência de que há um mistério dentro desse ser humano. Não podemos evitar a impressão de que, por ter o seu entendimento perscrutado a vida mais profundamente do que os outros, somos compelidos a fazer uma pausa ao nos esforçarmos para compreendê-lo.

Não deveríamos pensar que todo místico que foi abençoado com a luz do Eu Superior está no mesmo nível espiritual de visão e de consciência, de ser e de conhecimento. Muitos ainda estão no caminho para o topo desse nível. Existem diferenças definitivas entre eles. Mesmo que todos compartilhem da mesma forma a consciência do Eu mais elevado, eles não a compartilham da mesma maneira e no mesmo nível.
 
Os santos e místicos servem ao propósito elevado de lembrarem à humanidade de que a vida mais divina um dia florescerá na evolução humana, mas não servem como exemplos perfeitos do crescimento último dela. Somente os sábios o são.
 
Ao alcançar o estágio mais avançado, o sábio estará livre para continuar sua vida pessoal como antes, para aceitar o peso das novas responsabilidades em seus ombros ou para se retirar completamente do mundo. Trabalhar para a humanidade publicamente é uma coisa, trabalhar para ela em segredo é outra, e desfrutar da liberdade e da privacidade através do total recolhimento é outra coisa bem diferente. Natural e inevitavelmente, qualquer pública aparição logo o tornará um polo atrativo de luz que atrairá as aspirações e anseios de muitos aspirantes espirituais.
 
Se de fato encontrou sua liberdade interna, necessariamente ele estará livre para permanecer no mundo e trabalhar nele. Ele não precisará se retirar em um isolamento, embora esteja livre para fazer isso. Mas, seja o que for que decida, a partir de então ele será um canal impessoal para forças superiores às quais obedecerá e cujas direções seguirá, independente de que permaneça ou não no mundo.
Ele poderá se mover anonimamente pelo mundo como um solitário irreconhecível, ou poderá publicamente se declarar às multidões. Poderá ensinar a poucos o que não ensinará a muitos, ou poderá livremente irradiar sua luz a todos. Enfim, sua própria disposição e destino configurarão o resultado.

Graus de Iluminação

Há diversos graus de iluminação espiritual que explicam tanto as diversas perspectivas a serem encontradas entre os místicos quanto os diferentes tipos de Vislumbre (experiência espiritual temporária) a serem encontrados entre os aspirantes. Todas as iluminações e todos os Vislumbres liberam o ser humano de suas qualidades negativas e de sua natureza vil, mas os últimos o fazem apenas temporariamente. O ser humano é capaz, como consequência, de olhar para dentro de sua natureza superior. No primeiro grau, é como se uma janela coberta de sujeira tivesse sido limpa o suficiente para revelar um belo jardim do lado de fora. O ser humano ainda está sujeito à atividade de pensar, à emoção da alegria e à discriminação entre X e Y. No grau seguinte, superior, é como se a janela tivesse sido limpa ainda mais, de modo a revelar mais beleza através dela. No terceiro grau, a discriminação não mais está presente. No quarto grau, é como se a janela tivesse sido totalmente limpa. Aí, já não há mais nem mesmo uma emoção enlevada, mas somente uma felicidade equilibrada, uma tranquilidade inalterável que, estando além do intelecto, não pode ser devidamente descrita por ele.

A paz mental é fruto do primeiro grau de iluminação, o grau inferior, embora nele os pensamentos continuem a surgir ainda que suavemente, e o ato de pensar de maneira discursiva continue ativo ainda que lentamente. Mas a concentração será suficientemente forte para desligar o ser humano do mundo, e, como consequência, conceder-lhe a felicidade que acompanha esse desligamento. Somente os que atingiram esse grau podem ser corretamente considerados “salvos”, pois unicamente eles são incapazes de cair de novo na ilusão, no pecado, na ganância ou na sensualidade. 

No segundo grau, haverá maior absorção interna e os processos cerebrais se desvanecerão por completo. 

A libertação de toda possibilidade de ira é fruto do terceiro grau, mais elevado.

Quanto mais profundamente o indivíduo penetra no Vazio, mais ele é purificado das ilusões de personalidade, tempo, matéria, espaço e causalidade. Entre o segundo e terceiro estágios do desdobramento do INSIGHT há, realmente, dois estágios subsidiários adicionais que estão envolvidos no maior mistério, e que levam a um maior aprofundamento no Vazio. O YOGI toca a beira do Vazio, por assim dizer, mas não o centro. Esses dois estágios são purificadores e aniquilam completamente as últimas ilusões e os últimos egoísmos do ser humano que busca; são dissolvidos para sempre, e não podem mais reviver. Nada mais de útil pode e deve ser dito aqui sobre isso, pois esse é o mais profundo santo dos santos, o mais sagrado santuário acessível ao ser humano. Aquele que chega a esse grau atinge aquilo que não se pode revelar em voz alta para ouvidos zombeteiros, que não se pode descrever para olhos zombeteiros. Consequentemente, ninguém jamais se aventurou a explicar publicamente o que não deve ser explicado.

Há alguma confusão sobre esse ponto na mente de muitos estudantes. Ao atingir a iluminação, o ser humano não atinge a onisciência. Quando muito, poderá receber uma revelação das operações internas da vida e da Natureza, e das leis superiores que governam a vida e o homem. Isto é, ele poderá tornar-se também um vidente, e descobrir uma cosmogonia diante de seus olhos. Mas a realidade, na maioria dos casos, é que ele atinge a iluminação apenas, e não uma vidência cosmogônica.

Embora haja certas similaridades entre a experiência dos Adeptos e a de São Paulo, a natureza e propósito último do transe que passaram foram diferentes do que passou São Paulo. Há vários graus e tipos de transes, que vão desde o mero esquecimento ou com visões psíquicas e viagens mentais, até os mais elevados, com a completa imersão do ego na Divindade Cósmica.

Todos os seres humanos neste planeta são imperfeitos. A perfeição não é totalmente atingida aqui. Entretanto, quando o indivíduo se esforçou e avançou em direção a ela, ele a alcançará automaticamente quando se liberte do corpo.

Enquanto o ser humano estiver preso neste plano terrestre, a iluminação que possa atingir será imperfeita ou a realização que experimente limitada.

Enquanto estiver preso à carne finita, enquanto a existência no corpo humano interno continue, a fusão completa e perfeita de sua individualidade na mente cósmica será impossível. Mas uma vez que passe através dos portais da assim chamada morte, isso se tornará uma atualidade.

Poderemos razoavelmente esperar ver Deus um dia, mas não nos tornarmos Deus. A Visão Cósmica da Mente do Mundo atuando, a qual Arjuna teve, poderá ser nossa também, mas não uma completa união com Ela.

É o iluminado perfeito?

Você poderá encontrar um sábio iluminado diariamente, por várias semanas, e mesmo assim, não perceber nada do que se passa na sua mente por não ter o insight verdadeiro sobre o verdadeiro caráter dele. Isso se deve ao fato de que você não possui a qualidade elevada necessária de percepção para que chegue a percebê-lo. Então, não existirá nenhum contato ou nenhuma comunicação real entre ele e você. 

Aquele que encontrou sua alma divina – e ela o haja encontrado – desde então estará livre das regras, restrições e disciplinas que limitam a vida de um ser humano que não a haja encontrado.

Ele poderá exercer uma influência pessoal sem que atraia publicidade pessoal sobre si. Questões como essas são as que preferem que haja esse seu tipo de anonimato.

Projetamos nossas mentes não desenvolvidas sobre esses sábios, esperando então que se comportem de acordo com nossos padrões e ideias não desenvolvidas. Se nos decepcionamos, só a nós teremos de nos culpar. 

Especulações sobre os motivos e métodos do iluminado são de pouca valia. A luz através da qual ele atua é negada aos seres comuns. Não deveríamos tentar limitá-lo às qualidades que se ajustam somente àqueles que tateiam na obscuridade.

Existirão sinais do status espiritual na dignidade e serenidade em seu semblante, na ponderação e veracidade de sua fala e na impressão deixada pela sua face livre de tensões. 

Nenhum iluminado se apresenta como tal para o público; cabe aos outros perceber o segredo da sua realização. E como só aqueles que desenvolveram a mesma capacidade que ele poderão percebê-lo, usualmente ele permanece obscuro e desconhecido. Ele nem mesmo busca recrutar discípulos, pois sabe que os poucos que poderão absorver sua ajuda virão pelo destino. 

Certamente, ele será não pretensioso e mesmo passar despercebido; mas isso só será para a visão externa. Para aqueles que podem ver com a mente, com o coração e com a intuição, ele será um raro mensageiro da divindade.
Entretanto, pela melhor harmonia com os fatos, a representação desses grandes iluminados deveria cessar de ser feita considerando-os entidades infalíveis ou semideuses. Eles ainda são seres humanos que algumas vezes cometem erros. 

Nenhum instrutor pode ser onisciente e todo poderoso. Tais atributos pertencem a Deus e não ao ser humano. A maioria desses instrutores cometem erros e possuem fragilidades.

Existe a tendência frequente de considerá-lo um ser mais que humano. Em certo sentido e em certa parte de seu ser interno, isso é verdadeiro. Entretanto, de diferentes maneiras, ele ainda é um ser humano.

Transformá-lo em um semideus, acreditar que sua inteligência é perfeita e seu caráter infalível, será perverter a verdade. 

Aqueles que buscam uma perfeição absoluta, seja em alguém mais ou em si mesmo, buscam o que é inatingível nesse mundo.

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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey