Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Retomar fôlego no Sopro do Vivo

No livro do Gênesis nos é dito de forma simbólica que "Deus modela o homem com o barro da terra, insufla-lhe nas narinas um novo sopro de vida (RUAH) e o homem se torna um ser vivo" (Gn 2,7)

A vida humana é o sopro de Deus. Tornar-se santo, tornar-se espiritual, animado pelo Espírito, é retomar sem cessar o alento, retomar fôlego no Sopro do Vivo. 

São Paulo lembrará que o ser humano, de material e de psíquico PODE TORNAR-SE "ESPIRITUAL", isto é, literalmente "pneumático": um ser humano habitado pelo pneuma, pelo Espírito. Do contrário, ele continuará sendo carne (escravo do sensorial condicionado), isto é, composto de matéria, de emoções e de pensamentos que, como todo composto, será um dia decomposto. A finalidade da vida cristã, dizia São Serafim de Sarov, "É A AQUISIÇÃO DO ESPÍRITO SANTO" (não condicionado, não dependente), é deixar-se habitar em todas as dimensões de seu ser criado pelo próprio sopro daquele que é "não criado" não feito, não composto". 

Isto deveria levar-nos a transfiguração do corpo (metamorphosis), à abertura do coração (amor universal incondicionado) e à iluminação do intelecto (participação na própria sabedoria de Deus). A realização plena desta habitação do Espírito Santo foi vivida e manifestada por aquele que chamamos Cristo — do grego Christos, do hebraico Messias — isto é, "o Ungido", aquele em quem repousa a unção, a PLENITUDE do Espírito. 

Como não pensar também naquele belo texto do profeta Ezequiel: 

"Vem, ó Espírito dos quatro ventos, soprar sobre estes mortos (seres de mente adquirida) para que possam reviver (reintegra-se na Perene Consciência Amorosa e Integrativa). Profetizei conforme me foi ordenado e o sopro entrou neles e eles reviveram e se puseram de pé..." (Ez 37,9)

Este antigo texto tem sua atualidade. Nossos corpos, nossos corações, nossas inteligências são mais ou menos dissecados. Estamos mais ou menos "a ponto de esgotar nosso sopro". 

Temos sempre necessidade de deixar-nos "inspirar" pelo Vivente, temos necessidade de ser animados, reanimados por Ele. 

São João retomará este tema do sopro e do vento na conversa de Jesus com Nicodemos: 

"O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. O mesmo acontece com aquele que nasceu do Espírito" (Jo 3,8)

Nascer do Espírito (resgatar a Perene Consciência) é passar para uma outra dimensão do Ser, passar do criado ao incriado, passar do sopro que se esgota ao Sopro Vivo, entrar no Vento. 

Enquanto sabemos de onde viemos e para onde vamos, ainda estamos no espaço-tempo, ainda estamos no mundo psíquico dos começos e dos fins, ainda não estamos no mundo espiritual. pneumático (livre do ciclo das causalidades). 

Este símbolo do sopro e do vento é um bom símbolo!

Meditá-lo, "praticá-lo", pode conduzir-nos à EXPERIÊNCIA DO ESPÍRITO SANTO, até aquela profundidade silenciosa, incriada, donde vêm e para onde retornam nossos mínimos sopros. 

É por isso que, na tradição hesicasta, "a aquisição do Espírito Santo" começará por uma ATENÇÃO À RESPIRAÇÃO, uma escuta do sopro que nos habita, para lembrar-nos que o ser humano não é "o túmulo da alma", mas "o templo do pneuma", o templo do Espírito: uma casa para abrigar o vento. 

Jean-Yves Leloup

A autorrendição nas obras: o caminho do Gita

CAPÍTULO III

A AUTORRENDIÇÃO NAS OBRAS
O CAMINHO DO GITA

A Vida, e não um Mais Além remoto e silencioso ou elevado e extático, unicamente a Vida, é o campo de nossa Espiritual Via Integrativa. A transformação de nossa maneira humana de pensar, sentir, ver e ser, que é agora superficial, estreita e fragmentária, numa profunda e ampla consciência espiritual e uma existência interna e externa integrada, e a passagem de nosso viver humano ordinário à forma divina de vida devem constituir seu propósito central. O meio para conquistar esse fim supremo é uma autoentrega de toda nossa natureza ao Divino. Tudo em nós deve ser entregue ao Divino, ao Todo universal e ao Supremo Transcendente. Uma absoluta concentração de nossa vontade, nosso coração e nosso pensamento nesse singular e múltiplo Divino, uma autoconsagração sem reservas de todo o nosso ser exclusivamente ao Divino, tal é o momento decisivo: a reviravolta do ego para Aquilo que é infinitamente maior que ele mesmo, sua autoentrega e indispensável rendição.

A vida ordinária de uma criatura humana se compõem de uma massa, em parte fixa e em parte fluída, de pensamentos, percepções, sensações, emoções, desejos e alegrias muito defeituosamente ordenados, de atos que são em maior parte habituais e repetidos, só parcialmente dinâmicos e em desenvolvimento, mas todos centrados num ego superficial. A totalidade do movimento destas atividades acontece num crescimento interno que é, em parte visível e operante nesta vida e, noutra parte uma semente de progresso para vidas posteriores. Este crescimento do ser consciente — uma expansão, uma maior autoexpressão, uma evolução cada vez mais harmônica de seus membros constituintes —, encerra o significado total e a essência da existência humana. O Homem, o ser mental, tem entrado no corpo material para alcançar este significativo desenvolvimento de consciência por parte do pensamento, da vontade, a emoção, o desejo, a ação e a experiência, que conduz ao final a um supremo autodescobrimento divino. Tudo o mais é auxiliário e subordinado ou bem acidental e ocioso; o que importa é aquilo que contribui à evolução de sua natureza e ao crescimento ou, melhor, ao progressivo desenvolvimento e descobrimento de seu ser e seu espírito.

O propósito de nossa Espiritual Via Integrativa é nada menos que apressar este supremo objetivo de nossa existência aqui. Seu processo está à frente do método ordinário de lento e confuso crescimento por meio da evolução da Natureza. Visto que a evolução natural não é mais que um crescimento incerto, determinado em parte pela pressão do meio ambiente, em parte por uma educação vacilante e um esforço intencionado, porém, mal iluminado, e um aproveitamento só parcialmente iluminado e semiautomático das oportunidades, com muitos erros, quedas e recaídas; está constituída em grande parte por acidentes, circunstâncias e vicissitudes aparentes, que ocultam, na realidade, a intervenção e a guia secretas e divinas. Na Espiritual Via Integrativa substituímos este lento e confuso avanço por uma evolução rápida, consciente e autodirigida, que cujo fim é fazer-nos avançar tão longe quanto possível, em linha reta para a meta. Em certo sentido, a certa altura, poderia ser um erro falar de uma meta de uma evolução que bem poderia ser infinita. Mas, ainda assim, podemos conceber uma meta imediata, um objetivo ulterior que está mais além de nossa realização atual e ao que a alma do homem pode aspirar. O homem tem diante de si a possibilidade de um novo nascimento; pode existir uma elevação a um plano mais alto e amplo do ser e um descanso deste para transformar seus membros. É possível a conquista de uma consciência dilatada e iluminada que o converterá num espírito liberado e numa força aperfeiçoada e que, se se estender mais além do indivíduo, poderia chegar a constituir uma humanidade divina ou bem uma raça nova e supramental e, portanto, superhumana. Este novo nascimento será nosso objetivo; o desenvolvimento para uma consciência divina constitui todo o significado de nossa Espiritual Via Integrativa: uma conversão holística para a divindade, não só da alma, senão também de todas as partes de nossa natureza.

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Nosso propósito na Espiritual Via Integrativa é banir a limitada atitude do ego dirigido para o exterior, e coroar a Deus em seu lugar como o Morador que rege a natureza. E isto significa, em primeiro lugar, desinfetar o desejo e deixar de considerar o prazer do desejo como motivo humano dominante. A vida espiritual obterá seu sustento, não do desejo, senão de um puro e generoso deleite espiritual da existência essencial. E não só a natureza vital, cujo selo é o desejo, senão também o ser mental, devem sofrer um novo nascimento e uma mudança que os transfigure. Nosso pensamento e nossa inteligência, divididos, egoístas, limitados e ignorantes, devem desaparecer; em seu lugar deve ingressar a despregar universal e perfeito de uma iluminação divina e sem sombras que culminará numa Consciência da Verdade natural, autoexistente e livre de vacilantes verdades em meio de erros. Nossa vontade e ações confusas e desconcertadas, egocêntricas e mesquinhas em suas motivações, devem Cesar e deixar o lugar para a função total de uma Força rapidamente poderosa, lucidamente automática, movida e guiada em forma divina. Devemos implantar e ativar em todos os nossos atos, uma vontade suprema, impessoal, não declinável e firme, em espontânea harmonia com a Vontade do Divino. O pouco satisfatório jogo superficial de nossas débeis emoções egoístas deve ser eliminado e, em sua substituição, deve revelar-se um vasto e profundo coração psíquico e secreto em nosso interior, que espera que chegue seu momento; impelidos por este coração interior em que mora o Divino, todos ossos sentimentos se transmutarão em calmos e intensos movimentos de uma dupla paixão de divino Amor e múltipla Bem-Aventurança. Esta é a definição de uma humanidade divina ou uma raça supramental. Este, e não uma energia exagerada ou sublimada do intelecto e da ação humanas, é o tipo de super-homem em que nossa Espiritual Via Integrativa as pira a converter-nos.

Na existência humana ordinária, a ação externa constitui as três quartas partes de nossa de nossa vida. Salvo exceções, ao santo e ao profeta, o pensador, o poeta e o artista, podem viver mais dentro de si mesmos; estes indivíduos, pelo menos nas mais intimas partes de sua natureza, se formam mais no pensamento e no sentimento interiores que no ato superficial. Mas o que criará a forma de um viver perfeito, não é nenhum destes aspectos por separado, senão uma harmonia da vida interior e a exterior, totalmente unidas e transfiguradas num movimento de algo que está mais além delas. Portanto, uma Espiritual Via Integrativa das obras, uma união com o Divino em nossa vontade e em nossos atos, e não só no conhecimento e nos sentimentos, é o elemento indispensável e inexpressavelmente importante de uma Espiritual Via Integrativa holística. A conversão de nosso pensamento e nosso sentimento sem uma correspondente conversão do espírito e do corpo de nossas obras constituirá uma realização defeituosa.

Mas, se aspiramos esta total conversão, devemos consagrar não só nossas ações e movimentos exteriores senão também nossa mente e nosso coração. Devemos aceitar e conquistar progressivamente uma entrega de nossas capacidades de obrar a um Poder Superior que está dentro de nós, e abandonar a convicção de que é um o que faz e ele que obra. Tudo deve ser depositado para um uso mais direto nas mãos da Vontade divina que se esconde atrás de todas estas aparências, porque nossa ação só é possível através dessa Vontade. Um poder oculto é o verdadeiro Senhor e Observador normativo de nossos atos e só ele conhece seu sentido total e seu propósito final através de toda a ignorância, a perversão e a deformação introduzidas pelo ego. Devemos efetuar uma completa transformação de nossa vida e obras, limitadas, deformadas e egoístas, numa ampla e direta emanação de uma Vida, uma Vontade e uma Energia maior e divinas, que agora nos ajudam secretamente. Esta Vontade e Energia maiores devem fazer-se conscientes e dominantes em nós; devem cessar de ser, como agora, só uma Força superconsciente, que sustenta e permite. Devemos conquistar uma transmissão não deformada através de nós, do propósito e do processo de um Poder onissapiente e de um Conhecimento onipotente que agora permanece ocultos e que farão convergir nossa natureza transmutada para seu canal puro sem obstáculos, que aceita e participa felizmente. A total consagração e a entrega, e a plena transformação e livre transmissão resultantes, constituem os meios e o fim último de uma Espiritual Via Unitiva holística.

Para essa transformação, a consagração das obras constitui um elemento necessário ainda para aqueles cujo primeiro movimento natural é uma consagração, uma entrega e a resultante transformação total da mente pensante e seu conhecimento, ou uma total consagração, entrega e transformação do coração e suas emoções. De oura maneira, e ainda quando encontrem a Deus em outra existência, não poderão conquistar o Divino na vida; está será para eles uma inconsequência carente de significado e de divindade. Nunca será sua a verdadeira vitória que é a chave do enigma de nossa existência terrestre; seu amor não seria jamais o absoluto amor triunfante sobre o ser, seu conhecimento não será a consciência total que tudo abarca. É possível, sem dúvida, começar unicamente com o conhecimento ou com a emoção dirigidos a Deus, ou com ambos, e deixar as obras para o movimento final da Espiritual Via Integrativa. Mas então corremos o perigo de viver demasiado exclusivamente em nosso interior, sutilizados na experiência subjetiva, encerrados em nossas isoladas partes internas; podemos chegar a endurecer-nos nessa reclusão espiritual e mais tarde nos será difícil voltar-nos triunfantes para o exterior e aplicar a nossa vida o que conquistamos na Natureza superior. Quando pretendemos adicionar este reino externo a nossas conquistas internas, estaremos por demais acostumados a uma atividade puramente subjetiva e inoperante no plano material. Encontraremos imensas dificuldades para transformar a vida exterior e o corpo. Ou descobriremos que nossa ação não corresponde à luz interior; que ainda segue os velhos e habituais caminhos equivocados, que todavia obedece as antigas influências imperfeitas normais; a Verdade em nosso interior segue estando isolada pelo doloroso abismo de mecanismo ignorante de nossa natureza externa. Esta é uma experiência frequente, porque, nesse processo, a Luz e o Poder se retraem e se tornam relutantes a se expressarem na vida ou a utilizar os meios físicos prescritos para a Terra e seus processos. É como se tivéssemos vivido num mundo distinto, mais amplo e sutil, e carecêssemos de um apoio divino, ou, quem sabe, de nenhum tipo de caminho, na existência material e terrestre.

Mas cada um deve seguir sua própria natureza e sempre existem dificuldades que devemos aceitar durante algum tempo se queremos continuar por nosso caminho natural da Espiritual Via Unitiva. Depois de tudo, a Espiritual Via Unitiva significa primariamente, uma mudança da natureza e da consciências, e se o equilíbrio de nossas partes é tal que devemos realiza-lo com certa exclusividade inicial e deixar o manejo do resto para mais tarde, teremos que aceitar a aparente imperfeição do processo. Sem dúvida, o funcionamento ideal de uma Espiritual Via Integrativa holística seria um movimento integral em seu processo e total e múltiplo em seu progresso,ainda desde o início. De qualquer maneira, o que nos ocupa agora é uma Espiritual Via Integrativa que comece com obras e avance por meio das obras, ainda que movida e ajudada cada vez mais por um amor divino, vivificante e iluminado por um conhecimento divino.

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O maior evangelho das obras espirituais, que tem sido dado a raça, e o mais perfeito sistema de Espiritual Via Integrativa que o homem conheceu no passado, se encontra no Bhagavad Gita. Nesse famoso episódio de Mahabharata se estabelecem os grandes princípios básicos para todos os tempos, com incomparável maestria e a visão infalível de uma segura experiência. É verdade que somente o caminho está plenamente delineado; a conquista perfeita, o mais alto segredo, está sugerido, mais que desenvolvido; encontra-se oculto, como uma parte não expressa de um supremo mistério. Existem motivos óbvios para esta reticência, visto que a realização é sempre uma questão de experiência e nenhum ensinamento pode expressá-la. Não se pode descrever de maneira tal que uma mente que não possua a resplandecente experiência transmutadora possa realmente compreendê-la. E para a alma que tenha transpassado os radiantes portais e que recebe o fulgor da luz interior, toda descrição mental e verbal é tão pobre como supérflua e inadequada. Devemos, necessariamente, expressar todas as consumações divinas com os termos com os termos inadequados e enganosos de uma linguagem criada para expressar a experiência normal do homem mental; nesses termos só pode compreende-las verdadeiramente, aqueles que já sabem e que, portanto, podem dar a estes pobres termos externos um sentido distinto, interior e transfigurado. Tal como os Rishis Védicos insistiram no princípio, as palavras da sabedoria suprema só têm significado pra quem já as possuem. O silêncio do enigmático final do Gita pode fazer pensar que este não proporciona a solução que buscamos, que se detém ante os limites da mente espiritual superior e não os cruza para internar-se nos esplendores da Luz supramental. E, sem dúvida, seu segredo da identidade dinâmica, e não só estática, com a Presença interior seu sublime mistério da absoluta entrega à Guia Divina, Senhor e Habitante de nossa natureza, constitui seu segredo central. Esta rendição é o meio indispensável para a transformação supramental e, por sua vez, é através dessa transformação que a identidade dinâmica chega a ser possível.

Quais são, então, os princípios da Espiritual Via Integrativa que estabelece o Gita? Seu princípio fundamental, seu método espiritual, pode resumir-se como a união dos amplos e elevados estados ou poderes de consciência, igualdade e unidade. A essência deste método é uma aceitação sem reservas do Divino em nossa vida, assim como em nosso ser e espírito interiores. Uma renúncia interna do desejo pessoal conduz à igualdade, realiza nossa total rendição ao Divino, permite a liberação do ego separatista, que traz consigo a unidade. Mas deve ser uma unidade na força dinâmica e não só a paz estática ou a beatitude inativa. O Gita nos promete liberdade para o espírito ainda em meio das obras e das plenas energias da Natureza, se aceitamos a sujeição de todo nosso ser Àquilo que se eleva por sobre o ego que separa e limita. Propõem uma atividade integral e dinâmica, fundada numa quieta passividade; uma maior ação possível, irrevogavelmente estabelecida sobre uma calma imóvel em seu segredo, livre expressão para o exterior de um supremo silêncio interior.

Todas as coisas aqui são o único e indivisível Ser Supremo, eterno, transcendente e cósmico, que se encontra aparentemente dividido nas coisas e nas criaturas; só em aparência, porque, na realidade, é sempre um e igual em todas as coisas e criaturas e a diviso é só um fenômeno superficial. Enquanto vivemos nessa aparência ignorante, somos o ego e estamos sujeitos aos acidentes da Natureza. Escravos das aparências, submetidos às dualidades, nos agitando entre o bem e o mal, o pecado e a virtude, o sofrimento e a alegria, a dor e o prazer, entre a boa e a má sorte, o êxito e o fracasso, seguimos impotentes às voltas do enganoso brilho da Roda de Ilusões. O mais que conseguimos é gozar da pobre liberdade relativa que, em nossa ignorância, chamamos livre arbítrio. Mas, no fundo, isso é ilusório, visto que são os desígnios da Natureza os que se expressam através de nossa vontade pessoal, a força da Natureza, que nos domina, e sobre a qual não exercemos nenhuma influência, determina o que faremos e como o faremos. A Natureza e não um ego independente, escolhe o objeto de nosso anseio, seja por meio de uma vontade raciocinada ou de um impulso irrefletido, em qualquer momento de nossa existência. Se, ao contrário, vivemos na realidade unificadora do Ser Supremo, podemos ir mais além do ego e da Natureza. Porque então retornamos a nosso verdadeiro ser e nos convertemos em espírito; no espírito estamos acima do impulso da Natureza, somo superiores aos seus acidentes e forças. Ao conquistar uma perfeita igualdade na alma, na mente e no coração, realizamos nosso verdadeiro ser de unidade, um com todos os seres, e também com aquele que se expressa neles e com tudo o que vemos e experimentamos. Esta igualdade e esta unidade constituem o duplo fundamento de um ser, uma consciência e uma ação divinas. Não somos espiritualmente divinos se não somos um com tudo. Se nossa alma não é igual a todas as coisas, os sucessos e as criaturas, não podemos vê-los espiritualmente, nem conhecê-los divinamente, nem experimentar um sentimento divino para eles. O Poder Supremo, o Eterno e Infinito, é igual a todas as coisas e a todos os seres e, porque é igual, pode atuar com absoluta sabedoria, de acordo com a verdade de suas obras e de sua força, e de acordo com a verdade de cada coisa e de cada criatura.

Esta é também a única liberdade verdadeira possível para o homem, uma liberdade que não pode alcançar se não se liberta de seu isolamento mental e se converte na alma consciente na Natureza. O único livre arbítrio no mundo é a Vontade Divina cuja executora é a Natureza, visto que a criou e domina todas as demais vontades. O livre arbítrio humano pode ser real em certo sentido, mas, como tudo o que pertence aos acidentes da natureza, é só relativamente real. A mente se encontra num redemoinho de forças, oscila entre varias possibilidades, se inclina para uma e para outra, se decide e elege; mas não vê, nem sequer obscuramente, a Força oculta que determinou a escolha. Não pode vê-la, porque essa Força é algo total e, para nossos olhos, indeterminado. O mais que pode fazer a mente é distinguir com certa clareza e precisão algumas, dentro da complexa variedade das determinações particulares por meio das quais essa Força persegue seus incalculáveis propósitos. Parcial em si mesma, a mente utiliza uma parte da máquina, sem saber nada do resto de seus agentes motores no Tempo e no meio ambiente, ignorante de sua preparação passada e de sua direção futura; mas como a máquina funciona, acredita que é ela quem a dirige. E em certo sentido, isso é verdadeiro; porque essa clara inclinação da mente que chamamos vontade, essa firme determinação da inclinação que se nos apresenta como uma escolha deliberada, é uma das mais poderosas determinantes da Natureza, mas nunca é independente ou única. Por detrás da mesquinha ação instrumental da vontade humana, existe algo vasto, poderoso e eterno que vigia a direção da inclinação e influi sobre a propensão da vontade. Há uma Verdade total na Natureza que é superior a nossa escolha individual. E nesta verdade total, e por detrás e mais além dela, há algo que determina todos os resultados; sua presença e seu secreto conhecimento nos mantém firmemente no processo da Natureza; uma percepção dinâmica, quase automática, das verdadeiras relações, das necessidades variáveis ou persistentes, dos inevitáveis passos do movimento. Existe uma secreta Vontade Divina, eterna e infinita, onisciente e onipotente, que se expressa na universalidade e na particularidade de todas estas coisas aparentemente temporais e finitas, inconscientes ou semiconscientes. Este é o Poder Superior ou Presença a que se refere o Gita quando fala do Senhor dentro do coração de todas as existências, que move todas as criaturas pela ilusão da Natureza.

Esta Vontade divina não constitui um Poder ou Presença estranhos; nos é familiar e nós mesmos formamos parte dela; porque é nosso Ser Superior o que a possui e a sustenta. Mas não é, na mudança, nossa vontade mental consciente; frequentemente recusa o que esta aceita, e vice-versa. Desde que este secreto Uno conhece tudo em sua totalidade e em cada detalhe, nossa mente superficial só conhece uma pequena porção das coisas. Nossa vontade é consciente na mente, e unicamente conhece através do pensamento; a Vontade Divina é superconsciente para nós, porque é, em essência, supramental, e conhece tudo porque é tudo. Nosso Ser superior, que possui e sustenta este Poder universal, não é nosso ego-eu nem nossa Natureza pessoal; é algo transcendente e universal, e estas pequenas coisas não são mais que sua espuma superficial. Se rendemos nossa vontade consciente e permitimos que se uma à vontade do Eterno, obteremos uma verdadeira liberdade; ao viver a liberdade divina, deixaremos de nos aferrar à escravidão que nos impõem o chamado livre arbítrio, que não é mais que uma falsa liberdade ignorante, ilusória, relativa e sujeita ao erro de suas próprias e inadequadas motivações vitais e representações mentais.

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Nossa consciência deve estabelecer uma clara distinção de capital importância entre a Natureza mecânica e o livre Senhor da Natureza, entre o Ser Supremo ou única Vontade divina e luminosa, e os muitos métodos e forças executivos do universo.

A Natureza — não tal como é em sua divina Verdade, o Poder consciente do Eterno, senão tal como a vemos na Ignorância —, é Força executiva, mecânica em seus passos, não conscientemente inteligente para as experiências que dela temos, ainda que todas as suas obras estejam impulsionadas por uma inteligência absoluta. Ainda que não governa por si mesma, está cheia de um Poder autoconsciente que possui um infinito domínio e, a causa deste Poder que a impulsiona, governa e realiza plenamente a tarefa que o Ser Supremo lhe reserva. Sem gozar, porém sendo o objeto do gozo, leva em si mesma uma carga de todos os gozos. A Natureza como natureza fenomênica é uma Força ativa inerte, — visto que realiza um movimento que lhe é imposto; mas em seu interior existe Um que conhece, — uma Entidade habita ali e consciente de seu movimento e seu processo. A natureza fenomênica age contendo o conhecimento, o domínio, o deleite da Alma, o Ser associado a ela ou que existe nela; pelo que pode participar neles só porque está subordinada àquilo que a enche e o reflete. A Alma conhece e é passiva e inativa; contém a ação da natureza fenomênica em sua consciência e em seu conhecimento e goza com ela e a desfruta. Da a sensação às obras da natureza fenomênica e esta efetua o que aquele sanciona para seu próprio prazer. A Alma, a Pessoa Espiritual, não executa; mantém a natureza fenomênica em ação e lhe permite expressar na energia, no processo e no resultado formado, o que ela percebe em seu conhecimento. Esta é a distinção que fazem os Sankhyas — sistema filosófico indiano —; e ainda que não encerra a verdade total, e muito menos a mais alta verdade acerca da Alma, da Pessoa Espiritual ou da natureza fenomênica, é um conhecimento válido e indispensável no hemisfério inferior da existência.

A alma individual, o ser consciente, pode identificar-se com o Ser Espiritual que experimenta ou com a ativa natureza fenomênica. Se se identifica com a natureza fenomênica, não é mestre, desfrutador e conhecedor, senão que reflete as formas e obras da natureza fenomênica. Adota através desta identificação a subordinação e o trabalho mecânico que é característico daquela. E, se se submerge totalmente na natureza fenomênica, a alma se volta inconsciente ou subconsciente, dormida em suas formas como na vida terrestre e mineral, ou quase dormida como na vida vegetal. Ali, nessa inconsciência, está subjugada pela inércia, o princípio, o poder, a forma qualitativa da obscuridade e da inércia: a harmonia e a ação estão ali, mas se ocultam por trás da espessa capa de inércia. Ao alcançar sua própria natureza de consciência, ainda que não verdadeiramente consciente, porque o domínio da inércia na natureza é ainda demasiado grande, o ser personificado se inclina cada vez mais ante a ação, o princípio, o poder, a forma qualitativa da ação e da paixão impulsionadas pelo desejo e pelo instinto. Se forma e desenvolve então a natureza animal, estreita em sua consciência, de inteligência rudimentar, cujos hábitos e impulsos vitais estão submetidos à influência da paixão de ação e da inércia. Surgindo ainda mais da grande Inconsciência para um estado espiritual, o ser corporizado libera o equilíbrio e a harmonia, a forma da luz, e adquire uma liberdade, um domínio e um conhecimento relativos e, com isso, um qualificado e condicionado sentido de satisfação e felicidade interiores. O Homem, o ser mental num corpo físico, teria que realizar esse estado, mas a verdade é que nenhum, salvo uns poucos entre a multidão de corpos com alma, o alcançam. No geral, a escura inércia terrestre e uma turbulenta força vital animal e ignorante o domina demais, como para que seja uma alma de luz e felicidade ou, sequer, uma mente de vontade e conhecimento harmoniosos. Existe no homem uma incompleta e obstaculizada aspiração ao verdadeiro caráter do Ser Espiritual, livre, magistral, conhecedor e desfrutador, visto que estas são as modalidades relativas na experiência humana e terrestre, e nenhuma delas dá seu fruto único e absoluto; estão todas mescladas entre si e carecem de uma ação individual pura. O que determina as experiências da consciência humana egoísta que oscila no instável equilíbrio da Natureza é, precisamente, essa confusa e inconstante interação.

O sinal que indica a imersão da alma corporizada na natureza fenomênica é a limitação da consciência de ego. O claro sinal desta consciência limitada é uma constante desigualdade da mente e do coração e um confuso e desarmônico conflito e desarmonia em suas variadas reações diante de seus contatos com a experiência. As reações humanas oscilam perpetuamente entre as dualidades criadas pela sujeição da alma à Natureza e por sua luta, muitas vezes intensa, porém limitada e quase sempre não afetada pelo domínio e o gozo. A alma gira incessantemente entre os sedutores e penosos opostos da Natureza: êxito e fracasso, boa e má sorte, bem e mal, pecado e virtude, alegria e sofrimento, dor e prazer. Só quando desperta de sua imersão na natureza fenomênica é que percebe sua unidade com o Uno e com todas as existências, pode chegar a ser livre destas coisas e a encontrar sua verdadeira relação com a Natureza executiva do mundo. Então se torna indiferente a suas formas inferiores, impassível frente a suas dualidades, capaz de domínio e de liberdade, e existe por cima dela como sublime conhecedora e testemunha, plena de deleite calmo, intenso e puro de sua própria existência eterna. O espírito encarnado continua expressando seus poderes na ação, porém já não está envolto na ignorância, nem limitado em suas obras; suas ações não tem a consciência dentro dele, senão somente fora, na natureza fenomênica. Todo o movimento da natureza se converte, para sua experiência, num inchaço ascendente e descendente na superfície, que não afeta em absoluto sua própria paz, seu amplo deleite, sua vasta igualdade universal ou sua infinita existência em Deus. Não é indispensável que a Espiritual Via Integrativa aceite implicitamente toda a filosofia do Gita. Podemos considerar, se assim desejamos, que se trata de uma exposição de experiências psicológicas que podem resultar úteis como uma base prática da Espiritual Via Integrativa; neste caso é perfeitamente válida e está em completa consonância com uma elevada e autêntica experiência. Por essa razão, me parece conveniente mencionar aqui, na linguagem do pensamento moderno até onde ela foi possível, omitindo tudo aquilo que pertence na realidade ao domínio da metafísica e não ao da psicologia.

Estas são as condições de nosso esforço e assinalam um ideal que pode expressar-se nestas, ou em outras formas equivalentes.

Viver em Deus e não no ego; mover-se, com amplo fundamento, na consciência da alma total e do Transcendente e não na pequena consciência egoísta.

Ser perfeitamente igual em todos os sucessos e com todos os seres, e vê-los e senti-los em unidade com si mesmo e com o Divino; sentir tudo em si mesmo e em Deus; sentir a Deus em tudo e a si mesmo em tudo.

Atuar em Deus e não no ego. E, em primeiro lugar, escolher uma ação, não com referência a necessidades ou normas pessoais, senão obedecendo aos ditados da mais alta Verdade viva que está acima de nós. Em segundo lugar, enquanto estamos suficientemente estabelecidos na consciência espiritual, deixar de atuar segundo nossa vontade ou movimento separados e permitir cada vez mais que nossa ação se produza e se desenvolva sob o impulso a guia de uma Vontade divina que nos sobrepassa. E, por último e como supremo resultado, nos elevarmos até uma identidade no conhecimento, força, consciência, ato, e alegria de existir, com a Energia Divina; sentir um movimento dinâmico que não está dominado pelo desejo mortal, pelo instinto e o impulso vitais e pelo ilusório livre arbítrio mental, senão que tenha sido luminosamente concebido e desenvolvido num imortal autodeleite e um infinito autoconhecimento. Esta é a ação que sobrevive por meio de uma subordinação consciente do homem natural ao Eu Divino e ao Espírito Eterno; é o Espírito que transcende e guia eternamente a Natureza do mundo.

Mas, quais são as medidas concretas de autodisciplina que nos permitirão chegar a esta consumação?

É evidente que a eliminação de toda atividade egoísta e de seu fundamento, a consciência egoísta, constitui a chave da consumação desejada. E visto que, no caminho das obras, a ação constitui o primeiro nó que devemos desatar, temos que nos esforçar por fazê-lo em seu próprio centro, no desejo e no ego; de outra maneira, só cortaremos folhas soltas e não o coração de nossa servidão. São dois os pontos em que nossa sujeição a esta Natureza ignorante e dividida é mais forte, o desejo e o ego sensual. O desejo se aninha nas emoções, nas sensações e nos instintos e a partir dali exerce sua influência sobre os pensamentos e a vontade; o ego sensual vive também nestes movimentos, mas suas raízes se inserem profundamente na mente pensante e em sua vontade, e é ali onde chega a ser totalmente autoconsciente. Estes são os dois obscuros poderes da obsessiva ignorância universal qye devemos iluminar e eliminar.

No campo da ação, o desejo adota muitas formas, mas a mais poderosa é o anseio ou a busca do ser vital do fruto de suas obras. O fruto que ambicionamos pode ser a recompensa na forma de prazer interior; ou a conquista de alguma ideia preferida ou de alguma aspiração por longo tempo acariciada, ou a satisfação das emoções egoístas ou o orgulho ante o êxito de nossas mais altas esperanças e ambições. Ou pode tratar-se de uma recompensa externa totalmente material, riqueza, posição, honra, vitoria, boa sorte ou qualquer outra realização de desejos vitais ou físicos. Mas todos são atrativos por meio dos quais o egoísmo nos domina. Estas satisfações nos seduzem sempre com a promessa de poder e a ideia de liberdade, mas, na realidade estamos dominados e guiados, ou escravizados e castigados por alguma imagem, grosseira ou sutil, nobre ou não, do Desejo cego que impulsiona o mundo. Portanto, a primeira regra de ação que estabelece o Gita consiste em realizar a obra sem nenhum desejo pelo fruto.

Trata-se de uma regra aparentemente simples, mas, na realidade é muito difícil praticá-la com absoluta sinceridade e inteireza. Na maior parte de nossa ação a utilizamos muito pouco e logo recorremos a ela só como um contrapeso do principio normal do desejo e para mitigar a ação extrema desse tirânico impulso. No máximo nos conformamos com conquistar um egoísmo modificado e disciplinado que não escandalize demais ao nosso sentido moral e não se mostre brutalmente ofensivo aos demais. E damos distintos nomes e formas a nossa autodisciplina parcial; nos habituamos, por meio da prática, ao sentido de dever, a uma firme fidelidade aos princípios , a uma estoica fortaleza ou a uma resignação religiosa, uma quieta ou estática submissão a vontade de Deus. Mas, por úteis que sejam em sua oportunidade, não é isto o que pretende o Gita; aspira a algo absoluto, inflexível, rígido; uma mudança, uma atitude que modifique toda a postura da alma. Sua norma não é o controle mental do impulso vital, senão a poderosa imobilidade de um espírito imortal.

A prova que propõe é uma absoluta igualdade da mente e do coração frente a todos os resultados, a todas as reações, e a todos os sucessos. Unicamente quando a boa e má sorte, o respeito e o insulto, a fama e o opróbrio, a vitória e a derrota, o prazer e a do, não só não nos afetam, senão que nem sequer nos alcançam, quando somos livres nas emoções, nas reações nervosas, o ponto de vista mental, quando não respondemos com a menor perturbação ou vibração da natureza, realizamos a absoluta liberação que assinala o Gita, e não de outra maneira. A mínima reação prova que a disciplina não é perfeita e que algo em nós aceita a ignorância e a escravidão como sua lei e que segue aferrado à antiga natureza. A conquista só tem sido parcial; em alguma extensão ou parte de nossa natureza segue sendo imperfeita ou irreal; e essa pequena partícula de imperfeição pode destruir todo sucesso da Espiritual Via Integrativa!

Existem certos aspectos de um espírito igual que não devem ser confundidos com a profunda e vasta igualdade espiritual que predica o Gita. Há uma igualdade que nasce da desiludida resignação, uma igualdade feita de orgulho, de dureza e indiferença: todas são egoístas em sua natureza. Levam inevitavelmente ao curso da prática do caminho espiritual, mas devem ser recusadas ou transformadas na verdadeira quietude. Existe também, num nível mais alto, a igualdade do estoico, a igualdade de uma devota resignação ou de um sábio desapego, a igualdade de uma alma afastada do mundo e indiferente ao que nele ocorre. Tampouco estas são suficientes. Podem constituir aproximações numa primeira tentativa, mas não são mais que faces temporárias da alma ou imperfeitas preparações mentais para nossa entrada na verdadeira, ampla e absoluta unidade do espírito, autoexistente e igual.

Porque é certo que não se pode chegar de imediato e sem etapas prévias a um tão grande resultado. A princípio devemos aprender a suportar os ataques do mundo, mantendo a parte central de nosso ser incontaminada e silenciosa, ainda quando nossa mente, nosso coração e nossa vida superficial se vejam fortemente sacudidos; inabaláveis no leito de rocha de nossa vida, devemos separar a alma que observa por trás, o que se encontra imune na profundidade de nosso interior, destas funções externas de nossa natureza. Mais tarde, quando a calma e a estabilidade da alma afastada se estende aos seus instrumentos, será gradualmente possível irradiar a paz, desde o centro luminoso para as escuras periferias. Neste processo podemos recorrer à ajuda temporária de muitas faces menores; certo estoicismo, certa calma filosófica, certa exaltação religiosa, podem nos ajudar a nos aproximar de nossa meta; ou podemos apelar também aos poderes menos efetivos e elevados, porém úteis, de nossa natureza mental. Ao final, devemos descartá-los ou transformá-los e chegar a uma absoluta igualdade, a uma perfeita e autoexistente paz interior e, se podemos, a um inexpugnável, equilibrado e espontâneo deleite total em todos os nossos membros.

Mas, como é possível, então, que sigamos atuando? No geral, o ser humano atua porque sente um desejo ou experimenta uma necessidade mental, vital ou física; é impulsionado pelas necessidades do corpo, a ambição de riquezas, honras ou fama, ou por um anseio de satisfações pessoais da mente ou do coração, ou por uma ânsia de prazer. Ou bem o move uma necessidade moral ou, pelo menos, a necessidade ou o desejo de fazer que suas ideias, seus ideais, sua vontade, seu grupo, sua pátria ou seus deuses prevaleçam no mundo. Se nenhum destes desejos, ou qualquer outro, pode ser a causa de nossa ação, poderá parecer que não existe já incentivo ou poder impulsionador e que a ação mesma deve necessariamente cessar. O Gita responde com seu terceiro grande segredo da vida divina. Toda ação deve realizar-se numa consciência dirigida para Deus e finalmente possuída por Deus; nossas obras devem ser um sacrifício ao Divino e, ao final, a rendição de todo nosso ser, mente, vontade, coração, sentidos, vida e corpo ao Uno, deve fazer de nosso amor e serviço a Deus nosso único motivo. Esta transformação de nossa força impulsionadora e da essência mesma as obras constitui, sem dúvida alguma, sua ideia central; e é o fundamento de sua magistral síntese das obras, o amor e o conhecimento. Ao final não é o desejo, senão a vontade conscientemente experimentada do Eterno, o que permanece, o único que impulsiona nossa ação e que origina nossa iniciativa.

Igualdade, renúncia de todo nosso desejo de obter o fruto de nossas obras, a ação realizada como um sacrifício ao Senhor Supremo de nossa natureza e de toda a natureza, tais são as três primeiras aproximações a Deus no sistema da Espiritual Via Integrativa do Gita.

Sri Aurobindo, A Síntese da Yoga, Volume 3, Capítulo 3 

Autoconsagração

Toda Espiritual Via Integrativa é em sua essência um novo nascimento; significa emergir do ordinário, da mentalizada vida material do homem para uma maior consciência espiritual e um maior e divino ser. É impossível empreender e seguir exitosamente uma Espiritual Via Integrativa se não se produz um forte despertar à necessidade dessa existência espiritual mais ampla. A alma que é chamada a esta profunda e ampla transformação pode alcançar o ponto de partida de diferentes maneiras. Pode chegar a ela seguindo sua própria evolução natural, que a conduz inconscientemente para o despertar; pode alcançá-la através da influência de uma religião ou a atração de uma filosofia; pode aproximar-se dela por uma lenta iluminação, ou, subitamente, por um contato ou um choque; pode ser empurrada ou guiada até ela pela pressão de circunstâncias exteriores ou por uma necessidade interior, por uma palavra que rompe as ataduras da mente ou por uma larga reflexão, por meio do exemplo longínquo de alguém que já tenha recorrido ao caminho, ou por um contato e influência diários. O chamado chegará de acordo com a natureza e as circunstâncias.

Mas qualquer que seja a forma em que se produza, deve haver uma decisão da mente e da vontade e, como resultado dela, uma completa e efetiva autoconsagração. A aceitação de uma nova ideia-força espiritual e de uma orientação ascendente no ser, uma iluminação, uma mudança ou conversão pela qual se inclina a vontade e ao que aspira o coração, este é o transcendental ato que contém, como numa semente, todos os resultados que a Espiritual Via Integrativa pode produzir. A mera ideia ou a busca intelectual de algo superior, por forte que seja o interesse que a manifeste, não são efetivos a menos que o coração as adote como o único desejável e que a vontade as aceite como a única tarefa a realizar. Posto que a verdade do Espírito deve ser vivida além de ser pensada, e vivê-la exige uma unificada devoção do ser; uma transformação tão tremenda como a que requer a Espiritual Via Integrativa, não pode ser efetuada por uma vontade dividida ou por uma pequena porção da energia, ou por uma mente vacilante. Aquele que aspira ao Divino deve consagrar-se a Deus e só a Ele.

Se a transformação se produz súbita e decisivamente sob uma poderosa influência, já não existe nenhuma dificuldade essencial ou duradoura. A eleição segue ao pensamento, ou ambos se produzem simultaneamente, e a autoconsagração sucede à eleição. Já se está no caminho, ainda quando ao princípio o avanço seja um tanto incerto, e ainda que o caminho seja só se percebido obscuramente e o conhecimento da meta seja imperfeito. O Mestre secreto, a Guia interior, já está atuando, ainda que não se manifeste, ainda que nem apareça na pessoa de seu representante humano. Quaisquer que sejam as dificuldades e dúvidas que possam surgir, não poderão prevalecer sobre o poder da experiência que tenha feito mudar o curso da corrente da vida. O chamado, quando é decisivo, persiste; o que nasceu já não pode ser afogado. Ainda quando a força das circunstâncias impeça a princípio, um avanço regular ou uma total auto-consagração efetiva, a mente que já tenha decidido seu rumo e persista em seu principal objetivo e volte a ele com um efeito cada vez maior. Existe uma inescapável persistência do ser interior e, contra ela, as circunstâncias são impotentes e nenhuma debilidade da natureza pode constituir um obstáculo durante muito tempo.

Mas esta não é sempre o modo em que se começa. Com frequência, o praticante é conduzido gradualmente, e há um largo intervalo entre a primeira conversão da mente e a total aceitação por parte da natureza daquilo a que ela aspira. A princípio, pode existir só um vivo interesse intelectual, uma forte atração para a ideia e alguma imperfeita forma de prática. Ou, talvez, haja um esforço não compartilhado por toda a natureza, uma decisão ou uma mudança imposta por uma influência intelectual, ou ditado pelo afeto e a admiração pessoais por alguém que já tenha se consagrado e dedicado ao Supremo. Em tais circunstâncias, pode ser necessário um largo período de preparação antes que se produza a irrevogável consagração; e, em alguns casos, está pode produzir-se. Realiza-se algum avanço, realiza-se um poderoso esforço, muita purificação e muitas experiências distintas das centrais ou supremas; mas a vida se gasta em preparações ou bem a mente alcança uma certa etapa, e, a causa de uma força impulsora deficiente, se contenta com permanecer no limite do esforço possível. Ou pode produzir-se uma regressão à vida inferior, o que em linguagem corrente da Espiritual Via Integrativa se conhece como um distanciar-se do caminho. Isto ocorre quando existe um defeito no mesmo centro. O intelecto se encontrava interessado, o coração se sentia atraído, a vontade se havia preparado para o esforço, mas a natureza total não havia se entregado ao Divino. Só havia aceitado o interesse, a atração ou o esforço. Não se trata mais de um experimento, talvez intenso, mas não de uma total autoentrega e uma necessidade imperativa da alma ou a um ideal impostergável. Mas nem sequer uma Espiritual Via Integrativa tão imperfeita pode considerar-se mal gasto; porque nenhum esforço para o alto se realiza em vão. Ainda que fracasse no presente, ou chegue apenas a alguma etapa preparatória ou a uma realização preliminar, basta para determinar o futuro da alma.

Mas se desejamos aproveitar ao máximo a oportunidade que esta vida nos brinda, se queremos responder na forma adequada ao chamado que temos recebido e alcançar a meta que temos entrevisto, e não tão só avançar um pouco acima dela, é essencial que se produza uma total autoentrega. O segredo do êxito na Espiritual Via Integrativa reside em considerar essa entrega como um dos fins que se perseguem na vida, senão como a totalidade da vida.

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E posto que a Espiritual Via Integrativa consiste em sua essência em afastar-se da vida material e animal ordinária que levam a maioria dos homens, ou da forma de vida mais intelectual, porém sempre limitada que adota uma minoria, para entrar numa vida espiritual mais ampla, à forma divina, cada porção de nossas energias que dediquemos à existência inferior no espírito dessa existência, está em contradição com nossa meta e com nossa autodedicação. A sua vez, toda energia ou atividade que possamos afastar de sua obediência ao inferior e dedicar ao superior significa um avanço em nosso caminho e uma vitória sobre os poderes que se opõem ao nosso progresso. A fonte de todos os tropeços que se produzem no caminho da Espiritual Via Integrativa é, precisamente, a dificuldade desta conversão total. Porque toda nossa natureza e seu âmbito, todo nosso ser pessoal e universal, estão cheios de hábitos e influências que se opõem a nosso nascimento espiritual e colocam em perigo a integridade de nosso empenho. Em certo sentido, não somos mais que uma complexa massa de hábitos mentais, nervosos e físicos que se mantém unidos por uns poucos desejos, ideias e associações predominantes, uma amálgama de muitas pequenas forças que se autorrepetem com umas poucas vibrações maiores. O que tentamos realizar em nossa Espiritual Via Integrativa é nada menos que acabar com toda a formação passada e presente que constitui ao homem material e mental comum, e criar um novo centro de visão e um novo universo de atividades em nós mesmos, que constituirá uma humanidade divina ou uma natureza superhumana.

O que se necessita em primeiro termo é dissolver a fé e a visão centrais da mente que concentram a atenção desta em sua evolução, em sua satisfação e em seus interesses nas antigas formas externalizadas. É imperativo transformar esta orientação superficial numa fé e numa visão mais profundas que só vem com o Divino e unicamente aspiram ao Divino. O seguinte passo consiste em obrigar a todo nosso ser inferior a acatar a nova fé e essa visão mais ampla. Toda nossa natureza deve efetuar uma rendição integral; deve oferecer-se em cada uma de suas partes e movimentos Àquilo que para a mente sensorial não regenerada, parece muito menos real que o mundo material e seus objetos. Todo nosso ser — alma, mente, sentidos, coração, vontade, vida, corpo — deve consagrar todas suas energias, de forma tão total que se converta num veículo adequado para o Divino. Não é uma tarefa fácil; porque tudo no mundo obedece o hábito fixo que é sua lei e se resiste a uma mudança radical. E nenhuma mudança pode ser mais radical que a revolução que se tenta na Espiritual Via Integrativa integral. Tudo em nós é constantemente reclamado pela fé, a vontade e a visão centrais. Devermos recordar a cada um de nossos pensamentos e impulsos que “Aquele  é o Brahman divino, e não este que os homens adoram”. Devemos persuadir a todas as nossas fibras vitais a aceitar uma absoluta renúncia de tudo o que, até o momento, representou para elas sua própria existência. A mente deve parar de ser e brilhar com a luz de algo que está mais além da mente. A vida tem que converter-se em algo vasto e calmo, intenso e poderoso, que já não pode aceitar seu antigo e cego ser, estreito e ansioso, ou seus mesquinhos impulsos e desejos. Até o corpo deve submeter-se a uma mutação e deixar de ser um tumultuoso animal ou um vacilante nódulo que é agora, e converter-se, em mudança, num consciente servente, um radiante instrumento e uma forma viva do espírito.

É natural que a dificuldade da empreitada tenha levado a persecução de fáceis e terminantes soluções; tenha originado e afirmado profundamente a tendência de religiões e escolas espirituais a separar a vida mundana da interior. Consideram que os poderes deste mundo e suas atividades reais não pertencem a Deus em absoluto, ou que constituem, por algum motivo obscuro e desconcertante — Maya, ou outro — uma misteriosa contradição da Verdade divina. E, por sua vez, sustentam que os poderes da Verdade e suas atividades ideais pertencem a um plano de consciência distinto daquele outro, obscuro, ignorante e perverso em seus impulsos e forças, sobre o que se fundamenta a vida da terra. Aparece de imediato a antinomia de um reino de Deus puro e luminoso e o reino impuro e obscuro do demônio; sentimos a oposição que existe entre nosso nascimento e a vida terrena e uma exaltada consciência espiritual de Deus; nos convencemos de imediato da incompatibilidade da sujeição da vida a Maya e a concentração da alma na pura existência no Ser Supremo. A solução mais fácil consiste em afastar-se de tudo o que corresponde a uma forma de vida e chegar, transcender por uma dura e íngreme inclinação, a outra. Surge assim a atração e, segundo parece, a necessidade do princípio de concentração exclusiva que desempenha um papel tão proeminente nas escolas especializadas da Espiritual Via Integrativa; porque através da concentração podemos chegar, por meio de uma inflexível renúncia do mundo, a uma total autoconsagração Àquele em quem nos concentramos. Já não nos vemos forçados a obrigar a todas as atividades inferiores ao difícil reconhecimento de uma nova e mais alta vida espiritualizada, e a convertê-las em seus agentes ou poderes executivos. Basta suprimi-las ou calá-las e manter só as poucas energias necessárias, por um lado, para a manutenção do corpo, e por outro, para a comunicação com o Divino.

A finalidade e concepção de uma Espiritual Via Integrativa integral nos impedem adotar este simples e enérgico processo. A esperança de uma transformação integral nos proíbe de tomar um atalho ou aliviar-nos para a corrida arrojando a um lado que nos incomoda. Posto que o que nos propomos é conquistar o mundo e a nós mesmos para Deus; estamos decididos a dar-lhe, não só nosso ser, senão também nossa transformação, e não simplesmente trazer o espírito puro e desnudo como uma estéril oferenda a uma Divindade remota e secreta num céu distante, ou destruir tudo o que somos em holocausto a um Absoluto imóvel. O Divino que adoramos não é tão só uma remota Realidade extra-cósmica, senão uma semivelada Manifestação presente e ao redor de nós, aqui no Universo. A vida é o campo de uma manifestação divina que ainda não está completa; aqui, na vida, na terra, no corpo — segundo insistem os Upanishads — devemos remover o véu que cobre a Divindade; aqui temos que fazer reais a nossa consciência sua transcendente grandeza, sua luz e sua doçura; aqui é que devemos possuí-la e aqui, até onde for possível, expressá-la. Temos, portanto, que aceitar a vida em nossa Espiritual Via Integrativa para poder transmutá-la; não está proibido esquivar as dificuldades que esta aceitação pode adicionar a nossa luta. Nossa compensação consiste em que, ainda que o caminho seja mais áspero, o esforço mais complexo e desconcertantemente árduo, obtemos depois de um certo ponto uma imensa vantagem. Porque uma vez que nossa mente está razoavelmente fixada na visão central e nossa vontade totalmente dedicada a um único propósito, a Vida acode em nossa ajuda. Atentos, vigilantes e integramente conscientes, podemos utilizar cada detalhe de suas formas e cada incidente de seu movimento para o Fogo sacrificador que arde em nosso interior. Vitoriosos na luta, podemos obrigar a mesma Terra a constituir uma ajuda para nossa perfeição e podemos enriquecer nossa realização com o saque arrancado aos poderes que a nós se opunham.

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Existe ainda outra direção pela qual a prática ordinária da Espiritual Via Integrativa segue a uma útil, porém limitada, simplificação que está vedada ao praticante da finalidade integral. A prática da Espiritual Via Integrativa nos desafia com a extraordinária complexidade de nosso próprio ser, a estimulante, porém também desconcertante multiplicidade de nossa personalidade, a rica e infinita confusão da Natureza. Para o homem comum que vive superficialmente, ignorante das profundidades de seu ser e da vastidão que se oculta atrás do véu, sua própria existência psicológica é bastante simples. Um pequeno, porém, tumultuoso conjunto de desejos, alguns anseios intelectuais e estéticos imperativo, certos gostos, umas poucas ideias proeminentes entre uma grande corrente de pensamentos triviais, desconexos ou mal relacionados, um número de necessidades vitais, mais ou menos imperativas, alterações de saúde e enfermidades físicas, uma desordenada e inconsciente sucessão de alegrias e pesares, frequentes perturbações e vicissitudes menores, e fortes buscas e transtornos da mete e do corpo, e através de tudo isso a Natureza, em parte com a ajuda de seu pensamento e de sua vontade, e em parte sem ela, ou apesar dela, que acomoda todos estes elementos de alguma maneira improvisada e prática, impondo uma certa tolerável ordem desagradável — este é o material de sua existência. O ser humano corrente é, ainda agora, tão tosco e pouco evoluído em sua vida interior como o era o homem primitivo em sua vida exterior. Mas, logo que aprofundamos em nós mesmos — e a Espiritual Via Integrativa significa precisamente um mergulho em nossas múltiplas profundidades da alma —, nos encontramos subjetivamente, tal como o homem, em seu crescimento, foi encontrado objetivamente, rodeado por todo um mundo complexo que devemos conhecer e conquistar.

O descobrimento mais desconcertante é o de que cada uma de nossas partes — intelecto, vontade, mente sensorial, o ser emocional ou de desejo, coração, corpo — tem sua própria individualidade complexa e uma formação natural independente do resto; nenhuma delas concorda consigo mesma ou com outras, ou com o ego representativo,que é a sombra que joga algum ser central e centralizador sobre nossa ignorância superficial. Descobrimos que não estamos compostos por uma, senão por muitas personalidades, e que cada uma destas possui suas próprias exigências e distinta natureza. Nosso ser é um caos grosseiramente constituído, nele que devemos introduzir o princípio de uma ordem divina. Mais ainda, nos encontramos com que tampouco em nosso interior estamos sós no mundo; o marcado isolamento de nosso ego não era mais que uma forte imposição e um engano; não existimos em nós mesmos, não vivemos realmente afastados numa solidão ou num isolamento interno. Nossa mente é uma máquina que recebe, desenvolve e modifica, e por ela que passa constantemente, de momento a momento, um incessante fluxo estranho, uma pesada massa de materiais dispares, que vem de cima, de baixo, de fora. Muito mais que a metade de nossos pensamentos e sentimentos não nos pertencem, no sentido de que tomam forma , fora de nós mesmos; na realidade, pode-se dizer que nada se origina verdadeiramente em nossa natureza. Recebemos uma grande parte de outros seres ou do meio ambiente, seja como matéria prima ou como produtos manufaturados; mas, em sua maioria, procedem da Natureza universal, aqui ou em outros mundos e planos, e de seus seres, poderes e influências; porque estamos rodeados por outros planos de consciência, planos mentais, vitais, sutis planos de matéria, dos quais se alimentam nossa vida e ação aqui, ou que se alimentam de nossa vida e ação, as pressionam, dominam e utilizam para a manifestação de suas formas e forças. Esta complexidade e esta múltipla receptividade e sujeição à corrente de energias do universo, aumenta enormemente a dificuldade de nossa salvação individual. Devemos tomar em conta tudo isto, lutar com isso, descobrir qual é o material secreto de nossa natureza e de seus movimentos constituintes e resultantes, e criar nela um centro divino, uma verdadeira harmonia e uma luminosa ordem.

O método que se utiliza nos caminhos ordinários da Espiritual Via Integrativa para tratar estes materiais conflituosos é direto e simples. Elegemos como único meio de realizar o Divino, um qualquer das principais forças psicológicas que atuam em nós, o resto é mortificado até a inércia, ou abandonado a sua própria pequenez. O devoto, apoderando-se das forças emocionais do ser e das intensas atividades do coração, habita concentrado no amor a Deus, acumulado numa única língua de fogo; é indiferente às atividades do pensamento, não dá ouvidos à insistência da razão e ignora a sede mental por conhecimento. Não necessita mais conhecimento que sua fé e as inspirações que surgem de um coração que está em comunhão com o Divino. Não apoia nenhuma intenção da vontade que não esteja dirigida à adoração direta do Amado ou ao serviço da obra. O homem de Conhecimento, limitado por uma deliberada escolha à força e atividades do pensamento discriminativo, encontra saída no esforço mental dirigido ao interior. Se concentra na ideia do ser, realiza, graças a um sutil discernimento interior, distinguir sua silenciosa presença entre as atividades da Natureza que a ocultam e, por meio da ideia perceptiva, segue rumo a concreta experiência espiritual. É indiferente ao jogo das emoções, surdo ao chamado da paixão, fechado às atividades da Vida e mais feliz será quando antes de se afastarem dele e o deixarem livre, imóvel e silencioso, o eterno passivo. O corpo é seu maior obstáculo, as funções vitais, seus piores inimigos; sua maior fortuna consiste em realizar a máxima redução de suas exigências. Elimina as infinitas dificuldades que surgem do mundo que o cerca, levantando contra elas uma firme, densa e exterior solidão física, e uma interior solidão espiritual; a salvo, por detrás da muralha de silêncio interior, permanece impassível e inalcançável para o mundo e os demais. A tendência destas Espirituais Vias Integrativas é estar só consigo mesmo e com o Divino, marchar isolado com Deus e seus devotos; entrincheirar-se num único esforço para dentro, ou numa paixão do coração dirigida a Deus. O problema se resolve extirpando tudo menos a dificuldade central que persegue a única força impulsora escolhida; entre os contraditórios chamados de nossa natureza, o princípio de uma concentração exclusiva acode soberanamente em nosso resgate.

Mas esta solidão, seja interior ou exterior, só pode constituir incidentes ou períodos no progresso espiritual do praticante da Espiritual Via Integrativa integral. Ao aceitar a vida, tem que suportar não só sua própria carga, senão, também, uma grande parte da carga do mundo, como continuação da própria e já bastante pesada. Portanto, sua Espiritual Via Integrativa participa muito mais da natureza de uma batalha que os outros; e não se trata tão só de uma batalha individual, senão uma guerra coletiva de considerável importância. Não só deve derrotar em si mesmo as forças da falsidade egoísta e a desordem, senão também conquistá-las como representantes das mesmas e inacabáveis forças no mundo. Este caráter representativo lhe dá uma capacidade muito mais obstinada de resistência, um quase infinito direito de repetição. O praticante descobre com frequência, que ainda quando tenha vencido persistentemente sua própria batalha pessoal, todavia tem que vencê-la, uma e outra vez, numa guerra aparentemente interminável, porque sua existência interior já é tão ampla que, não só contem seu próprio ser com suas bem definidas necessidades e experiências, senão que também se tenha feito solidário com outros seres porque contém em si mesmo ao universo.

Nem tampouco pode aquele que busca uma realização integral, resolver demasiado arbitrariamente o conflito de seus próprios membros internos. Deve harmonizar o conhecimento deliberado com uma fé não comovível; tem eu conciliar a terna alma do amor com a tremenda necessidade de poder; a passividade da alma que vive satisfeita numa calma transcendente, deve fundir-se com a atividade da ajuda divina e do guerreiro divino. Ele, como todos os que aspiram ao espírito, deve resolver os problemas que lhe colocam as oposições da razão, o poder dos sentidos, as perturbações do coração, a emboscada dos desejos, a carga do corpo físico; mas deve lutar de outra maneira com seus muitos conflitos internos e com o obstáculo que estes representam para seu fim, porque tem que chegar a uma perfeição infinitamente mais difícil no manejo destes rebeles materiais. Ao aceitá-los como instrumentos para a realização e a manifestação divina, tem que acabar com suas ruidosas discórdias, iluminar sua densa escuridão, transfigurá-los separadamente e em conjunto, harmonizá-los em si mesmo e com os demais, de forma integral, sem omitir um grão, um fio, uma vibração, sem deixar um ápice de imperfeição em nenhuma parte. Uma concentração exclusiva ou, inclusive, uma sucessão de concentrações deste tipo, só podem ser de utilidade temporária em sua complexa tarefa; deve abandonar-se quando deixa de ser útil. Uma concentração que a tudo inclui é a difícil meta que deve se esforçar para alcançar.

A concentração é, sem dúvida alguma, a primeira condição de qualquer Espiritual Via Integrativa, mas a que constitui a essência mesma da Espiritual Via Integrativa integral consiste numa concentração receptiva. Uma forte fixação única do pensamento, das emoções ou da vontade, numa ideia única, objeto, estado, movimento interno ou princípio, é também aqui uma necessidade sem dúvida frequente, mas constitui nada mais que um útil processo subsidiário. A vasta ação desta Espiritual Via Integrativa, sem a qual não se pode realizar seu propósito, consiste numa ampla e sólida abertura, uma harmoniosa concentração de todo o ser, em todas as suas partes e por meio de todos seus poderes, Naquele que é o Todo. Porque aspiramos que a consciência descanse Naquele e que atue no Todo; essa aspiração é o que tratamos de impor a cada um dos elementos de nosso ser e a cada movimento de nossa natureza. Esta ampla e concentrada totalidade é o caráter essencial da prática espiritual, e seu caráter deve determinar a prática.

Mas ainda que a concentração de todo o ser no Divino constitui o caráter da Espiritual Via Integrativa, nosso ser é algo demasiado complexo para que tomemos posse dele com facilidade e de uma só vez, como se tomássemos o mundo com as mãos, e o consagrássemos a uma única tarefa. Em seu esforço de autotranscendência, o homem tem que fazer uso, geralmente, de alguma mola ou de uma poderosa alavanca na complicada máquina de sua natureza; esta mola ou alavanca é escolhida com preferência as demais e se utiliza para colocar a máquina em movimento para a finalidade a que se propõe. Nesta escolha, sua guia deve ser a própria Natureza, mas em sua manifestação mais elevada e ampla e não em algum limitante movimento inferior. O desejo é a alavanca mais poderosa da Natureza em suas atividades vitais inferiores; mas o que distingue ao homem, é precisamente seu caráter mental e não meramente vital. Assim como pode usar sua mente pensante para reprimir e corrigir seus impulsos vitais, também pode colocar em ação uma mentalidade mais alta e luminosa, auxiliada por sua alma profunda, o ser psíquico, e substituir com estes poderes impulsores, maiores e puros, o domínio da força vital e sensorial que chamamos desejo. Pode dominá-la totalmente ou modificá-la e oferecê-la a seu divino Mestre para sua transformação. Esta mentalidade superior e esta alma mais profunda, o elemento psíquico no homem, constituem os dois meios que o Divino pode utilizar para dominar sua natureza.

A mente superior do homem é algo distinto, mas sublime e puro, mais amplo e poderoso, que a razão ou a inteligência lógica. O animal é um ser sensorial e vital; é dito que o homem se distingue daquele pela posse da razão. Mas esta é uma muito sumária, imperfeita e enganosa visão dos fatos, porque não é mais que uma atividade utilitária e instrumental, particular e limitada, que provem de algo muito maior que ela mesma, de um poder que habita num éter mais luminoso, amplo e ilimitado. A verdadeira e fundamental importância, em oposição à imediata ou intermediária, da inteligência que observa, raciocina, investiga e julga, reside em preparar o ser humano para a verdadeira recepção e ação de uma Luz do ato que deve substituir progressivamente nele a escura luz que guia o animal desde os níveis inferiores. O animal também possui uma razão rudimentar, uma espécie de pensamento, uma alma, uma vontade e forte emoções; ainda que menos desenvolvida, sua psicologia é da mesma espécie que a do homem. Mas todas estas capacidades do animal estão automaticamente manejadas, estritamente limitadas, e inclusive constituídas, pelo inferior ser emocional. Todas as percepções, sensibilidades e atividades animais estão governadas por instintos nervosos e vitais, por anseios, necessidades e satisfações cujo nexo som o impulso e o desejo vitais. O homem também está sujeito, porém, menos que o animal, a este automatismo da natureza vital. O homem pode contribuir com uma vontade, um pensamento e emoções esclarecedoras, à difícil tarefa de realizar sua autoevolução; pode subordinar mais e mais a função inferior do desejo a estas guias mais conscientes e reflexivas. Na medida em que consegue dominar e iluminar seu ser inferior, é um homem, e não um animal. Quando pode começar a substituir totalmente o desejo por um pensamento, uma visão e uma vontade mais amplas e luminosas e em contato com o Infinito, conscientemente submetido a uma vontade mais divina que a própria, e ligado a um conhecimento mais universal e transcendente, iniciou a ascensão para o super-homem; encontrou o caminho para o Divino.

Portanto, a princípio, na mais alta esfera do pensamento, luz e vontade, ou no coração interior do sentimento e a emoção mais profundos, devemos centralizar nossa consciência — em qualquer deles e, se pudermos, em ambos — e utilizá-los como nossa alavanca para elevar toda a natureza para o Divino. O ponto de partida da Espiritual Via Integrativa é a concentração do pensamento, a vontade e o coração iluminados e dirigidos em uníssono, para uma vasta meta de nosso conhecimento, uma luminosa e infinita fonte de nossa ação, um imperecível objeto de nossa emoção. O objeto de nossa busca deve ser a mesma fonte da Luz que cresce em nós, a origem mesma da Força a qual apelamos para colocar em movimento nossos membros. Nosso único objetivo deve ser o Divino mesmo, ao qual, sabendo ou não, algo em nossa natureza secreta sempre aspira. Deve existir uma concentração ampla e múltipla e, sem dúvida, única de pensamento na ideia, na percepção e na visão, no toque que coloca em alerta, na realização da alma do Divino. Deve existir uma apaixonada concentração do coração no Todo e no Eterno e, quando o tivermos encontrado, uma profunda imersão na posse e êxtase do Absolutamente Belo. Deve existir uma poderosa e não comovível concentração da vontade na realização e a conquista de tudo o que o Divino é, e uma livre e plástica aceitação por parte da vontade de tudo o que trata de manifestar em nós. Este é o caminho triplo da Espiritual Via Unitiva.

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Mas, como podemos nos concentrar em algo que ainda não conhecemos? E, sem dúvida, não podemos conhecer o Divino a menos que tenhamos conquistado esta concentração de nosso ser nele. Uma concentração que culmina numa realização viva e no sentido constante de sua presença em nós e em tudo o que percebemos — tal o que se entende na Espiritual Via Integrativa por conhecimento e por esforço depois do conhecimento. Não basta em nos dedicarmos a uma compreensão intelectual do Divino, por meio da leitura da Escritura ou do esforço do raciocínio filosófico; porque ao final de nosso largo labor mental poderemos saber tudo o que tem sido dito a respeito do Eterno, e possuir tudo o que tem sido pensado sobre o Infinito e, sem dúvida, a primeira etapa de uma poderosa Espiritual Via Integrativa, porém não indispensável; não é um passo que todos necessitamos dar ou que nos pode ser exigido. A Espiritual Via Integrativa seria impossível, salvo para uns poucos, se a figura intelectual do conhecimento a que se chega pela Razão especulativa ou meditativa, fosse sua condição indispensável ou sua imperiosa etapa preliminar. Tudo o que a Luz exige de nós para poder iniciar a sua tarefa, é um chamado da alma e um ponto de apoio suficiente na mente. Este apoio só pode ser alcançado por meio de uma insistente ideia do Divino no pensamento, uma correspondente vontade das partes dinâmicas e uma aspiração, uma fé, uma necessidade no coração. Qualquer destes elementos pode predominar, mostra-se impossível que todos atuem em harmonia e com igual ritmo. A ideia pode ser, e será quase sempre a princípio, inadequada; a aspiração pode ser estreita e imperfeita, a fé, pobremente iluminada ou, se não está solidamente fundamentada no solo do conhecimento, flutuante, incerta, facilmente diminuída; com frequência se extingue e há que ser novamente acesa e com dificuldade, como uma tocha em um local com muito vento. Mas uma vez que se consegue uma efetiva autoconsagração em nosso profundo interior, quando há uma resposta ao chamado da alma, estes elementos inadequados podem constituir um instrumento apropriado para o propósito divino. É por isso que os homens sensatos nunca querem limitar os caminhos do ser humano para deus; nunca tentaram impedir sua entrada pelo mais estreito dos portais, o mais escuro e baixo túnel ou o mais humilde portão. Consideram que qualquer nome, qualquer símbolo ou oferenda é suficiente se é acompanhado pela consagração; porque o Divino se reconhece a si mesmo no coração de quem o busca e aceita o sacrifício.

Mas, ainda assim, quanto maior e mais ampla seja a ideia-força motora que impulsiona a consagração, tanto melhor para aquele que aspira ao Divino; sua realização será mais plena e mais vasta. Se aspiramos a uma Espiritual Via Integrativa integral, o melhor será começar com uma ideia do Divino, que seja também integral. Deve existir uma aspiração no coração que seja suficiente ampla para uma realização sem estreitos limites. Não só devemos evitar uma perspectiva religiosa sectária, senão, também, todas as concepções filosóficas unilaterais que tentam encerrar o Inefável numa restringida fórmula mental. A melhor concepção dinâmica, ou sentido impulsionador, para começar nossa Espiritual Via Integrativa seria, naturalmente, a ideia, o sentido, de um Infinito consciente que tudo abarca, mas que tudo o excede. Nossa meta deve ser um Uno e Unidade livre, todo-poderoso perfeito e feliz, em que todos os seres se movem e vivem, e através do qual todos podemos nos encontrar e nos converter em um. Este Eterno é, por sua vez, pessoal e impessoal em sua autorrevelação e no contato com a alma. É pessoal porque é o Divino consciente, a Pessoa Infinita que lança certos reflexos descontínuos nas milhares de personalidades divinas e não divinas do universo. É impessoal porque aparece a nós como uma Existência, Consciência e Bem-Aventurança infinitas, e porque é a base, fonte e constituinte de todas as existências e todas as energias, o material mesmo de nosso ser, nossa mente, vida e corpo, nosso espírito e nossa matéria. O pensamento, ao nele se concentrar, não deve limitar-se a compreender de uma forma intelectual que ele existe, ou concebê-lo como uma abstração ou uma necessidade lógica; deve também converter-se num pensamento que vê, capaz de descobri-lo aqui como o Morador de tudo e realizá-lo em nós mesmos, de observá-lo e dirigir o movimento de suas forças. Ele é a única Existência; é o Deleite original e universal que constitui todas as coisas e as excede; é a única Consciência Infinita que compõe todas as consciências e anima todos seus movimentos; e é o único e ilimitável Ser que sustenta toda ação e experiência; sua vontade guia a evolução das coisas para sua meta e plenitude, ainda não realizadas, porém, inevitáveis. O coração pode consagrar-se a ele, aproximar-se como que do supremo Amado, bater e mover-se nele como numa doçura universal de Amor e um mar vivo de Deleite. Porque sua é a Alegria secreta que sustenta a alma em todas as suas experiências e mantém o errático ego em suas lutas e provas, até o desaparecimento de toda pena e todo sofrimento. Seus são o Amor e a Felicidade do Amante infinito e divino que conduz todas as coisas por seu próprio caminho para sua feliz unidade. A Vontade pode escolhe-lo inalteravelmente como o Poder invisível que o guia e o preenche, e como a fonte de sua própria força. Na impessoalidade deste Poder em ação, se acha uma Força auto-iluminada que contém todos os resultados e atua com calma até que realiza, na personalidade, um sábio e onipotente Mestre da Espiritual Via Integrativa, a quem nada poderá impedir conduzir até sua meta. Esta é a fé com que aquele que aspira ao Divino deve começar sua busca e seu esforço; visto que em todo seu esforço aqui, mas mais que nada em seu esforço para o Invisível, o homem mental deve necessariamente proceder pela fé. Quando chega a realização, a fé divinamente preenchida e completada será transformada numa chama eterna de conhecimento.

É natural que, a princípio, o elemento inferior do desejo intervenha em nosso empenho para o alto. Porque o que a vontade iluminada vê como a coisa a realizar, e persegue como a coroa a conquistar, o que o coração abraça coo o único que deleita, aquilo em nós que se sente limitado e antagonizado e, porque se sente limitado, suplica e luta, buscará o Divino com a turbulenta paixão de um desejo egoísta. No começo, devemos aceitar esta ansiosa força vital, ou alma de desejo em nós, mas só para poder transformá-la. Desde o início há que ensinar-lhe a renunciar todos os outros desejos e a concentrar-se na paixão pelo Divino. Uma vez obtido este resultado capital, devemos ensinar-lhe a desejar, não para si mesma, senão para Deus no mundo e para o Divino em nós mesmos; não deve concentrar-se em nenhum benefício espiritual pessoal, ainda que estejamos seguros de todos os possíveis benefícios espirituais, senão na enorme tarefa a realizar em nós e nos demais, na alta manifestação iminente que será a gloriosa realização do Divino no mundo, na Verdade que deve ser buscada, vivida e entronizada para sempre. Mas, por último, há que inculcar-lhe algo mais difícil que uma finalidade elevada, isto é, tem que aprender a buscar de maneira adequada; porque deve chegar a desejar segundo a maneira do Divino e não em sua própria forma egoísta. Já não deve insistir, como sempre fez a poderosa vontade separativa, em sua própria forma de realização, seu próprio sonho de posse, sua própria ideia de bom e o desejável; deve ansiar a conquista de uma Vontade maior e mais ampla e deve consentir em obedecer a uma guia menos interessada e ignorante. Assim adestrado, o Desejo, esse inquieto atormentador e perturbador do homem, estará em condições de ser transformado em sua contraparte divina. Porque o desejo e a paixão tem também formas divinas; há um puro êxtase na alma que busca mais além de todo anseio e de toda dor; existe uma Vontade de Bem-Aventurança glorificada na posse das supremas beatitudes.

Uma vez que o objeto da concentração tenha possuído os três instrumentos condutores — o pensamento, o coração e a vontade, e tenha sido possuído por eles —, consumação que só é totalmente possível quando a alma de desejo em nós, tenha se submetido à Lei Divina — pode realizar-se efetivamente a perfeição da mente, a vida e o corpo, em nossa natureza transmutada. Tudo isto se faz, não para a satisfação pessoal do ego, senão para que o todo possa construir um templo adequado para a Presença Divina, um perfeito instrumento da ação divina. Porque a tarefa só pode ser levada efetivamente a cabo quando o instrumento, consagrado e prontificado, tenha chegado a ser apropriado para a ação generosa — e isso ocorrerá quando o desejo e o egoísmo pessoais, e não o indivíduo liberado, sejam abolidos. Ainda quando o mesquinho ego tenha sido sufocado, a verdadeira Pessoa Espiritual pode permitir, assim como a vontade, a ação e o deleite de Deus nela, e o uso espiritual de sua perfeição e realização. Então nossas obras serão divinas e as faremos em forma divina; nossa mente, vontade e vida, dedicadas ao Divino, serão utilizadas para contribuir a realizar, noutros e no mundo, o que tenha sido realizado primeiramente em nós mesmos — tudo o que podemos manifestar da Unidade, Amor, Liberdade, Força, Poder, Esplendor e Alegria imortal, que é a meta da aventura terrestre do espírito.

A Espiritual Via Integrativa deve começar com um esforço ou, pelo menos, uma firme inclinação para essa total concentração. É exigido de nós uma constante e indeclinável vontade de consagração de nosso ser ao supremo, uma oferenda de nosso ser e de nossa múltipla natureza ao Eterno que é o Todo. A efetiva plenitude de nossa concentração na única coisa necessária, com exclusão de tudo o mais, constitui a medida de nossa consagração ao Único desejável. O único que não será incluído é a falsidade de nossa visão do mundo e a ignorância de nossa vontade. Porque a mente consumará nossa concentração no Eterno quando vemos constantemente o Divino em si mesmo e em nós, mas também em todas as coisas, seres e fatos. Será consumada pelo coração quando todas as emoções se resumam no amor ao Divino, ao Divino mesmo e por si mesmo, mas também o amor ao Divino em todos os seus seres, poderes, personalidades e formas no Universo. Será consumada pela vontade quando sintamos e recebamos sempre o impulso divino e o aceitemos como nossa única força motora; mas esta vontade significa que, havendo derrotado ao último dos erráticos impulsos da natureza egoísta, nos vemos universalizado e podemos aceitar constante e alegremente, só a função divina em todas as coisas. Este é o primeiro poder fundamental da Espiritual Via Integrativa holística.

A isto nos referimos quando falamos da absoluta consagração do indivíduo ao Divino. Mas esta plenitude total da consagração, só pode ser produzida por meio de uma constante progressão, quando o largo e difícil processo de eliminar o desejo da existência, se completa numa considerável medida. A perfeita consagração implica numa perfeita autorrendição.

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Existem aqui dois movimentos, dos períodos desta Espiritual Via Integrativa separados por uma etapa de transição, um é o processo de rendição, e o outro seu premio e consequência. No primeiro, o indivíduo se prepara para a recepção do Divino em seus membros. Durante este primeiro período, deve utilizar os instrumentos da Natureza inferior, mas auxiliado cada vez mais a partir do alto. Mas na etapa de transição que segue a este movimento, nosso esforço pessoal é necessariamente ignorante, diminui cada vez mais e uma Natureza mais elevada começa a atuar; a eterna Energia Divina desce a esta forma limitada de mortalidade e progressivamente a possui e a transmuta. No segundo período, o movimento mais amplo substitui totalmente a primeira ação, que foi indispensável em sua oportunidade; por isto só pode realizar-se quando é completa a autorrendição. A pessoa do ego em nós, não pode transforma-se na natureza do Divino por sua própria força, vontade ou conhecimento, nem por suas próprias virtudes; tudo o que pode fazer é prontificar-se para a transformação e render-se cada vez mais àquela no qual aspira e converte-se. Enquanto o ego atua em nós, nossa ação pessoal pertence — e pertencerá sempre — por sua natureza, aos graus inferiores da existência; é obscura e pouco iluminada, limitada em seu campo, muito parcialmente efetiva em seu poder. Se o que buscamos é uma transformação espiritual, e não uma mera modificação que ilumine nossa natureza, devemos receber a Divina Energia (Shakti) para que efetue essa milagrosa tarefa no indivíduo; porque só ela possui a força necessária, decisiva, sabia e ilimitável. Mas a total substituição da ação pessoal humana pela divina, não é inteiramente possível logo de início. Toda interferência do inferior que falsifique a verdade da ação superior, deve ser inibida ou convertida em inoperante por meio de nossa livre escolha. Exige-se de nós, uma contínua e repetida recusa dos impulsos e falsidades da natureza inferior e um insistente apoio à Verdade, a medida que esta cresce em nossas partes; porque o progressivo estabelecimento em nossa natureza e a perfeição final da Luz, Pureza e Poder que se derramam em nosso interior e nos modelam, necessitam de nossa livre aceitação e nossa inflexível recusa de tudo o que seja inferior, tudo o que se lhe oponha ou seja incompatível com eles para sua evolução e mantenimento.

No primeiro movimento de auto-prontificação, o período do esforço pessoal, devemos utilizar como método, esta concentração de todo o ser no Divino e, como corolário, desta constante recusa, catarse, de tudo o que seja a autêntica Verdade do Divino. Uma total consagração de tudo o que somos — pensamento, sentimento e ação —, será o resultado desta perseverança. A sua vez, esta consagração deve culminar numa autoentrega total ao mais Alto; visto que o símbolo e galardão de sua culminação é a absoluta e total rendição de toda a natureza. Na segunda etapa da Espiritual Via Integrativa, a de transição entre a ação humana e a divina, sobrevém uma crescente passividade purificada e vigilante, uma resposta divina cada vez mais luminosa à Força Divina, e só a ela; e se produz, como resultado, a crescente invasão desde o alto de uma grande ação consciente e milagrosa. No último período não há esforço algum, nenhum método estabelecido ou prática espiritual fixa; o empenho e o autocontrole são substituídos pela transformação natural, simples, poderosa e feliz do casulo de uma natureza terrestre purificada e aperfeiçoada na flor do Divino. Tal é a sucessão natural da ação da Espiritual Via Unitiva.


Estes movimentos nem sempre se sucedem de forma estrita ou absoluta. A segunda etapa começa parcialmente antes da conclusão da primeira; a última ação divina pode manifestar-se esporadicamente, como uma promessa, antes de estabelecer-se normal e definitivamente na natureza. Também existe sempre algo superior e maior que o indivíduo, que o guia para o seu trabalho e esforço pessoais. Com frequência é totalmente consciente durante um tempo e, em algumas partes de seu ser, em forma permanente, desta guia superior que se oculta atrás do véu, e isso pode ocorrer muito antes que toda sua natureza  tenha sido purificada em todas as suas partes do controle inferior indireto. Até pode ocorrer que tenha consciência da guia desde o primeiro momento; sua mente e seu coração, senão todos seus membros, podem responder a esta dominante e penetrante guia com uma certa perfeição inicial, desde os primeiros passos na Espiritual Via Integrativa. Mas o que distingue a etapa de transição, a medida que progride e se aproxima de seu fim, é a ação constante, completa e uniforme do grande controle direto. Esta guia maior e divina, que não é pessoal, indica a crescente maturidade da natureza para a total transformação espiritual. É o inconfundível sinal de que a autoconsagração não só foi aceita desde o princípio, senão também realizada na ação e no poder. O Supremo tem tocado com sua mão luminosa um recipiente humano escolhido para a recepção de sua milagrosa Luz, Poder e Bem-Aventurança.

Sri Aurobindo, A Síntese do Yoga, Vol. III, Capítulo 2 

As Quatro Ajudas

A ação combinada de quatro grandes instrumentos proporciona o melhor meio para a concretização da realização final da Espiritual Via Integrativa, a perfeição a qual conduz à prática da Espiritual Via Integrativa: o primeiro término, o conhecimento das verdades, princípios, poderes e processos que governam a realização-divina; em segundo lugar, uma ação paciente e persistente na direção que indica o conhecimento, o poder de nosso esforço pessoal; em terceiro lugar, elevar nosso conhecimento e esforço até o domínio da experiência espiritual, a sugestão, o exemplo e a influência diretos do Mestre-mentor; por último, a instrumentalidade do Tempo; porque as coisas têm um ciclo de ação e a cada uma corresponde um período de movimento divino.

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O Supremo Tratado da Espiritual Via Integrativa e o eterno Veda que se oculta no coração de todo ser pensante e vivente. O lótus do conhecimento eterno e da perfeição eterna é um casulo fechado e preso dentro de nós. Abre-se rápida ou gradualmente, pétala por pétala, através de sucessivas realizações, uma vez que a mente do homem começa a voltar-se para o Eterno e que seu coração, livre do apego às aparências finitas que o comprimem e limitam, chega a enamorar-se, em qualquer grau, do Infinito. Toda vida, todo pensamento, toda energização das faculdades, todas as experiências, passivas ou ativas, se convertem assim em outros tantos golpes que desintegram as coberturas da alma e eliminam os obstáculos no caminho que leva para a inevitável florescência. Quem escolhe o Infinito, foi escolhido pelo Infinito; recebeu o toque divino sem o qual não há despertar, não há desenvolvimento do espírito e mediante o qual a realização é segura, seja se chega a ela rapidamente, no curso de uma vida humana, ou se a persiga pacientemente através de muitos estados do ciclo da existência no universo manifesto.

Nada pode ser ensinado a mente que não esteja já oculto como conhecimento potencial na alma em implante da criatura. Assim também, toda perfeição da qual é capaz o homem exterior é só uma realização da eterna perfeição do Espírito que está em seu interior. Conhecemos o Divino e nos convertemos no Divino, porque já somos o Divino em nossa secreta natureza. Todo ensinamento é uma revelação; toda transformação, um desenvolvimento. O realizar-se é o segredo; o conhecimento de si e uma consciência cada vez maior constituem os meios e o processo.

O agente usual desta revelação é a Palavra, a coisa ouvida. A Palavra pode chegar-nos seja de dentro ou de fora. Mas, em qualquer dos casos, é só um agente que coloca em movimento o conhecimento oculto. A palavra interior pode ser a expressão de nossa alma mais profunda, que sempre está aberta ao Divino, ou pode ser a palavra do Mestre secreto e universal que faz ninho em todos os corações. Existem casos excepcionais nos quais não é necessário outra, porque todo o resto da Espiritual Via Integrativa é um desenvolvimento sob esse constante toque e essa constante guia; o lótus do conhecimento se abre de dentro sob a influência do fulgor que irradia o Morador do lótus do coração. Grandes, sem dúvida, porém poucos, são aqueles a quem o autoconhecimento, a partir de dentro, basta e não necessitam da influência dominante do livro escrito e de um mestre vivo.

No geral, a Palavra externa, representante do Divino, é necessária como uma ajuda na tarefa de autodesenvolvimento; pode se tratar de uma palavra do passado, ou ainda mais poderosa, vinda de um Mentor vivo. Em alguns casos, esta palavra representativa é tomada somente como uma espécie de desculpa para que o poder interior seja desperto e manifestado; é, por assim dizer, uma concessão do Divino onipotente e onisciente para com a generalidade de uma lei que governa a Natureza. Assim, nos Upanishads foi dito que Krishna, filho de Devaki, que recebeu uma palavra de Rishi Ghora e obteve o conhecimento. Assim Ramakrishna, havendo conquistado a iluminação central por seu próprio esforço interno, aceitou vários mestres nos diferentes caminhos da Espiritual Via Integrativa, porém sempre demonstrou, pela forma e rapidez de sua compreensão, que sua aceitação era uma concessão à regra geral pela qual o conhecimento efetivo deve ser recebido tal como o faz um discípulo de um Mestre.

Mas, o mais comum, a influência representativa ocupa um lugar muito mais importante na vida do praticante. Se a Espiritual Via Integrativa é guiada por um Tratado escrito que se tenha recebido — alguma Palavra do passado que encerra a experiência dos Praticantes anteriores — pode praticar-se por meio do esforço pessoal, de forma correta, com ajuda de um Mentor. O conhecimento espiritual é obtido então através da meditação sobre as verdades ensinadas, e se faz vivo e consciente por sua realização na experiência pessoal; o praticante avança segundo os resultados dos métodos prescritos, ensinados na Escritura ou numa tradição, e é reforçado e esclarecido pelas instruções do Mentor. Esta é uma prática mais limitada, porém segura e efetiva dentro de seus limites, porque segue um caminho trilhado diante de uma meta bem conhecida.

O praticante da Espiritual Via Integrativa deve recordar que todo Tratado escrito, porque maior que seja sua autoridade ou amplidão de seu espírito, não constitui senão uma expressão parcial do Conhecimento eterno. Utilizará uma Escritura, mas nunca se encerrará a ela por maior que esta seja. Quando a Escritura é profunda, universal, ampla, pode exercer sobre ele uma influência de incalculável importância para o mais alto bem. Pode associá-la em sua experiência a seu despertar às maiores verdades e a sua realização das mais altas experiências. Uma Escritura, ou várias sucessivamente, pode governar sua Espiritual Via Integrativa durante longo tempo, se está na linha da grande tradição hindu, o Gita, por exemplo, os Upanishads ou os Vedas. Também a inclusão em seu material de uma experiência ricamente variada das verdades de muitas Escrituras e o enriquecimento do futuro com o melhor do passado, pode constituir numa parte positiva de seu desenvolvimento. Mas sempre deverá ocupar seu lugar, ou melhor ainda, se possível, deve viver sempre e desde o começo, em sua própria alma, mais além da Verdade escrita, mais além de tudo o que tenha ouvido e ouvirá. Porque não se trata do praticante de um livro ou de muitos livros: é o praticante do Infinito.

Outro tipo de Tratado não consiste numa Escritura, senão numa exposição da ciência e dos métodos, dos princípios efetivos e da maneira própria de funcionar do caminho da Espiritual Via Integrativa que o praticante decide seguir. Cada caminho tem seu Tratado, escrito ou tradicional, transmitido de boca em boca através de uma larga linha de Mestres. Na Índia, uma grande autoridade, uma alta personalidade, está comumente associada a um ensinamento escrito ou tradicional. Todas as linhas da Espiritual Via Integrativa se supõem fixas e o Mestre que tenha recebido o Tratado por tradição e o tenha realizado na prática, guia o aprendiz por caminhos imemoriais. Com frequência ouve-se esta observação contra o surgimento de novas práticas, contra um novo ensino espiritual ou contra a adoção de uma nova fórmula: “Não está de acordo com o Tratado”. Mas, nem em teoria nem na verdadeira prática dos Mestres, existe essa rigidez semelhante a uma porta de ferro fechada à verdade, à uma nova revelação, à uma experiência mais ampla. O ensinamento escrito ou tradicional expressa o conhecimento e as experiências de muitos séculos na forma sistematizada, organizada e ao alcance do que se inicia. Sua importância e utilidade são, portanto, imensas. Mas uma grande liberdade de variação e desenvolvimento é sempre praticável. Até um sistema tão altamente científico como o Raja-Yoga, pode-se praticar em distintas direções ao método organizado por Patanjali. Cada um dos três caminhos, Trimâga: O caminho triplo do Conhecimento, da Devoção e do Serviço, se divide em muitos outros que voltam a reunir-se na meta. O conhecimento geral de que depende a Espiritual Via Integrativa é fixo, mas as necessidades e os impulsos da natureza individual devem ser satisfeitas, enquanto que as verdades gerais permanecem firmes e constantes.

Uma Espiritual Via Integrativa, holística e sintética, necessita especialmente ser livre de limitações de qualquer Tratado escrito ou tradicional; posto que uma vez que aceita o conhecimento que recebe do passado, trata de organizá-lo novamente para o presente e o futuro. A condição de sua autoformação é uma absoluta liberdade de experiência e a reconstrução do conhecimento em novos termos e novas combinações. Ao tentar abarcar a totalidade da vida em si mesmo, acha-se, não na situação de um peregrino que segue um caminho até sua meta, senão, neste sentido pelo menos, na situação de quem trata de achar um caminho numa selva virgem. Pois a Espiritual Via Integrativa tem se afastado há muito tempo da vida, e os antigos sistemas que pretendiam abarcá-la, tais como os de nossos antepassados védicos, estão distantes de nós, expressos em termos que já não são acessíveis e encerrados em formas que já não são aplicáveis. Desde então, a humanidade tem seguido avançando na corrente do Tempo eterno e o mesmo problema deve ser enfocado a partir de um novo ponto de partida.

Segundo esta Espiritual Via Integrativa, não só buscamos o Infinito, senão também aspiramos a que o Infinito se implante na vida humana. Portanto, o Tratado de nossa Espiritual Via Integrativa deve assegurar uma infinita liberdade na receptiva alma humana. A livre adaptabilidade na maneira em que o indivíduo aceita o Universal e Transcendente, em si mesmo, é a verdadeira condição para uma plena vida espiritual no homem. Vivekananda, ao assinalar que a unidade de todas as religiões deve expressar-se necessariamente numa crescente variedade de suas formas, disse uma vez que o estado perfeito dessa unidade essencial chegaria quando cada homem tivesse sua própria religião, quando cada homem, sem as limitações impostas por seitas ou formas tradicionais, seguisse a livre autoadaptação de sua natureza em suas relações com o Supremo. Do mesmo modo, pode-se dizer que a perfeição da Espiritual Via Integrativa, se realizará quando cada homem puder seguir seu próprio caminho, o desenvolvimento de sua própria natureza em ascensão para aquilo que transcende a natureza. Porque a liberdade é a lei final e a consumação última.

Entretanto, devem trazer-se certas linhas gerais que podem ajudar a guiar o pensamento e a prática do aprendiz. Mas estas linhas devem constituir, no possível, verdades gerais, manifestações gerais de princípios, amplas e poderosas direções de esforço e desenvolvimento, e não um sistema fixo que deve seguir-se como uma rotina. Todo Tratado é o resultado de experiências passadas e uma ajuda para a futura experiência. Constitui uma ajuda e uma guia parcial. Coloca letreiros, dá nomes aos principais caminhos e as direções já exploradas para que o viajante possa saber para onde e por quais caminhos está avançando.

O resto depende do esforço e da experiência pessoal e do poder do Guia.

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A evolução da experiência em sua rapidez, amplitude, intensidade e no poder de seus resultados, depende primeiramente, tanto no começo do caminho, como muito depois, da aspiração e o esforço pessoal do praticante. O processo da Espiritual Via Integrativa consiste em fazer passar a alma humana do estado egoísta de consciência, que se ocupa das aparências externas e da atração das coisas, para um estado mais elevado no qual o Transcendente e o Universal podem se derramar no molde individual e transformá-lo. O primeiro elemento determinante da realização final é, portanto, a intensidade da conversão, a força que dirige a alma para o interno. O poder de aspiração do coração, a força da vontade, a concentração da mente, a perseverança e a determinação na energia aplicada, constituem a medida dessa intensidade. O praticante ideal deveria poder dizer, segundo a frase bíblica: “Meu ciúme pelo Senhor tem me consumido”. Este ciúme pelo Senhor, é o ciúme da natureza toda por seus divinos resultados, a ânsia do coração pela realização do Divino — o que devora o ego e destrói as limitações de seu molde mesquinho e estreito, e o que permite a plena e ampla recepção daquilo que busca, aquilo que, sendo universal e transcendente, excede e sobrepassa ao ser e a natureza mais amplos e elevados.

Mas este é só um aspecto da força que impulsiona à perfeição. O processo da Espiritual Via Integrativa holística, tem três etapas, não claramente distintas e separadas, senão em certos graus sucessivos. Deve dar-se, primeiro, o esforço para uma auto-transcendência e um contato com o Divino que inicia-se e capacita-se; logo, a recepção do que transcende, aquilo com que temos realizado uma comunhão, em nosso interior para a transformação de todo nosso ser consciente; e por último, a utilização de nossa humanidade transformada como centro divino no mundo. Enquanto o contato com o Divino não esteja estabelecido num grau considerável, enquanto não exista uma certa medida de sistematizada identidade, o elemento do esforço pessoal deve normalmente predominar. Mas, à medida que este contato se estabelece, o praticante deve fazer-se consciente de que uma força distinta da própria, uma força que transcende seu esforço egoísta e sua capacidade, atua em seu interior, e deve aprender a submeter-se progressivamente a este Poder, a entregar-lhe a condução de sua Espiritual Via Integrativa. Ao final, sua própria vontade e sua força, se fundem com o Poder Superior; o praticante as submerge na Vontade Divina e em sua transcendente e universal Força, O encontra sempre. Desde então, presidindo a necessária transformação de seu ser mental, vital e físico, com uma sabedoria imparcial e uma providente efetividade das quais o ansioso e interessado ego é incapaz. O centro divino no mundo é realizado quando esta identificação e esta fusão estão completas. Purificado, liberado, flexível e iluminado, o praticante pode começar a servir como instrumento da ação direta do Poder Supremo na Espiritual Via Integrativa mais ampla da humanidade ou da superhumanidade, do progresso espiritual da terra e de sua transformação.

Sem dúvida, é sempre o Poder Superior quem atua. Nosso sentido do esforço pessoal e da aspiração provem da intenção da mente egoísta de se identificar de uma maneira errônea e imperfeita com as funções da Força divina. Insiste em aplicar as experiências que correspondem a um plano supernormal, os mesmos termos mentais ordinários que utiliza para suas experiências normais no mundo. No mundo atuamos com o sentido do egoísmo; reclamamos como próprias as forças universais que atuam em nós, pretendemos que a ação progressiva, seletiva e formativa do Transcendente, esta estrutura da mente, da vida e do corpo, é o resultado de nossa vontade. A iluminação nos traz o conhecimento de que o ego é só instrumento; começamos a perceber e a sentir que estas coisas são nossas no sentido de que pertencem ao nosso supremo e integral Eu, que é uno com o Transcendente, e não algo instrumental. Nossas limitações e deformações constituem nossa contribuição ao serviço, porém o verdadeiro poder pertence ao Divino. O ego humano encontra sua salvação quando se dá conta de que sua vontade é uma ferramenta, sua sabedoria, ignorância e infantilismo, seu poder, o andar tateante de um infante, sua virtude, uma pretensiosa impureza, e aprende a confiar-se Àquilo que o transcende. A aparente liberdade e autoafirmação de nosso ser pessoal, ao qual estamos tão profundamente ligados, escondem uma muito lastimosa sujeição a milhares de sugestões, impulsos e personalidades. Nosso ego, que alardeia de sua liberdade, é em todo momento o escravo, joguete e fantoche de incontáveis poderes, forças e influências da Natureza universal. A autoentrega do ego ao Divino constitui a realização de si; sua rendição Àquilo que o transcende, sua liberação das amarras e limites e sua perfeita liberdade.

Mas, apesar de tudo isso, cada uma das três etapas possui sua necessidade e utilidade e a cada uma deve acordar-se em seu tempo ou lugar. Não convém, nem é seguro ou efetivo, começar somente pela última e mais elevada etapa. Tampouco é conveniente saltar prematuramente de uma à outra. Porque, embora desde o início, reconheçamos o Supremo na mente e no coração, existem elementos da natureza que durante muito tempo impedem que o reconhecimento se converta em uma realização. Mas, sem essa realização, nossa crença mental não pode converter-se numa realidade dinâmica; não é mais que uma figura de conhecimento e não é uma verdade viva; é uma ideia, não é ainda um poder. E ainda quando a realização tenha começado, pode ser perigoso imaginar ou presumir, demasiado cedo, que já estamos totalmente nas mãos do Supremo, ou que atuamos como seu instrumento. Esta presunção pode dar lugar a uma calamitosa falsidade; pode produzir uma inércia impotente ou, tornar magníficos os movimentos do ego com o Nome Divino, pode falsear desastrosamente e arruinar todo o curso da Espiritual Via Integrativa. Há um período, mais ou menos prolongado, de esforço interno e luta, na qual a vontade individual deve recusar a obscuridade e as distorções da natureza inferior e colocar-se decidida e veementemente de lado da Luz divina. As energias mentais, as emoções do coração, os desejos vitais, e mesmo o ser físico, devem ser obrigados a adotar a atitude justa ou canalizar a admitir e responder as verdadeiras influências. É só então, só quando tudo isto tenha sido realizado, que a rendição do inferior ao mais elevado pode ser efetuada, porque o sacrifício se fez aceitável.

A vontade pessoal do praticante deve dirigir-se primeiro às energias egoístas, para encaminhá-las para a luz e a verdade, e, uma vez feito isto, ainda tem que educá-las e ensiná-las a reconhecê-las sempre, a aceitá-las e segui-las sempre. À medida que faz progresso, aprende, ainda utilizando a vontade, o esforço e as energias pessoais, a emprega-las como representantes desse Poder Superior e, em consciente obediência a essa Influência mais alta. Ao avançar ainda mais, sua vontade, esforço e energia, deixam de ser pessoais e se convertem na atividade desse Poder e dessa Influência mais elevada, que atuam no indivíduo. Mas existe ainda uma espécie de abismo ou distância que necessita de um escuro processo de trânsito, nem sempre correto e às vezes muito deformante, entre a Origem divina e a corrente humana que surge. Ao final do progresso, com o crescente desaparecimento do egoísmo, a impureza e a ignorância, esta última separação desaparece; tudo no indivíduo se converte em atividade divina.

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Assim como o supremo Tratado da Espiritual Via Integrativa é o eterno Veda secreto no coração de todo homem, sua suprema Guia e Mestre é a Guia interior, o Maestro do Mundo, secreto em nosso interior. É ele quem destrói nossa escuridão com a luz resplandecente de seu conhecimento; essa luz se converte em nosso interior na gloria crescente de sua própria auto-revelação. Ele converte seu divino exemplo em nosso ideal e transforma a mais baixa existência em um reflexo do que contempla. Ao derramar em nós, sua própria influência e presença, capacita ao ser individual para realizar a identidade com o universal e Transcendente.

Qual é seu método e qual seu sistema? Não possui método algum, e, ao mesmo tempo, possui a todos. Seu sistema consiste em uma organização natural dos mais elevados processos e movimentos de que é capaz a natureza. Ao ser aplicado ainda aos detalhes e ações mais insignificantes em sua aparência, com tanto cuidado e perfeição como as mais importantes, o elevam todo para a Luz e o transformam todo. Porque em sua Espiritual Via Integrativa não há nada demasiado pequeno para ser utilizado e nada demasiado difícil para ser tentado. O servidor e discípulo do Mestre não necessita do orgulho ou do egoísmo, porque tudo está feito para ele a partir do alto e, pelo mesmo motivo, carece de direito a desalentar-se por suas deficiências pessoais ou pelas imperfeições de sua natureza. Visto que a Força que atua nele é impessoal — ou Transpessoal — e infinita.

O total reconhecimento deste Guia interior, Mestre da Espiritual Via Integrativa, senhor, luz, êxtase e meta de todo sacrifício e esforço, é de máxima importância no caminho da perfeição integral. Não importa que seja visto no começo como uma Sabedoria, Amor e Poder impessoais por detrás de todas as coisas, como um Absoluto que se manifesta no relativo e o atrai, como o Eu mais elevado de um mesmo e mais elevado Eu de tudo, como uma Divina Pessoa dentro de nós e no mundo, numa de suas numerosas formas e nomes ou como o ideal concebido pela mente. Ao final, percebemos que são todas estas coisas e muito mais ainda. A forma em que a mente inicia sua concepção, varia necessariamente de acordo com a evolução prévia e a natureza presente.

A princípio, esta Guia interior se encontra com frequência velada pela intensidade de nosso esforço pessoal, e pela preocupação do ego por si mesmo e seus próprios fins. À medida que adquirimos clareza e que a agitação de nosso esforço egoísta, cede lugar a um autoconhecimento mais calmo, reconhecemos a fonte da luz que vai crescendo em nosso interior. A reconhecemos retrospectivamente, na medida em que compreendemos que todos nossos escuros e conflitantes movimentos, tem sido determinados para um fim que só agora começamos a perceber, que ainda antes de nossa entrada no caminho da Espiritual Via Integrativa, a evolução de nossa vida já estava intencionadamente dirigida para seu ponto crucial. Porque agora começamos a compreender o sentido de nossas lutas e esforços, de nossos êxitos e fracassos. Por fim, podemos captar o significado de nossos gozos e sofrimentos e apreciar a ajuda recebida de tudo aquilo que nos feriu e ao qual resistimos, e a utilidade de nossos tropeços e nossas quedas. Reconhecemos esta divina guia mais tarde, não retrospectiva, senão imediatamente, na formação de nossos pensamentos por um Profeta transcendente, de nossa vontade e ações por um Poder que tudo abarca, de nossa vida emocional por uma Felicidade e um Amor que tudo o atraem e tudo o assimilam. O reconhecemos também numa relação mais pessoal que nos afeta desde o princípio, ou que se apodera de nós ao final; sentimos a eterna presença do supremo Amo, Amigo, Amante e Maestro. O reconhecemos na essência de nosso ser à medida que este se converte em semelhança e unidade com uma existência maior e ampla; porque percebemos que este milagroso desenvolvimento não é resultante de nossos próprios esforços e que uma Perfeição eterna nos molda segundo sua própria imagem. Um que é o Senhor, o Ishwara das filosofias hindus, a Guia no ser consciente, o Absoluto do pensador, o Incognoscível do Agnóstico, a Força universal do materialista, a Alma suprema e o supremo Shakti, o Único que é nomeado e imaginado em distinta forma pelas religiões, o Senhor de nossa Espiritual Via Integrativa.

Vê-Lo, conhecê-Lo, converter-se Nele e realizá-Lo em nosso ser interior e em toda nossa natureza exterior, foi sempre a meta secreta e se converte agora no propósito consciente de nossa existência corporal. Formar-nos conscientes Dele em todas as partes de nosso ser, e, igualmente, em tudo o que a mente divisora vê como exterior a nosso ser, é a consumação do estado de consciência individual. O término de todo império e domínio, é ser possuído por Ele e possuí-Lo. Desfrutar Dele em toda experiência de passividade e atividade, de paz e poder, de unidade e diferença, é a felicidade que é o ser natural, a alma individual manifesta no mundo, busca obscuramente. Esta é a definição total da finalidade da Espiritual Via Integrativa holística; é a versão, segundo uma experiência pessoal, da verdade que a Natureza universal escolheu em si mesma e que trata de descobrir. É a conversão da alma humana à Alma Divina e da vida ordinária à Vida Divina.

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O caminho mais seguro para essa realização integral consiste em descobrir o Senhor do segredo que habita em nosso interior, abrir-nos constantemente ao Poder Divino que é também Sabedoria e o Amor Divinos e confiar-Lhe a execução da conversão. Mas a consciência egoísta, a principio, torna isso muito difícil. E ainda que possa realizá-lo, não é fácil fazê-lo perfeitamente e em cada fibra de nossa natureza. É difícil no começo, porque nossos hábitos egoístas de pensamento, de sensação e de sentimento, obstruem as avenidas pelas quais podemos chegar à percepção necessária. Realiza-se mais tarde porque a fé, a rendição e a coragem indispensáveis neste caminho, não são fáceis para a alma encoberta pelo ego. A função divina não é a que a mente egoísta deseja ou aprova, visto que utiliza do erro para chegar a verdade, o sofrimento, para obter a felicidade, a imperfeição, para conseguir a perfeição. O ego não pode ver para onde está sendo conduzido; rebela-se contra a condução, perde a confiança e a coragem. Estes desfalecimentos carecem de importância; porque a Divina Guia interior não se sente ferida por nossa rebelião, nem se desalenta diante de nossa falta de fé, nem desaprecia nossa debilidade; possui o amor total da mãe e a infinita paciência do maestro. Mas ao privar à guia de nosso consentimento, perdemos a consciência, ainda que não a atualidade — e em nenhum caso a eventualidade — de seu benefício. E a privamos de nosso consentimento, porque somos incapazes de distinguir nosso Ser superior do inferior, através do qual a Guia Divina prepara sua autorrevelação. Nem no mundo, nem em nós podemos ver a Deus, a causa de suas atividades, e especialmente, porque atua em nós através de nossa natureza e não por meio de uma sucessão de milagres arbitrários. O homem que exige milagres para ter fé; quer que o deslumbrem para poder ver. E esta impaciência, esta ignorância, podem converter-se num tremendo perigo e num desastre se, em nossa rebelião contra a condução divina, apelamos a outra Força deformante, mais satisfatória para nossos impulsos e desejos, e lhe pedimos que nos guie e lhe damos o Nome Divino.

Mas, assim como ao homem lhe é difícil acreditar em algo que não vê em seu interior, lhe parece fácil acreditar em algo que pode imaginar como exterior a si mesmo. O progresso espiritual da maioria dos seres humanos necessita de um apoio exterior, de um objeto de fé exterior a nós. Requer uma imagem externa de Deus; ou necessita de um representante humano — Encarnação, Profeta, ou Mestre; exige ambos e os recebe. Visto que, de acordo com a necessidade da alma humana, o Divino se manifesta como deidade, como divino humano ou simples humanidade — e utiliza esse disfarce grosseiro, que tão exitosamente encobre a Divindade, como um meio para a transmissão de sua guia.

A disciplina hindu de espiritualidade, supre a necessidade da alma com as concepções do Ishta Devata, o Avatar e o Guru. Por Ishta Devata, a deidade elegida, se entende, não um Poder inferior, senão um nome e uma forma da Divindade transcendente e universal. Quase todas as religiões utilizam algum nome e forma do Divino como fundamento ou como instrumento. A alma humana tem uma evidente necessidade deles. Deus é o Todo, e mais que o Todo. Mas, como pode conceber o homem aquilo que é mais que o Todo? E ainda o Todo lhe parece a princípio, demasiado difícil; visto que ele mesmo, em sua consciência ativa, é uma formação limitada e seletiva que só pode abrir-se àquilo que está em harmonia com sua natureza limitada. Há coisas no Todo cuja compreensão é  árdua demais ou que parecem terríveis demais para suas emoções sensitivas e seus temores, ou, simplesmente, ocorre que o homem não pode conceber como o Divino, nem reconhecer algo que está afastado demais do círculo de suas ignorantes ou parciais concepções. É-lhe necessário conceber a Deus segundo sua própria imagem ou segundo alguma forma que está mais além de si mesmo, mas em consonância com suas mais elevadas tendências e ao alcance de seus sentimentos ou de sua inteligência. Se não fosse assim, ser-lhe-ia muito difícil entrar em contato e comunhão com o Divino.

Ainda assim, sua natureza requer um intermediário humano para poder sentir o Divino em algo totalmente próximo a sua própria humanidade, e percebê-Lo numa influência e num exemplo humanos. Esta necessidade se satisfaz quando o Divino se manifesta numa aparência humana, a Encarnação, o Avatar — Krishna, Cristo, Buda. Ou se lhe é muito difícil conceber isto, o Divino se manifesta através de um intermediário menos maravilhoso — Profeta ou Mestre. Porque muitos os que não podem conceber ou não estão dispostos a aceitar o Homem Divino, não vacilam em abrir-se ao homem supremo, a quem não consideram uma encarnação, senão um mestre do mundo ou um representante divino.

Tampouco isto é suficiente; necessita-se uma influência viva, um exemplo vivo, uma instrução presente. Visto que são muito poucos os que podem fazer do Mestre do passado e seus ensinamentos, da Encarnação do passado e seu exemplo e influência, uma força viva em suas vidas. A disciplina hindu provê também a esta necessidade por meio da relação entre o Guru e o discípulo. O Guru pode ser algumas vezes a Encarnação ou o Mestre do mundo; mas basta com que represente para o discípulo a sabedoria divina, com que lhe transmita algo do ideal divino ou o faça sentir a relação realizada entre a alma humana e o Eterno.

O praticante da Espiritual Via Integrativa holística, utiliza todas estas ajudas segundo sua própria natureza; mas é necessário que evite suas limitações e que afaste de si essa tendência exclusiva da mente egoísta que grita “meu Deus, minha Encarnação, meu Profeta, meu Guru”, e a opõem a toda outra realização com espírito sectário ou fanático. Todo sectarismo, todo fanatismo, deve ser evitado porque é incompatível com a integridade da realização divina.

Ao contrário, o praticante da Espiritual Via Integrativa holística, não estará satisfeito até que haja incluído em sua própria concepção, todos os outros nomes e formas da deidade, até que haja visto seu próprio Ishta Devata em todos os demais, unificado todos os Avatares na unidade Daquele que descende no Avatar e fundido na verdade de todos os ensinamentos na harmonia da Sabedoria Eterna.

Tampouco deve duvidar que a finalidade destas ajudas externas, é despertar sua alma ao Divino que existe em seu interior. Nenhuma realização será plena se isso não foi realizado. Não é suficiente adorar a Krishna, a Cristo, a Buda externamente, se não se produz a revelação e a formação de Buda, Cristo ou Krishna em nós. E todas as outras ajudas não têm mais propósito que este; cada uma delas é uma ponte entre o estado não convertido do homem e a revelação do Divino dentro dele.

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O Mestre da Espiritual Via Integrativa holística deve seguir, no possível, o método do Mestre de nosso interior. Deve guiar o discípulo segundo a natureza deste. O ensinamento, o exemplo, a influência, esses são os três instrumentos do Mestre. Mas o Mestre prudente não deve tratar de impor suas opiniões à aceitação passiva da mente receptiva; utilizará só aquilo que é produtivo e seguro, como uma semente que crescerá sob o divino alento interior. Deve tratar de despertar mais que instruir; deve apontar o crescimento das faculdades e experiências por meio de um processo natural e uma livre expansão. Deve proporcionar um método como uma ajuda, como um recurso útil, e como uma fórmula imperativa e uma rotina fixa. E deve estar sempre alerta contra qualquer intenção de converter os meios, numa limitação e contra a mecanização do processo. Todo seu propósito deve consistir em despertar a luz divina e em colocar em movimento a força divina, da qual ele mesmo não é mais que um instrumento e uma ajuda, um veículo ou um canal.

O exemplo é mais poderoso que a instrução; mas não é o exemplo dos atos externos ou do caráter pessoal o que é mais importante. Este tem seu lugar e utilidade; mas o que mais estimula a aspiração nos demais, é o fato central da realização interior divina que governa toda sua vida, seu estado interno e todas suas atividades. Este é o elemento essencial e universal; o resto pertence à pessoa e circunstâncias individuais. É esta realização dinâmica a que o praticante deve sentir e reproduzir em si mesmo, de acordo com sua própria natureza; não necessita esforçar-se por realizar uma imitação do exterior, que pode muito bem esterilizar em lugar de produzir frutos verdadeiros e naturais.

A influência é mais importante que o exemplo. A influência não é a autoridade exterior do Mestre sobre seu discípulo, senão o poder de seu contato, de sua presença, da proximidade entre sua alma e a de outro, a que infunde, ainda que em silêncio, aquilo que ele próprio é e possui. Este é o supremo sinal do Mestre. Visto que o maior Mestre não é tanto um Mestre, mas sim uma Presença que derrama em todos aqueles que a consciência divina e a luz, poder, pureza e felicidade que a constituem, são receptivos.

Também é um sinal do mestre da Espiritual Via Integrativa holística, que não se arrogue a qualidade de Mestre, com espírito humanamente vão e de auto-exaltação. Sua tarefa, se tem uma, não é mais que um cargo recebido do alto; ele mesmo não é mais que um canal, um veículo ou um representante. É um homem que ajuda a seus irmãos, uma criança que guia a outras criaturas, uma Luz que acende outras luzes, uma alma desperta que desperta outras almas, no máximo, um Poder ou uma Presença do Divino que chama para si outros poderes do Divino.

O praticante que possui todas estas ajudas, está seguro de alcançar sua meta. Uma queda não será para ele mais que um meio para elevar-se, e a morte, uma passagem para a realização. Porque, uma vez que tenha encontrado seu caminho, o nascimento e a morte passam a ser nada mais que processos no desenvolvimento de seu ser e nas etapas de sua jornada.

O tempo é um campo de circunstâncias e forças que se encontram e produzem uma progressão resultante, cujo curso, aquele mede. Para o ego é um tirano ou uma resistência, para o Divino, um instrumento. Por conseguinte, quando nosso esforço é pessoal, o tempo aparece como uma resistência, porque nos apresenta todo o obstáculo das forças que estão em conflito com a nossa. Quando a tarefa divina e a pessoal se combinam em nossa consciência, aparece como um meio e uma condição. Quando as duas se convertem numa só, aparece como um auxiliar e um instrumento.

A atitude ideal do praticante com respeito ao tempo consiste em possuir uma paciência infinita, como se tivesse toda a eternidade para sua realização, e, não obstante desenvolver a energia que realizará agora e com um domínio e um apressar sempre crescente, até alcançar a milagrosa instantaneidade da suprema Transformação divina.

Sri Aurobindo em, A Síntese do Yoga, Volume 3, Capítulo 1
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey