Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Sem o Divino, nada resta

A condição a ser almejada, a verdadeira realização do Yoga, a final perfeição e consecução, pela qual tudo o mais é apenas uma preparação, é a consciência na qual é impossível fazer qualquer coisa sem o Divino; porque então, sem o Divino, a real fonte de sua ação desaparece; conhecimento, poder, tudo se vai. Mas enquanto você achar que os poderes que você usa são seus, você não sentirá falta do apoio Divino.

No começo do Yoga, muitas vezes você tende a esquecer o Divino. Mas pela constante aspiração, você aumenta a sua lembrança e diminui o esquecimento. Porém isto não deveria ser feito como uma disciplina severa ou obrigação; deve ser um movimento de amor e alegria. Assim, muito em breve virá um estágio em que, se você não sentir a presença do Divino a todo momento e em qualquer coisa que estiver fazendo, você se sentirá, imediatamente, sozinho e riste e miserável.

Sempre que você achar que pode fazer alguma coisa sem sentir a presença do Divino e contudo estar perfeitamente à vontade, você deve compreender que você não está consagrado naquela parte de seu ser. Esta é a atitude da humanidade ordinária que não sente qualquer necessidade do Divino. Mas para aquele que procura a Vida Divina, é muito diferente. E quando você tiver realizado inteiramente a unidade com o Divino, então, se o Divino se retirar de você, mesmo por um segundo apenas, você simplesmente cairá morto; pois o Divino é agora a Vida de sua vida, sua existência total, seu apoio único e completo. Se o Divino não estiver lá, nada resta.


A Mãe

Viva constantemente na presença do Divino

Yoga significa união com o Divino; a união é efetuada através da oferenda — é fundamentada sobre a dádiva de si mesmo ao Divino. No princípio você começa fazendo esta oferta de um modo geral, embora em definitivo; você diz “Sou o servo Divino; minha vida está doada completamente ao Divino; todos os meus esforços são para a realização da Vida Divina”. Mas isso é apenas o primeiro passo, porque não é o suficiente. Quando a resolução tiver sido tomada, quando você tiver decidido que a sua vida inteira será consagrada ao Divino, terá ainda que se lembrar disto a cada momento e cumpri-la em todos os detalhes de sua existência. Você deve sentir a cada passo que você pertence ao Divino; você deve ter a experiência constante de que, em tudo que você pensar ou fizer, é sempre a Divina Consciência que está agindo através de você; você nada possui que possa chamar de seu; você sente tudo como se viesse do Divino, e você tem que oferecer isto de volta à sua fonte. Quando você puder realizar isso, então a mais pequenina coisa à qual você usualmente não presta muita atenção ou cuidado deixará de ser trivial e insignificante; tornar-se-á cheia de significado e desvendará um vasto horizonte além.

É assim que você tem que cumprir sua oferenda indiscriminada em dádivas detalhadas. Viva constantemente na presença do Divino; viva com a sensação de que é esta presença que o move e está fazendo tudo que você faz. Ofereça todos seus movimentos a ela, não apenas toda ação mental, todo pensamento e sentimento, mas mesmo as ações mais comuns e externas, assim como comer; quando comer, você deve sentir que é o Divino que está comendo através de você. Quando puder reunir assim todos os seus movimentos dentro da Vida Única, então você terá unidade dentro de si, em vez de divisão. Não é mais uma parte de sua natureza doada ao Divino, enquanto o resto permanece no seu estado habitual, absorvido em coisas comuns; sua vida inteira é elevada e uma transformação integral é realizada gradualmente em você.

No Yoga integral, a vida integral, até mesmo os mínimos detalhes, tem que ser transformada, ser divinizada. Não há nada aqui que seja insignificante, nada que seja indiferente. Você não pode dizer “Quando estou meditando, lendo filosofia ou ouvindo estas conversas, estou em condições de uma abertura à Luz e ao chamado dele, mas quando saio para passear ou ver amigos, posso me permitir esquecer tudo sobre isto”. Persistir nesta atitude significa que você se conservará não transformado e nunca terá a verdadeira união; você sempre estará dividido; quando muito terá vislumbres desta vida maior. Porque, apesar de você poder alcançar certas experiências e realizações na meditação ou em sua consciência interior, seu corpo e sua vida exterior permanecerão inalterados. Uma iluminação interior que não toma conhecimento do corpo e da vida exterior não é de grande aplicação; porque deixa o mundo como ele é. Isto é o que tem continuamente acontecido até agora. Mesmo aqueles que tiveram uma realização muito grande e poderosa retiraram-se do mundo para viver não perturbados, numa paz e quietude interior; o mundo foi abandonado a seu destino, e a miséria e a estupidez, a Morte e a Ignorância continuaram, inafetadas, seu reinado neste plano material da existência. Para aqueles que assim se retiraram, pode ser agradável  escapar desta agitação, fugir da dificuldade e encontrar em algum lugar uma condição feliz para si; contudo, eles deixaram o mundo e a vida não corrigidos e não transformados; e também deixaram as suas próprias consciências exteriores não transformadas e seus corpos irregenerados como sempre.

Um ideal dessa espécie pode ser bom para aqueles que o desejem, mas não é o nosso Yoga. Porque queremos a conquista divina deste mundo, a conquista de todos os seus movimentos e a realização do Divino aqui na terra. Se quisermos que o Divino reine aqui, devemos dar tudo que temos e somos e fazemos aqui ao Divino. Não adianta pensar que alguma coisa não é importante ou que a vida externa e suas necessidades não são parte da vida Divina. Se assim fizermos, permaneceremos onde temos estado e não haverá conquista do mundo exterior; nada durável terá sido feito nele.


A Mãe 

Como mergulhar na verdadeira vida espiritual?

É claro que você deve ter tido algum vislumbre da Realidade Divina, assim como você deve ver o mar e saber alguma coisa sobre ele antes de poder pular dentro dele. Aquele vislumbre é geralmente o despertar da consciência psíquica. Mas alguma realização você deve ter — um mental ou vital forte ou senão um profundo contato psíquico ou mesmo um contato integral. Você deve ter sentido fortemente a Divina Presença dentro ou à sua volta; você deve ter sentido o alento do mundo Divino. E você deve ter sentido também, como uma pressão sufocante, a respiração antagônica do mundo ordinário, constrangendo-o a fazer um esforço para sair daquela atmosfera opressiva. Se você já sentiu isso, então você tem apenas que procurar refúgio, sem restrição, na Divina Realidade e viver da sua ajuda e proteção, nela somente. O que você tiver feito apenas parcialmente no curso de sua vida habitual ou em algumas partes de seu ser ou às vezes ou ocasionalmente, você deve fazer completamente e para sempre. Isto é o mergulho que você tem que dar, e, se não o fizer, você pode praticar Yoga durante anos e mesmo assim não saber nada da verdadeira vida espiritual. Dê o mergulho completo e total e você ficará livre desta confusão exterior e conseguirá a verdadeira experiência da vida espiritual.


A Mãe

É preciso saber exatamente o que se quer

Você deve ter o corpo e nervos fortes. Deve ter uma forte base de tranquilidade de espírito no ser exterior. Se tiver esta base, você pode conter um mundo de emoção e mesmo assim não ter que proclamá-lo por aí. Isto não significa que você não possa expressar sua emoção, mas que pode expressá-la de modo harmonioso e bonito. Chorar ou gritar ou dançar é sempre prova de fraqueza, quer do vital ou do mental ou da natureza física, porque em todos estes planos a atividade é para a própria satisfação. Aquele que dança e pula e grita tem impressão de que é de algum modo, bem fora do comum no seu excitamento, e sua natureza vital sente nisso um grande prazer.

Se você quiser suportar a pressão da descida Divina, deve ser muito forte e poderoso, de outro modo você será despedaçado. Algumas pessoas perguntam: “Por que o Divino ainda não veio?”. PORQUE VOCÊ AINDA NÃO ESTÁ PRONTO. Se uma pequena gota faz você cantar e dançar e gritar, que acontecerá se o todo descesse?

Por isso dizemos às pessoas que não têm uma base ampla, forte e firme no corpo, no vital e na mente: “Não puxem”, significando “não tentem puxar as forças do Divino, mas esperem em paz e tranquilidade”, porque elas não seriam capazes de suportar a descida. Mas àqueles que possuem a NECESSÁRIA BASE E ESTRUTURA, dizemos, pelo contrário: “Aspirem e puxem”, porque esses seriam capazes de receber, sem ficar perturbados pelas forças que descem do Divino.


A Mãe

Como estabelecer a unidade em nosso ser?

Conserve a vontade firme. Trate as partes recalcitrantes como uma criança desobediente. Aja sobre elas constante e pacientemente. Convença-as de seus erros.

Nas profundezas de sua consciência está o ser psíquico, o templo do Divino dentro de você. Este é o centro ao redor do qual deveria efetuar-se a unificação de todas estas partes divergentes, de todos estes movimentos contraditórios de seu ser. Quando você tiver alcançado a consciência do ser psíquico e sua aspiração, estas dúvidas e dificuldades podem ser destruídas. Leva mais ou menos tempo, mas você pode ter certeza do sucesso final. Uma vez que você tenha se virado para o Divino, dizendo: “Quero ser seu” e o Divino tenha dito: “Sim”, o mundo inteiro não pode afastá-lo disto. Quando o ser central tiver feito a sua entrega, a maior dificuldade desaparece. O ser exterior é como uma crosta. Nas pessoas comuns esta crosta é tão dura e grossa que elas não estão conscientes do Divino dentro delas. Se mesmo por um momento apenas, o ser interior tiver dito “Eu estou aqui e sou seu”, então é como se uma ponte tivesse sido construída e pouco a pouco a crosta se torna cada vez mais fina, até que as duas partes se unem completamente e o interior e exterior se tornam um.

[...] Como iremos saber, perguntarão vocês, se é a Vontade Divina que nos agir? Não é difícil reconhecer a Vontade Divina. É inconfundível. Você pode conhecê-la sem estar muito longe no caminho. Deve apenas ouvir a sua voz, a vozinha que está aqui no coração. Quando se acostumar a ouvi-la, qualquer coisa que faça contra a Vontade Divina, você sentirá um mal-estar. Se persistir na trilha errada, você ficará muito perturbado. Se, entretanto, você der alguma justificativa material como causa de seu mal-estar e prosseguir no seu caminho, você gradualmente perde a faculdade de percepção e finalmente continuará fazendo toda espécie de coisas erradas, sem sentir nenhum desconforto. Mas se quando sentir a mais leve perturbação, você parar e perguntar a seu ser interior: “Qual é a causa disto?”, então você vai ter a resposta real e a coisa toda se torna bem clara. Não tente dar uma desculpa material quando você sentir uma pequena depressão ou uma ligeira perturbação. Quando parar e procurar pela razão, seja absolutamente direto e sincero. A princípio sua mente construirá uma explicação muito plausível e bela. Não a aceite, mas procure além e pergunte: “O que é que está por trás deste movimento? Por que estou fazendo isto?” Finalmente você descobrirá, escondida num canto, uma pequena agitação — um ligeiro desvio ou deformação de sua atitude, que está provocando o problema ou a perturbação.

[...] Você deve ser capaz, se estiver pronto para seguir a Ordem Divina, de assumir qualquer trabalho que lhe seja dado, mesmo o mais assombroso, e de deixá-lo no dia seguinte com a mesma tranquilidade com que o aceitou, e sem sentir que a responsabilidade seja sua. Não deveria haver nenhum apego — a nenhum objeto ou nenhum modo de vida. VOCÊ DEVE SER ABSOLUTAMENTE LIVRE. Se você quiser ter a verdadeira atitude Yóguica, você deve estar pronto para aceitar qualquer coisa que vier do Divino e largá-la facilmente e sem tristeza. A atitude do asceta que diz: “Não quero nada” e a atitude do homem do mundo que diz: “Quero esta coisa” são iguais. Um pode estar tão apegado à sua renúncia quanto o outro à sua possessão.

Você deve aceitar todas as coisas que vêm do Divino — e somente essas coisas. Porque podem vir coisas de desejos escondidos. Os desejos trabalham no subconsciente e trazem-lhe coisas que, apesar de você não reconhecê-las como tais, não vêm, contudo, do Divino, mas de desejos disfarçados.

Você pode facilmente saber quando uma coisa vem do Divino. Você se sente livre, você se sente à vontade, você está em paz. Mas se alguma coisa se apresenta e você salta sobre ela e grita: “Oh! Até que enfim consegui”, então você pode estar certo que ela não vem do Divino. Equanimidade é a condição essencial para união e comunhão com o Divino.


A Mãe

O Paradigma Holotrópico é fogo que queima

O Yoga ao é mais perigoso para os povos do Ocidente do que o é para os do Oriente. Tudo depende do espírito com que você se aproxima dele. O Yoga torna-se realmente perigoso se você o quiser para seu próprio benefício, para servir a um fim pessoal. Ele não é perigoso, ao contrário, é mesmo a segurança e certeza se você vier para ele com o sentimento de sua santidade, lembrando-se sempre que o objetivo é de encontrar o Divino.

Perigos e dificuldades surgem quando as pessoas praticam o Yoga, não por amor ao Divino, mas, porque querem adquirir poder e sob o disfarce do Yoga, buscam satisfazer alguma ambição. Se você não pode se livrar da ambição, NÃO TOQUE A COISA. É FOGO QUE QUEIMA.

Há dois caminhos do Yoga, o da “disciplina” e o da entrega. O caminho da “disciplina” é árduo. Nele, você confia somente em si mesmo, você avança por sua própria força. Você se eleva e realiza na exata medida de sua força. Existe sempre o perigo de cair. E se você cair, você se despedaça no abismo e dificilmente há remédio. O outro caminho, o caminho da entrega, é seguro e infalível. É aqui entretanto que os ocidentais encontram dificuldades. Eles foram ensinados a temer e evitar tudo que ameace sua independência pessoal. Absorveram com o leite de suas mães o senso de individualidade. E entrega significa abandonar tudo isso. Em outras palavras, você pode seguir, como Ramakrishna diz, ou o caminho do macaquinho ou o do gatinho. O macaquinho agarra-se à mãe para ser transportado e deve segurar-se firme, porque, se afrouxar a mão, ele cai. De outro lado, o gatinho não se agarra à mãe, mas é segurando pela mãe e não sente medo nem responsabilidade; não tem nada a fazer senão deixar-se levar pela mãe e gritar: mã, mã.

Se você adotar este caminho da entrega com toda a sinceridade, não há mais perigo ou dificuldade séria. O essencial é ser sincero. Se você não for sincero, NÃO COMECE O YOGA. Se você estivesse lidando com assuntos humanos, então você poderia recorrer à farsa; mas em suas relações com o Divino não há possibilidade de impostura em lugar algum. Você pode avançar no Caminho em segurança se você for cândido e aberto até o âmago de seu ser e se a única finalidade for realizar e alcançar o Divino e ser guiado pelo Divino.

Existe um outro perigo; é com relação aos impulsos sexuais. O Yoga, em seu processo de purificação, vai desnudar e expulsar todos os impulsos e desejos escondidos em você. E você deve aprender a não esconder nada ou deixá-los de lado, você deve enfrentá-los e conquistá-los e remodelá-los. O primeiro efeito do Yoga, contudo, é retirar o controle mental, e os desejos ardentes que jazem adormecidos são subitamente postos em liberdade, precipitam-se e invadem o ser. Enquanto este controle mental não tiver sido substituído pelo controle Divino, há um período de transição, quando a sua sinceridade e entrega serão submetidas a um teste. A força destes impulsos, como os do sexo, decorre geralmente do fato de que as pessoas lhes dão demasiada importância. Elas protestam violentamente contra eles e esforçam para controlá-los por coerção, reprimem-nos dentro e sentam-se sobre eles. Mas quanto mais você pensar numa coisa e disser: “Não quero isto, não quero isto”, tanto mais se prende a ela. O que você deveria fazer é afastá-la de si, dissociar-se dela, dar-lhe a mínima importância possível e, se acontecer de pensar nela, ficar indiferente e despreocupado.

Os impulsos e desejos que sobem pela pressão do Yoga devem ser encarados com um espírito de desprendimento e serenidade, como alguma coisa estranha a você ou pertencente ao mundo exterior. Eles deveriam ser oferecidos ao Divino, para que o Divino os tomasse e os transmutasse.

Se você se abriu algum dia ao Divino, se o poder do Divino começou a descer em você e ainda assim você se obstina em se apegar às forças antigas, você está preparando problemas, dificuldades e perigos para si mesmo. Você deve ser vigilante e compreender que não pode servir-se do Divino como uma capa para a satisfação de seus desejos. Há muitos que se intitulam Mestres, que não fazem outra coisa. Então, quando você abandona o caminho reto e tem um pouco de conhecimento e não muito poder, você é agarrado por seres e entidades de um certo tipo que o transformam num instrumento cego em suas mãos e terminam por devorá-lo. Sempre que há fingimento, há perigo; você não pode enganar a Deus. Não se achegue a Deus dizendo: “Quero união com você” e no coração pensado “Quero poderes e prazeres”. CUIDADO! Você está se encaminhando direto para a beira do precipício. E, no entanto, é tão fácil evitar toda a catástrofe. Torne-se como uma criança, entregue-se à Mãe, deixe-a carregá-lo e não há mais perigo para você.

Isto não significa que você não tenha que enfrentar outras espécies de dificuldades ou que não tenha que lutar ou vencer outros obstáculos. A entrega não assegura um progresso suave, tranquilo e contínuo. E isto porque seu ser ainda não está unificado, nem sua entrega absoluta é completa. Apenas uma parte sua se entrega; e hoje é uma e no dia seguinte é outra. O propósito total do Yoga é reunir todas as partes divergentes do ser e forjá-las numa unidade indivisível. Até lá você não pode esperar ficar sem dificuldades — dificuldades como por exemplo, a dúvida, a depressão ou a hesitação. O mundo inteiro está cheio de veneno. Você o absorve em cada respiração. Se você trocar algumas palavras com um homem indesejável ou mesmo se este homem meramente passar por você, você pode apanhar o contágio dele. E suficiente que você chegue perto de um lugar onde exista praga para ser infetado pelo seu veneno; você não precisa saber, de forma alguma, que a praga está lá. Você pode perder, em poucos minutos, o que levou meses para ganhar. Enquanto você fizer parte da humanidade e levar a vida comum, não importa tanto se você se mistura com as pessoas do mundo; mas se você quiser a vida divina, você terá que ser excessivamente escrupuloso em suas relações e seu ambiente.


A Mãe 

O que pretende você com o paradigma holotrópico?

Que pretende você do Yoga? Adquirir poder? Conseguir paz e calma? Servir à humanidade?

Nenhum destes motivos é suficiente para mostrar que você está destinado para o Caminho.

A pergunta que você deveria responder é esta: Você quer o Yoga pelo amor do Divino? É o Divino o acontecimento máximo de sua vida, a ponto de ser simplesmente impossível passar sem Ele? Você sente que sua verdadeira “razão de ser” é o Divino e que sem Ele não há sentido em sua existência? Nesse caso, somente assim, pode-se dizer que você tem um chamado para o Caminho.

Esta é a primeira coisa necessária — aspiração pelo Divino.

A coisa seguinte que você deve fazer é zelar por ela, conservá-la sempre atenta e desperta e viva. E o que é exigido para isto é concentração — concentração no Divino, tendo em vista uma consagração integral e absoluta à sua Vontade e Propósito.

Concentre-se no coração. Entre nele, penetre-o fundo e longe, tão longe quanto possível. Reúna todos os fios de sua consciência, que estão espalhados fora, à sua volta, enrole-os e mergulhe e afunde.

Um FOGO ESTÁ ARDENDO LÁ, na profunda quietude do coração. É a Divindade em você — SEU VERDADEIRO SER. Escute sua voz, siga seus ditames.

Existem outros centros de concentração, por exemplo, um acima do alto da cabeça e um outro entre as sobrancelhas. Cada um tem sua própria eficácia e lhe trará um resultado particular. Mas o ser central RESIDE NO CORAÇÃO e do coração procedem todos os movimentos centrais — todo o dinamismo e anseio por TRANSFORMAÇÃO e poder de realização.

[...] Somos conscientes apenas de uma insignificante porção de nosso ser, pois da maior parte somos inconscientes. É esta inconsciência que nos mantém sujeitos à nossa natureza adulterada e impede a sua mudança e transformação. É através da inconsciência que as forças não divinas entram em nós e nos fazem seus escravos. Você deve ser consciente de si mesmo, você deve despertar para sua natureza e seus movimentos, você deve saber como e por que faz ou sente as coisas ou pensa nelas; você deve entender seus motivos e impulsos, as forças escondidas ou aparente que o movem; na verdade, você deve, por assim dizer, desmontar em pequenos pedaços o mecanismo inteiro de seu ser. Somente quando você se torna consciente é que você pode distinguir e peneirar as coisas, você pode ver quais as forças que o puxam para baixo e quais as que o ajudam. E quando você distinguir o certo do errado, o verdadeiro do falso, o divino do não-divino, você deve agir estritamente segundo o seu conhecimento; quer dizer, resolutamente rejeitar um e aceitar o outro. A dualidade se apresentará a cada passo e a cada passo você terá que fazer a sua escolha. Você terá que ser paciente e persistente e vigilante — “acordado”, como dizem os adeptos; você deve sempre recusar a dar ao não-divino qualquer oportunidade que seja contra o divino.

O Yoga não é para o bem da humanidade, é por amor à Divindade. Não é o bem-estar da humanidade que procuramos, mas a manifestação do Divino. Estamos aqui para cumprir a Vontade Divina, mais verdadeiramente, para sermos trabalhados pela Vontade Divina, para que possamos ser seus instrumentos para a progressiva incorporação do Supremo e o estabelecimento do Seu Reino sobre a terra. Apenas a porção da humanidade que responder ao Chamado Divino receberá Sua Graça.

Se a humanidade como um todo será beneficiada, se não diretamente, pelo menos de modo indireto, dependerá das condições da própria humanidade. Se formos julgar pelas condições presentes, não há muita esperança. Qual é a atitude do homem médio de hoje, a humanidade representativa? Não se enraivece ele e não se revolta quando encontra alguma coisa que participe do genuinamente divino? Não sente ele que o Divino significa a destruição de seus mais queridos apegos? Não está ele continuamente protestando violentamente contra tudo que o Divino pretenda e queira? A humanidade terá de mudar muito, antes que pelo advento do Divino possa esperar ganhar alguma coisa.


A Mãe

Um novo olhar para nossas relações


A ausência de amor e de simpatia não é necessária para se estar perto do Divino; ao contrário, um sentido de proximidade e unicidade com os outros é uma parte da consciência divina na qual o praticante entra pela aproximação ao Divino e pelo sentimento de unicidade com o Divino.[...] Neste Yoga, o sentimento de unidade com os outros, o amor, a alegria universal e a Bem-Aventurança são uma parte essencial da libertação e da perfeição que são o objetivo da espiritual via unitiva.

Por outro lado, a sociedade humana, a amizade humana, o amor, a afeição, a simpatia são na maioria das vezes e geralmente — não inteiramente em todos os casos — fundados em uma base sensorial e, em seu centro, estão presos ao ego. É pelo prazer de ser amado, o prazer de ampliar o ego pelo contato, pela mútua interpenetração de espíritos, o contentamento do intercâmbio sensorial que nutre a personalidade, que os homens geralmente amam — e há também outros motivos, ainda mais egoísticos, que se misturam a esse movimento essencial. Há, naturalmente, elementos espirituais, psíquicos, mentais e sensoriais mais altos, que entram ou podem entrar; mas a coisa toda é muito misturada, mesmo no melhor dos casos. Esta é a razão pela qual em um certo estágio, com ou sem razão aparente, o mundo, a vida, a sociedade humana, as relações, a filantropia (que é tão dominada pelo ego como o resto) começa a perder sua atração. Algumas vezes há uma razão aparente — um desapontamento do vital de superfície, a retirada de afeição pelos outros, a percepção de que as pessoas amadas ou os homens de um modo geral não são o que se pensava que fossem, e uma multidão de outras causas; mas frequentemente a causa é um desapontamento secreto de algum parte do ser interior, não traduzido ou não bem traduzido pela mente, por ele esperar dessas coisas algo que eles não podem dar. Este é o caso de muitos que se voltam ou são impulsionados para a vida espiritual. Para alguns isso toma a forma de um desgosto libertador que os guia na direção de uma indiferença ascética ou lhes dá o ímpeto em direção a libertação para além da percepção da existência pessoal. Para nós, o que consideramos necessário é que a mistura deve desaparecer e que a consciência deve ser estabelecida em um nível mais puro (não somente espiritual e psíquico, mas uma consciência mental, vital e física mais pura e mais elevada) na qual não haja essa mistura. Lá se sentiria a verdadeira Bem-Aventurança de unicidade, amor, simpatia e companheirismo, espiritual e auto-existente em sua base, mas expressando-se através de outras partes da natureza. Se é para isto acontecer, obviamente tem que haver uma mudança; a forma antiga desses movimentos deve cair e dar lugar a um si novo e mais alto, que revelará seu próprio meio de expressão e de realização de si mesmo e do Divino através das coisas — mas esta é a verdade interior da questão.

Acho, portanto, que a condição que você descreve é um período de transição e mudança, negativo em seu começo, como esses movimentos frequentemente o são no início, a fim de criar um espaço vago para que um novo positivo apareça, viva nele e o preencha. Mas o vital, não tendo uma experiência longa e contínua ou de qualquer forma suficiente ou completa do que significa preencher o vazio, sente apenas a perda e a lamenta, ainda que uma outra parte do ser, mesmo uma outra parte do vital, esteja pronta para deixar ir embora o que está desaparecendo e não anseie por conservá-lo. Se não fosse por esse movimento do vital (que, no seu caso, tem sido muito forte, amplo e ávido de vida), o desaparecimento dessas coisas trará, pelo menos após o primeiro sentimento de vazio, apenas um sentimento de paz, alívio, e uma expectativa quieta de coisas maiores. O que se destina, em primeiro lugar, a preencher o vazio, foi indicado pela paz e pela alegria que chegaram para você com o toque do Senhor da Renúncia e do Bem Supremo — naturalmente isto não seria tudo, mas um começo, uma base para um novo si, para uma nova consciência, para uma atividade de uma natureza maior; como eu lhe disse, é uma profunda calma e paz espiritual que é o único alicerce sólido para uma devoção e uma Bem-Aventurança douradoras. Nessa nova consciência haveria uma nova base para as relações com os outros; pois uma aridez ascética ou uma solidão insulada não podem ser seu destino espiritual, visto que elas não estão de acordo com sua própria natureza essencial, que é feita para a alegria, a amplidão, a expansão, para um movimento abrangedor da força de vida. Portanto, não fique desencorajado; ESPERE PELO MOVIMENTO PURIFICADOR DO SENHOR DA RENÚNCIA E DO BEM SUPREMO.


Sri Aurobindo - A Consciência que vê - Vol. III

Assim dizia o Maharishi


Bhagavan Ramana Maharishi, o “grande vidente” de Arunachala, Índia, faz consistir toda a libertação e auto-realização do homem na distinção nítida entre o seu grande Eu divino (alma) e o seu pequeno ego humano (corpo-mente-emoções).

Passaremos a reproduzir uma série de perguntas que seus discípulos lhe fizeram e cujas respostas esclarecem admiravelmente esse ponto central.

Pergunta: – Como conseguir a minha auto-realização? 

Maharishi: – Já estás auto-realizado, se te libertares do pensamento “Não alcancei libertação”. Esse erro de identificares o Eu com o não-Eu, o ego, tem de ser superado. A felicidade do Eu é sempre tua – e tu despertarás para o teu verdadeiro Eu no momento em que ultrapassares esse impedimento: o ego, a egoidade, a ego-ilusão. Abre mão desse equívoco – e estarás livre para seres o Eu, que na verdade és. 

P – Não conviria que fôssemos buscar a solidão para realizarmos o nosso verdadeiro Eu?

M – Solidão é por toda a parte. Não a procures fora de ti, mas dentro de ti. Pode um homem estar imerso na lufa-lufa do mundo, e, no entanto, viver em profunda solidão, se estiver perfeitamente calmo dentro de si mesmo. Alguém vive em plena floresta, e não tem solidão, se não tiver domínio sobre suas energias internas; esse não é homem solitário. A solidão é um estado da alma. Quem está apegado a qualquer objeto externo não vive em solidão, esteja onde estiver. O homem interiormente calmo está em solidão, sempre e por toda a parte. 

P – Não conviria que o homem em busca da verdade abandonasse, antes de tudo, as suas posses?

M – O que ele deve, antes de tudo, abandonar é o possuidor, e não as posses. Quem se abandona a si mesmo, isto é, o seu pseudo-eu e encontra o seu verdadeiro Eu, esse tem tudo e não necessita de nada mais.

P – Não deveria eu abandonar os afazeres mundanos a fim de adquirir a consciência cósmica?

M – O teu único impedimento é o pensamento “eu trabalho”. Pondera calmamente: “quem é esse que trabalha?” – e o trabalho deixará de ser empecilho para ti; e os teus trabalhos terão o mesmo resultado de antes. 

P – Não convinha, pelo menos, que eu abandonasse casa e família? 

M – Que mal te fazem casa e família? Descobre primeiro quem és tu. Também no meio do sansara (agitação) do mundo pode o homem atingir auto-realização. Não é necessário ser monge para ter iluminação interna. Quem assim pensa, troca o erro “eu sou um homem mundano” pelo erro “eu sou um monge” – quando é necessário libertar-se tanto desta como daquela ilusão, a fim de chegar ao puro “EU SOU”. O que em mim há de essencial não é afetado por lugares e circunstâncias. Por isto: podemos realizar o nosso Eu em qualquer lugar, suposto que esse desejo seja maior que outro desejo qualquer.

Huberto Rohden em, A Grande Libertação

Do profano adicto ao Vencedor Cósmico

No zênite da sua experiência cósmica, vive o homem a suprema Realidade do Universo, em toda a sua plenitude e integridade; vive o UNO em todos os DIVERSOS; percebe a presença do eterno Nirvana em todos os Sansaras temporários. 

E, por isto, pode o homem cósmico amar sinceramente todas as Existências finitas na Essência Infinita, porque percebe o Creador em todas as creaturas. 

A aversão do mundo experimentada pelo místico culminou na conversão ao mundo vivida pelo homem cósmico. Após o penúltimo estágio evolutivo, que é a fuga do mundo, atinge o homem cósmico o último, que é a convivência com o mundo — não mais a convivência do profano, que é derrota, mas a convivência do iniciado, que é vitória. O estágio antepenúltimo do profano escravo, e o penúltimo do desertor místico, fundiram-se no último do vencedor cósmico. 

Esse homem enxerga a sacralidade do Infinito em todas as profanidades finitas, e assim todas as profanidades de outrora são sacralizadas pelo conhecimento da Verdade Libertadora, a Verdade de que o Infinito está em todos os Finitos, e todos os Finitos estão no Infinito. Os DIVERSOS de fora são iluminados pelo UNO de dentro — o homem cósmico vive e saboreia este UNI-VERSO. 

A fim de chegar a essa visão de transparência cósmica, enxergando o Infinito em todos os Finitos, deve o homem contemplar primeiro a Luz do Infinito em si mesma, isoladamente, longe das coisas opacas do mundo dos Finitos; só depois de se identificar totalmente com essa Luz como tal, isolada, transcendente, e viver intensamente essa experiência mística, é que o homem pode ver, mais tarde, essa Luz, como imanente em todas as coisas do mundo objetivo e profano — a opacidade de ontem se converteu na transparência de hoje. 

Somente o homem habituado a ser solitário com Deus pode ser solidário com o mundo — a solidão com Deus do mundo lhe confere a necessária invulnerabilidade para poder ser solidário com o mundo de Deus, sem alegria escravizante. O homem meramente social e sociável, que nada sabe da feliz solidão mística, a sós com Deus, esse não pode ser solidário com o mundo sem desertar da solidão com Deus. 

Essa solidão em Deus deve ter-se tornado no homem uma segunda natureza, uma querência, um lar, um céu, um paraíso, em que ele poderia habitar eternamente. 

Mas... essa profunda verticalidade da solidão clama por uma vasta horizontalidade de ação. Meditação e contemplação querem manifestar-se em ação. Estranhamente, esta palavrinha "ação", de duas sílabas, está contida naquelas palavras maiores, de quatro sílabas. O homem de genuína meditação e contemplação é de irresistível ação e atividade. 

Do homem que algo espera do mundo nada pode o mundo esperar. 

Só o homem, assim liberto do mundo pela experiência da Verdade, pode afirmar sem perigo e amar sinceramente todas as coisas do mundo, porque deixou de ser escravo e se tornou senhor do mundo. 
"O Cristianismo é uma afirmação do mundo, que passou pela negação do mundo". (Albert Schweitzer
"Homem! renuncia ao mundo, entrega-o a Deus! e depois recebe-o de volta, purificado, das mãos de Deus!" (Mahatma Gandhi)  
"Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo... Quem perder a sua vida ganhá-la-á; mas quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á" (Jesus, o Cristo)
"Eu morro todos os dias, e é por isto que vivo — mas já não sou eu que vivo, o Cristo vive em mim". (Paulo de Tarso)
De maneira que chegamos a esse estranho paradoxo da Verdade integral: Quem nunca negou internamente o mundo profano não pode sem perigo afirmar o mundo; a aversão do mundo pela negação deve preceder à conversão ao mundo pela afirmação — isto é libertação, equidistante da escravidão do profano e da deserção do místico. 

Com isto, não negamos, todavia, que a deserção mística seja melhor que a escravidão profana; pelo contrário, afirmamos que a deserção mística é um meio necessário para conseguir a libertação final. Todos os mestres espirituais da humanidade insistem na necessidade da negação pela mística para que o homem possa conseguir a libertação total pela afirmação da Verdade. 

Todas as coisas do mundo objetivo iludem e escravizam o homem que não tenha experimentado a Verdade do seu mundo interior; só depois desse encontro real e definitivo com a Verdade do seu Eu Divino, é que as coisas do ego humano podem ser aceitas sem perigo — e até com auxiliares de auto-realização — porque, depois dessa experiência da Verdade, a alegria de outrora se converteu na imunidade de agora. Só então podem as delícias do Nirvana (ananda) ser saboreadas em todas as formas do Sansara, sem perigo, sem remorsos, sem vacilações. 

[...] O homem, embora pareça ser um exilado aqui na terra, sabe no seu íntimo que pode encontrar aqui um lar, uma querência temporária, que não está necessariamente em conflito com a querência eterna, mas pode ser um prelúdio compatível com a vida eterna; ele quer poder afirmar a existência terrestre sem amargura, sem remorsos, sem nenhum senso de culpa, porque sabe que o reino de Deus deve e pode ser proclamado sobre a face da terra, para que haja um novo céu e uma nova terra. Sabe que é ele, e só ele, que pode e deve libertar da corruptibilidade a natureza, que até à presente hora, geme e sofre dores de parto, ansiando pela gloriosa liberdade dos filhos de Deus, que receberam as "primícias do espírito". 

Mas, enquanto as coisas do mundo lhe são opacas, simples objetos profanos, não pode o homem repousar nelas sem inquietação interior, sem uma futura conversão; só quando ele vê em todas as coisas externas outras tantas formas e veículos finitos da Realidade Infinita; só quando o eterno UNO transparece dos efêmeros DIVERSOS — só quando o homem descobre o verdadeiro UNI-VERSO — Deus em tudo e tudo em Deus — só então pode ele reconciliar-se, definitiva e jubilosamente, com o mundo dos Finitos sem desertar do Infinto. 

E então ingressa o homem na grande Família Cósmica, que é o reino de Deus em toda a sua Integridade e Plenitude. 

Quando a vivência profana passa pela visão mística, e quando a visão mística culmina na experiência cósmica — então o Verbo se faz carne e habita no homem cheio de graça e verdade; então o homem diversitário do mundo profano se une ao homem unitário da solidão mística — e desse casamento nasce a maravilhosa prole do homem universitário, o homem cósmico, o homem crístico, a Luz do mundo.
(Clique no nome do autor para adquirir original do livro deste texto)  

Da serpente mental à pomba espiritual

Todo homem, depois de atingir certa altura na senda da vida espiritual, sabe e sente que há, entorno e dentro dele, um misterioso ALGO, uma Força que lhe dá segurança, serenidade, alegria, felicidade. 

É uma invisível Presença, à qual os homens dão muitos nomes — Cristo, Buda, Tao, Brahman, ou outro nome simbólico, mas que continua inominável. 

E que outra coisa seria esse misterioso ALGO senão a própria VIDA universal enquanto sentida pelo homem individual?...

Esse ALGO não produzido, causado, merecido pelo homem — é gratuito mas não lhe é dado arbitrariamente; para que esse ALGO gratuito apareça, deve o homem crear um ambiente propício, condições favoráveis para que essa poderosa Presença Invisível se torne sensível. 

A Presença é mística — mas a experiência da sua presença depende da ética. Quando o homem se afasta dos caminhos da Verdade, da Justiça, do Amor, da Honestidade, da Benevolência, da Solidariedade, então essa deliciosa Presença empalidece e acaba por se eclipsar de todo — até que o homem volte ao caminho reto. 

A Graça de Deus — dizem os teólogos — depende da  do homem. 

Graça é Força e Luz — Fé é canal e veículo para elas. 

Envolto e permeado por essa Invisível Presença, sente-se o homem seguro e invulnerável, como que no meio de rijo baluarte, cuja porta só abre pelo lado de dentro; ninguém a pode abrir senão ele; por falta de ética ele abre essa porta — e, neste caso, os seus inimigos penetram no baluarte — e lá se vai a segurança e a paz da alma!... 

Quando o homem descobre esse "tesouro oculto", vai, cheio de alegria, vende tudo que tem, dá-o aos pobres, porque ele é rico, e procura adquirir esse "tesouro nos céus". 

E é o início de uma vida nova...

Não é um "remendo novo em roupa velha" — é uma túnica nupcial toda nova e inteiriça, de alto a baixo. 

O homem profano vive só para si e seu pequeno ego. Alguns vivem para o alargamento desse ego, que é a família e parentela; outros, mais avançados, incluem no seu interesse o seu grupo social ou religioso, o partido, a igreja, o povo, a nação; os mais avançados chegam ao ponto de incluir a humanidade toda no seu interesse — esses são então os grandes altruístas, os homens humanitários, filantrópicos, caritativos, os benfeitores da humanidade, como diz a publicidade. 

O Homem Cósmico vai além dessa fronteira da ética humanitária, que, no melhor dos casos, lhe serve de preliminar para a sua última aventura mística, o encontro com o Infinito, o Absoluto. 

O homem que, em verdade, possa dizer "já não vivo eu, o Cristo é quem vive em mim", "eu e o Pai somos um" — esse ultrapassou as fronteiras deste mundo e o seu reino já não é mais deste mundo, embora ainda esteja no mundo. E como esse homem nada mais espera do mundo, pode o mundo esperar tudo desse homem. Enquanto o homem necessita do mundo e da sociedade, ele é um "necessitado", um pobre mendigo — e que poderia um indigente dar a seus semelhantes? O mundo só necessita de um homem que já não necessita do mundo, mas encontrou plena suficiência em Deus. 

Esse homem não necessita de dinheiro, nem de política nem de prestígio social — basta que se deixe guiar pela Invisível Presença, que é como que uma linha reta através de todos os ziguezagues da vida. 

A serpente mental só se move em serpentinas ou ziguezagues; só conhece meios violentos e astúcias — armas, mentiras, política, diplomacia, camuflagens de toda a espécie; nenhuma serpente se pode mover em linha reta, num terreno limpo, porque necessita dos objetos vizinhos que lhe deem resistência para se mover. 

A pomba espiritual voa em linha reta, nem necessita da terra para se mover, basta-lhe o ar invisível; a sua vida é toda retilínea, simples, envolta na pureza e desnudez da Verdade e Sinceridade. 

"Aquele que está em mim — disse o Mestre — é maior do que aquele que está no mundo... Eu venci o mundo..."

Essa Presença Invisível é como a alma, que permeia e vitaliza o corpo todo, mas não é percebida em parte alguma. É como o grande Inconsciente Cósmico que acompanha todos os Conscientes humanos. E o homem só é realmente feliz quando mantém o contato com essa Força Anônima que está para além e dentro de todas as forças nominadas... 

Todos os ponderáveis só têm valor por causa desse Imponderável...

Despertar e reforçar esse poderoso Imponderável é sabedoria, santidade e sanidade...

Huberto Rohden em, Roteiro Cósmico (Clique no nome do autor para adquirir original do livro deste texto)      

Da dependência egóica à autonomia do Ser


[...] Quando o homem atinge a plenitude da sua consciência ou conscientização, nada mais sabe ele de um aquém ou de um além, porque a dimensão espacial do Finito se dilui na indimensão do Infinito. O mesmo se dá com o conceito ilusório de tempo, que se dilui na verdade do eterno, que é a ausência do tempo. Quando o homem-ego ultrapassa a sucessividade analítica da sua mente e entra, como homem-Eu, na simultaneidade intuitiva da razão, então tudo isto se torna natural, evidente e compreensível. 

A logoterapia não apela, portanto, para nenhum elemento heterônomo ao homem, mas penetra no âmago do elemento autônomo dele. 

Por via de regra, o homem só conhece as suas periferias sensoriais ou, quando muito, a sua zona semiperiférica mental. Mas nem os sentidos nem a mente representam a realidade central do homem; atingem o factual, mas não o real. Para além de todas as facticidades desponta a realidade

A logoterapia prática, portanto, é o mais completo realismo, quando ultrapassa as facticidades periféricas ou semiperiféricas e entra na zona da realidade central. Para além de todas as facticidades irrealistas jaz a realidade real.

O homem irreal ou semi-real deve ser plenamente realizado, para que o seu ego doente seja saturado pelo seu Eu sadio. No homem pleni-real não há males. Todos os males de que o homem sofre vêm da zona do seu ego mental, da sua persona (termo latino para máscara). Somente o contato com a individualidade real pode curar a personalidade irreal; somente a verdade pode libertar o homem da inverdade, que gera os males. 

A origem e a libertação dos males da humanidade


[...] O ser hominal, ao aparecer no cenário da história, apareceu como negativamente livre, livre de alguma coisa, mas sem saber para que era livre. Livre da escravidão do instinto vital do mundo infra-hominal, graças ao poder mental, mas ainda não plenamente livre para um fim racional (espiritual). 

Essa zona mental é do homem-ego, primeira etapa evolutiva do ser hominal e na qual o grosso da humanidade se acha até hoje: o homem-ego se sente livre de, mas não se sabe ainda livre para que  e para quem

É esta a zona crítica da liberdade sem responsabilidade

Todos os males da humanidade podem ser sintetizados neste binômio: liberdade sem responsabilidade. 

Neste plano, o homem age livremente em nome do seu ego separatista, e não age responsavelmente em nome do seu Eu unitivo: age egoicamente, não age cosmicamente. E, como todo mal está na egoidade unilateral e como todo bem está na cosmicidade onilateral, segue-se com a lógica férrea da lei inexorável de que o homem, no plano da egoidade sem cosmicidade, não pode deixar de ser vítima dos males produzidos por essa egoidade separatista, e nessa zona dos males perseverará o homem enquanto não despertar nele a consciência da sua cosmicidade unitiva, única capaz de o redimir dos males.

A união cósmica é a verdade, a separação egóica é uma ilusão

A ilusão produz os males, a verdade produz os bens e nos liberta dos males. Ilusão é treva, verdade é luz — as trevas só poderão ser dissipadas pela atuação da luz. 

A verdade é o conhecimento consciente da Realidade, da Essência, do Uno do Universo. Conhecer esta Realidade é a verdade, e esta verdade conhecida é libertadora — "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". 

Os males da vida humana são, portanto, produto do ego ilusório, e só poderão ser abolidos pelo despertamento do Eu verdadeiro. É perfeitamente inútil e totalmente impossível querer abolir os males ego-produzidos pelo próprio ego, por mais inteligente que ele seja. Nenhum ego pode libertar-nos dos males a que o ego se escravizou. Escravocrata não abole escravidão; escravocrata faz escravos, mas não liberta escravos. Enquanto o homem escravizado pelo ego ilusório não ultrapassar a dimensão dessa egoidade ilusória e escravizante, não haverá redenção dos males que a egoidade engendrou. Querer libertar o ego pelo ego, é funesto círculo vicioso, em que a humanidade vive há milhares de anos. Pode o ego modificar os sintomas dos males por ele creados, mas não os pode erradicar e abolir definitivamente, enquanto não entrar na nova dimensão do Eu redentor

Na natureza infra-hominal o Uno do Universo age diretamente, sem encontrar obstáculo, porque a natureza não possui suficiente liberdade para opor obstáculo à atuação do poder cósmico. 

Com o aparecimento do fator consciente ou semiconsciente do ser hominal, em sua fase mental, surgiu a possibilidade duma obstrução; o homem-ego pode fechar os seus canais ao influxo da fonte cósmica. 

Essa obstrução dos canais ocorre toda vez que o ego hominal considera a sua egoidade como fonte da própria Realidade, do Poder, da Vida e Saúde. Esta ilusão egóica é a razão porque o homem sofre os males. A ilusão separatista do ego obstrui os canais entre o homem e o cosmos. 

A libertação desses males é possível unicamente pela transição da ilusão para a verdade, porque só a consciência da verdade liberta o homem dos males que a inverdade creou nele. 

A verdade, porém, é esta: Eu e o Infinito (Pai) somos um; o Infinito está em mim, e eu estou no Infinito; as obras que eu faço não sou eu (o ego finito) que as faz, mas é o Infinito em mim que as faz. 

Quando o homem se convence definitivamente de que o seu ego humano não é a Fonte, mas canal, que deve estar ligado conscientemente à Fonte, ao Infinito, ao Uno, ou Único, à Essência, então fluem para dentro dele, e através dele, as águas da Vida, da Saúde e Felicidade. 

A presença objetiva da Vida, Saúde e Felicidade é um fato permanente e universal; mas a consciência desta presença é um problema. Enquanto o homem não tiver a consciência nítida desta presença cósmica não será liberto dos seus males. O homem pode ter câncer, paralisia, tuberculose, lepra ou outra doença, dentro da presença e onipresença da Vida, Saúde e Felicidade do Cosmos; pode também ser o maior dos malfeitores dentro dessa presença. O que o redime desses males e dessas maldades não é o fato objetivo da presença cósmica, é, sim, a consciência subjetiva dessa presença. 

O homem-ego ignora essa presença — o homem-Eu sabe dessa presença cósmica, divina. Por isto, somente a verdade do Eu pode redimir o homem da ilusão do ego

Auto-realização e cosmoterapia são manifestações da consciência da presença de Deus no homem.

Huberto Rohden em, Cosmoterapia - a cura dos males humanos pela consciência cósmica
(clique no nome do autor para adquirir original)

O nascimento do homem cósmico


[...] O homem, no estágio hominal da sua evolução ego, pode sucumbir à ilusão de ser uma entidade separada do grande Uno, da Alma do Universo, separado de Deus; é este o seu erro de origem, o seu "pecado original". E não há nenhum "batismo", nenhum mergulho que o possa libertar dessa ilusão, a não ser o mergulho na verdade do Eu. Só quando o homem mergulhar na Fonte profunda do seu Eu verdadeiro é que ele é liberto da ilusão de sua egoidade. "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" — é este o único "batismo" real, o único mergulho redentor. 

O homem-ego vive na ilusão "eu faço vida, saúde e felicidade", e com esta ignorante arrogância obstrui ele o caminho à verdade de que ele deve receber da Fonte do Uno a Vida, a Saúde e a Felicidade. 

A humanidade de hoje vive ainda na ilusória ego-consciência, julgando-se Fonte, quando é apenas canal. 

Quando despertará o homem ego-consciente a cosmo-consciência?

O homem-ego prefere remediar em vez de redimir.

Os remédios são remendos, mas não redenção. 

Remédios podem ser "remendo novo em roupa velha", mas a roupa velha do ego continua roupa velha, por mais remendada e remediada. Nunca se torna uma "nova creatura em Cristo", como o Eu, que não é remendado, mas remido. 

Remédios, podem, quando muito, desobstruir o caminho que o ego obstruiu, mas não podem curar o mal. Somente a alma da natureza pode curar. 

Sendo que a natureza é inconscientemente cósmica, pode Deus curar através dela, porque ela é um canal puro e dócil através da qual fluem a Vida, a Saúde e a Felicidade da Fonte Infinita. Mas, se o ego hominal, conscientemente anti-cósmico, intervier, obstruindo os canais ou turvando a limpidez das suas águas, então não pode a natureza exercer sua atividade curadora. 

Vida, Saúde e Felicidade fazem parte integrante da natureza, quer fora, quer dentro do homem. Elas existem dentro de cada homem, em estado potencial e implícito; e o homem bem orientado as pode fazer existir em estado atual e explícito, pode levar à eclosão a sua incubação.

Para fazer passar da incubação para a eclosão essas potencialidades latentes, deve o homem conscientizar a presença da Realidade, que é o seu Eu divino, o seu grande Uno. E a primeira condição para o despertamento desse Eu divino é não identificar-se com seu ego humano, ilusoriamente tido pelo Eu divino. Essa conscientização do seu Eu verdadeiro — que é Vida, Saúde e Felicidade — o libertará do seu ego ilusório, que é a causa de todos os males do homem. 

Na razão direta em que o homem se desegoficar (des-iludir) e se cosmificar (veracificar), participará o seu ego humano da Vida, Saúde e Felicidade do seu Eu divino. 

A Realidade do eterno Uno divino permeará todas as Facticidades do efêmero ego humano.

A soberania da sua substância divina será proclamada sobre todas as tiranias das circunstâncias humanas. 

E nascerá o homem cósmico.

"Eu já venci o mundo".

Huberto Rohden em, Cosmoterapia - a cura dos males humanos pela consciência cósmica(clique no nome do autor para adquirir original)

A eterna busca da alma pelo seu centro

"Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me em selva tenebrosa." - Dante Alighieri, A Divina Comédia
O arquétipo do Caminho, da Jornada, da Peregrinação fala da eterna busca da alma pelo seu centro. Ele se torna consciente quando percebemos que nossas vidas traçam um longo percurso cujo sentido e significado vai se revelando à medida que avançamos na nossa caminhada. geralmente é por volta da metade da vida que entramos em contato com esse arquétipo. Isso porque, já percorremos um bom pedaço da estrada e podemos olhar para trás e avaliar nosso percurso, bem como podemos olhar para frente e ajustar nossos passos rumo a objetivos mais abrangentes e diferenciados. É o momento ideal para se fazer um "balanço", uma avaliação de nossa proposta de vida e permitir mudanças revitalizadoras, novos trajetos e pontos de vista. 

Aqui vamos falar um pouco sobre quatro aspectos que se relacionam com a vivência desse arquétipo e dos símbolos correlatados. 

O Jardim das delícias

Esse é o princípio de tudo: o jardim do Éden, como aparece na tradição judaíco-cristã, mas também de inúmeras outras formas análogas em várias culturas. Há sempre um início paradisíaco, uma condição original de abundância, plenitude, felicidade, inocência, onde todos os seres convivem em harmonia e não em escassez, doença e morte. A ideia de um paraíso perdido, uma Idade de Ouro que remonta à origem dos tempos, é um arquétipo universal que revela a nostalgia por uma condição de harmonia que foi perdida e para a qual desejamos retornar. 

Efetivamente todos nós já experimentamos uma condição de plenitude no início de nossas vidas, dentro do útero materno: lá a temperatura, o alimento, a proteção estavam sempre presentes sem que precisássemos fazer qualquer esforço; lá onde não havia separação, dualidade, angústia ou perdas e estávamos imersos e fundidos na totalidade. No entanto, se quisermos crescer e nos desenvolver chega o momento em que temos que abandonar esse paraíso e como no Gênesis, somos expulsos da nossa inocência ou inconsciência original para que possamos aprender, a desenvolver a consciência e iniciar a jornada. 

Esse período inicial é muito importante porque permanece como referência de um estado de harmonia e plenitude que já foi vivido realmente e que, portanto, pode ser recuperado. Nos momentos mais difíceis e dolorosos essa vivência inicial pode servir como a chamada "luz no fim do túnel" e ser nossa guia rumo à saída para o sol. Porém, se nos recusamos a sair desse paraíso, ele rapidamente se transforma e pode nos devorar, impedindo nosso crescimento e desenvolvimento. A "Mãe Amorosa" se revela então como a "Deusa Destruidora", os animais amigos se transmutam em dragões e monstros ameaçadores. Assim, querendo ou não, somos lançados na outra etapa do caminho. 

O início da Jornada: o Labirinto

Toda vez que abandonamos uma situação conhecida e cômoda, que, no entanto já estava esgotada em suas possibilidades de crescimento, é como se saíssemos do regaço materno, da segurança do paraíso para nos perder no caos de um mundo sem referências, a selva tenebrosa de Dante. Esse início de jornada pode ser voluntário ou forçado por uma circunstância adversa que a vida nos proporciona, mas em ambos os casos é sempre um período difícil. Não há sinais de orientação, não há estradas retas e bem demarcadas, não sabemos para onde ir, como ir e o quê procurar. Temos que ir andando as apalpadelas, tateando, caindo e levantando. É um período de perambulação, mas também de grandes possibilidades de evolução. Nos tornamos peregrinos, buscadores e experimentadores e é exatamente esta incerteza que abre espaço para o "novo" surgir. 

Caminhar dentro do caos com paciência, persistência e abertura para certos erros, faz surgir uma nova luz, uma nova percepção e o labirinto se revela como um caminho espiralado que pode nos levar ao centro, ao tesouro perdido, à harmonia e a paz do paraíso. Mas, durante a caminhada no labirinto não sabemos se estamos próximos ou não do centro. O caminho de retorno também não é evidente e assim temos que aprender a enfrentar nossos medos e não fugir dos desafios. Isso nos leva a próxima característica simbólica da jornada. 

As tarefas do percurso. O Herói

Ao aceitarmos a caminhada e os desafios que ela nos propõem, começamos a vivenciar outro arquétipo que nos ajuda a cumprir nossas tarefas: o arquétipo do herói. Este arquétipo é a vivência do desenvolvimento da nossa força, das nossas habilidades, do nosso saber, das potencialidades ignoradas que vão se aprimorando à medida que enfrentamos nossos monstros interiores.

É preciso muita coragem para entrar no labirinto e se perder antes de poder se encontrar. No entanto, esta não é a prova mais difícil. Depois de termos vencido nossos medos, nossas fragilidades e limitações e termos cumprido com as tarefas que a vida nos propõem, começa outra etapa que é o aprendizado da humildade. Temos que reconhecer que mesmo sendo heroico, o ego está subordinado a um princípio maior, e que só a conexão com este princípio pode proporcionar sentido e significado a todas as conquistas obtidas. O herói não pode ficar preso na armadilha de sua própria habilidade e força em vencer os dragões, ele deve vencer também a sua vaidade e prosseguir a caminhada rumo ao centro. Para isso ele tem que reconhecer que sua força provém exatamente desse centro. Esse reconhecimento permite que o arquétipo do herói se transmute no arquétipo do Sábio e é essa vivência de sabedoria que finalmente nos leva de volta à casa, ao paraíso perdido. 

Retorno ao Centro

Estar no centro é a vivência de recuperação da harmonia, da paz e do equilíbrio perdido. É a volta à casa, à experiência de plenitude original, só que agora não mais vivida inconscientemente como no início. Agora a experiência é produto de uma busca consciente e voluntária.  

A caminhada no labirinto se transforma em "circum-ambulação", ou seja, caminhamos agora em torno do centro, de onde emana nossa força e alento. Estamos novamente próximos da fonte original de inesgotável abundância, felicidade, amor, beleza e sabedoria. Quando o ego e o Self se encontram há uma intersecção do mundo visível com o invisível, um casamento do Céu com a Terra, do sagrado com o profano e abre-se a porta para transformações profundas que vão além da compreensão intelectual. A personalidade se amplia para receber a vivência do numinoso e finalmente exercer sua totalidade. 

Depois de conseguirmos chegar ao centro e sermos abençoados com essa vivência temos que retornar à vida cotidiana e compartilhar o que recebemos, compartilhar o tesouro encontrado. Só assim se completa o círculo da jornada que temos que percorrer infinitas vezes durante a vida. O arquétipo do caminho se revela enfim como uma pulsação em torno do centro, em um ir e voltar, um achar e perder o rumo, em idas e vindas constantes que vão tecendo um desenho com mil cores e formas, que se desmancham e voltam a se formar, como as belas mandalas de areia tibetanas. E assim como as mandalas nos ensinam, também o nosso caminhar nos revela que o essencial está sempre presente e está além de todos os caminhos. Ele engloba tudo: o paraíso inicial, o labirinto das ilusões, as lutas do herói, a chegada ao centro e se faz presente em todos os grande e pequenos momentos, a cada gesto e curva do caminho.

Vera L. P. de Almeida 
     

A mística fortaleza do interior do coração

O verdadeiro lugar de paz em meio à agitação da vida moderna deve ser encontrado dentro do próprio eu, por meio da moderação exterior e da meditação interior. [...] Depois de ter esgotado todos os meios e esperanças do mundo, em todas as direções, para onde pode o homem voltar-se a não ser para sua própria fonte divina?

Fixe toda a atenção no Eu Superior que está ancorado no centro cardíaco. Assim, tudo o que você fizer durante o dia será decerto uma ação divinamente inspirada e um serviço verdadeiro. O Eu Superior é uma verdadeira fonte de poder: volte-se para ele e receba orientação construtiva para a tarefa de vida diária. 

Uma vez que o Eu Superior é sentido no coração como presença viva, ele eleva a consciência acima do domínio das partes ligadas ao desejo egoísta, liberta-a dos altos e baixos do humor e das emoções que essa oscilação acarreta. Provê um senso de interna satisfação, completa e independente de circunstâncias externas. 

Ansiedades se acalmam e inquietudes desaparecem quando a entrega ao Eu Superior cresce e se desenvolve no coração da pessoa. E essa atitude despreocupada se justifica, pois ao grau da sua entrega corresponde o grau da ativa intervenção do Poder Divino em seus assuntos. 

Se isso acontece, se a pessoa se entrega a si própria sem reservas à primeira e mais débil expansão da Graça no recôndito do coração, então as bençãos da Graça com o tempo frutificarão gloriosamente. Temos de aprender, pela prática, a arte de nos recolher a qualquer momento à mística fortaleza do interior do coração. 

O Eu Superior pode sempre ouvir um chamado, pois seu esconderijo não está distante: é o coração da pessoa. Mas se o chamado não for feito, se for feito sem fé ou se não for sustentado com paciência, a resposta não virá. 

O paradoxo é que o Eu Superior é ao mesmo tempo universal e individual. É universal porque domina todos os seres humanos como um único poder. É individual porque cada um o encontra dentro de si. É tanto o espaço quanto o ponto no espaço. É o espírito infinito e, contudo, é também a presença sagrada no coração de cada um. 

Se dizemos que o Eu Superior está dentro do coração, seria grande erro pensar que isso significa estar Ele limitado ao coração, pois o coração está em Seu interior também. Esse aparente paradoxo dará lugar à reflexão e à intuição. O misterioso relacionamento entre o ego e o Eu Superior foi assim expresso por Jesus: "O Pai está no Filho e o Filho está no Pai".

Paul Brunton   

A prece absoluta e a comunhão com Deus


Tão logo nos tornemos mais e mais conscientemente unos com a Mente Crística ou Universal, todas as nossas necessidades e desejos nos chegam juntamente com o suprimento correspondente. De fato, somos unos eternamente com esta Mente Divina e precisamos apenas tomar consciência desta verdade para podermos testemunhar o atendimento de cada vontade ou pensamento justo. Fica assim claro que esta percepção de unidade do homem com a Mente Crística, estabelecida "no princípio" pelo relacionamento sempre existente entre Deus e Sua ideia, o homem, dispensa todo esforço consciente para ocorrer e ser mantido. A percepção desta verdade é o fio conector com a Consciência Divina. 

Por ser através da prece que todo bem é alcançado, precisamos compreender amplamente o que é a prece e de que modo devemos orar. Na maioria das igrejas ortodoxas, orar é suplicar ou pedir a um Deus presente em alguma parte do céu para que atenda a algum mortal doente ou pecador presente em alguma parte da terra. A comprovação universal do fracasso desse tipo de prece nos serve para concluirmos não ser ela a prece verdadeira, e que o Deus a quem ela se destinava não chegou a ouvi-la. O intelecto humano observou que tais preces não obtinham respostas, e passou a procurar pelo verdadeiro Deus e pelo correto conceito de prece. 

Jesus nos ensinou que "o reino de Deus está dentro de nós". Portanto, é para dentro que a prece deve ser dirigida, ao ponto da Consciência em que a Vida Universal Se manifesta individualizadamente como o nosso ser. Aprendemos que "no princípio criou Deus o céu e a terra... e Deus viu tudo quanto fizera e achou bom". Sendo "bom", o universo deve inevitavelmente ser completo, harmônico e perfeito, de forma que, em vez de orarmos para que o bem nos ocorra, devemos fazer de nossas preces um reconhecimento da onipresença do Bem. O conceito mais elevado, então, revela a prece como afirmação do bem e negação da existência do erro. Quando a prece resulta no emprego de fórmulas, a tendência é nos fazer voltar à antiga prece ortodoxa, o que acarretaria enorme redução de seu poder. Entretanto, se a prece utilizar afirmações espontâneas e sinceras da natureza infinita de Deus, do Bem, e da harmonia e perfeição de Sua criação, o homem e o universo, verdadeiramente quem estiver assim orando estará se aproximando da prece absoluta, que é a comunhão com Deus.

A comunhão com Deus é a prece verdadeiramente eficaz. É o desenvolvimento da Presença e do Poder de Deus na Consciência individual. Estar em "comunhão com Deus" é, na verdade, estar ouvindo a "pequenina Voz suave". Nesta comunhão, ou prece, não há palavras que são passadas de um homem a Deus: há a consciência da Presença de Deus percebida como revelação da Verdade e do Amor divinos, vindos interiormente ao homem. Esta é uma sagrada condição de ser, que nunca deixa o homem na mesma condição em que o havia encontrado. 

Joel S. Goldsmith      

A Oração Centrante a prática das "Boas-Vindas"


Muitos de nós quando iniciamos a prática da Oração Centrante ou alguma forma de oração contemplativa, começamos a experimentar em um dado momento uma paz interior que parece crescer e se espalhar em nossa vida diária. Esse processo também nos deixa mais conscientes do surpreendente contraste em áreas onde não estamos tão pacificados. Isto sobressai mais quando encontramos as emoções aflitivas, aquelas emoções e "comentários mentais" que nos impedem de nos enraizar na Presença de Deus e na paz diária. Elas oscilam das emoções muito "frias" da apatia, do pesar, medo, assim por diante, até as emoções "quentes" da raiva, lascívia, orgulho, etc. Reagir com aversão ou com indulgência não vai ajudar na transformação dessas emoções no amor e na compaixão que Deus deseja para nós. 

Elas são manifestações do falso eu, ou do nosso senso de separação de Deus, quando nossos programas emocionais para a felicidade são frustrados ou bloqueados. Nosso desejo de estar com eles, aceitá-los, apresentá-los a Deus, sem abandonarmo-nos  a eles ou sem julgá-los, torna possível DESMANTELAR os programas emocionais que alimentam o falso eu e o redirecionamento de todos os nossos desejos e necessidades de completude, a Deus. 

Na prática da Oração Centrante, aprendemos experimentalmente que nossa verdadeira identidade se encontra na Presença de Deus, que nossa vida verdadeira está na Vida de Deus e Sua ação DENTRO DE NÓS. Aprendemos que os distúrbios emocionais e comentários de nossa mente reforçam o sofrimento em nossa vida e necessitam, por isso de compaixão e aceitação e precisam também ser trazidas a Deus para que a paz seja encontrada. Uma maneira de se fazer isso é a prática de "Boas-vindas". A prática é simples e direta, mas necessita um grande coração e bastante fé. 

Quando nos tornamos conscientes de emoções aflitivas, pensamentos ou comentários da mente damos os seguintes passos:
  1. Concentre-se e esteja Presente: à energia do sentimento, pensamento, emoção, sensação corpórea, comentário mental (sem se identificar com eles, consentir neles ou ser levados por eles). Em suma, atenção ao momento presente, à emoção ou sentimento, aqui e agora, do jeito que ela é. Perceber que eu não sou minhas emoções, sentimentos, etc. Eu observo, mas não sou aquilo que observo

  2. Dar as boas-vindas, verbalizar internamente sua intenção de entregar, devolver, esta experiência aflitiva ao Espírito de Deus EM NOSSO ÍNTIMO. Aceitando nossa humanidade, damos as boas-vindas à experiência, oferecendo-a em compaixão, por amor à Presença e Ação de Deus DENTRO DE NÓS. Mais uma vez, como na prática da Oração Centrante, prontificamo-nos à Presença e Ação de Deus em nós, para curar e solucionar este sentimento, pensamento, emoção, sensação ou comentário mental.

  3. Desapegar-se. Desapegamo-nos de nossos desejos desordenados a resultados ou escapismos. Expressamos internamente os seguintes desapegos: Desapego-me de meu desejo de poder, controle, estima e afeição, segurança, desejo ou insistência em mudar a situação que dá origem às emoções conflitivas (pensamento, sentimento, sensação, comentário, ou evento). 
Esta prática pretende nos ajudar diretamente a redirecionar nossa necessidades inapropriadas para Deus, para além dos programas emocionais que criamos para nós, ainda numa tenra idade, talvez a partir de nossa necessidade naquela época, ou pela falta de amor apropriado em nossa criação, mas que mesmo assim alimentam nosso sofrimento e senso de separação neste momento de nossas vidas.

Obviamente, há outras circunstâncias, em que esta prática não é apropriada, ou em que nos sentimos esmagados, tais como circunstâncias abusivas ou perigosas, ou em que o simples sentimento, ou a lembrança se tornam muito pesados. Em tais caos, a prática da oração ativa ou "guarda do coração", pode ser mais apropriada. Esta prática é pensada para nos ajudar no desapego, em Deus, quando mais necessitamos, e facilitar a abertura ao Amor de Deus e da Graça para nos trazer a transformação e libertação daqueles obstáculos à uma resposta plena ao amor de Deus

É importante nisso tudo estar comprometido com uma disposição para o amor compassivo em relação às feridas de nossa humanidade. Compaixão conosco mesmos!

O livro "Intimidade com Deus", de Thomas Keating, aprofunda a questão dos nossos programas emocionais para a felicidade, desembocando nos centros de energia por controle, auto-estima, segurança, que em si são coisas boas, mas que devem estar equilibrados.  
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey