Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Abdicando da condicionada vontade pessoal

Os melhores frutos da vida não podem ser colhidos sem a abdicação da vontade pessoal, num momento ou outro. Cada homem é chamado, de fato, a bater-se contra seus instintos animais e suas fraquezas. Mas a filosofia não reclama nenhum voto de asceticismo aos seus adeptos. Reclama deles apenas que se disciplinem e procurem levar à frente este propósito, a despeito de suas falhas e de suas quedas. Ela crê na misericórdia do Eu Superior e numa eventual descida da Graça sobre suas cabeças. O homem pode chegar de maneira menos penível a esta abnegação, aceitando os impulsos da inspiração e seguindo-os mesmo quando entram em conflito com seus desejos carnais e interesses egoísticos. Se não se enganou sobre a via que segue ou sobre o fim que procura, tais impulsos podem manifestar-se e ir além do que se chama vida moral. Quanto mais avança, mais se manifesta espontaneamente o convite a não mais agir senão por motivos generosos, nobres e idealistas; quanto mais avança, mais é penetrado pelo pensamento de purificar seu caráter, de purgar seu coração e banir todas as suas tendências vis.

Um novo elemento entra em sua vida. Começa a pensar por isso nos efeitos que as suas ações exercem inevitavelmente nos outros e nele próprio. Alarga deste modo seu sentido de responsabilidade pessoal e sua perspectiva ética. É-lhe necessário enterrar suas faltas no pó do passado e não reaviva-las para, depois, meditar sobre elas melancolicamente e lamentar a infelicidade; é-lhe preciso também adquirir, pelo arrependimento e a expiação, o direito de enterrá-las. Nem a lembrança do Eu Superior, nem a prática da meditação o libertarão da necessidade de compreender as causas e o resultado de seus erros morais ou práticos, nem a necessidade de repará-los dentro de si mesmo ou em face dos outros. Se o estudante cometeu alguma falta contra alguém, no passado, e sente que a fez, se teme uma vingança do karma por algum pecado que ficou impune, se deseja apaziguar algum mau karma derivado de alguma ação má de sua vida presente, que deverá fazer? Quatro meios progressivos se lhe oferecem. Primeiramente, a confissão. Precisa não apenas reconhecer lealmente seu erro, mas compreender os motivos do mal praticado, declarar francamente as forças que o impeliram a cometê-lo. Nenhum confessor humano lhe é necessário; o Eu Superior bastará e é preferível. Em segundo lugar, é o arrependimento. Deve, não somente repudiar estes motivos e essas forças, mas desejar ardentemente elevar-se acima deles. A autocrítica deve ser severa e o remorso, sincero, sem o que todos os esforços serão vãos. Em terceiro lugar a reparação. Deve reparar os danos causados, morais ou materiais, em toda a medida possível. Quarto, a resignação. Depois de haver feito tudo o que podia humanamente, deve desembaraçar-se deste cuidado desagradável do passado e libertar-se da lembrança. Pode então, e só então, transmitir esse pecado e suas consequências kármicas ao Eu Superior e encontrar assim a paz. Seria um erro crer que é bastante para isso o esforço inicial e nada mais. O primeiro e segundo degraus podem ter necessidade de repetição frequente, pois, a lição de todo o trabalho de limpeza deve ser impressa e reimpressa no espírito antes que o problema seja definitivamente afastado. Mas quando isso se produzir, o Eu Superior o toma em consideração. Se ele executa as razões e pronuncia um veredito de absolvição, mesmo que não modifique exteriormente o karma, esta decisão manifestar-se-á sob a forma de um alívio interior inexplicável e do desaparecimento de todas as preocupações. O ponto crucial, no decurso desta pesquisa, é aquele em que se passa da vida do eu interior à vida do Eu Superior. Esse ponto começa pelo aparecimento, nas profundezas do coração, de uma certeza sutil de que nos achamos no bom caminho. Termina por uma transformação radical nos hábitos de pensar. Opera uma revolução progressiva na atitude para com as outras criaturas vivas. Apesar de senti-la, o estudante deve, a partir desse momento, modificar também suas maneiras de pensar, de sentir e de agir. A partir desse instante misterioso, a vida do Eu Superior — por fraca que seja no começo — não cessará de aumentar, de tornar-se importante e gloriosa na vida da personalidade. Naturalmente, o estudante descobre que não é sempre fácil querer o que deve ser feito, à luz meridiana do Eu Superior. É uma arte verdadeira e, como todas as artes, aprende-se em provas penosas e em triunfos extasiados, em amargos erros, em miseráveis golpes e em sucessos felizes. Entretanto, o estudante sente, cada vez mais, que começa a compreender que nasceu justamente para esta obediência sublime, e por outro lado, porque sabe desde então que aqueles que nunca obedeceram a nada mais elevado que seu ego pessoal falharam na vida, mesmo que pareçam vitoriosos na sociedade de seus semelhantes.

Mas, mesmo por causa dessa importância crucial e da imensidade de suas consequências, este estágio só pode ser naturalmente ultrapassado após uma luta severa. Com efeito, reclama tudo do homem, tudo o que este considerou até aí como sua existência pessoal. No entanto, se o aspirante é sincero, sentirá o mesmo que aconteceu a Abraão a quem Deus reclamou o sacrifício do filho e, no instante em que dispunha a obedecer, Deus lhe reteve a mão. Se tem a coragem de submeter-se à ordem que procede do divino silencio interior, de sacrificar sua vontade e seus desejos egoístas, seu auto-sacrifício é bem depressa impedido. O ego lhe será entregue, mas nunca mais terá lugar primordial em sua vida. A partir desse momento, não agirá mais senão com a permissão desse ser impessoal que é o seu Eu Divino. Doravante ele se torna “o servo do Senhor”. Em suma, ele próprio se abandona a uma presença que sente intensamente ativa em seu próprio coração. No curso deste estágio crucial, a nota a tocar principalmente, no teclado de seu ser, é a da submissão.

Diz-se que o caráter do sábio é sempre desinteressado e sereno, desprendido e disciplinado, sem paixão e impessoal. Seria um erro crer, como muitos, que se pode alcançar esse estado por esforço pessoal ou da vontade. Nada disso. Isso está acima das forças humanas. Não pode alcançar a este grau senão pela graça misteriosa do Eu Superior. Quando esta pousa nele, sente uma outra força que invade sua consciência e o eleva a um estado de exaltação. Percebe-se, desde então, em sua estreita dependência com criança junto à sua mãe. Daí as palavras profundas de Jesus: “A menos que sejais semelhantes às crianças, não entrareis nos Reinos do céus”.

Aquele que chega a conhecer a experiência da submissão interior, nunca poderá ser o mesmo homem. Quanto mais o Eu Superior opera nele, menos sente o fardo da vida moderna. Quando o sente como uma força viva em cada momento de sua existência, quando se torna um executor submisso da vontade deste mestre interior de sua personalidade, pode entregar-se com confiança a qualquer atividade que seja, porque, com efeito, descobre enfim o segredo da ação inspirada. Ela nada tem de oculto, nada de mágico, e parece tão natural como o alegre burburinho das abelhas em torno do serpão. Poderá daí em diante participar da vida do mundo sem ser desviado de seu fim elevado.

Crer que o acordar da penetração afeta unicamente a inteligência é enganar-se; provoca também o despertar das mais belas qualidades do coração. Nesta esfera transcendente em que entra o filósofo, o pensamento e o sentimento são inseparáveis. A compaixão acompanha automaticamente a penetração mental. A natureza interior de todos os homens pertence ao único e mesmo espírito. Aí está por que aquele que o alcança plenamente joga abaixo a barreira que separa o seu “eu” da do semelhante. Compreende a qualificação paradoxal do Eu Superior, distinto mas não separado de outro homem. Torna-se capaz de sentir plenamente com os outros e por eles, conservando sua personalidade completa. É também por isso que não se pode conservar um observador passivo ante as lutas da humanidade, como o foi no estado místico, e porque não pode ficar encadeado por interesses pessoais puramente como estava talvez em sua época materialista. Servirá então pelo único prazer de servir. O fato de ser guiado por uma inteligência racional garante o sucesso de sua ação.

Por uma consequência curiosa de seu altruísmo, o filósofo, que não procura apenas a sua felicidade, encontra-a; enquanto isso se dá, o egoísta, que a tem como fim constante, nunca a encontra. Enquanto um homem procura arrancar da vida de punhos fechados, somente o que lhe convém, podemos estar seguros de que, quaisquer que sejam seus sucessos momentâneos, não encontrará, afinal, o seu benefício. Como poderá alcança-lo se seu bem-estar é inseparável do bem-estar comum? Que procure este ao mesmo tempo o seu, e ele alcançará sempre os dois juntos, sem em jogo. Isto, sabedoria prática da penetração do Eu Superior, é plenamente confirmado pelas teorias raciocinadas da metafísica iluminada, pelas observações diretas e pelos anais da humanidade.

Os progressos efetuados nessa busca fazem descer naturalmente uma grande paz no coração; as paixões, as agitações, os conflitos interiores que perturbam tantas existências, se moderam, a princípio, e depois se aplacam completamente; isso não quer dizer, porém, que o estudante filósofo viva de uma maneira menos ardente e menos plena que as outras pessoas. Não, de modo nenhum; ele não tem necessidade de repudiar a felicidade disciplinada dos sentidos, por efêmera que seja, mesmo que procure uma que esteja fora de seu domínio. Se perceber as lastimáveis ilusões e erros a que tanta gente se escraviza, perceberá também as realidades e as verdades gloriosas para as quais a evolução encaminha lentamente seus passos reticentes. Será possível que este ensino confira aos seus adeptos o sentimento de vaidade, das ambições humanas, o sentido de caráter efêmero de todos os desejos terrenos? Reduz ele o mundo a um sonho e o homem a uma sombra? Não, absolutamente. É um chamado de clarim para uma via natural e racional, para a pesquisa da verdade, da paz e da beleza. Chegando ao fim deste ensino, vemos que ele oferece, compreendendo-o bem, uma esperança prática, um guia verdadeiro, e cria um estado de espírito favorável à vida corrente. Se a realidade para a qual procura conduzir-nos fosse apenas uma fria concepção intelectual ou uma efervescência sentimental, poderia ser interessante para a humanidade, sem contudo constituir para ela um socorro permanente. Poderia, em particular, tornar a vida digna de ser vivida; mas, o espírito, sendo a base secreta e vital de toda a existência, o seu conhecimento traz uma ajuda considerável à vida. A filosofia oferece a todos uma experiência suprema e maravilhosa e constitui nossa mais brilhante esperança. Todas as palavras são miseráveis diante desta grande experiência que um dia toda a raça humana conhecerá; todos os que estudam com sinceridade e perseverança podem conhece-la desde já.

É portanto, um erro crer que a vida exterior, a existência pessoal, as relações sociais do estudante filósofo possam sofrer uma espécie de mutilação ou de diminuição. Elas se enriquecerão e se alargarão, contrariamente às expectativas malsãs, pois, com efeito, o espírito deve fazer descer, neste mundo de espaço e de tempo, um pouco desta grandeza bem-aventurada, deste milagre permanente que percebe no seu mundo transcendental. Embora o Real no absoluto e na sua pureza se encontre permanentemente como um Vazio, além do mundo manifesto e relativo, não será menos paradoxalmente a fonte e a inspiração dos valores mais altos que este contém. O estudante acha, pois, na filosofia, em função de suas tendências interiores e das circunstâncias exteriores, o que não encontrava no asceticismo místico: um poderoso impulso para criar novos valores na arte, na literatura, na civilização e no trabalho, na instrução e na política, bem como na economia e na indústria; em suma, em todos os campos da atividade humana.

O problema de nosso século XX é justamente aprender a combinar a contemplação com a atividade enérgica, a razão aguda com a intuição sutil, o serviço altruísta de interesse geral com a pesquisa de interesse pessoal, os princípios do Cristo com as exigências de César de maneira pela qual os homens do século precedente jamais cuidaram. É o que viram nitidamente dois grandes orientais, S.G. —, já falecido, Maharadja de Misora e S.G. Maharadja de Pithapuram, que haviam assimilado toda a antiga sabedoria do seu continente, respeitando, entretanto, as realizações modernas do Ocidente. Afirmaram-no várias vezes, no decurso de nossas conversações e nos auxiliaram a compreendê-lo claramente. O cérebro e o corpo, o coração e a alma devem colaborar estreitamente e é necessário que estejam entre si em perfeito equilíbrio. A demasiada atividade sem a suficiente compreensão do que se fazia por exemplo, levou os modernos perigosamente à beira do abismo.

Não é por acaso que Jesus disse a seus discípulos, desde o começo de sua missão, que se arrependessem, isto é, modificassem uma concepção errada e abandonassem a maneira de viver culposa. Mas os atos nascem das ideias. Era antes de mais nada uma mudança na maneira de pensar o que Jesus declarava. Nas circunstâncias mundiais atuais, o valor deste conselho aparece plenamente. O mundo convencional, julgando pelas aparências em vez de julgar as aparências em si mesmas, foi conduzido, aos trancos e barrancos, à consciência rudimentar e fragmentária do que se passa sob a superfície das coisas. Os acontecimentos que hoje presenciamos fazem soar as badaladas mortuárias de um mundo de pensamentos, de uma longa época de ideias, fora da moda. Nós nos alistamos numa luta para a conquista de novos valores que devem ser evidentemente o fruto de uma concepção de vida mais nobre que a que presidia a ordem antiga.

Para suportar com firmeza de alma esta tremenda experiência, precisamos ter a segurança profunda de que este conflito mundial, manifestando-se sob a forma de guerra violenta e de uma pretensa paz, não pode ter senão uma saída: o triunfo último das forças do Bem. Existe uma ideia mestra por trás do Universo. Podemos adaptar a ela nossas minúsculas existências e achar uma felicidade desejável, se o quisermos, ou ao contrário, opor-nos e receber as consequências inelutáveis. É verdade tanto para os indivíduos como para os povos. Mas o espírito redentor do próprio plano não pode deixar de triunfar. A nossa esperança é bem fundada. Elevemos nossos olhares com confiança. Os raios solares dissipam as espessas trevas noturnas e o Sol aparece num céu gloriosamente tinto de violeta e alaranjado e nos traz a sua benção. Como esses raios solares, que dispensam seu bom calor, estão longe da loucura, da estupidez do mundo, dos ódios e paixões da humanidade! Que grandeza excelsa possui essa mensagem colorida do Sol!

O homem seguirá certamente o caminho do Bem, valor supremo, não somente porque não há outro meio de libertar-se dos tormentos incessantes, mas porque é a isso constrangido. O que é mau e bestial nele será progressivamente consumido, enquanto que o que é bom e angélico será desenvolvido. Não terá mais de viver, depois da morte, com o que tem de insensato e culposo mas, com o que tem de mais sábio e de mais nobre. Morrerá somente o que tem de pior em sua natureza. Só o melhor sobreviverá, como deve ser. Tal é a verdadeira imortalidade e a única que se deve esperar.

Paz a todos aqueles que houverem lido estas linhas.


Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior   
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey