Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Os problemas relacionados com os estados de transe

Nos primeiros capítulos do volume A sabedoria oculta além da ioga, que precede a presente obra, estabeleceram-se, embora de maneira breve e incompleta, certos pro­blemas relacionados com o que os iogues em geral consideram como culminação de todos os seus esforços: o estado de transe. Esses ca­pítulos se ocupavam do caráter temporário desse estado, de sua impossibilidade para equilibrar suas próprias visões excepcionais mas fu­gazes, de suas consequências que determinam desajuste do homem para uma existência social, de sua criação de uma atitude de compla­cente diferença pelo bem-estar dos demais, do convencimento do iogue de que é melhor afastar-se permanentemente da sociedade, e da incapacidade desse estado de transe para evidenciar um melhoramento ético.
Esses problemas devem ter-se em conta agora. Mas o termo "transe" tem algumas associações não místicas no sentido espírita, algumas outras, pouco felizes para a consciência ocidental, e algumas decididamente desagradáveis no sentido da medicina. Em realidade, atrai certas sugestões ofensivas patológicas, e usa-se livremente em conexão com os desagradáveis fenômenos da insânia.
Mas o estado superior da meditação correta não é um estado mórbido nem perigoso, tal como geralmente se pensa de um transe; é antes um estado de especial exaltação e de felicidade emocional. É o fruto da disciplina mental, não da aberração mental. O leitor oci­dental mediano está sujeito a formar-se uma falsa ideia do sentido que aqui damos a este vocábulo. É mais provável que capte o significado correto se utilizarmos em troca o termo "rever", mas aqui existe a implicação de que os processos do raciocínio estão ainda trabalhando ativamente, se bem que de maneira vagamente sonhadora.
"Samadhi", a palavra sânscrita, também tem sido traduzida pelos orientalistas como "êxtase". Mas este termo também pode provocar más interpretações, quando recordamos que sua etapa posterior está totalmente desprovida de pensamentos. Por conseguinte, o melhor será utilizar aqui a expressão "auto-absorção" ao invés de empregar o termo "transe". Referimo-nos a um estado de rapto ou absorção dos pensamentos, na essência de si mesmo, e uma profunda imersão dos sentimentos, numa indescritível felicidade. Se é empregada falando das experiências iogues, a palavra "transe" deveria ser reservada para aqueles estados catalépticos em que culminam os esforços dos prati­cantes, nas etapas finais da ioga do controle físico, que aqui não nos interessam, porque este método nunca pode orientar diretamente a realização do Eu Superior, que é o escopo de nossos escritos.
O estado inconsciente alcançado por esse sistema não é conside­rado como algo desejável e necessário, no método que aqui desenvolvemos. Em realidade, seria inútil. Os transes dos hatha-yogues, dos faquires que permitem que os enterrem vivos durante horas ou dias, deixam o homem inconsciente, como quando a ideia do "Eu" retro­cede até a sua fonte dentro do coração. Quando retornam, não obtêm maior benefício espiritual que o que obtêm do dormir comum, enquan­to que na auto-absorção superior da meditação mística, o ego se submerge no coração, porém em plena consciência. Portanto, ninguém deve apartar-se da prática da meditação, pensando que está mais além do alcance comum dos seres humanos, e que só uns poucos a po­dem realizar, e que será necessário que caiam em transe, no sentido de perder totalmente a consciência. Pelo contrário, a prática mesma não só está dentro da capacidade de todos, senão que, ademais, pre­tende proporcionar um estado de consciência mais plena, uma condi­ção psicológica de uma captação consciente mais extensa.
O primeiro problema da auto-absorção é o seu caráter efêmero. Em todas as suas etapas, sejas na recordação difusa, ou na última fase de absorção total, quando o mundo se sente remoto e surge o Eu, sempre está caracterizada pela transitoriedade. O místico há de subir todas as colinas de uma divina existência durante esta experi­ência, mas sempre terá que voltar a descer delas. Sua incursão produz magníficos vislumbres de um hábito superior e de suprema luminosi­dade, mas isto não é permanente. Não pode invernar para sempre na auto-absorção, ainda que o deseje. Ou, como disse o místico chinês Lao Tsé: "Ninguém pode permanecer para sempre parado sobre as pontas de seus pés". Não é possível manter o tempo todo a consciên­cia submersa na contemplação; ela só pode ingressar a intervalos nesta condição. A imobilização interior não é duradoura, e seus transes são transitórios: esta é queixa constante dos místicos que não se tem dado ao trabalho de analisar as suas próprias experiências.
Muitos místicos ocidentais, como São Gregório e Santo Agosti­nho, e não pouco iogues orientais, como Vivekananda, têm-se lamen­tado do fato de não poderem manter-se como queriam, no que consideravam a etapa mais elevada do misticismo, a etapa de completa desaparição de todas as sensações e pensamentos, por mais de uns poucos minutos, ou umas poucas horas, já que sempre deviam re­gressar à condição prosaica da vida cotidiana. São Bernardo descreveu muito bem este sentimento melancólico com as seguintes palavras: "Todos esses poderes e faculdades espirituais começaram a languidescer, como se o fogo fosse apagando pela água derramada de uma marmita fervente. Então minha alma necessariamente ficava sumida na tristeza e depressão, até que Ele quisesse retornar".
A descontinuidade da experiência é algo que o místico não pode controlar nem impedir. Por conseguinte, vê-se enfrentando a dificul­dade de ajustar essas experiências às necessidades da existência física, dificuldade que nunca supera realmente. A filosofia, compreendendo isto, insiste em que seu método particular de aproximação da reali­dade última tem alcançado um ponto em que se tem esgotado sua servidão a ele, e que, em consequência, a natureza enviou um sinal de advertência. Mas só a filosofia pode interpretar este sinal.
Deve-se completar a experiência com o desenvolvimento de uma visão interior mais profunda. Assim, a mesma transitoriedade de tal experiência mística se converte em algo útil porque o místico se aper­cebe de que ela não pode ser a meta suprema, e ao mesmo tempo lhe indica que tem de avançar numa direção diferente. O ensino oculto afirma enfaticamente que o estado de auto-absorção não é o supremo objetivo para a humanidade, por mais que os iogues comuns afirmem o contrário. É só quando está desperta que a pessoa foi totalmente projetada, e não está de nenhuma maneira projetada quando está su­mida no sono profundo. Por conseguinte, unicamente no estado de total vigília, e não no estado de transe — que corresponde ao sonhar ou ao dormir — podem reconhecer-se os propósitos superiores de suas limitações, e alcançar-se a mais ampla consciência da realidade. Assim, pois, ainda que possa ou não atravessar transes, em seu caminho de elevação, o aspirante, por certo, não tem que passar por tais transes quando alcança o cume. O quarto estado da consciência é algo que, em sua finalidade e plenitude, persiste em todo momento e não de­pende de transes fugazes para sua continuação.
O segundo problema que oprime a auto-absorção mística: a sua incapacidade para estabilizar a sua própria visão interior, excepcional mas fugitiva, a sua incapacidade para proporcionar uma sempre ativa consciência da realidade, é também solucionado tão-só pela filosofia. Para compreender isto, devemos primeiro entender que, além da repulsão e compulsão de uma perspectiva do mundo fortemente arrai­gada, o homem que medita deliberadamente, volta as costas ao seu meio ambiente exterior, e abandona e despreza a sua existência terre­na, durante o avanço interior para o seu eu espiritual.
Primeiro descobre ou capta a existência da intangível e invisível Mente, vazia de imagens, durante um rapto contemplativo, em que se absorve intensamente, esquecendo por completo o mundo exterior. Tão intensa é a sua concentração que temporariamente se desvanecem todas as sensações e pensamentos, todas as imagens mentais, e assim o homem se acha num grande vazio, onde nada existe, e onde ele está, em linguagem teológica, submerso no Espírito puro. Mas a mente não pode descansar permanentemente neste vazio, como não podem os pulmões interromper a respiração. Inexoravelmente regressam ao ocea­no da mente universal as ondas de pensamentos individual, interrompendo-se assim o estado de absorção em que o homem está sumido, e o mundo se precipita novamente em sua consciência. Só pode per­manecer ali por uns breves instantes, pois um simbólico anjo com uma espada flamígera o arroja fora do místico jardim de Éden. Por­tanto, isto não pode constituir a sua meta final.
O iogue que atinge este ponto pode lutar arduamente por reter e prolongar este estado de absorção, mas só poderá recobrá-lo nova­mente, repelindo o mundo e metendo-se outra vez dentro de si mesmo. Todavia, a Natureza com toda a sabedoria voltará a impeli-lo para a vida toda vez que ela tenta apartar-se dela. Equivocando os intentos da natureza, o iogue faz ainda maiores esforços, atribuindo sua inca­pacidade e causas equivocadas e negando-se a aprender que a nature­za plasmou carne para experiência instrutiva, não para repelirmos tontamente. O mundo finito aparece insistentemente ali. O iogue po­derá anulá-lo permanentemente. Contudo, consola-se crendo que, enquanto está encarnado, esta é a meta final que o homem pode al­cançar, e que a perfeita libertação sobrevirá depois da morte.
A mera quietude mental é um excelente objetivo, neste caminho de ascensão espiritual, mas não é a verdadeira transcendência. O vazio mental, que tão frequentemente constitui o estado de absorção dos iogues comuns, não é o mesmo que a consciência auto-compreensiva, que constitui o estado de absorção do iogue filósofo. A paz do pri­meiro facilmente determina um debilitamento da visão do mundo e um imenso letargo, enquanto que a paz do segundo só pode determi­nar um aumento de forças para ajudar o mundo e uma grande inspi­ração. Observar este estado, de fora, e crer que ambos são uma mesma condição, é ser culpável de um grave equívoco. A negatividade difusa do primeiro é inferior e distinto da inteligência discriminativa e alerta do segundo.
O tipo de iogue comum simplesmente deixa de pensar. O iogue filósofo compromete ativamente sua consciência livre de pensamentos, na compreensão de sua própria natureza. O primeiro é todo flores, mas sem frutos. O outro é todo flores e todo frutos. Assim, pois, na Senda Suprema, um texto de normas para os aspirantes, reunidos, há oitocentos anos, no Tibete, que é ainda muito apreciado ali, se faz a seguinte advertência: "A quietude do processo inativo do pensamento (na mente individual) pode parecer, equivocadamente, a meia verdadeira, que em realidade consiste em alcançar a quietude da Mente infinita". A chave desta situação extremamente sutil é, portanto, dupla. Primeiro, a posse ou ausência de conhecimento metafí­sico. Segundo, a atitude mental graças à qual o contemplativo entra em estado de auto-absorção. Estes dois fatores estão intimamente rela­cionados entre si, e não podem separar-se porque um depende naturalmente do outro.
O momento em que se passa da vigília para o sono ou sonho é, agora o sabemos, um momento sumamente crítico. A direção geral da consciência neste momento pode determinar o caráter dos sonhos ou sono posteriores; pode, por certo, transformar um ou outro em algo totalmente superior. Da mesma maneira, é sumamente crítico o momento em que a atividade do pensar se submerge na absorção total. Também então a direção geral da consciência pode determinar o caráter do estado seguinte. A atitude mental nesse momento é real­mente criativa. O místico atravessa este momento interessado só em suas reações pessoais frente à experiência, isto é, arrastado por seus sentimentos pessoais de grande satisfação. A experiência o torna mais feliz e ele jamais poderá olvidá-la depois. Mas deixou sua tarefa pela metade, fato melancólico testemunhado pelo seu retorno posterior, tarde ou cedo, ao estado prosaico comum, no qual permanece. Devido em parte a esta referência pessoal, e em parte à sua ignorância metafí­sica, e consequente falta de preparação, entra neste estado de auto-absorção contemplativo, como o homem que se afastasse de uma ha­bitação por uma porta aberta, com os olhos tenazmente fixos no lu­gar familiar que deixou, negando-se a olhar para a frente.
Assim como este homem só em parte saberá onde está, inclusive quando se acha dentro da habitação, assim também o místico terá só uma consciência parcial da índole da Mente pura, inclusive quando está imerso na auto-absorção. Além disso, esta referência pessoal faz que o místico abandone as suas perspectivas preconcebidas e as suas crenças dogmáticas, apenas temporariamente no limiar da Mente, por assim dizer, ao invés de mantê-las em sua chama purificadora; assim, pois, volta a retomar as suas crenças anteriores, quando regressa à experiência comum. Pelo contrário, se a meditação é praticada con­juntamente com o treinamento filosófico, isto é, se não é mais um simples exercício místico, senão que está informado pelo conheci­mento reflexivo racional, então, a perspectiva equivocada da realidade não volta a aparecer, porque o puro ser a experimentará tal qual é. O divino está presente em ambos os casos, mas no primeiro, seu caráter satisfatório se converte num obstáculo, o que não sucede no se gundo caso. Ambos os místicos têm tocado a realidade, mas o pri­meiro apenas alcançou a sua superfície, enquanto que o outro pene­trou em sua imutável profundidade.


Paul Brunton em, A sabedoria do eu superior
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey