Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

A sabedoria suprema


          O estudante filosófico estuda a natureza da matéria e constata que ela é, em última analise, uma manifestação da Mente. Pela reflexão mentalista percebe que as diversas explicações evolucionárias da existência universal não são verdadeiras senão do ponto de vista relativo e todos os elementos, princípios, energias, substâncias, processos, dos quais, conforme se diz, o universo saiu em si mesmos. Não são mais que manifestações mentais, que — do mesmo modo que a água não difere na realidade do oxigênio e do hidrogênio que a compõem, embora difira totalmente dos seus componentes na aparência, as imagens da terra, da água, do ar e do fogo não podem ser essencialmente diferentes da Mente donde provém. Ele se estabelece profundamente na compreensão dessa natureza mental última e na da unicidade final de todas as coisas, sem permitir que nenhuma aparência possa deslocá-lo desta posição intelectual. O estudante está imbuído de que em cada um de seus sopros, em cada um de seus pensamentos, participa com a Mente-Mundial da construção do universo.
         O exercício místico, no qual se empenha, não é cego. Vai além da idéia — mundo e absorve. Utiliza a razão para ir além da razão e não se separa prematuramente dela. Não somente descobre o Pensamento puro, mas medita em sua descoberta. Quando esvasia a consciência de seu conteúdo, ele o faz de olhos inteiramente abertos, sem perder de vista que o conteúdo é de algum modo a espuma da realidade e não difere dela em sua essência. Quando o vazio é preenchido pela presença do Pensamento puro, ele retorna a esse conteúdo com um sentimento cada vez menos agudo de ter que atravessar um abismo de diferença, e cada vez experimenta menos dificuldades para pô-los em relação, em continuidade e harmonia com o que experimentou nas meditações anteriores. Exercita-se a jogar diretamente com essa atenção refletida, em sua vida quotidiana, nos pensamentos que sua consciência forma, em todos os atos executados pelo corpo. Disciplina sua consciência de maneira que contenha a idéia-corpo, sem identificar-se com essa idéia, que funcione pelos cinco sentidos, sem cessar de funcionar na Mente infinita. Continuando a aliar a reflexão metafísica à contemplação mística, ele faz surgir em si uma nova faculdade resultante da fusão das duas reflexões, que não possui nem as limitações do intelecto raciocinador, nem a assimetria da emoção mística lhe é superior. Este estado misterioso da consciência é chamado em sânscrito "o de plenitude total" e confere um estado de penetração muito além do da ioga comum.
         Esta faculdade surge num abrir e fechar de olhos, por assim dizer. A longa e ardente preparação atinge finalmente uma crise em que se produz um verdadeiro transtorno na natureza do aspirante. Apesar dessa instantaneidade, a penetração tem ainda necessidade de tempo para amadurecer. Ela não alcança seu grau mais alto senão quando se torna natural e contínua. Se se obriga a qualquer esforço, ela se degrada. Não se consegue esse grau supremo senão no fim de um longo noviciado. A consciência transcendental não se torna permanente senão quando o Real ocupa sempre o centro da atenção. É o fruto de uma longa e tenaz educação desta para harmonizar a Mente Imanifestada com suas idéias constantemente cambiantes. Aquele que consegue chegar a isso é capaz, portanto, não somente de ter uma percepção verdadeira da realidade mas, ao recebê-la com compreensão, pode estender esta percepção à sua vida quotidiana. Acaba por persistir nas vinte e quatro horas do dia e da noite, tornando-se estável e permanente. O treinamento ultra-místico da via filosófica atinge assim seu coroamento. A atividade do pensamento que segue não é mais a mesma que a precedente; torna-se iluminada. O fim último não é, pois, suprimir o pensamento num transe prolongado e solitário; também não é o de liberar a mente dos pensamentos mas apenas de sua tirania, e levá-la a compreender a significação verdadeira de suas manifestações características relativas ao "Eu" e ao mundo, de tornar o homem consciente, sem esforço, de sua essência mais íntima no curso de sua existência pessoal. Logo que penetra no quarto estado, o sábio não mais pode regredir. Dormindo ou desperto, no trabalho ou no repouso, é perpetuamente dominado por essa transcendência enigmática. O quarto estado, quando plenamente alcançado, dura durante os três outros. Não desaparece no estado de sono nem no estado desperto do corpo. Conserva-se sem esforço, no mesmo sentido em que um homem, no estado desperto, conserva sem esforço sua identidade pessoal.
         Nossa intenção não é subestimar os resultados obtidos pelo místico, mas é preciso dizer que a penetração adquirida por ele é somente parcial, enquanto que a do filósofo é perfeita. A Natureza conduz o místico de uma compreensão puramente emotiva, a uma compreensão calma e inteligente que nunca é refutada quando recai num plano inferior. Os pensamentos imperceptivelmente cambiantes dos objetos exteriores e os pensamentos incessantemente cambiantes dos pensamentos dos objetos, isto é, as coisas e suas imagens, tomam seu nascimento original e depois morrem ulteriormente nesta essência da Mente, que se conserva nele mesmo sem forma, sem mutações, sem nunca ser refutado por alguma coisa que nunca foi produzida nem nunca poderá produzir-se. A despeito das inumeráveis formas sob as quais a Mente se manifesta, a Mente-essência nunca abandona sua identidade eterna. Uma ilusão pode ser refutada por uma experiência ulterior, uma aparência pode ser dissipada por uma pesquisa nova, mas a Realidade nunca pode ser negada nem a Verdade, reputada. De sorte que o método que permite cultivar a faculdade mais elevada da mente e dá esta penetração inabalável, traz tradicionalmente o nome de "ioga do irrefutável". No fundo de todas as correntes de pensamentos, o filósofo discerne sempre o Pensamento divino. Sem cair em transe, sem fechar os olhos, sem negar-se a ouvir, sem cruzar as pernas à maneira dos iogues comuns, conserva a consciência da realidade material e sem forma. Quando pode ultrapassar a necessidade do transe, atinge a percepção de que as diferenças entre o Pensamento puro e os pensamentos, isto é, entre a Mente superior e suas manifestações, não existem senão do ponto de vista humano e não nas próprias coisas; todas repousam na sublime unidade de Deus e não são senão uma manifestação ou uma representação da realidade; na verdade, o mundo inteiro é uma proclamação de Deus. Assim, o estado último para o qual tende a evolução e para onde marcha o homem é o de um repouso consciente na Mente, não de uma inação consciente; os sentidos seguem a sua atividade mas não exercem mais a sua tirania; o ser continua mais liberto do domínio do ser pessoal; as engrenagens do pensamento giram sempre, mas sem exagero.
    Somente a penetração permite varar a aparência sensorial do mundo e compreender permanentemente que ele não é radicalmente diferente do próprio Vazio. Eis porque dos pequenos livros, inspirados e destinados aos aspirantes teosóficos avançados, contêm certas declarações paradoxais. Um deles — Luz no Caminho, — baseado numa autoridade do antigo Egito, recomenda no começo "Procura o Caminho retraindo-te para Interior", e depois. "Procura o Caminho avançando decididamente para fora". O outro, "A Voz do Silêncio", fundado numa autoridade tibetana, declara: "tens de estudar o vazio do aparentemente cheio e o cheio do aparentemente vazio".
         O discípulo chega assim ao ponto culminante de todos esses empreendimentos ultra-místicos e deve inclinar-se em homenagem não somente ao vazio sagrado, donde decorrem todas as coisas, não somente diante das trevas santas que são a fonte de toda a luz, mas também ante o mundo visível que tem sua fonte secreta e inefável em Deus, diante das atividades incessantes que constituem a história sem começo nem fim deste maravilhoso universo. Os homens se maravilham de tudo quanto a ciência descobre de novo no mundo, sem compreender que a maior maravilha é a própria existência deste mundo.
        Aquele que chega a compreender que cada átomo da terra cintila misticamente na vida universal que encerra tudo e que não existe ponto algum em que a Existência Única esteja ausente, compreenderá também que a aventura humana é tão sagrada como qualquer outra coisa. Compreenderá igualmente que a existência quotidiana do homem é em si tão misteriosa, tão milagrosa quanto a existência invisível e inefável de qualquer arcanjo imaginável. O conceito dessa penetração transcendental, para aqueles que compreenderam sua significação, deve necessariamente ser o mais prodigioso que tenha brotado na mente humana. E no entanto, essa sabedoria suprema, essa penetração completa do caráter fundamental de toda a existência, não é mais nem menos que a inteligência do homem levada ao seu grau superior.

Paul Brunton

As escolas iniciáticas e a iluminação

O fruto do estado de absorção do iogue filosófico

A mera quietude mental é um excelente objetivo, neste caminho de ascensão espiritual, mas não é a verdadeira transcendência. O vazio mental, que tão frequentemente constitui o estado de absorção dos iogues comuns, não é o mesmo que a consciência auto-compreensiva, que constitui o estado de absorção do iogue filosófico. A paz do primeiro facilmente determina um debilitamento da visão do mundo e um imenso letargo, enquanto que a paz do segundo só pode  determinar um aumento de forças para ajudar o mundo e uma grande inspiração. Observar este estado, de fora, e crer que ambos são uma mesma condição, é ser culpável de um grave equívoco. A negatividade difusa do primeiro é inferior e distinto da inteligência discriminativa e alerta do segundo. 

O tipo de iogue comum simplesmente deixa de pensar. O iogue filosófico compromete ativamente sua consciência livre de pensamentos, na compreensão de sua própria natureza. O primeiro é todo flores, mas sem frutos. O outro é todo flores e todo frutos. Assim, pois, na Senda Suprema,  um texto de normas para os aspirantes, reunidos, há oitocentos anos no Tibete, que é ainda muito apreciado ali, se faz a seguinte advertência: "A quietude do processo inativo do pensamento (na mente individual) pode parecer, equivocadamente, a meta verdadeira, que em realidade consiste em alcançar a quietude da Mente Infinita". A chave desta situação extremamente sutil é, portanto, dupla. Primeiro, a posse ou ausência de conhecimento metafísico. Segundo, a atitude mental graças à qual o contemplativo entra em estado de auto-absorção. Estes dois fatores estão intimamente relacionados entre si, e não podem separar-se porque um depende naturalmente do outro.

O momento em que se passa da vigília para o sono ou sonho é, agora o sabemos, um momento sumamente crítico. A direção geral da consciência neste momento pode determinar o caráter dos sonhos ou sono posteriores; pode, por certo, transformar um ou outro em algo totalmente superior. Da mesma maneira, é sumamente crítico o momento em que a atividade do pensar se submerge na absorção total. Também então a direção geral da consciência pode determinar o caráter do estado seguinte. A atitude mental neste momento é realmente criativa. O místico atravessa este momento interessado só em suas relações pessoais frente à experiência, isto é, arrastado por seus sentimentos pessoais de grande satisfação. A experiência o torna mais feliz e ele jamais poderá olvidá-la depois. Mas deixou sua tarefa pela metade, fato melancólico testemunhado pelo seu retorno posterior, tarde ou cedo, ao estado prosaico comum, no qual permanece. Devido em parte a esta referência pessoal, e em parte à sua ignorância metafísica, e consequente falta de preparação, entra neste estado de auto-absorção contemplativo, como o homem que se afastasse de uma habitação por uma porta aberta, com os olhos tenazmente fixos no lugar familiar que deixou, negando-se olhar para a frente.

Assim como este homem só em parte saberá onde está, inclusive quando se acha dentro da habitação, assim também o místico terá só uma consciência parcial da índole da Mente Pura, inclusive quando está imerso na auto-absorção. Além disso, esta referência pessoal faz que o místico abandone as suas perspectivas preconcebidas e as suas crenças dogmáticas, apenas temporariamente no limiar da Mente, por assim dizer, ao invés de mantê-las em sua chama purificadora; assim, pois, volta a retomar suas crenças anteriores, quando regressa à experiência comum. Pelo contrário, se a meditação é praticada conjuntamente com o treinamento filosófico, isto é, se não é mais um simples exercício místico, senão que está informado pelo conhecimento reflexivo racional, então, a perspectiva equivocada da realidade não volta a aparecer, porque o puro ser a experimentará tal qual é. O divino está presente em ambos os caos, mas no primeiro, seu caráter satisfatório se converte num obstáculo, o que não sucede no segundo caso. Ambos os místicos têm tocado a realidade, mas o primeiro apenas alcançou a superfície, enquanto que o outro penetrou em sua imutável profundidade.

Paul Brunton

Vida e morte do meu orgulho filosófico

Ah! Como me sentia feliz,
Naquele tempo!...
Havia aprendido, com muito esforço,
A pensar filosoficamente...
Altos conceitos, sublimes idéias e ideais
Me enchiam a cabeça e o coração...
E eu olhava com secreto menosprezo
A turbamulta dos profanos,
Da massa anônima,
Dos que não sabiam pensar
Filosoficamente.

Na cabeça e no coração era plenamente triunfante
A minha querida filosofia.
Mas, quando, um dia, tentei passar para a vida,
Para as mãos, para os pés,
Para minha vivência cotidiana,
A minha bela filosofia
Foi tremenda a minha decepção...
Ao primeiro esbarro com o mundo profano
Lá se foi, em mil pedaços,
O meu lindo cristal filosófico!...

Humilde e cabisbaixo, varri
Para a lata de lixo
Os cacos do meu cristal partido...
Quão poéticas são as teorias mentais
E quão prosaica é a prática real!
“Você é filósofo?” perguntou-me um amigo.
Quis responder com um afoito “sim”,
Como outrora,
Mas não tive suficiente energia
Para semelhante audácia....
Os cacos do meu lindo cristal me preservaram
Da infecção do velho orgulho mental.
“Procuro compreender um pouco”, respondi, hesitante.
E fui riscar um zero e mais um zero
Do nédio “100” da minha afirmação categórica
De tempos idos.
Ficou apenas o modesto “1” do orgulhoso “100”,
Esse “1”, mirrado e magro,
A apontar, silenciosamente,
As ignotas alturas do além...
Foi o que sobrou do opulento festim
Da minha filosofia que eu tinha
Na cabeça e no coração,
Mas que não era a minha vida...
Hoje procuro amparar,
Com mãos de solícita Vestal,
A bruxoleante luzinha sagrada,
A chama do meu grande ideal
De espiritualidade,
Feliz quando consigo
“Ser” na vida
Um por cento daquilo
Que “sei” na cabeça.
É tão orgulhosamente doce
Esse “eu sei”
É tão indizivelmente amargo
Esse “eu sou”.
O “eu sei” alimenta o meu velho ego,
O “eu sou” exige a morte desse ego
Para que nascer possa o novo Eu...
Agora, só me resta essa chama humilde
Do meu sincero querer,
Do meu sagrado crer,
Do meu cândido querer-compreender,
Na silente expectativa da graça de Deus
Que venha com sua plenitude
Encher a minha vacuidade...

Huberto Rohden – Escalando o Himalaia

O Anel Atlante Original e a geometria sagrada



O Anel Atlante Original e a relação com a Geometria sagrada, o numero de ouro, PI e PHI. A geometria sagrada mostra como os tijolos da criação são formados em todos os aspectos da vida na terra e no universo. 


A Maneira que o criador da toda a vida na da terra, através da energia primordial, que se transforma em ondas, vibrações e formas.

A importância de se manter o foco

Se quiser ser um astrônomo, nunca virá a sê-lo se ficar sentado, clamando: "Astronomia! Astronomia!" Para tornar-se um astrônomo você precisa ir ao observatório, usar o telescópio, estudar as estrelas e planetas. Cada ciência tem seu próprio método. Eu poderia pregar milhares de sermões, mas eles não o transformariam em uma pessoa religiosa, a menos que siga o método adequado. São essas as verdades ensinadas em todas as épocas, em todos os rincões da terra, pelos homens sábios, puros e altruístas que só tinham como motivação fazer o bem à humanidade. Todos afirmaram ter encontrado uma verdade superior à que se pode perceber por meio dos sentidos e convidam-nos a comprová-la. Pedem que adotemos seu método, praticando-o com sinceridade. Só então, se não encontrarmos essa elevada verdade, teremos o direito de negá-la. Caso contrário, não estaremos sendo racionais ao negarmos a veracidade de suas afirmações. Assim, devemos fazer um esforço constante, usando os métodos prescritos e a luz virá.
Na aquisição do conhecimento usamos a generalização e a generalização está fundamentada na observação. Primeiro observamos os fatos, depois generalizamos e por último chegamos às conclusões ou princípios. O conhecimento da mente, da natureza interna do homem e do pensamento não há de ser alcançado antes de termos o poder de observar os fatos que se passam em nosso íntimo. Comparativamente falando, é muito fácil observar os fenômenos do mundo exterior. Diversos instrumentos foram inventados com essa finalidade; no que se refere ao mundo interior, não temos instrumento que nos ajudem. Sabemos, entretanto, que é por meio da observação que adquirimos conhecimento autêntico. Sem análise adequada qualquer ciência será infundada reduzindo-se a teorias. E por isso que os psicólogos têm discordado entre si, desde o começo dos tempos, exceto aqueles poucos que descobriram os métodos de observação.
Em primeiro lugar, a ciência da raja yoga propõe-se oferecer os meios de observarmos os estados interiores. O instrumento requerido é a própria mente. O poder de atenção, adequadamente orientado e dirigido ao mundo interior, analisará a mente e esclarecerá diversos fatos. Os poderes mentais são raios de luz dispersos; quando concentrados, iluminam. Esse é o nosso único meio de obtermos conhecimento. Seja no mundo interior, seja no exterior, todos o empregam. Porém, para o psicólogo, a mesma observação minuciosa deve se dirigida para o mundo interior, como faz o cientista com o mundo exterior. Isso requer extensa prática. A começar da infância, aprendemos a prestar atenção às coisas externas, nunca às internas. Por isso, muitos de nós praticamente perdemos a faculdade de observar o processo do funcionamento interno. Interiorizar a mente, impedindo-a de voltar-se para fora e, concentrando seus poderes, dirigi-los para ela mesma a fim de conhece sua natureza, é um trabalho muito árduo. No entanto, esse é o único caminho para que possamos acercar-nos cientificamente do tema.
Para que serve esse conhecimento? Antes de mais nada, o conhecimento em si é a mais alta recompensa do conhecimento; em segundo lugar, é de grande proveito. Ele acabará com o sofrimento. Quando, pela análise de sua própria mente, o homem se confronta com algo que nunca pode ser destruído e que é, por sua própria natureza, eternamente puro e perfeito, não se sentirá mais atormentado nem infeliz. Todo sofrimento deriva do medo, do desejo insatisfeito. O homem saberá que nunca morre e não mais terá medo da morte. Ao saber que é perfeito, não mais terá desejos vãos. Ausentes essas duas causas, a angústia cessará e a felicidade perfeita será alcançada, enquanto ainda vive no corpo.
Existe apenas um único método para alcançar esse conhecimento: denomina-se concentração. O químico em seu laboratório concentra a energia de sua mente em um único foco, que faz convergir sobre os elementos que está analisando, descobrindo dessa forma seus segredos. O astrônomo focaliza a energia de sua mente, projetando-a, por meio do telescópio, para o céu; e as estrelas, o sol e a lua desvendam para ele seus segredos.
Como foi obtido todo o conhecimento do mundo? Pela concentração dos poderes mentais. A natureza está pronta para revelar seus segredos, desde que saibamos bater à sua porta com o toque apropriado. A firmeza e a força da batida vêm por intermédio da concentração. Não há limites para o poder da mente humana. Quanto maior a concentração, maior será o poder exercido sobre um ponto. Esse é o segredo.
E mais fácil concentrar-se nas coisas externas, pois a mente naturalmente se volta para fora. O mesmo não acontece com religião, psicologia ou metafísica, em que o sujeito é o mesmo que o objeto. O objeto é interno — a própria mente é o objeto — e é necessário estudar a mente em si. A mente estudando a mente. Sabemos que existe um poder mental denominado reflexão. Estou falando com você e, ao mesmo tempo, é como se eu estivesse de fora e fosse uma segunda pessoa, que sabe e ouve o que estou dizendo. Você age e pensa ao mesmo tempo, enquanto uma parte de sua mente fica de lado e observa o que você está pensando. Devemos concentrar os poderes mentais convergindo-os para a própria mente e, assim como os recantos mais escuros revelam seus segredos aos raios penetrantes do sol, também a mente concentrada penetra seus próprios segredos mais íntimos. Desse modo chegaremos aos fundamentos da crença, à religião verdadeira e genuína. Perceberemos, por nós mesmos, se temos almas, se a vida dura apenas cinco minutos ou é eterna, se há ou não há um Deus no universo. Tudo isso será revelado.
E isso o que a raja yoga se propõe ensinar. A meta de seus ensinamentos é a concentração da mente, como descobrir seus mais íntimos recessos, como generalizar seu conteúdo para chegarmos a nossas próprias conclusões. Por isso a raja yoga nunca pergunta que religião professamos, nem indaga se somos deístas ou ateus, cristãos, judeus ou budistas. Somos seres humanos e isso basta. Todo ser humano tem o direito e o poder de buscar a religião, indagar suas razões e obter essa resposta por si mesmo, bastando para isso que se disponha a procurá-la.

Até aqui, vemos que não é necessária nenhuma crença ou fé para o estudo da raja yoga. Em nada acredite, a não ser no que descobrir por si mesmo: nisso consiste o ensinamento. A verdade não precisa de nenhum apoio para ficar de pé.
Vivekananda

O que conta é a vivência

Nosso conhecimento baseia-se na experiência. O conhecimento inferencial, que parte do particular para o geral ou do geral para o particular, tem seu fundamento na experiência. Nas ciências exatas é mais fácil encontrar a verdade porque elas se remetem às experiências de cada ser humano. O cientista não lhe diz para crer em coisa alguma. Ele dispõe de certos resultados que provêm da análise de seus experimentos. Quando pede que acreditemos em suas conclusões, recorre a alguma experiência universal. Nas ciências exatas há uma base comum a toda a humanidade que nos permite reconhecer imediatamente como verdadeiras ou falsas as conclusões por elas formuladas. A pergunta que fazemos agora é a seguinte: tem a religião uma base similar ou não? A essa pergunta terei de responder tanto de maneira afirmativa quanto negativa.
A religião, como geralmente vem sendo ensinada no mundo, apóia-se na fé e na crença e, na maioria dos casos, consiste apenas em diferentes teorias. E por esse motivo que as religiões estão em conflito umas com as outras. As teorias, por sua vez, baseiam-se em crenças. Um homem diz que existe um grande Ser que está sentado acima das nuvens, de onde governa o universo, e pede que eu creia nisso apenas pela autoridade de suas palavras. Eu, de minha parte, posso ter minhas próprias ideias e solicitar aos outros que acreditem nelas, mas se me pedirem uma comprovação, não tenho nenhuma sequer para oferecer-lhes. E por isso que a religião e a metafísica têm atualmente péssima reputação. As pessoas instruídas parecem dizer: "Oh, essas religiões não passam de montes de teorias, sem que haja um critério válido para julgá-las, com cada homem pregando suas ideias favoritas." Entretanto, a religião fundamenta-se numa crença universal, que rege as diversas teorias e ideias das mais variadas seitas, em diferentes países. Em seus alicerces elas se apoiam em experiências universais.
O cristão pede que você acredite em sua religião e em Cristo, aceitando-o como Deus encarnado, e que creia em um Deus, em uma alma, e em um estado mais elevado para ela. Se eu lhe pergunto por que devo acreditar nisso, ele responde porque é nisso que ele acredita. Mas se você for à origem da cristandade, descobrirá que sua base foi construída sobre a experiência. Cristo disse que viu Deus, seus discípulos disseram que sentiram Deus, e assim por diante. De modo similar, encontramos no budismo a experiência de Buda. Ele vivenciou certas verdades, contemplou-as, entrou em contato com elas e pregou-as ao mundo. O mesmo acontece com os hindus. Em seus livros, os autores, denominados rishis ou sábios, declaram ter experimentado as verdades que pregam.
É evidente que todas as religiões do mundo foram construídas sobre o fundamento universal e inabalável de todo o nosso conhecimento — a experiência direta. Todos os mestres viram Deus, todos viram sua própria alma e seu próprio futuro, todos contemplaram a eternidade. O que viram, ensinaram. Existe, porém, uma diferença. A maioria das religiões, especialmente nos tempos modernos, faz a afirmação singular de que tais experiências são impossíveis hoje em dia: foram possíveis apenas a alguns raros homens, os fundadores das religiões que posteriormente levaram seus nomes. Em nossos dias tais experiências ficaram antiquadas e, portanto, temos agora de aceitar a religião pela fé.
Nego peremptoriamente tal coisa. Se neste mundo houve uma determinada experiência em algum ramo específico de conhecimento, é incontestável que ela foi possível milhões de vezes antes e se repetirá eternamente. A uniformidade é a lei rigorosa da natureza; o que alguma vez aconteceu, poderá acontecer sempre.
Os mestres da ciência da raja yoga declaram que a religião não apenas se fundamenta na experiência de tempos remotos, mas também que nenhum homem pode ser religioso até que ele próprio alcance as mesmas percepções. A raja yoga é a ciência que nos ensina como obtê-las. Não adianta muito falar de religião até que a tenhamos experimentado. Por que existem tantos distúrbios, tantas lutas e disputas em nome de Deus? Houve mais sangue derramado em nome de Deus do que em nome de qualquer outra causa, porque as pessoas nunca foram à origem; contentaram-se apenas em dar seu consentimento mental aos costumes de seus antepassados e querem que os outros façam o mesmo. Que direito tem um homem de afirmar que possui uma alma, se nunca a sentiu, ou que existe Deus, se nunca o viu? Se existe um Deus, devemos vê-lo; se existe uma alma, devemos percebê-la. Do contrário, será melhor não crer. É melhor ser um ateu declarado do que um hipócrita.
Se por um lado, a ideia moderna entre as pessoas "cultas" é a de que religião, metafísica e a busca por um Ser Supremo é algo inútil, por outro lado, entre os menos instruídos, a ideia parece ser a de que esses assuntos não têm nenhuma base; seu único valor consiste em propiciarem fortes e poderosos motivos para que o bem seja praticado neste mundo. Se os homens crêem em Deus, tornam-se bons e honrados; por conseguinte, bons cidadãos. Não podemos censurá-los por pensarem assim, uma vez que os ensinamentos que esses homens recebem consistem em simplesmente acreditar numa eterna algaravia de palavras, sem nenhum fundamento por trás delas. São chamados a viver de palavras. Podem fazê-lo? Se pudessem, eu não teria o menor respeito pela natureza humana. O homem quer a verdade, quer experimentar a verdade por si mesmo. Quando entendê-la, realizá-la e senti-la no âmago de seu ser, só então, declaram os Vedas, as dúvidas desaparecem, a obscuridade se dissolve, o que é torto se endireita. "Filhos da imortalidade, até mesmo para vós que viveis nas mais altas esferas o caminho foi encontrado. Existe uma maneira de sairmos dessas trevas, que consiste em perceber Aquele que está além de toda a escuridão. Não há outro."

Vivekananda


Sensações Físicas e Piscológicas ao Entrar para a 4ª/5ª Dimensão

As dores físicas, especialmente na coluna, ombros e costas — Isto é resultado de intensas mudanças no nível do DNA à medida que "a semente da nova energia" vai despertando dentro de vocês. Tudo isto passará.

Sentimento de profunda tristeza interior sem razão aparente — Vocês estão liberando seu passado (estas vidas e outras) e isto provoca este sentimento de tristeza. É como a experiência de se mudar de uma casa onde vocês moraram por muitos anos para uma nova. Quanto mais vocês quiserem ir para esta casa nova, mais experimentarão a tristeza de deixar para trás as recordações, a energia e as experiências da casa antiga. Tudo isso também passará.

Mudanças repentinas no trabalho e na profissão — Sintoma muito comum. Quando vocês estão mudando, as coisas ao seu redor também mudam. Não se preocupem em encontrar o trabalho ou a profissão perfeita. Tudo isto passará. Vocês estão em período de transição e deverão passar por muitas mudanças de trabalho antes de encontrar o que realmente os atrai.

Afastar-se das relações familiares — Vocês estão conectados com sua família biológica através do carma passado. Quando termina o ciclo cármico, os vínculos estabelecidos com essas relações se liberam. Ainda pode parecer que a relação com sua família e amigos esteja à deriva. Tudo isto também passará. Passado um tempo, vocês poderão novamente retomar a relação com eles se for apropriado. De qualquer maneira, essa nova relação se baseará numa nova energia, sem vínculos cármicos.

Padrões de sono anormais — Pode ocorrer que vocês se sintam muito sonolentos ou despertem muitas noites entre às 2 e às 4 horas da manhã. Há muito trabalho a ser feito em seu interior, o que faz com que a mente necessite de uma folga. Não se preocupem. Se não puderem pegar no sono outra vez, levantem e façam alguma coisa em vez de ficar na cama preocupando-se com assuntos mundanos. Tudo isto também passará.

Sonhos intensos — Podem incluir sonhos com conteúdo de batalhas ou guerras, sonhos em que são perseguidos ou sonhos com seres monstruosos, ou que correm para fugir de algum monstro. Vocês estão literalmente liberando velhas energias de dentro de vocês. E estas energias do passado são representadas como lutas. Tudo isto passará.

Desorientação física — Algumas vezes se sentirão como se não estivessem pisando no chão.

Sentir-se desafiado pelo espaço — Com a sensação de não conseguir pôr os pés no chão ou de andar entre dois mundos. Durante a transição de sua consciência para uma nova energia, o corpo pode ficar estafado. Vocês precisam passar mais tempo na natureza para enraizar a nova energia em seu interior. Tudo isto passará.

Aumento das conversas consigo mesmo – Vocês se verão mais frequentemente falando com o seu eu interno. Há um novo nível de comunicação assentando-se no seu ser. Vocês estão experimentando a ponta do iceberg com essa sua conversa interna. As conversas se intensificarão e se farão mais fluidas, mais coerentes e mais visionárias. Vocês não estão ficando loucos; apenas estão dando vazão à nova energia.

Sentimentos de saudade — Ainda que estejam na companhia de outros, podem sentir-se sós e separados dos demais. Poderão sentir o desejo de se afastar dos grupos e da multidão. Como humanos angélicos, estão caminhando para o caminho sagrado que cada um tem que trilhar por si próprio. Quanto mais ansiedade esses sentimentos de saudade lhes causam, mais difícil será interagir com os demais nesses momentos. Os sentimentos de saudade também estão associados ao fato de que os seus “guias” anteriores se foram. Eles estiveram com vocês por todas as viagens, em todas as vidas. Mas veio o momento de se afastarem para que vocês pudessem partilhar seu espaço com sua própria Divindade. Tudo isto também passará à medida que a voz interior se encha com o Amor e a energia da própria consciência Crística.

Perda da paixão — Vocês podem sentir-se totalmente desapaixonados, ou com pouco desejo de fazer as coisas. Está bem assim. Isto também faz parte do processo. Vocês tomarão algum tempo para não fazer nada. Não lutem consigo mesmos por isso, porque tudo isto passará. É parecido com o ato de reiniciar o computador. Vocês necessitam parar por um breve período para carregar um software novo e mais sofisticado, que, neste caso, é a nova energia da semente Crística.

Um profundo anseio de voltar para Casa — Esta é a condição mais difícil e desafiante de todas. Vocês poderão experimentar um desejo profundo e irresistível de deixar o planeta e retornar ao "Lugar". Não é um sentimento suicida, pois não está baseado em raiva nem em frustração, e vocês não querem nenhum drama, nem para vocês nem para ninguém. 

Há uma parte muito pequena de vocês que quer voltar para Casa, pois vocês completaram seu ciclo cármico, concluíram o contrato com a vida atual, e estão liberados para se empenhar em uma nova vida. Porém, ainda estão num corpo físico, e mesmo que estejam preparados para aceitar os desafios relativos à entrada numa Nova Energia, e de fato vocês poderiam voltar para Casa neste exato momento, vocês percorreram um longo caminho, e depois de tantas vidas, seria vergonhoso se vocês deixassem a cena antes de o filme terminar. Além disso, o Espírito necessita que vocês ajudem os demais a fazer a transição para a nova energia. Eles necessitam de um guia humano, como vocês, que caminharam da velha energia para a nova. A senda pela qual vocês estão caminhando os provê de experiências que os capacitaram a chegar à maestria do Novo Humano Divino. E apesar de às vezes a sua viagem parecer escura e solitária, lembrem-se de que jamais estão sozinhos e que serão ajudados se pedirem.

Dr. James Hurtak, Phd

Os problemas relacionados com os estados de transe

Nos primeiros capítulos do volume A sabedoria oculta além da ioga, que precede a presente obra, estabeleceram-se, embora de maneira breve e incompleta, certos pro­blemas relacionados com o que os iogues em geral consideram como culminação de todos os seus esforços: o estado de transe. Esses ca­pítulos se ocupavam do caráter temporário desse estado, de sua impossibilidade para equilibrar suas próprias visões excepcionais mas fu­gazes, de suas consequências que determinam desajuste do homem para uma existência social, de sua criação de uma atitude de compla­cente diferença pelo bem-estar dos demais, do convencimento do iogue de que é melhor afastar-se permanentemente da sociedade, e da incapacidade desse estado de transe para evidenciar um melhoramento ético.
Esses problemas devem ter-se em conta agora. Mas o termo "transe" tem algumas associações não místicas no sentido espírita, algumas outras, pouco felizes para a consciência ocidental, e algumas decididamente desagradáveis no sentido da medicina. Em realidade, atrai certas sugestões ofensivas patológicas, e usa-se livremente em conexão com os desagradáveis fenômenos da insânia.
Mas o estado superior da meditação correta não é um estado mórbido nem perigoso, tal como geralmente se pensa de um transe; é antes um estado de especial exaltação e de felicidade emocional. É o fruto da disciplina mental, não da aberração mental. O leitor oci­dental mediano está sujeito a formar-se uma falsa ideia do sentido que aqui damos a este vocábulo. É mais provável que capte o significado correto se utilizarmos em troca o termo "rever", mas aqui existe a implicação de que os processos do raciocínio estão ainda trabalhando ativamente, se bem que de maneira vagamente sonhadora.
"Samadhi", a palavra sânscrita, também tem sido traduzida pelos orientalistas como "êxtase". Mas este termo também pode provocar más interpretações, quando recordamos que sua etapa posterior está totalmente desprovida de pensamentos. Por conseguinte, o melhor será utilizar aqui a expressão "auto-absorção" ao invés de empregar o termo "transe". Referimo-nos a um estado de rapto ou absorção dos pensamentos, na essência de si mesmo, e uma profunda imersão dos sentimentos, numa indescritível felicidade. Se é empregada falando das experiências iogues, a palavra "transe" deveria ser reservada para aqueles estados catalépticos em que culminam os esforços dos prati­cantes, nas etapas finais da ioga do controle físico, que aqui não nos interessam, porque este método nunca pode orientar diretamente a realização do Eu Superior, que é o escopo de nossos escritos.
O estado inconsciente alcançado por esse sistema não é conside­rado como algo desejável e necessário, no método que aqui desenvolvemos. Em realidade, seria inútil. Os transes dos hatha-yogues, dos faquires que permitem que os enterrem vivos durante horas ou dias, deixam o homem inconsciente, como quando a ideia do "Eu" retro­cede até a sua fonte dentro do coração. Quando retornam, não obtêm maior benefício espiritual que o que obtêm do dormir comum, enquan­to que na auto-absorção superior da meditação mística, o ego se submerge no coração, porém em plena consciência. Portanto, ninguém deve apartar-se da prática da meditação, pensando que está mais além do alcance comum dos seres humanos, e que só uns poucos a po­dem realizar, e que será necessário que caiam em transe, no sentido de perder totalmente a consciência. Pelo contrário, a prática mesma não só está dentro da capacidade de todos, senão que, ademais, pre­tende proporcionar um estado de consciência mais plena, uma condi­ção psicológica de uma captação consciente mais extensa.
O primeiro problema da auto-absorção é o seu caráter efêmero. Em todas as suas etapas, sejas na recordação difusa, ou na última fase de absorção total, quando o mundo se sente remoto e surge o Eu, sempre está caracterizada pela transitoriedade. O místico há de subir todas as colinas de uma divina existência durante esta experi­ência, mas sempre terá que voltar a descer delas. Sua incursão produz magníficos vislumbres de um hábito superior e de suprema luminosi­dade, mas isto não é permanente. Não pode invernar para sempre na auto-absorção, ainda que o deseje. Ou, como disse o místico chinês Lao Tsé: "Ninguém pode permanecer para sempre parado sobre as pontas de seus pés". Não é possível manter o tempo todo a consciên­cia submersa na contemplação; ela só pode ingressar a intervalos nesta condição. A imobilização interior não é duradoura, e seus transes são transitórios: esta é queixa constante dos místicos que não se tem dado ao trabalho de analisar as suas próprias experiências.
Muitos místicos ocidentais, como São Gregório e Santo Agosti­nho, e não pouco iogues orientais, como Vivekananda, têm-se lamen­tado do fato de não poderem manter-se como queriam, no que consideravam a etapa mais elevada do misticismo, a etapa de completa desaparição de todas as sensações e pensamentos, por mais de uns poucos minutos, ou umas poucas horas, já que sempre deviam re­gressar à condição prosaica da vida cotidiana. São Bernardo descreveu muito bem este sentimento melancólico com as seguintes palavras: "Todos esses poderes e faculdades espirituais começaram a languidescer, como se o fogo fosse apagando pela água derramada de uma marmita fervente. Então minha alma necessariamente ficava sumida na tristeza e depressão, até que Ele quisesse retornar".
A descontinuidade da experiência é algo que o místico não pode controlar nem impedir. Por conseguinte, vê-se enfrentando a dificul­dade de ajustar essas experiências às necessidades da existência física, dificuldade que nunca supera realmente. A filosofia, compreendendo isto, insiste em que seu método particular de aproximação da reali­dade última tem alcançado um ponto em que se tem esgotado sua servidão a ele, e que, em consequência, a natureza enviou um sinal de advertência. Mas só a filosofia pode interpretar este sinal.
Deve-se completar a experiência com o desenvolvimento de uma visão interior mais profunda. Assim, a mesma transitoriedade de tal experiência mística se converte em algo útil porque o místico se aper­cebe de que ela não pode ser a meta suprema, e ao mesmo tempo lhe indica que tem de avançar numa direção diferente. O ensino oculto afirma enfaticamente que o estado de auto-absorção não é o supremo objetivo para a humanidade, por mais que os iogues comuns afirmem o contrário. É só quando está desperta que a pessoa foi totalmente projetada, e não está de nenhuma maneira projetada quando está su­mida no sono profundo. Por conseguinte, unicamente no estado de total vigília, e não no estado de transe — que corresponde ao sonhar ou ao dormir — podem reconhecer-se os propósitos superiores de suas limitações, e alcançar-se a mais ampla consciência da realidade. Assim, pois, ainda que possa ou não atravessar transes, em seu caminho de elevação, o aspirante, por certo, não tem que passar por tais transes quando alcança o cume. O quarto estado da consciência é algo que, em sua finalidade e plenitude, persiste em todo momento e não de­pende de transes fugazes para sua continuação.
O segundo problema que oprime a auto-absorção mística: a sua incapacidade para estabilizar a sua própria visão interior, excepcional mas fugitiva, a sua incapacidade para proporcionar uma sempre ativa consciência da realidade, é também solucionado tão-só pela filosofia. Para compreender isto, devemos primeiro entender que, além da repulsão e compulsão de uma perspectiva do mundo fortemente arrai­gada, o homem que medita deliberadamente, volta as costas ao seu meio ambiente exterior, e abandona e despreza a sua existência terre­na, durante o avanço interior para o seu eu espiritual.
Primeiro descobre ou capta a existência da intangível e invisível Mente, vazia de imagens, durante um rapto contemplativo, em que se absorve intensamente, esquecendo por completo o mundo exterior. Tão intensa é a sua concentração que temporariamente se desvanecem todas as sensações e pensamentos, todas as imagens mentais, e assim o homem se acha num grande vazio, onde nada existe, e onde ele está, em linguagem teológica, submerso no Espírito puro. Mas a mente não pode descansar permanentemente neste vazio, como não podem os pulmões interromper a respiração. Inexoravelmente regressam ao ocea­no da mente universal as ondas de pensamentos individual, interrompendo-se assim o estado de absorção em que o homem está sumido, e o mundo se precipita novamente em sua consciência. Só pode per­manecer ali por uns breves instantes, pois um simbólico anjo com uma espada flamígera o arroja fora do místico jardim de Éden. Por­tanto, isto não pode constituir a sua meta final.
O iogue que atinge este ponto pode lutar arduamente por reter e prolongar este estado de absorção, mas só poderá recobrá-lo nova­mente, repelindo o mundo e metendo-se outra vez dentro de si mesmo. Todavia, a Natureza com toda a sabedoria voltará a impeli-lo para a vida toda vez que ela tenta apartar-se dela. Equivocando os intentos da natureza, o iogue faz ainda maiores esforços, atribuindo sua inca­pacidade e causas equivocadas e negando-se a aprender que a nature­za plasmou carne para experiência instrutiva, não para repelirmos tontamente. O mundo finito aparece insistentemente ali. O iogue po­derá anulá-lo permanentemente. Contudo, consola-se crendo que, enquanto está encarnado, esta é a meta final que o homem pode al­cançar, e que a perfeita libertação sobrevirá depois da morte.
A mera quietude mental é um excelente objetivo, neste caminho de ascensão espiritual, mas não é a verdadeira transcendência. O vazio mental, que tão frequentemente constitui o estado de absorção dos iogues comuns, não é o mesmo que a consciência auto-compreensiva, que constitui o estado de absorção do iogue filósofo. A paz do pri­meiro facilmente determina um debilitamento da visão do mundo e um imenso letargo, enquanto que a paz do segundo só pode determi­nar um aumento de forças para ajudar o mundo e uma grande inspi­ração. Observar este estado, de fora, e crer que ambos são uma mesma condição, é ser culpável de um grave equívoco. A negatividade difusa do primeiro é inferior e distinto da inteligência discriminativa e alerta do segundo.
O tipo de iogue comum simplesmente deixa de pensar. O iogue filósofo compromete ativamente sua consciência livre de pensamentos, na compreensão de sua própria natureza. O primeiro é todo flores, mas sem frutos. O outro é todo flores e todo frutos. Assim, pois, na Senda Suprema, um texto de normas para os aspirantes, reunidos, há oitocentos anos, no Tibete, que é ainda muito apreciado ali, se faz a seguinte advertência: "A quietude do processo inativo do pensamento (na mente individual) pode parecer, equivocadamente, a meia verdadeira, que em realidade consiste em alcançar a quietude da Mente infinita". A chave desta situação extremamente sutil é, portanto, dupla. Primeiro, a posse ou ausência de conhecimento metafí­sico. Segundo, a atitude mental graças à qual o contemplativo entra em estado de auto-absorção. Estes dois fatores estão intimamente rela­cionados entre si, e não podem separar-se porque um depende naturalmente do outro.
O momento em que se passa da vigília para o sono ou sonho é, agora o sabemos, um momento sumamente crítico. A direção geral da consciência neste momento pode determinar o caráter dos sonhos ou sono posteriores; pode, por certo, transformar um ou outro em algo totalmente superior. Da mesma maneira, é sumamente crítico o momento em que a atividade do pensar se submerge na absorção total. Também então a direção geral da consciência pode determinar o caráter do estado seguinte. A atitude mental nesse momento é real­mente criativa. O místico atravessa este momento interessado só em suas reações pessoais frente à experiência, isto é, arrastado por seus sentimentos pessoais de grande satisfação. A experiência o torna mais feliz e ele jamais poderá olvidá-la depois. Mas deixou sua tarefa pela metade, fato melancólico testemunhado pelo seu retorno posterior, tarde ou cedo, ao estado prosaico comum, no qual permanece. Devido em parte a esta referência pessoal, e em parte à sua ignorância metafí­sica, e consequente falta de preparação, entra neste estado de auto-absorção contemplativo, como o homem que se afastasse de uma ha­bitação por uma porta aberta, com os olhos tenazmente fixos no lu­gar familiar que deixou, negando-se a olhar para a frente.
Assim como este homem só em parte saberá onde está, inclusive quando se acha dentro da habitação, assim também o místico terá só uma consciência parcial da índole da Mente pura, inclusive quando está imerso na auto-absorção. Além disso, esta referência pessoal faz que o místico abandone as suas perspectivas preconcebidas e as suas crenças dogmáticas, apenas temporariamente no limiar da Mente, por assim dizer, ao invés de mantê-las em sua chama purificadora; assim, pois, volta a retomar as suas crenças anteriores, quando regressa à experiência comum. Pelo contrário, se a meditação é praticada con­juntamente com o treinamento filosófico, isto é, se não é mais um simples exercício místico, senão que está informado pelo conheci­mento reflexivo racional, então, a perspectiva equivocada da realidade não volta a aparecer, porque o puro ser a experimentará tal qual é. O divino está presente em ambos os casos, mas no primeiro, seu caráter satisfatório se converte num obstáculo, o que não sucede no se gundo caso. Ambos os místicos têm tocado a realidade, mas o pri­meiro apenas alcançou a sua superfície, enquanto que o outro pene­trou em sua imutável profundidade.


Paul Brunton em, A sabedoria do eu superior

Por que o êxtase no curso das meditações?

As visões pictóricas que podem aparecer na meditação comum, por formosas e surpreendentes que sejam, não constituem a verdadeira visão que sobrevém com a meditação filosófica. Isto se deve a que qualquer coisa que possa perceber-se em dimensões-espaço-temporais, necessariamente pertence ao mundo da relatividade finita. Essas visões são, como bem assinalou São João da Cruz: “só graças que nos preparam para a Graça Maior... Aqueles que têm a visão menos clara, não percebem tão lucidamente como os outros, quanto transcende Ele a suas visões". Qual é a graça maior? É o despertar daquilo que está fora da existência-espaço-temporal, a iluminação da consciência graças a um conhecimento transcendental sem forma. Para apreender o puro Pensamento, é necessário captá-lo como algo vazio de toda forma. O Supremo não tem forma, tamanho, cor ou voz alguma. Por conseguinte, qualquer coisa que se veja diante como percepção interior, não pode ser o Supremo, senão algo inferior. O místico que não tenha purificado sua perspectiva ligada ao espaço, por meio do conhecimento metafísico, que se apega tenazmente a conceitos que só se adaptam a um grau inferior, é lógico que espere perceber o Divino, da mesma maneira como percebe uma casa, ou ver a Deus sob uma figura particular, tal qual vê a um homem parado no outro lado da rua. Numa visão mística des­te tipo, esse místico só vê sua ideia de Deus.
No momento em que seus pensamentos se aquietam totalmente, este homem terá satisfeito uma das duas condições indispensáveis para captar o puro Pensamento. Mas esta consumação desejada não chegará em forma de outros pensamentos, por exaltados que sejam, nem com a aparição de nenhum visão, por formosa que seja. Se espera ver e ouvir Deus com os olhos e ouvidos da mente, por sutis que estes sejam, tal homem ainda se acha numa etapa semi-materialista. Tem que avançar até uma posição filosófica superior, que repila todos os sentidos, em sua aproximação da Divindade, e que deseje unicamente conhecer Deus através da pura faculdade do ser harmônico com Deus. Toda visão do Real que a mente plasme durante o seu progresso evolutivo, pode enganar o místico, fazendo-o pensar que isso é o próprio Real. Deve estar alerta contra tais auto-enganos, porque só quando deixar de exteriorizar Deus em representações pictóricas variáveis; só quando conseguir a inalterável percepção interior do reino amorfo, onde não há representações pictóricas, só então poderá confiar no sentido de realidade que surge de uma experiência mental sem tempo nem espaço.
Deste modo surge um dos valores mais altos de nosso estudo metafísico. Se, em última instância, a realidade carece de espaço, forma e tempo, então quer dizer que nenhum fenômeno transitório que apareça em forma de visões interiores de imagens no espaço, no tempo e que tenham uma forma, jamais pode ser uma manifestação direta da realidade tal qual o é em si mesmo. Àqueles que tenham empreendido a busca da realidade, aconselha-se a não evitarem emocionalmente esse tipo de visões mas a lhes tirarem toda importância. Nada que possua forma, tamanho ou cor, nada visível ou tangível, pode ser aceito como realidade final. Estarão perto de alcançar esta suprema realidade os homens que captarem uma percepção interior de Deus, não mais obscurecida por visões, mas quando seus pensa­mentos acerca de Deus estiverem isentos de ideias preconcebidas so­bre Deus.
O místico filósofo está menos interessado nas formas visíveis subjetivamente que no poder que penetra essas formas; portanto obtém uma iluminação maior. Consegue-se a ioga filosófica quando se aparta a atenção de todo tipo de tempo exteriorizado, por sutil que seja, a respeito da realidade amorfa. Faz que a consciência se introverta sobre si mesma. Noutras palavras, a consciência deve con­verter-se em seu próprio objeto. Os textos antigos denominam à tripla aproximação filosófica, "a senda do pássaro", ao passo que à ioga inferior chamam "a senda da formiga". Estes textos afirmam que ambas conduzem à obtenção do Eu Superior, porém que enquanto a primeira outorga uma rápida salvação, a segunda a produz indireta e gradativamente.
Tanto o místico como o materialista necessitam de refletir insistentemente e esforçar-se honestamente por compreender estas ideias. Porque, se bem que podem aproximar-se da realidade, ao ignorarem que é o que constitui essa realidade, podem passar de largo em sua frente. Os místicos praticantes não têm que se desalentar por nossas advertências, as quais não só os anima, e não se deterem a meio caminho nesta busca, mas também hão de procurar penetrar na etapa superior, não se conformando com os seus objetivos imediatos, senão recordando que existe também um objetivo supremo.
Por que é que muitos místicos experimentam êxtase no curso de suas meditações? A resposta é que, quando a graça os toca nas primeiras etapas, suas emoções se exaltam como consequência natu­ral, e assim repentinamente se vêm transportados a um apaixonado transe de êxtase. Isto é a consequência do impacto de um poder su­perior, um impacto que por não estarem os noviços acostumados a ele, quebra transitoriamente o seu equilíbrio. Geralmente o êxtase sobrevem, no começo ou no final de uma meditação individual, se­gundo o tipo de método adotado. No primeiro caso, o êxtase des­cerá à medida que transcorre a meditação e produzirá a beatífica serenidade de um plano superior. No segundo caso, sua chegada des­truirá a paz previamente alcançada durante a meditação, que se achava neste mesmo plano superior. Em ambos os casos, o êxtase se deve à exaltação da emoção pessoal, enquanto que a serenidade se deve à experiência de um nível mais impessoal.
As visões arrebatadoras e os êxtases emocionais geralmente se produzem numa etapa inicial da carreira do futuro místico, porque vêm a animá-lo a continuar com uma aspiração ou prática que infe­lizmente o mundo em geral não aceita. São fenômenos satisfatórios que podem ou não caracterizar as etapas preliminares da ioga mística, e que geralmente desaparecem quando se alcança uma etapa de evo­lução maior. Quando o homem se intoxica completamente com os arroubos que surgem da meditação, caiu numa situação extrema tão perigosa para o equilíbrio mental e para a realização interior, como quando se intoxica com a metafísica.
Os êxtases místicos devem ser fugazes por própria natureza. É totalmente impossível a um ser humano gozá-los permanentemente. É melhor alcançar um estado de equilíbrio constante do que um estado alternado de êxtase exaltador e de pressão nostálgica poste­rior. O gozo do êxtase implica uma atividade emocional, e toda ati­vidade implica transitoriedade, mudança; de modo que não existe nesse estado repouso final. Que isto é assim resultado evidente atra­vés da história do misticismo oriental e ocidental, que conta com nu­merosas referências acerca da melancólica descida, desde uma etapa muito avançada, ao que se chama "a escura noite da alma", quando todos os êxtases desaparecem com completo e são substituídos por estados de ânimo ensombreados por uma melancólica secura espiri­tual. A maioria dos místicos nos fala desta queda, de alturas arrebatadoras de grande doçura emocional aos secos vales de recorda­ções enfeitiçadas. Mas isto é simplesmente o esforço da Natureza para produzir o ajuste necessário, afim de estabelecer o equilíbrio num nível superior. E depois da trágica experiência da noite obscura da alma, sobrevirá, se o místico o permite, a realização evolutiva e a compreensão de que o êxtase místico, só não é mais uma meta su­ficiente para ele, e que é incomensuravelmente melhor uma serena segurança da presença sempre atual do Divino.
O místico está fundamentalmente preocupado com seus senti­mentos pessoais para com Deus. O filósofo se preocupa principal­mente de Deus. Mas há uma tremenda diferença. A devoção guiada pelo conhecimento pode lograr o que o simples conhecimento jamais há de lograr. Este é um segredo que nem o místico iletrado nem o metafísico que careça de iluminação espiritual, podem compreen­der. Esta é a razão por que, quando o místico alcança o seu mais profundo ponto na meditação, não deveria deixar-se arrastar por seus sentimentos pessoais, ao extremo de esquecer a sua meta superior. Quer dizer que deve gozá-los serenamente, sem enredar-se nesses sen­timentos.
Ao contrário, chegado a este ponto, deveria ter a presença de animo de volver sua atenção para a própria Mente, orientando-a ainda mais profundamente para o seu interior, procurando compreendê-lo e buscando a sua própria realidade. Esta atitude crítica não significa que as emoções devam desaparecer, pois constituem uma das grandes forças impulsionadoras da vida ativa de todo homem, em qualquer etapa de sua evolução pessoal.
Mas enquanto, amiúde, estas emoções correm às cegas no homem que se encontra numa etapa inferior de evolução, em troca, são purifi­cadas e controladas graças a uma cultura bem orientada, numa etapa superior. A veneração é sempre mais importante para o aspirante do que a erudição. Por exemplo, ninguém tem de se envergonhar de chorar, inclusive apesar de seu treinamento metafísico, se chora em nome de coisas exaltadas, por compaixão pelos demais, ou ante a presença divina. Enquanto não alcançar esta meta final, sempre será um aspirante; e enquanto for um aspirante, deve estar preparado para chorar por Deus, para emocionar-se pela divindade e para derramar lágrimas pela ausência de Deus ante a sua consciência; em suma, deve estar preparado para sentir. Em verdade, não se devem matar tais sentimentos, senão senti-los intensamente. Sem eles o homem jamais realizará a meta suprema, porque há de sentir-se Deus da maneira mais profunda possível, e não alimentar-se um frio conceito intelectual. Contudo, deverá utilizar um conceito de Deus para enfrentar seus sen­timentos, e examiná-los e purificá-los, se é que quer achar o verdadeiro Deus. Sentimento e razão devem equilibrar-se mutuamente, porque desta interação surgirá uma atitude mais profunda para com Deus.
Por que logram tantos estudantes fugazes vislumbres do estado supra-sensorial e logo os perdem? Por que são tão esporádicos tais vislumbres, e aparecem tão raramente? Por que não pode o aspirante fixá-los? Por que, quando tenta retê-los, nota que só tem na mão a fria cinza morta de uma mera recordação? Por que não pode re­cuperar esses maravilhosos momentos que dele fogem, inclusive quan­do quase os tem apressado? A resposta é que, em parte, estes momen­tos são refrescantes perguntas de uma conquista que ainda está muito longe, e que são enviados pelo Eu Superior para alentar as esperanças, para atuar como incentivos no prosseguimento da busca e para mos­trar aos neófitos como é a culminação de uma busca. Logo a Natureza os tira da meditação com o fim de que esses vislumbres se reajustem em seus dois outros aspectos, a ação inspirada e a reflexão metafísica, porque é só graças à fusão integral destes três aspectos que a percepção interior pode surgir e ser retida.

Paul Brunton em, a sabedoria do eu superior

Sobre a base necessária para o mergulho no misticismo

Tanto no Oriente como no Ocidente, muita insensatez perniciosa, ei­vada de charlatanice, envenenada pelo comercialismo e de fútil su­perstição, está sendo passada por misticismo e ocultismo. Quem quer que se atire no misticismo e ocultismo sem um preparo anterior em alguma disciplina filosófica, para adquirir os rudimentos de suas pro­tetoras qualificações metafísicas e morais, expõe-se a possíveis erros e decepções. Temos muitos exemplos das estranhas formas tomadas pelo misticismo mal interpretado ou cinicamente explorado. Cada uma melhor que as outras promete ao homem o que são absoluta­mente incapazes de lhe fornecer, e às vezes, em grau pior, podem constituir perfeitamente um grave perigo psíquico. A razão disci­plinada pela filosofia cortará suas sugestões falsas e insensatas. Em qualquer momento de sua pesquisa o estudante deverá estar em guarda contra os supostos mestres ou pretensos "novos messias" que, atribuindo-se poderes sobrenaturais, não farão outra coisa que desviá-lo perigosamente do bom caminho. É preferível viajar só que em semelhante companhia. As únicas impulsões do Eu Supe­rior — em condição de bem separar as que provêm do ego — levá-lo-ão muita mais seguramente e diretamente à sua meta. As trans­formações evolucionárias sobrevindas na vida mental e as transformações kármicas da vida exterior diminuíram muito a necessidade, tão grande outrora, de um instrutor humano. É, além disso, uma tarefa himalaiana encontrar um sábio autêntico neste mundo, embo­ra muitos existam que se reputam como tais. O estudante mediano deve cultivar a sós sua razão, sua intuição, seu poder de meditação, sua inteligência através de sua experiência. Deve constantemente adorar em seu coração o ideal que já sentiu ou entreviu. É esta adoração que o alçará aos poucos, incessantemente.
Nunca esqueçamos o que nossos estudos precedentes não dei­xaram um instante de repetir: o Eu Superior é o verdadeiro instru­tor no coração dos aspirantes, seu verdadeiro iniciador. É ele que dispensa a graça implorada pelo ego. Não é uma presença teórica, mas uma presença efetiva e viva. Ele pode libertar o estudante de sua ignorância, ensinar-lhe a verdade supra-intelectual, guiá-lo para a luz filosófica. Todos os esforços na ioga devem banhar-se numa quente devoção para com a realidade interior, porque sem um amor verdadeiro ninguém poderia unir-se ela. Portanto, é necessário com­preender que o princípio diretor desses exercícios de meditação ultra-místicos é que o sucesso final depende não dos esforços conscientes feitos nesse sentido, mas da reação misteriosa a esses esforços. Isso não significa que os esforços não tenham valor em si, pois sem eles não haveria reação. Significa que o superconsciente se põe a atuar independente nele num certo estágio. Quando este se manifesta realmente, não o será durante qualquer de suas lutas para consegui-lo, mas durante os períodos de cessação dessas lutas, não durante a concentração positiva, mas durante ausência de concentração. O es­tudante se acha como que tomado pela mão e conduzido ao profundo silêncio que aguarda o limiar do Eu Superior. É além desse limite que obterá a resposta à pergunta: Quem sou eu? O Eu Superior, como mãe amorosa, acolherá o filho em si mesmo neste maravilhoso momento de iniciação e produzir-se-á um renascimento interior. Isso virá como a culminação de uma longa pesquisa, mas não como um ato de pesquisa propriamente dita. Não pode deixar de ser o resul­tado da graça divina.


Paul Brunton em, a sabedoria do eu superior

A liberdade significa independência

A liberdade significa independência de tudo que é ex­terior, ou seja, nada que esteja fora da alma pode atuar sobre ela, como causa. A alma não tem causa e é dela que provém todas as grandes ideias que temos. Você não pode constatar a imortalidade da alma enquanto não aceitar, como verdadeiro, que ela seja livre por natureza, em suma, que nada externo exerce influência sobre ela. Pois a morte é um efeito produzido por uma causa ex­terna. Bebo veneno e morro, mostrando que meu corpo pode sofrer a ação de uma causa externa, denominada veneno. Contudo, se é verdade que a alma é livre, in­ferimos que nada pode afetá-la e ela nunca morrerá. A liberdade, imortalidade e felicidade dependem de estar a alma além da lei da causalidade, além de maya.
Qual das duas possibilidades você escolhe? Ou con­sideramos a primeira ilusória, ou a segunda. Com toda a certeza eu digo que a segunda é uma ilusão. Está em maior consonância com meus sentimentos e aspirações. Tenho perfeita consciência de que sou livre por natureza e não posso admitir que esta escravidão seja verdadeira e minha liberdade, ilusória.
Esta discussão, de uma forma ou de outra, acontece em todas as filosofias, mesmo nas mais modernas. Tra­ta-se do mesmo debate. Há duas facções: uma diz que a alma não existe, e que a ideia de alma é uma ilusão pro­duzida pela constante atividade de partículas de matéria que produzem a combinação que denominamos corpo ou cérebro; que o conceito de liberdade resulta das vi­brações, interações e deslocamentos contínuos dessas partículas. Houve seitas budistas que sustentaram essa tese, justificando-a com o seguinte exemplo: se tomamos uma tocha e a fazemos girar rapidamente, produziremos um círculo de luz. Esse círculo, na realidade não existe, porque a tocha está mudando de lugar a todo momento. Não somos mais do que um feixe de pequenas partículas que, em acelerado rodopio, produzem a ilusão de que a alma é permanente.
A outra facção declara que na rápida sucessão de pensamentos, a matéria sobrevêm como uma ilusão, não tem existência real.
Vemos então que enquanto um lado afirma que o es­pírito é uma ilusão, o outro declara que a matéria é uma ilusão. De que lado você fica? Evidentemente vamos tomar o partido do espírito e negar a matéria. Os argu­mentos são similares nos dois casos, apenas a retórica dos que tomaram o partido do espírito é um pouco mais convincente. Ninguém jamais viu a matéria tal como ela é. Só podemos ter a percepção de nós mesmos. Nunca conheci um homem que pudesse perceber o mundo ma­terial sem usar a mente. Por conseguinte, a argumenta­ção é um pouco mais consistente do lado do espírito. Em segundo lugar, a teoria do espírito explica o universo, a do materialismo, não. Por esse motivo a explicação materialista é ilógica. Em suma, se você analisar e resumir todas as correntes de filosofia, descobrirá que elas se limitam a adotar uma ou outra dessas duas perspectivas.
Aqui também deparamos, de forma mais complexa, mais filosófica, com a mesma indagação sobre liberdade e servidão. Cada lado afirma que o outro está enganado. Evidentemente, nós tomamos o partido dos que creem que nossa escravidão é uma ilusão.
A explicação que a Vedanta nos dá é que não estamos presos por nenhum laço; somos livres. Além do mais, dizer ou pensar que estamos aprisionados é perigoso; luta-se de um equívoco, de uma auto-hipnose. No mo­mento em que dizem: "estou de mãos atadas," ou "sou um fraco," ou ainda "estou sem ação," coitados de vocês! Acorrentaram sua vida com mais um grilhão. Não fale assim, não pense dessa forma. Ouvi o relato sobre um homem que vivia numa floresta e costumava repetir, dia e noite: "Shivoham" — Eu sou o Abençoado.
Certo dia um tigre saltou sobre ele e arrastou-o para devorá-lo. As pessoas que estavam na outra margem do rio viram a cena e ouviram sua voz, enquanto lhe restava alento, dizer "Sbivoham" — mesmo quando já estava entre as mandíbulas do tigre. Tem havido muitos homens como esse. Tem havido homens que enquanto estavam sendo cortados em pedaços, abençoavam seus inimigos. "Eu sou Ele, eu sou Ele, tu és Ele. Eu sou puro e perfeito, assim como meus inimigos também são. Tu és Ele, e eu também." Essa é a atitude do forte.
Há grandes e admiráveis aspectos na religião dos du­alistas. E maravilhosa a ideia do Deus Pessoal, separado da natureza, a quem amamos e reverenciamos. Às vezes, esta ideia é tranqíiilizadora. Porém, diz a Vedanta, essa serenidade é algo como o efeito produzido por um entorpecente: não é natural. Com o tempo traz fraqueza e hoje, mais do que nunca, o mundo necessita de força. A fraqueza é a causa de toda a miséria do mundo, afirma a Vedanta. A fraqueza é a causa do sofrimento. Nós nos afligimos porque somos fracos. Mentimos, roubamos, matamos e cometemos outros crimes porque somos fra­cos. Sofremos porque somos fracos. Morremos porque somos fracos. Onde não há nada para nos enfraquecer, a morte ou o pesar não existem. Somos desprezíveis por culpa da ilusão. Renunciemos à ilusão, e tudo isso se desvanece. Em verdade é simples e claro. Por meio de todas essas discussões filosóficas e tremendas ginásticas mentais, chegamos a esta única ideia religiosa, a mais simples do mundo.
Há um argumento que é frequentemente usado para combater o não-dualismo. E o seguinte: é muito bom dizer "Sou o Puro, sou o Abençoado," mas nem sempre demonstro o que digo em minha vida. É verdade, o ideal costuma ser difícil de atingir. Todo recém-nascido vê o céu acima dele, muito longe, mas é esta uma razão plau­sível para não contemplarmos o céu? Melhoraríamos as coisas se nos entregássemos à superstição? Se não temos néctar, melhoraríamos as coisas se bebêssemos veneno? Só porque não podemos realizar a verdade imediata­mente, valeria a pena penetrarmos na escuridão, sujeitando-nos à fraqueza e à superstição?
Não me oponho ao dualismo em muitas de suas for­mas. Aprecio a maioria delas, contudo me oponho a qualquer tipo de ensinamento que promova a fraqueza. A pergunta que faço a todo homem, mulher ou criança que esteja em treinamento físico, moral ou espiritual é a seguinte: — Você é forte? Você se sente forte? — por­que eu sei que apenas a Verdade produz força. Sei que apenas a Verdade produz vida. Nada nos tornará fortes; a não ser que nos encaminhemos na direção da Realida­de, e ninguém alcançará a Verdade enquanto não se fizer forte. Por conseguinte, qualquer sistema que enfraqueça a mente e nos torne supersticiosos, desanimados e que nos faça desejar toda sorte de insensatas impossibilida­des, mistérios e crendices, não é do meu agrado, porque seus efeitos são perigosos. Tais sistemas nunca trazem qualquer bem; criam uma mente mórbida, enfraquecendo-a e debilitando-a a tal ponto que com o passar do tempo, torna-se quase impossível aceitar a Verdade ou viver de acordo com ela.
Força, portanto, é o requisito mais necessário. Força é o remédio para a enfermidade do mundo. Força é o remédio que os pobres devem tomar quando explora­dos pelos ricos. Força é o remédio que o ignorante deve tomar quando oprimido pelos que têm erudição; e é o remédio que os pecadores devem tomar quando tirani­zados por outros pecadores. Nada propicia tanta força quanto esta ideia de monismo, nada nos dá tanta intei­reza de caráter quanto este conceito de monismo. Nada nos faz trabalhar tão bem, em consonância com o que somos de melhor e mais nobre, como quando a respon­sabilidade é lançada sobre nós.
Faço um desafio a cada um de vocês: como irão se comportar se eu colocar uma criancinha aos seus cuidados? No mesmo instante suas vidas mudarão. Não importa quem sejam, agora terão de ser altruístas. Desistirão de todos os seus planos ilícitos assim que se investirem dessa responsabilidade, e seu caráter mudará inteiramente. Da mesma forma, se a responsabilidade recai por inteiro sobre nossos ombros, faremos o melhor que pudermos. Quando não temos ninguém a quem re­correr, nem Diabo a quem culpar, nem um Deus Pessoal para carregar nosso fardo, quando a responsabilidade recai inteiramente sobre nós, então estaremos na ple­nitude do que somos de melhor e mais nobre. "Sou o responsável pelo meu destino, sou eu que me acarreto o bem, sou eu que me acarreto o mal. Sou Aquele que é Puro e Santo."
Essa, diz a Vedanta, deveria ser nossa única oração. Essa é a única via para alcançarmos a meta, para dizer, a nós mesmos e a todos, que somos divinos. À medida que continuamos a repeti-la, ficamos mais fortes. Aque­le que vacila no começo se tornará cada vez mais forte e a voz aumentará de volume até que a verdade tome posse de nossos corações, percorrendo nossas veias, im­pregnando nossos corpos. A ilusão se dissipará à medida que a luz se torne cada vez mais fulgurante. Camada após camada, a ignorância desaparecerá e então virá o tempo em que tudo se terá desvanecido e apenas o Sol brilhará.

Destrua a diferenciação, destrua a superstição

    "Conheça a verdade e seja livre no mesmo instante." Toda a escuridão, então, desaparecerá. Quando o homem se vê como sendo um só com o infinito Ser do universo, quando toda a consciência de separação cessa, quando todos os homens, mulheres, deuses, anjos, animais, plantas e o universo inteiro se dissolvem nesta Unidade, então o medo desaparece. Posso ferir-me? Posso matar-me? Posso ofender-me? A quem devo temer? Pode você ter medo de si mesmo? Como resultado, a infelicidade deixará de existir. O que pode me causar dor? Sou a Existência única do universo. A inveja cessará. De quem posso ter inveja? De mim mesmo? Conseqüentemente, os sentimentos negativos desaparecerão. Contra quem posso ter maus sentimentos? Não há ninguém no universo, a não ser eu mesmo.
     O único caminho para o conhecimento, diz a Vedanta, é este. Destrua a diferenciação, destrua a superstição de que há muitos. "Aquele que nesse mundo de multiplicidade vê o Um; aquele que nessa vastidão insconsciente vê o único Ser consciente, aquele que neste mundo de sombras encontra a Realidade — a ele, e a ninguém mais, pertence a paz eterna."
     Esses são os pontos que se destacam nas três vertentes que o pensamento religioso da Índia seguiu em relação a Deus. Vimos que começa pelo Deus pessoal, extra-cósmico. Evolui do Deus externo ao Deus imanente ao universo. Termina identificando a própria alma com esse Deus e criando uma Alma, uma unidade, de todas as diversas manifestações do universo. Essa é a palavra final dos Vedas. O pensamento religioso da Índia começa com o dualismo, passa pelo não-dualismo com atributos, e termina no não-dualismo perfeito.
     Sabemos que muito poucos neste mundo conseguem chegar ao não-dualismo perfeito, ou ousam acreditar nele; ainda mais raros são os que têm a coragem de agir em concordância com ele. Não obstante, vemos que aí se encontra a explanação de toda a ética, moralidade e espiritualidade do universo. Por que dizem todos: "Faça o bem ao próximo?" Onde está a explicação? Por que todos os grandes homens pregaram a concórdia entre os homens e pessoas ainda mais notáveis, a fraternidade entre todas as formas de vida? Porque tendo ou não consciência disso, por trás de tudo, através de suas superstições pessoais e irracionais, despontava a eterna luz do Self, desmentindo a multiplicidade e assegurando que o universo inteiro é Um só.
     A palavra final, mais uma vez, deu-nos um universo que por meio dos sentidos percebemos como matéria, por meio do intelecto como almas e por meio do Espirito como Deus. Para o homem que joga sobre si os véus que o mundo chama de perversidade e maldade, o universo muda e transforma-se num lugar hediondo; para um outro homem, que deseja divertimentos, o universo muda de aparência e transforma-se num paraíso; para o homem perfeito, o universo inteiro desaparece e transforma-se em seu próprio Self.
     No atual estágio em que a sociedade se encontra, as três fases são necessárias. Não se contradizem, completam-se. O advaita que segue o não-dualismo perfeito, assim como o advaita que segue o não-dualismo com atributos, não diz que o dualismo está errado. É um ponto de vista legítimo, porém inferior. Está no caminho da verdade. Por isso, deixe que cada um desenvolva sua visão pessoal do universo de acordo com suas próprias concepções. Não faça mal a ninguém, não negue a crença de ninguém. Leve em consideração o plano em que um homem se encontra e, se puder, estenda a mão para ajudá-lo, conduzindo-o a um patamar mais elevado; mas não prejudique nem destrua. A longo prazo, todos chegarão à verdade. "Quando todos os desejos do coração forem vencidos, esse ser mortal se tornará imortal." O homem tornar-se-á Deus.

Swami Vivekananda
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey