Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Sobre o Ego

Breve relato de Joel Goldsmith

Facilmente nos esquecemos da influência que a vida de um único homem pode exercer sobre os outros. Um único momento em nossa vida pode ser de importância decisiva. Muitos terão feito experiências parecidas com a que eu realizei no fim do ano 1928, quando fiz uma meditação em companhia de um verdadeiro iluminado — e veio sobre mim o espírito e me elevou acima daquilo que se chama "o mundo". Depois deste acontecimento, as coisas do mundo perderam para mim a sua força de atração. A partir daí, toda minha vida se desenrola no ambiente dos livros sacros e do meu EU interior, auxiliado por escritos filosóficos e místicos e pela comunhão com pessoas que trilham a senda espiritual. Todo o resto de minha vida se eclipsou.

Essas duas horas transformaram toda minha vida. Quando me retirei, tinha recebido a iluminação que me tirou da vida do comércio e me iniciou na missão de curador espiritual, vida que, a partir daquela hora decorre através de um progressivo desenvolvimento até hoje. Quem poderia medir o valor do encontro naquele dia? Não há medida para o Imensurável.

Entretanto, impossível teria sido aquela EXPERIÊNCIA DECISIVA se ela não fora precedida por treze anos de leitura dos livros sacros, de escritos místicos, de orações e súplicas a Deus: "Fala-me, ó Deus! Fala-me! Inspira-me!... Faze algo para me fazer saber que Tu existes!"... Cada um dos pormenores dessa incessante busca contribui para me preparar para este MINUTO ÚNICO, que transformou a minha vida toda. Ninguém sabe em que momento a sua vida começará a mudar, quando Ele entrará em contato com o homem, com a mensagem, com o livro que lhe abrirá a alma. Quem se julga por demais insignificante para isto, não deixe de evocar a lembrança de um ou outro dos homens que inspiram a geração presente ou vindoura. Que ilimitada influência sobre a saúde e harmonia da tua vida se manifestaria se soubesse que essa transformação depende da tua irrestrita ENTREGA A DEUS, através do teu pensar, meditar e amar!

A redenção do mundo pela cura espiritual virá, em última análise, através de um homem individual, tu e eu, aqui e acolá, através dos frutos da vida de alguém que leve um amigo ou conhecido a buscar compreensão espiritual, compreensão que, por fim, se estenderá até ao mais distante habitante da rua, até que também ele resolva fazer o mesmo.

Cada homem individual é um fiozinho nessa trama, um elo nessa cadeia. Cada um é um raio parcial dessa luz universal. Ninguém pode ser mais do que isso. Um é usado aqui, outro acolá. Cada um contribui com a sua parcela para completar o Todo. Toda a vez que se realiza uma cura, em ti ou em outro, é um benefício para a humanidade. Cada cura individual aproxima o mundo do recebimento da luz espiritual.

Joel Goldsmith em, A Arte de Curar pelo Espírito

Abdicando da condicionada vontade pessoal

Os melhores frutos da vida não podem ser colhidos sem a abdicação da vontade pessoal, num momento ou outro. Cada homem é chamado, de fato, a bater-se contra seus instintos animais e suas fraquezas. Mas a filosofia não reclama nenhum voto de asceticismo aos seus adeptos. Reclama deles apenas que se disciplinem e procurem levar à frente este propósito, a despeito de suas falhas e de suas quedas. Ela crê na misericórdia do Eu Superior e numa eventual descida da Graça sobre suas cabeças. O homem pode chegar de maneira menos penível a esta abnegação, aceitando os impulsos da inspiração e seguindo-os mesmo quando entram em conflito com seus desejos carnais e interesses egoísticos. Se não se enganou sobre a via que segue ou sobre o fim que procura, tais impulsos podem manifestar-se e ir além do que se chama vida moral. Quanto mais avança, mais se manifesta espontaneamente o convite a não mais agir senão por motivos generosos, nobres e idealistas; quanto mais avança, mais é penetrado pelo pensamento de purificar seu caráter, de purgar seu coração e banir todas as suas tendências vis.

Um novo elemento entra em sua vida. Começa a pensar por isso nos efeitos que as suas ações exercem inevitavelmente nos outros e nele próprio. Alarga deste modo seu sentido de responsabilidade pessoal e sua perspectiva ética. É-lhe necessário enterrar suas faltas no pó do passado e não reaviva-las para, depois, meditar sobre elas melancolicamente e lamentar a infelicidade; é-lhe preciso também adquirir, pelo arrependimento e a expiação, o direito de enterrá-las. Nem a lembrança do Eu Superior, nem a prática da meditação o libertarão da necessidade de compreender as causas e o resultado de seus erros morais ou práticos, nem a necessidade de repará-los dentro de si mesmo ou em face dos outros. Se o estudante cometeu alguma falta contra alguém, no passado, e sente que a fez, se teme uma vingança do karma por algum pecado que ficou impune, se deseja apaziguar algum mau karma derivado de alguma ação má de sua vida presente, que deverá fazer? Quatro meios progressivos se lhe oferecem. Primeiramente, a confissão. Precisa não apenas reconhecer lealmente seu erro, mas compreender os motivos do mal praticado, declarar francamente as forças que o impeliram a cometê-lo. Nenhum confessor humano lhe é necessário; o Eu Superior bastará e é preferível. Em segundo lugar, é o arrependimento. Deve, não somente repudiar estes motivos e essas forças, mas desejar ardentemente elevar-se acima deles. A autocrítica deve ser severa e o remorso, sincero, sem o que todos os esforços serão vãos. Em terceiro lugar a reparação. Deve reparar os danos causados, morais ou materiais, em toda a medida possível. Quarto, a resignação. Depois de haver feito tudo o que podia humanamente, deve desembaraçar-se deste cuidado desagradável do passado e libertar-se da lembrança. Pode então, e só então, transmitir esse pecado e suas consequências kármicas ao Eu Superior e encontrar assim a paz. Seria um erro crer que é bastante para isso o esforço inicial e nada mais. O primeiro e segundo degraus podem ter necessidade de repetição frequente, pois, a lição de todo o trabalho de limpeza deve ser impressa e reimpressa no espírito antes que o problema seja definitivamente afastado. Mas quando isso se produzir, o Eu Superior o toma em consideração. Se ele executa as razões e pronuncia um veredito de absolvição, mesmo que não modifique exteriormente o karma, esta decisão manifestar-se-á sob a forma de um alívio interior inexplicável e do desaparecimento de todas as preocupações. O ponto crucial, no decurso desta pesquisa, é aquele em que se passa da vida do eu interior à vida do Eu Superior. Esse ponto começa pelo aparecimento, nas profundezas do coração, de uma certeza sutil de que nos achamos no bom caminho. Termina por uma transformação radical nos hábitos de pensar. Opera uma revolução progressiva na atitude para com as outras criaturas vivas. Apesar de senti-la, o estudante deve, a partir desse momento, modificar também suas maneiras de pensar, de sentir e de agir. A partir desse instante misterioso, a vida do Eu Superior — por fraca que seja no começo — não cessará de aumentar, de tornar-se importante e gloriosa na vida da personalidade. Naturalmente, o estudante descobre que não é sempre fácil querer o que deve ser feito, à luz meridiana do Eu Superior. É uma arte verdadeira e, como todas as artes, aprende-se em provas penosas e em triunfos extasiados, em amargos erros, em miseráveis golpes e em sucessos felizes. Entretanto, o estudante sente, cada vez mais, que começa a compreender que nasceu justamente para esta obediência sublime, e por outro lado, porque sabe desde então que aqueles que nunca obedeceram a nada mais elevado que seu ego pessoal falharam na vida, mesmo que pareçam vitoriosos na sociedade de seus semelhantes.

Mas, mesmo por causa dessa importância crucial e da imensidade de suas consequências, este estágio só pode ser naturalmente ultrapassado após uma luta severa. Com efeito, reclama tudo do homem, tudo o que este considerou até aí como sua existência pessoal. No entanto, se o aspirante é sincero, sentirá o mesmo que aconteceu a Abraão a quem Deus reclamou o sacrifício do filho e, no instante em que dispunha a obedecer, Deus lhe reteve a mão. Se tem a coragem de submeter-se à ordem que procede do divino silencio interior, de sacrificar sua vontade e seus desejos egoístas, seu auto-sacrifício é bem depressa impedido. O ego lhe será entregue, mas nunca mais terá lugar primordial em sua vida. A partir desse momento, não agirá mais senão com a permissão desse ser impessoal que é o seu Eu Divino. Doravante ele se torna “o servo do Senhor”. Em suma, ele próprio se abandona a uma presença que sente intensamente ativa em seu próprio coração. No curso deste estágio crucial, a nota a tocar principalmente, no teclado de seu ser, é a da submissão.

Diz-se que o caráter do sábio é sempre desinteressado e sereno, desprendido e disciplinado, sem paixão e impessoal. Seria um erro crer, como muitos, que se pode alcançar esse estado por esforço pessoal ou da vontade. Nada disso. Isso está acima das forças humanas. Não pode alcançar a este grau senão pela graça misteriosa do Eu Superior. Quando esta pousa nele, sente uma outra força que invade sua consciência e o eleva a um estado de exaltação. Percebe-se, desde então, em sua estreita dependência com criança junto à sua mãe. Daí as palavras profundas de Jesus: “A menos que sejais semelhantes às crianças, não entrareis nos Reinos do céus”.

Aquele que chega a conhecer a experiência da submissão interior, nunca poderá ser o mesmo homem. Quanto mais o Eu Superior opera nele, menos sente o fardo da vida moderna. Quando o sente como uma força viva em cada momento de sua existência, quando se torna um executor submisso da vontade deste mestre interior de sua personalidade, pode entregar-se com confiança a qualquer atividade que seja, porque, com efeito, descobre enfim o segredo da ação inspirada. Ela nada tem de oculto, nada de mágico, e parece tão natural como o alegre burburinho das abelhas em torno do serpão. Poderá daí em diante participar da vida do mundo sem ser desviado de seu fim elevado.

Crer que o acordar da penetração afeta unicamente a inteligência é enganar-se; provoca também o despertar das mais belas qualidades do coração. Nesta esfera transcendente em que entra o filósofo, o pensamento e o sentimento são inseparáveis. A compaixão acompanha automaticamente a penetração mental. A natureza interior de todos os homens pertence ao único e mesmo espírito. Aí está por que aquele que o alcança plenamente joga abaixo a barreira que separa o seu “eu” da do semelhante. Compreende a qualificação paradoxal do Eu Superior, distinto mas não separado de outro homem. Torna-se capaz de sentir plenamente com os outros e por eles, conservando sua personalidade completa. É também por isso que não se pode conservar um observador passivo ante as lutas da humanidade, como o foi no estado místico, e porque não pode ficar encadeado por interesses pessoais puramente como estava talvez em sua época materialista. Servirá então pelo único prazer de servir. O fato de ser guiado por uma inteligência racional garante o sucesso de sua ação.

Por uma consequência curiosa de seu altruísmo, o filósofo, que não procura apenas a sua felicidade, encontra-a; enquanto isso se dá, o egoísta, que a tem como fim constante, nunca a encontra. Enquanto um homem procura arrancar da vida de punhos fechados, somente o que lhe convém, podemos estar seguros de que, quaisquer que sejam seus sucessos momentâneos, não encontrará, afinal, o seu benefício. Como poderá alcança-lo se seu bem-estar é inseparável do bem-estar comum? Que procure este ao mesmo tempo o seu, e ele alcançará sempre os dois juntos, sem em jogo. Isto, sabedoria prática da penetração do Eu Superior, é plenamente confirmado pelas teorias raciocinadas da metafísica iluminada, pelas observações diretas e pelos anais da humanidade.

Os progressos efetuados nessa busca fazem descer naturalmente uma grande paz no coração; as paixões, as agitações, os conflitos interiores que perturbam tantas existências, se moderam, a princípio, e depois se aplacam completamente; isso não quer dizer, porém, que o estudante filósofo viva de uma maneira menos ardente e menos plena que as outras pessoas. Não, de modo nenhum; ele não tem necessidade de repudiar a felicidade disciplinada dos sentidos, por efêmera que seja, mesmo que procure uma que esteja fora de seu domínio. Se perceber as lastimáveis ilusões e erros a que tanta gente se escraviza, perceberá também as realidades e as verdades gloriosas para as quais a evolução encaminha lentamente seus passos reticentes. Será possível que este ensino confira aos seus adeptos o sentimento de vaidade, das ambições humanas, o sentido de caráter efêmero de todos os desejos terrenos? Reduz ele o mundo a um sonho e o homem a uma sombra? Não, absolutamente. É um chamado de clarim para uma via natural e racional, para a pesquisa da verdade, da paz e da beleza. Chegando ao fim deste ensino, vemos que ele oferece, compreendendo-o bem, uma esperança prática, um guia verdadeiro, e cria um estado de espírito favorável à vida corrente. Se a realidade para a qual procura conduzir-nos fosse apenas uma fria concepção intelectual ou uma efervescência sentimental, poderia ser interessante para a humanidade, sem contudo constituir para ela um socorro permanente. Poderia, em particular, tornar a vida digna de ser vivida; mas, o espírito, sendo a base secreta e vital de toda a existência, o seu conhecimento traz uma ajuda considerável à vida. A filosofia oferece a todos uma experiência suprema e maravilhosa e constitui nossa mais brilhante esperança. Todas as palavras são miseráveis diante desta grande experiência que um dia toda a raça humana conhecerá; todos os que estudam com sinceridade e perseverança podem conhece-la desde já.

É portanto, um erro crer que a vida exterior, a existência pessoal, as relações sociais do estudante filósofo possam sofrer uma espécie de mutilação ou de diminuição. Elas se enriquecerão e se alargarão, contrariamente às expectativas malsãs, pois, com efeito, o espírito deve fazer descer, neste mundo de espaço e de tempo, um pouco desta grandeza bem-aventurada, deste milagre permanente que percebe no seu mundo transcendental. Embora o Real no absoluto e na sua pureza se encontre permanentemente como um Vazio, além do mundo manifesto e relativo, não será menos paradoxalmente a fonte e a inspiração dos valores mais altos que este contém. O estudante acha, pois, na filosofia, em função de suas tendências interiores e das circunstâncias exteriores, o que não encontrava no asceticismo místico: um poderoso impulso para criar novos valores na arte, na literatura, na civilização e no trabalho, na instrução e na política, bem como na economia e na indústria; em suma, em todos os campos da atividade humana.

O problema de nosso século XX é justamente aprender a combinar a contemplação com a atividade enérgica, a razão aguda com a intuição sutil, o serviço altruísta de interesse geral com a pesquisa de interesse pessoal, os princípios do Cristo com as exigências de César de maneira pela qual os homens do século precedente jamais cuidaram. É o que viram nitidamente dois grandes orientais, S.G. —, já falecido, Maharadja de Misora e S.G. Maharadja de Pithapuram, que haviam assimilado toda a antiga sabedoria do seu continente, respeitando, entretanto, as realizações modernas do Ocidente. Afirmaram-no várias vezes, no decurso de nossas conversações e nos auxiliaram a compreendê-lo claramente. O cérebro e o corpo, o coração e a alma devem colaborar estreitamente e é necessário que estejam entre si em perfeito equilíbrio. A demasiada atividade sem a suficiente compreensão do que se fazia por exemplo, levou os modernos perigosamente à beira do abismo.

Não é por acaso que Jesus disse a seus discípulos, desde o começo de sua missão, que se arrependessem, isto é, modificassem uma concepção errada e abandonassem a maneira de viver culposa. Mas os atos nascem das ideias. Era antes de mais nada uma mudança na maneira de pensar o que Jesus declarava. Nas circunstâncias mundiais atuais, o valor deste conselho aparece plenamente. O mundo convencional, julgando pelas aparências em vez de julgar as aparências em si mesmas, foi conduzido, aos trancos e barrancos, à consciência rudimentar e fragmentária do que se passa sob a superfície das coisas. Os acontecimentos que hoje presenciamos fazem soar as badaladas mortuárias de um mundo de pensamentos, de uma longa época de ideias, fora da moda. Nós nos alistamos numa luta para a conquista de novos valores que devem ser evidentemente o fruto de uma concepção de vida mais nobre que a que presidia a ordem antiga.

Para suportar com firmeza de alma esta tremenda experiência, precisamos ter a segurança profunda de que este conflito mundial, manifestando-se sob a forma de guerra violenta e de uma pretensa paz, não pode ter senão uma saída: o triunfo último das forças do Bem. Existe uma ideia mestra por trás do Universo. Podemos adaptar a ela nossas minúsculas existências e achar uma felicidade desejável, se o quisermos, ou ao contrário, opor-nos e receber as consequências inelutáveis. É verdade tanto para os indivíduos como para os povos. Mas o espírito redentor do próprio plano não pode deixar de triunfar. A nossa esperança é bem fundada. Elevemos nossos olhares com confiança. Os raios solares dissipam as espessas trevas noturnas e o Sol aparece num céu gloriosamente tinto de violeta e alaranjado e nos traz a sua benção. Como esses raios solares, que dispensam seu bom calor, estão longe da loucura, da estupidez do mundo, dos ódios e paixões da humanidade! Que grandeza excelsa possui essa mensagem colorida do Sol!

O homem seguirá certamente o caminho do Bem, valor supremo, não somente porque não há outro meio de libertar-se dos tormentos incessantes, mas porque é a isso constrangido. O que é mau e bestial nele será progressivamente consumido, enquanto que o que é bom e angélico será desenvolvido. Não terá mais de viver, depois da morte, com o que tem de insensato e culposo mas, com o que tem de mais sábio e de mais nobre. Morrerá somente o que tem de pior em sua natureza. Só o melhor sobreviverá, como deve ser. Tal é a verdadeira imortalidade e a única que se deve esperar.

Paz a todos aqueles que houverem lido estas linhas.


Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior   

O Pensamento Puro e a Plenitude Total


O exercício místico, no qual o aprendiz se empenha, não é cego. Vai além da ideia — mundo e absorve. Utiliza a razão para ir além da razão e não se separa prematuramente dela. Não somente descobre o Pensamento Puro, mas medita na sua descoberta. Quando esvazia a consciência de seu conteúdo, ele o faz de olhos inteiramente abertos, sem perder de vista que o conteúdo é de algum modo a espuma da realidade e não difere dela em sua essência. Quando o vazio é preenchido pela presença do Pensamento Puro, ele retorna a esse conteúdo com um sentimento cada vez menos agudo de ter que atravessar um abismo de diferença, e cada vez experimenta menos dificuldades para pô-los em relação, em continuidade e harmonia com o que experimentou nas meditações anteriores. Exercita-se a jogar diretamente com essa atenção irrefletida, em sua vida quotidiana, nos pensamentos que sua consciência forma, em todos os atos executados pelo corpo. Disciplina sua consciência de maneira que contenha a ideia-corpo, sem identificar-se com essa ideia, que funcione pelos cinco sentidos, sem cessar de funcionar na Mente Infinita. Continuando a aliar a reflexão metafísica à contemplação mística, ele faz surgir em si uma nova faculdade resultante da fusão das duas reflexões, que não possui nem as limitações do intelecto raciocinador, nem a assimetria da emoção mística lhe é superior. Este estado misterioso da consciência é chamado em sânscrito “o de plenitude total” e confere um estado de penetração muito além do ioga comum.

Essa faculdade surge num abrir e fechar de olhos, por assim dizer. A longa e ardente preparação atinge finalmente uma crise em que produz um verdadeiro transtorno na natureza do aspirante. Apesar dessa instantaneidade, a penetração tem ainda necessidade de tempo para amadurecer. Ela não alcança seu grau mais alto senão quando se torna natural e contínua. Se se obriga qualquer esforço, ela se degrada. Não se consegue esse grau supremo senão no fim de um longo noviciado. A consciência transcendental não se torna permanente senão quando o Real ocupa o centro da atenção. É o fruto de uma longa e tenaz educação para harmonizar a Mente Imanifestada com suas ideias constantemente cambiantes. Aquele que consegue chegar a isso é capaz, portanto, não somente de ter uma percepção verdadeira da realidade mas, ao recebê-la com compreensão, pode estender esta percepção à sua vida cotidiana. Acaba por persistir nas vinte e quatro horas do dia e da noite, tornando-se estável e permanente. O treinamento ultra-místico da via filosófica atinge assim seu coroamento. A atividade do pensamento que segue não é mais a mesma que a precedente; torna-se iluminada. O fim último não é, pois, suprimir o pensamento num transe prolongado e solitário; também não é o de libertar a mente dos pensamentos mas apenas de sua tirania, e leva-la a compreender a significação verdadeira de suas manifestações características relativas ao “Eu” e ao mundo, de tornar o homem consciente, sem esforço, de sua essência mais íntima no curso de sua existência pessoal. Logo que penetra no quarto estado, o sábio não mais pode regredir. Dormindo ou desperto, no trabalho ou no repouso, é perpetuamente dominado por essa transcendência enigmática. O quarto estado, quando plenamente alcançado, dura durante os três outros. Não desaparece no estado de sono nem no estado desperto do corpo. Conserva-se sem esforço, no mesmo sentido em que um homem, no estado desperto, conserva sem esforço sua identidade pessoal.

Nossa intenção não é subestimar os resultados obtidos pelo místico, mas é preciso dizer que a penetração adquirida por ele é somente parcial, enquanto que a do filósofo é perfeita. A Natureza conduz o místico de uma compreensão puramente emotiva, a uma compreensão calma e inteligente que nunca é refutada quando recai num plano inferior. Os pensamentos imperceptivelmente cambiantes dos objetos exteriores e os pensamentos incessantemente cambiantes dos pensamentos dos objetos, isto é, as coisas e suas imagens, tomam seu nascimento original e depois morrem ulteriormente nesta essência da Mente, que se conserva nele mesmo sem forma, sem mutações, sem nunca ser refutado por alguma coisa que nunca foi produzida nem nunca poderá produzir-se. A despeito das inumeráveis sob as quais a Mente se manifesta, a Mente-essência nunca abandona sua identidade eterna. Uma ilusão pode ser refutada por uma experiência ulterior, uma aparência pode ser dissipada por uma pesquisa nova, mas a Realidade nunca pode ser negada nem a Verdade, reputada. De sorte que o método que permite cultivar a faculdade mais elevada da mente e dá esta penetração inabalável, traz tradicionalmente o nome de “ioga do irrefutável”. No fundo de todas as correntes de pensamentos, o filósofo discerne sempre o Pensamento Divino. Sem cair em transe, sem fechar os olhos, sem negar-se a ouvir, sem cruzar as pernas à maneira dos iogues comuns, conserva a consciência da realidade material e sem forma. Quando pode ultrapassar a necessidade de transe, atinge a percepção de que as diferenças entre Pensamento Puro e os pensamentos, isto é, entre a Mente Superior e suas manifestações, não existem senão do ponto de vista humano e não nas próprias coisas; todos repousam na sublime unidade de Deus e não são senão uma manifestação ou uma representação da realidade; na verdade, o mundo inteiro é uma proclamação de Deus. Assim, o estado último para o qual tende a evolução e para onde marcha o homem é o de um repouso consciente na Mente Superior, não de uma inação consciente; os sentidos seguem sua atividade mas não exercem mais a sua tirania; o Ser Impessoal continua mais liberto do domínio do ser pessoal; as engrenagens do pensamento giram sempre, mas sem exagero.

Somente a penetração permite varar a aparência sensorial do mundo e compreender permanentemente que ele não é radicalmente diferente do próprio Vazio. Eis porque dos pequenos livros, inspirados e destinados aos aspirantes teosóficos avançados, contêm certas declarações paradoxais. Em deles — Luz no Caminho —, baseado numa autoridade do antigo Egito, recomenda no começo “Procura o Caminho avançando decididamente para fora”. O outro, “A Voz do Silêncio”, fundado numa autoridade tibetana, declara: “tens de estudar o vazio do aparentemente cheio e o cheio do aparentemente vazio”.

O discípulo chega assim ao ponto culminante de todos esses empreendimentos ultra-místicos e deve inclinar-se em homenagem não somente ao vazio sagrado, donde decorrem todas as coisas, não somente diante das trevas santas que são a fonte de toda a luz, mas também ante o mundo invisível que tem a sua fonte secreta e inefável em Deus, diante das atividades incessantes que constituem a história sem começo nem fim deste maravilhoso universo. Os homens se maravilham de tudo quanto a ciência descobre de novo no mundo, sem compreender que a maior maravilha é a própria existência deste mundo.


Aquele que chega a compreender que cada átomo da terra cintila misticamente na vida universal que encerra tudo e que não existe ponto algum em que a EXISTÊNCIA ÚNICA seja ausente, compreenderá também que a aventura humana é tão sagrada como qualquer outra coisa. Compreenderá igualmente que a existência cotidiana do homem é em si tão misteriosa, tão milagrosa quanto a existência invisível e inefável de qualquer arcanjo imaginável. O conceito dessa penetração transcendental, para aqueles que compreenderam sua significação, deve necessariamente ser o mais prodigioso que tenha brotado na mente humana. E no entanto, essa sabedoria suprema, essa penetração completa do caráter fundamental de toda existência, não é mais nem menos que a inteligência do homem levada ao seu grau superior. 

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

Reflexões sobre a Graça


Quando um homem sente o impulso autêntico para seguir determinado caminho, mas não pode ver como isso será possível, seja por circunstâncias externas seja por emoções internas, deve confiar e obedecê-lo. Pois, se assim fizer, a Graça do Eu Superior manipulará essas circunstâncias ou alterará seus sentimentos adequadamente. Mas fará isso para levá-lo ao seu crescimento ulterior e real necessidade, e não para satisfação de seus desejos pessoais ou de suas supostas carências. Que aceite ser conduzido por ela, e não pela cegueira do ego.

A rejeição da ideia da Graça baseia-se num conceito errôneo do que ela é e especialmente na crença de que é um dom caprichoso e arbitrário, derivado de favoritismo. Naturalmente, não é nada disso, mas antes a entrada em ação de uma lei mais elevada. A Graça é simplesmente o poder transformador do Eu Superior, que está sempre presente mas que, de ordinário e por lei, é incapaz de agir num homem enquanto ele não retirar os obstáculos à sua ação. Se o seu aparecimento é considerado imprevisível é porque as más tendências cármicas que retardam esse processo variam consideravelmente de uma pessoa para outra em força, volume e duração de vida. Quando o carma que as gerou torna-se suficientemente fraco, elas não poderão mais impedir a ação da Graça.

Há três tipos de Graça: primeiro, a que tem a aparência de Graça, mas que na verdade resulta do carma positivo passado, e é totalmente merecida; segundo, a que um Mestre concede aos discípulos ou aspirantes quando existem circunstâncias internas e externas adequadas — isso está na essência de apenas um lampejo temporário, mas é útil porque dá um vislumbre da meta, um sentido de direção correta e um encorajamento inspirador para continuar na busca; terceiro, quando um homem atinge o mais pleno grau de realização, ele se torna capaz, em alguns casos, de modificar o carma negativo pendente ou, em outros caos, de negá-lo por ter dominado as lições específicas que precisavam ser aprendidas. Isto é particularmente evidente quando a Mão de Deus remove as obstruções no caminho do seu trabalho. O conceito filosófico da Graça mostra que ela é justamente razoável. É na verdade bem diferente da crença religiosa ortodoxa, uma crença que a considera como intervenção arbitrária do Poder Superior, para benefício de seus seres humanos favoritos.

Ele pode saber que trabalho da Graça começou quando sente um chamado ativo, a partir de dentro, que o desperta do sono e que retorna durante o dia, incitando-o a praticar suas devoções, recolhimento, orações ou meditações. A Graça leva-o da consciência superficial até o seu ser interior, um movimento que lentamente retorna numa exploração e descoberta de si mesmo cada vez mais profunda.

Parece que a Graça nos visita em momentos que ela própria escolhe. Esta é a verdade, mas não a única. Pois o estudo, a prática de exercícios, o treinamento, a autodisciplina, a oração, a aspiração e a meditação também constituem um esforço integral que deve finalmente atrair a Graça como recompensa.

Se a existência da Graça é aceita, surge a questão dos meios de transmiti-la. Visto que se trata de uma irradiação emanada do Eu Superior, ela pode ser concedida diretamente. Mas se há bloqueios internos, como acontece na maioria dos casos, e força insuficiente da parte do homem para rompê-los, então ela não pode ser recebida diretamente. Alguma coisa ou alguém de fora dele terá então de ser usado como meio de transmissão indireta.

Nenhum Maharishi, nenhum Aurobindo, nenhum Francisco de Assis pode salvar você. É o Espírito Santo que salva o homem pela sua Graça. A intervenção desses homens pode acender a fé e aquietar a mente, pode ajuda-lo a preparar as condições corretas e oferecer um foco para sua concentração, mas não oferece nenhuma garantia de salvação. É muitíssimo importante não se esquecer disso, não deificar o homem e negligenciar o verdadeiro Deus que deve vir a você diretamente e agir sobre você diretamente.

Duas coisas são exigidas de um homem antes que a Graça se manifeste nele. Uma é a capacidade de recebe-la; a outra é a cooperação com ela. Para a primeira, terá de tornar o ego humilde; para a segunda, terá de purificá-lo.

Quanto mais o aspirante se aproxima do Eu Superior, mais ativamente a Graça pode atuar nele. A razão disso está na própria natureza da Graça, uma vez que ela nada mais é do que uma força benigna que emana do Eu Superior. A Graça sempre está presente, mas pela predominância da natureza animal e do ego é impedida de chegar à percepção do aspirante. Quando essa predominância é suficientemente demolida, a Graça entra em ação cada vez mais frequentemente, tanto através de Vislumbres como por outros meios.

O verdadeiro obstáculo à entrada da Graça é simplesmente a preocupação dos pensamentos do aspirante com ele próprio, dessa forma, o Eu Superior tem de deixa-lo a seus cuidados.
Pela Graça entendo a manifestação do afeto de Deus.

Se você procura invocar a Graça divina para suprir uma genuína e desesperada necessidade física, ou para obter um resultado humano, procure primeiro encontrar a sagrada presença dentro de si mesmo, e somente depois de tê-la encontrado, ou pelo menos só depois de ter atingido o ponto de contemplação mais profundo possível para você, é que você deve mencionar a coisa ou resultado procurado. Pois então não só lhe será mostrado se é ou não correto continuar com o pedido, como também você se terá colocado na situação mais propícia para obter a Graça.

Ninguém, exceto o próprio Ser de um homem concede-lhe a Graça. A partir do momento em que o homem inclina a cabeça diante dEle, e retorna a essa atitude repetidas vezes, sempre mentalmente e fisicamente quando impelido a fazê-lo, a Graça é invocada.

Nos primeiros estágios do progresso espiritual, a Graça pode fazer-se presente na concessão de emoções de êxtase. Isso encoraja o aspirante a continuar a Busca e a perceber que até então está se empenhando corretamente. Mas, alcançada a finalidade, os estados de enlevo finalmente passarão, como devem passar. Ele então imaginará erroneamente que perdeu a Graça, que deixou de fazer algo que deveria ter feito, ou que fez algo que não deveria ter feito. Na verdade, foi a própria Graça que causou essa perda, que constitui o próximo estágio de progresso, mesmo que não proporcione prazer à mente consciente, mas apenas dor. A crença de ter perdido o contato direto com o poder superior que anteriormente usufruirá é errada: seu contato real era apenas indireto, pois suas emoções então estavam ocupadas consigo mesmas e com o seu prazer na experiência. Ele está sendo separado dessas emoções, de forma que possa ser esvaziado de cada desejo e seu ego possa tornar-se totalmente humilde, e assim estar pronto para a hora em que a alegria, uma vez recuperada, nunca mais o deixará. Porque está agora no limiar da noite escura da alma. Nesse estado a Graça também está atuando sobre ele, mas nas profundezas da sua mente subconsciente, bem além da sua vista, do seu controle.

Quando a Busca se torna a mais importante atividade da vida de um homem, mais importante até que o seu bem-estar material, então é provável que a Graça também se torne uma realidade, e não uma teoria em sua vida.

Se há alguma lei ligada à Graça, ela consiste em que, assim como dedicamos amor ao Eu Superior, da mesma forma recebemos dele a Graça. Mas esse amor deve ser tão intenso, tão grande, que lhe sacrifiquemos espontaneamente o tempo e o pensamento em tal medida que demonstre o quanto ela significa para nós. Em resumo, temos de dar mais para receber mais. E o amor é o melhor que podemos dar.

Paul Brunton em, Ideias em Perspectiva

Sobre o lampejo da bem-aventurança impessoal


Quem ainda não encontrou aqueles momentos de elevação na vida em que ficamos perdidos em nós mesmos, numa vizinhança de imponente esplendor que nos obriga a nos embebermos na sua contemplação sublime? Muito mais gente do que se supõe neste nosso mundano Ocidente passou uma vez por uma experiência emocional — ou mesmo mais de uma vez — que fez a vida assumir durante algum tempo um aspecto totalmente diferente. A alusão é àqueles lampejos de extática iluminação, de contato com uma linda e rósea realidade que abarca o universo material, que aparece de forma inesperada e deixa no seu rastro uma exaltação alegre ou pacífica. Tais momentos podem sobrevir quando estamos sós num convés de navio, à noite, cercados pelo oceano imenso, ou quando contemplamos a rubra aurora sobre os picos de uma montanha, ou também, com súbita incongruência mas com força irresistível, em meio ao barulhento vozerio de um mercado. Eles sobrevêm quando recebemos a Natureza no nosso coração, não como o botânico que disseca uma flor ou arranca sem piedade as pétalas para estudar a estrutura, mas como um amante ardente ou um amigo. Eles sobrevêm quando vemos uma paisagem com olhos de poeta, e quando nos damos conta de que o paraíso pode começar num relvado próximo da nossa casa. Venham como vierem, obrigam-nos a esquecer as preocupações de caráter pessoal e ansiedades, fazendo com que nos alcemos a uma visão impessoal das coisas até ali impossível de obter e mais ainda de conservar. O tempo parece parar, a sensação de que a vida é eterna se infiltra à vontade em nossa mente, o ambiente físico perde um pouco de sua tangibilidade e a sua realidade resvala levemente para uma substância de sonho. Uma paz etérea, não sentida até então, surge no coração e traz consigo uma satisfação intensa que a gratificação de nenhum desejo mortal poderia jamais produzir. Uma compreensão mais clara também desponta; a vida parece clarificada e pressentimos, antes de vermos, um propósito inteligente no coração das coisas. O horror, o caos e o conflito desaparecem durante algum tempo da nossa vista, porque nesta atmosfera divina e em que fomos introduzidos as recordações desagradáveis não podem perdurar. A maravilhosa verdade, tão impalpável e no entanto tão inefável, tocou o coração. A gente SABE... mas, ah!... A experiência retrocede, embora a sua lembrança fique para sempre. Não poderemos esquecê-la ainda que assim desejemos; seu caráter permanecerá e nunca se desgastará como as experiências normais da existência terrena. Mais e mais, a recordação sublime nos segue e nós ansiamos pela renovação de tais momentos divinos. O que significa a lembrança desses raros momentos? Podemos recolhê-los de novo assim como fazemos com as flores perfumadas que colhemos diariamente do seio prolífico da terra?

A resposta a esta pergunta é que por detrás do eu que todos conhecem existe um outro Eu que via de regra passa desapercebido, e que é essa coisa misteriosa e enganosa chamada alma ou espírito. Esse Eu Superior é a parte mais secreta da natureza do homem e, não obstante, a mais fundamental. A bem-aventurança impessoal da qual obtemos esses pequenos fragmentos é INERENTE à natureza daquele eu. As nossas inspirações não passam, portanto, de migalhas que tombam do eterno banquete.

A resposta à pergunta é: “Sim!” Esses maravilhosos estados do sentimento, esse esplendoroso pedaço de tempo podem ser recapturados e prolongados de acordo com o desejado, depois que o método do AUTO-ADESTRAMENTO tiver sido compreendido e suficientemente exercitado, pois a cultura certa de nossos sentimentos mais nobres é parte integrante desse adestramento.

É preciso que nos disponhamos a procurar cultivar certos estados instáveis do coração. Tais estados acontecem na vida da maioria das pessoas em ocasiões diferentes, amiúde por acaso e de forma inesperada, mas via de regra têm curta duração, e, não sendo cultivados, são postos de lado e muito do seu valor se perde. Trata-se de estados evocados o mais das vezes de forma inconsciente através de prazeres estéticos, por meio de coisas como ouvir uma música belíssima, ler uma poesia inspirada e deixar-se penetrar pelas impressões produzidas nos nossos sentidos por cenas naturais de inesquecível grandiosidade: mais raro aparece um estado valioso de profunda veneração e grande apreço provocado pelo encontro de alguém que de alguma forma se tenha identificado com o Eu Superior.

Sempre que esse estado de poderoso encanto, intensa reverência ou paz completa acontece, é necessário que mantenhamos nele toda a nossa mente e o reconheçamos como um importante mensageiro e ouçamos a sua mensagem. Devemos ponderar longa e profundamente nessa mensagem e tentar referi-la à sua origem mais alta; devemos tentar tecer com os seus efeitos o pano do nosso caráter. Porque tais estados não nos vêm rotulados com o nome do país da sua origem mística, nós talvez lhe subestimamos o valor. Eles são quase sempre de curta duração e lhes devemos dar o justo valor e extrair-lhes conscienciosamente a essência íntima, pois, na verdade, tais momentos podem ser tidos em alta conta que ajuda no amor de uma beleza excelsa, que tende a nos influenciar no sentido de uma atitude mais nobre, no sentido de uma consciência mais profunda da vida do que a propiciada pela sequência das modificações simplesmente materiais que compõe a rotina diária, deve, assim, ser aceito e incentivado; a sensibilidade às forças mais nobres, necessária neste caminho, resultará aumentada.

[...] Devemos deixar que essa mensagem entre com toda a sua força no nosso ser, de preferência a tentar entendê-la intelectualmente. Sentados tão quietos quanto possível, com o olhar e o coração concentrados, e com a alma passiva e receptiva, é preciso que deixemos os sentidos da vista e da audição tornarem-se os mediadores de um estado mais elevado. Quando esse novo estado tiver de fato sido produzido, real e intensamente, devemos entregar-nos livremente e permitir que ele viva dentro de nós SEM, CONTUDO, TRANSFORMÁ-LO EM OBJETO DE ANÁLISE INTELCETUAL. Na verdade é de grande importância, no despertar e no cultivo desses estados de emoção mais elevados, não colocar em ação as nossas faculdades críticas, não tentar dissecá-los mentalmente até que se tenham ido de todo; devemos de preferência deixar-nos dissolver suavemente neles. Se interferirmos, acontecerá que atalharemos o novo estado e dissiparemos uma provável preciosa experiência espiritual.

[...] O resultado psicológico nas pessoas é, no entanto, que aquele momento em que primeiro se fixa o olhar remotamente, retira em parte a consciência do corpo físico e liberta a mente do seu costumeiro egocentrismo. Involuntariamente, nós trocamos o pessoal pelo Impessoal com a rapidez do relâmpago, deixamos de estar imersos em constantes agitações, toda a atenção sendo colocada no ato de avistar, e depois voltamos novamente à condição comum. Porém, esse intervalo místico basta para criar o Estado do Eu Superior.

Se pudéssemos, com cuidado e zelo, captar tais momentos divinos e, sem deixar que se dissipassem desapercebidos, alimentá-los bem, saboreando por assim dizer o seu gosto espiritual, poderíamos algum dia abençoado passar toda a consciência para o Eu Superior e retê-la ali algum tempo. Tal dia seria inesquecível, pois seu êxtase seria sublime.

Paul Brunton em, A Busca do Eu Superior              

Da turbulência à plenitude do Eu Real

Algumas vezes, em reação ao poder penetrante do seu próprio satsang, vivencia-se uma transferência de poder. Ocorre uma mudança do manual para o automático. O zíper do saco de dormir “eu” se abre;  a existência sai bocejando e se espreguiçando à medida que descobre novamente sua plenitude natural. Energias bloqueadas, como condicionamentos, hábitos, temores, apegos e desejos que já foram o tecido que mantinha unido seu senso de uma existência autônoma e independente se desembaraçam. Pode ser que lembranças e tendências dormentes se agravem. Você experienciará de uma forma completamente nova. Portanto, não é incomum que muita turbulência esteja presente por algum tempo. Deixe tudo acontecer. Evite tirar conclusões sobre qualquer coisa que perceba. Apenas permaneça quieto. Deixe acontecer. Resista à tendência de interpretar os eventos não faça julgamentos.

Por um tempo, talvez você sinta que a rotina de sua vida já não é mais rotina. Você poderá esquecer suas chaves, seu número de telefone, que ônibus tomar para casa e assim por diante. O pânico pode entrar em sua mente. Que sorte você estar em satsang, um ambiente onde você é lembrado de que está tudo bem. Você está na palma da mão de Deus, por isso não se preocupe com ter que cuidar de si mesmo. Você já fez isso por bastante tempo. Agora você está descobrindo como o universo cuida de você.

Pouco a pouco, você sentirá uma profunda paz interior que não é facilmente perturbada. Seus humores se acomodarão numa espécie de equilíbrio natural. Você reconhecerá, então, que ações e reações, com as quais anteriormente você se sentia profundamente envolvido, são percebidas nesse espaço de consciência com o qual você é uno, mas elas não o atingem. Há uma firmeza, uma profundidade nesse reconhecimento, e uma grande alegria surge sem motivo aparente.

Essa falta de estabilidade inicial no campo das experiências representa as dores do parto do seu renascimento nesse vazio. Deixe que essa revelação se manifeste até que se estabeleça. Não passa do som que uma garrafa faz quando você a lança ao mar: “blup, blup”. Uma vez que o ar termina de sair, ela fica totalmente parada e afunda. Sua mente é como essa garrafa. Inicialmente, faz o mesmo barulho até ficar parada. Por isso, não se incomode com essas coisas. Elas irão acontecer. Mesmo que você pense que está enlouquecendo. Isso também vai passar. São apenas bolhas borbulhando. Resista à tentação de formular conclusões. É a mente que está lutando para manter o controle. Vice tem vivido a vida como se a estivesse tocando por uma partitura. Agora que a partitura queimou, você precisa tocar a canção de sua vida de ouvido. Não depende de você se preocupar com como são as coisas. Poucas pessoas aguentam isso. Algumas voltam atrás e a mente espera ansiosamente recebê-las de volta. Mas no satsang você é encorajado a resistir a esse desconforto. É por um tempo limitado, apenas o tempo que o Ser precisa para pôr para fora energias velhas e bloqueadas. Uma limpeza geral interior está acontecendo. É um bom sinal


Mooji, Texto recebido via Facebook

Sintomas do Despertar da Consciência Cósmica

a) De repente, sem prévio aviso, a pessoa tem a sensação de estar envolta por uma chama ou nuvem rosa, ou talvez a impressão de que a própria mente está cheia dessa nuvem de neblina. 

b) No mesmo instante, ele sente-se invadido por uma emoção de alegria, segurança, triunfo, "salvação". Essa última palavra não deve ser tomada em seu sentido comum, pois o sentimento, quanto totalmente desenvolvido, não expressa aquele ato particular de salvação, mas uma salvação não especialmente necessária, pois o esquema de construção do próprio mundo basta para isso. Esse êxtase, que ultrapassa qualquer outro pertencente à vida meramente autoconsciente, invade os "poetas" e ocupa suas vidas, tal como ocorre com Gautama Buda, em seus discursos preservados nos "Suttas", com Jesus, nas "Parábolas", com Paulo de Tarso, nas "Epístolas", com Dante, no fim do "Purgatório" e começo do "Paraíso", com Shakespeare, nos "Sonetos", com Balzac, em "Serafita", com Whitman, em "Folhas", com Edward Carpenter em "Rumo à Democracia", deixando aos "cantores" os prazeres e penas, amores e ódios, alegrias e tristezas, a paz e a guerra, a vida e a morte do homem autoconsciente. Embora os "poetas" também possam tratar desses assuntos, fazem-no do novo ponto de vista, como está expresso em "Folhas": "Jamais voltarei a referir-me, dentro de uma casa, ao amor ou à morte" (193 : 75) — isto é, do antigo ponto de vista, com as antigas conotações. 

c) Acompanhando simultânea ou instantaneamente a sensação acima referida e as experiências emocionais, surge na pessoa uma iluminação intelectual impossível de ser descrita. Como um clarão, apresenta-se à sua consciência uma clara concepção (uma visão) do sentido do universo. Não se trata simplesmente de crer; mas ele vê e sabe que o cosmo, o qual para a mente consciente parece formado de matéria morta, na verdade é uma presença viva. Vê que os homens, ao invés de serem remendos da vida, espalhados pelo infinito mar de substância não-vivente, são, na verdade, partículas de morte relativa no infinito oceano da vida. Vê que a vida que se acha no homem é eterna, como toda a vida é eterna; que a alma do homem é tão imortal como Deus; que o universo está tão bem construído e ordenado que todas as coisas funcionam juntas, sem incertezas, para o bem de cada uma delas e do conjunto; que o princípio fundamental do mundo é aquilo que chamamos amor e que a felicidade de cada indivíduo é, a longo prazo, inevitavelmente certa. A pessoa que passa por essa experiência aprenderá, em poucos minutos, mais do que seria possível em meses ou mesmo anos de estudo, e muitas coisas que nenhum estudo poderia ensinar. Ela obtém, especialmente, a concepção do TODO, ou pelo menos de um imenso TODO que ultrapassa qualquer concepção,  imaginação ou especulação oriunda da autoconsciência comum. Tal concepção torna pobres e mesmo ridículas as antigas tentativas para mentalizar o universo. 

Esse despertar do intelecto foi muito bem descrito por um escritor, falando sobre Jacob Behmen, com as seguintes palavras: "Os mistérios sobre os quais ele falava não se referiam a ele, ele os OBSERVAVA. Ele viu a raiz de todos os mistérios, O QUE ESTÁ POR BAIXO, de onde brotam todos os contrastes e princípios discordantes, a rigidez e a maleabilidade, a severidade e a complacência, a doçura e o amargor, o amor e a pena, o céu e o inferno. Ele viu tudo isso em sua origem e tentou descrever em sua essência e encontrar uma correspondência com os resultados eternos. Ele os viu no ser de Deus; daí o nascimento ou crescimento da manifestação divina. A natureza mostrou-se a ele sem véus — ele sentiu-se em casa, no âmago das coisas. O seu próprio livro, que era ele mesmo (tal como Whitman: "Isto não é um livro; quem o toca, toca um homem"), o microcosmo do homem, com sua tripla vida, evidenciou-se para ele".  (79 . 852)

d) Juntamente com a elevação moral e a iluminação intelectual vem o que deve ser chamado, por falta de melhor termo, de uma consciência da imortalidade. Não se trata de uma convicção intelectual, como ocorre quando da solução de um problema, ou de uma experiência como aprendizado de algo que antes desconhecíamos. É bem mais simples e elementar e poderia melhor ser comparado à certeza de uma individualidade distinta, que cada quem possui, que advém com e pertence à autoconsciência. 

e) Com a iluminação, o medo da morte, que assalta a tantos homens e mulheres ao longo de suas vidas, desaparece; não como resultado de um raciocínio, e sim, apenas, porque se desvanece. 

f) Podemos dizer o mesmo sobre a consciência do pecado. Não é que a pessoa escape do pecado, mas ela não vê no mundo pecado do qual deva esquivar-se. 

g) Uma das características mais especiais da iluminação reside no fato de ser instantânea. Só podemos compará-la a um clarão de luz na escuridão da noite, revelando a paisagem que se achava escondida. 

h) O caráter anterior do homem que atinge a nova vida é um elemento importante do caso. 

i) Assim também ocorre com a idade em que se dá a iluminação. Se, por exemplo, ouvimos referências a um caso de consciência cósmica ocorrido aos vinte anos, em princípio deveríamos duvidar da veracidade do relato e, caso nos víssemos obrigados a dar-lhe crédito, deveríamos pensar que esse indivíduo, caso vivesse, seria um verdadeiro gigante espiritual. 

j) O encanto acrescentado à personalidade da pessoa que alcança a consciência cósmica é sempre uma característica do caso. 

l) Ao escritor parece evidente que, com a consciência cósmica, como se apresenta  no instante em que ocorre e um certo tempo depois, há uma mudança na aparência do sujeito que passa pela iluminação. Esta mudança é semelhante à provocada em uma pessoa que passa por grande alegria. Mas, em certos casos (os mais pronunciados), parece ser bem mais notável do que isso. Nesses grandes casos, nos quais a iluminação é intensa, a mudança citada também é intensa e pode chegar a sr uma autêntica "transfiguração". Dante diz que foi "trans-humanizado em Deus". Não se pode, absolutamente, colocar em dúvida que se ele tivesse sido visto naquele momento, teria demonstrado os sinais do que chamamos "transfiguração". 

Richard Maurice Bucke em, Consciência Cósmica - Estudo da evolução da mente humana 

Será que estou ficando louco?


Parece que a apreensão da consciência cósmica se verifica de forma mais ou menos agitada, pois no princípio o indivíduo teme que o novo sentido seja um sintoma de alguma forma de insanidade. Maomé sentiu-se muito temeroso. Penso que tanto Paulo de Tarso como outros que serão mencionados adiante se sentiram assim afetados

A primeira indagação que todos se fazem, depois de ter experimentado o novo sentido, é: O que vejo e o que sinto representam a realidade ou estou sofrendo de uma alucinação? Embora a nova experiência pareça ainda mais real do que os antigos ensinamentos da consciência simples (normótica) e da autoconsciência, isso a princípio não infunde confiança, pois é sabido que a alucinação, quando se apresenta, toma conta da mente com segurança idêntica à da realidade. 

Seja ou não verdade, cada pessoa que passou pela experiência crê forçosamente em seus ensinamentos, aceitando-os como tão absolutos como outros ensinamentos que possa ter recebido. Entretanto, isso não bastaria para demonstrar a sua veracidade, pois poderíamos dizer o mesmo sobre as alucinações de um demente. 

Como, então, saberemos que se trata de um novo sentido, fato revelado, e não de uma forma de insanidade, lançando o sujeito na alucinação? Em primeiro lugar, as tendências da mencionada condição são de todo diferentes e até mesmo opostas às da alienação mental. Essas últimas caracterizam-se por ser amorais ou até mesmo imorais, enquanto que as primeiras são altamente morais. Em seguida, enquanto que em todas as formas de insanidade se reduz a inibição, que algumas vezes chega mesmo a desaparecer, na consciência cósmica ela sofre um aumento. Essa última afirmação pode ser amplamente provada pela vida de homens aqui citados como exemplos. Em terceiro lugar, não importa o que digam os escarnecedores da religião, é certo que a civilização moderna, em sua maioria, continua apegada aos ensinamentos do novo sentido. Os "mestres" são ensinados por ele e o resto do mundo por eles, através de seus livros, seguidores e discípulos, de tal forma que se considerássemos o que aqui denominamos consciência cósmica como uma forma de insanidade, enfrentaríamos o fato (absurdo) de que toda a nossa civilização, incluindo as mais importantes religiões, estaria mergulhada na alucinação. Mas, sem alimentar essa absurda alternativa, podemos sustentar que a evidência da realidade objetiva que corresponde a essa faculdade é a mesma que temos quanto à realidade de qualquer outro sentido ou faculdade. Exemplifiquemos com a visão: Sabemos que a árvore que está lá do outro lado do campo, a meia milha de distância, é real, não uma alucinação, sabemos disso porque todas as outras pessoas que possuem o sentido da visão podem vê-la também, e se fosse uma alucinação só seria visível para nós mesmos. Utilizando o mesmo raciocínio, estabelecemos a realidade do universo objetivo, registrando a consciência cósmica. Todas as pessoas que possuem a faculdade relatam as mesmas experiências ou fatos. Caso três homens olhassem a árvore e meia hora depois lhes fosse solicitado desenhá-la ou descrevê-la, os três desenhos ou descrições não seriam idênticos, discrepariam num ou noutro detalhe, mas corresponderiam, em seus traços gerais. Assim ocorre com os relatos daqueles que passaram pela consciência cósmica: são semelhantes na essência, embora divirjam mais ou menos nos detalhes (e essas divergências bem que podem ser o resultado de nossa má interpretação). Não há registro de uma pessoa que tenha passado pela consciência cósmica, negando ou disputando com os ensinamentos de outra que tenha experimentado o mesmo. Embora Paulo de Tarso, devido as suas experiências anteriores, estivesse pouco predisposto a aceitá-los, tão logo sofreu a consciência cósmica percebeu que os os ensinamentos de Jesus eram verdadeiros. Maomé aceitou Jesus não só como o maior dos profetas, mas como alguém que se achava num plano superior ao de Adão, Noé, Moisés e os outros. Ele diz: "E enviamos Noé e Abraão e pusemos na semente deles a profecia e o livro; e alguns deles foram guiados, embora muitos deles fossem trabalhadores da abominação! Então, seguimos suas pegadas com nossos apóstolos; e os seguimos com Jesus, o filho de Maria; e lhe demos o evangelho; e pusemos no coração de seus seguidores a bondade e a compaixão" (153.269). E Palmer dá seu testemunho: "Maomé vê o nosso Senhor com veneração especial e chega ao ponto de chamá-lo de 'Espírito' e 'Palavra' de Deus e de 'Messias'" (152.51). Walt Whitman aceita os ensinsamentos de Buda, Jesus, Paulo de Tarso, Maomé, especialmente de Jesus, que conhecia melhor. Como ele declarava: "Aceitando os evangelhos, aceitando-o a Ele que foi crucificado, sabendo com certeza que Ele era divino" (193:69). E se, como Whitman uma vez desejou: "Os grandes mestres pudessem voltar e estudar-me" (193:20), é certo que todos o acolheriam como "um irmão do cúmulo radiante". Assim, todos os homens que esse escritor sabe terem sido iluminados estão de acordo quanto aos detalhes essenciais e com todos os mestres do passado também iluminados. Também parece que os homens livres de preconceito, que conhecem algo sobre mais de uma religião, reconhecem, como Sir Edwin Arnold, que as grandes crenças são "Irmãs", ou, como diz Arthur Lillie, que "Buda e Cristo ensinaram doutrinas semelhantes". (110.8)

Richard Maurice Bucke em, Consciência Cósmica - estudo da Evolução da Mente Humana

Breve relato de um estado de Ser Incondicionado


Out, tudo bem? Fiquei com vontade de escrever pra você, em primeiro lugar para agradecer por tudo e segundo, para relatar o meu momento, já que não estou podendo participar das reuniões e, como você já sabe, não tem mesmo ninguém com quem trocar esse tipo de percepção por aí. 

Estou vivendo um momento muito tranquilo da minha vida. Já faz um tempo que os fatores externos não têm colaborado muito, mas não estou sentindo medo. Um dos motivos para isso é que, em boa parte do tempo, consigo ficar no aqui e agora, aceitando o momento como ele é, sem muita discussão mental. Acho que devo esse momento ótimo que estou tendo, a tudo que vivi nos últimos tempos, um fundo de poço emocional o qual pude viver conscientemente. Me vi em uma situação onde nada fazia sentido, muito medo do futuro, muito apego ao passado, muita mágoa, vergonha, insegurança, enfim, tudo que caracteriza o egocentrismo no qual eu estava mergulhada. Mas, dessa vez, eu não fugi. De certa forma, não havia pra onde fugir, não havia a quem recorrer, nem onde me agarrar, não houve nenhum consolo (talvez os livros do Osho e do K). Fiquei com tudo isso, medo, solidão, vazio. Até que aconteceu um milagre. Fui dormir arrasada e acordei muito bem no dia seguinte. 

Não dá pra explicar muito em palavras o que aconteceu, mas, de repente, o medo sumiu, a insegurança sumiu, o passado se tornou apenas memórias, sem ligação emocional com elas. O sentimento era de aceitação e gratidão. 

Fiquei nesse estado até que um dia, estava no ônibus observando as pessoas a minha volta, e, algo maravilhoso aconteceu, acho que consegui vê-las além da aparência, vi que todas eram uma, algo assim, fiquei sentindo a vida que estava contida naquelas formas humanas e durante essa experiência, não pensei em mim, como “eu” em nenhum momento. Era como se tudo fosse uma coisa só. Lembro de ter sentido uma felicidade como nunca senti antes, estava sorrindo pras pessoas, sem me importar com nada, algumas sorriram de volta pra mim, mas senti que nada importava mais do que aquele momento. 

Enfim, estou muito bem até agora, apesar das situações adversas que sempre ocorrem. E, quando ocorrem, sinto por um instante, uma pequena reação interna, mas me recupero imediatamente. Não sei o que irá acontecer no futuro, mas seja o que for, estou me sentindo bastante forte para enfrentar. Então, é isso. Obrigada mais uma vez por tudo. Tudo de bom pra você, pra Deca e pra todos. 

Até mais!

Márcia Oliveira

O medo e a dependência psicológica

Conferência Presencial no Centro Cultural São Paulo em 21-02-2016

A sabedoria suprema


          O estudante filosófico estuda a natureza da matéria e constata que ela é, em última analise, uma manifestação da Mente. Pela reflexão mentalista percebe que as diversas explicações evolucionárias da existência universal não são verdadeiras senão do ponto de vista relativo e todos os elementos, princípios, energias, substâncias, processos, dos quais, conforme se diz, o universo saiu em si mesmos. Não são mais que manifestações mentais, que — do mesmo modo que a água não difere na realidade do oxigênio e do hidrogênio que a compõem, embora difira totalmente dos seus componentes na aparência, as imagens da terra, da água, do ar e do fogo não podem ser essencialmente diferentes da Mente donde provém. Ele se estabelece profundamente na compreensão dessa natureza mental última e na da unicidade final de todas as coisas, sem permitir que nenhuma aparência possa deslocá-lo desta posição intelectual. O estudante está imbuído de que em cada um de seus sopros, em cada um de seus pensamentos, participa com a Mente-Mundial da construção do universo.
         O exercício místico, no qual se empenha, não é cego. Vai além da idéia — mundo e absorve. Utiliza a razão para ir além da razão e não se separa prematuramente dela. Não somente descobre o Pensamento puro, mas medita em sua descoberta. Quando esvasia a consciência de seu conteúdo, ele o faz de olhos inteiramente abertos, sem perder de vista que o conteúdo é de algum modo a espuma da realidade e não difere dela em sua essência. Quando o vazio é preenchido pela presença do Pensamento puro, ele retorna a esse conteúdo com um sentimento cada vez menos agudo de ter que atravessar um abismo de diferença, e cada vez experimenta menos dificuldades para pô-los em relação, em continuidade e harmonia com o que experimentou nas meditações anteriores. Exercita-se a jogar diretamente com essa atenção refletida, em sua vida quotidiana, nos pensamentos que sua consciência forma, em todos os atos executados pelo corpo. Disciplina sua consciência de maneira que contenha a idéia-corpo, sem identificar-se com essa idéia, que funcione pelos cinco sentidos, sem cessar de funcionar na Mente infinita. Continuando a aliar a reflexão metafísica à contemplação mística, ele faz surgir em si uma nova faculdade resultante da fusão das duas reflexões, que não possui nem as limitações do intelecto raciocinador, nem a assimetria da emoção mística lhe é superior. Este estado misterioso da consciência é chamado em sânscrito "o de plenitude total" e confere um estado de penetração muito além do da ioga comum.
         Esta faculdade surge num abrir e fechar de olhos, por assim dizer. A longa e ardente preparação atinge finalmente uma crise em que se produz um verdadeiro transtorno na natureza do aspirante. Apesar dessa instantaneidade, a penetração tem ainda necessidade de tempo para amadurecer. Ela não alcança seu grau mais alto senão quando se torna natural e contínua. Se se obriga a qualquer esforço, ela se degrada. Não se consegue esse grau supremo senão no fim de um longo noviciado. A consciência transcendental não se torna permanente senão quando o Real ocupa sempre o centro da atenção. É o fruto de uma longa e tenaz educação desta para harmonizar a Mente Imanifestada com suas idéias constantemente cambiantes. Aquele que consegue chegar a isso é capaz, portanto, não somente de ter uma percepção verdadeira da realidade mas, ao recebê-la com compreensão, pode estender esta percepção à sua vida quotidiana. Acaba por persistir nas vinte e quatro horas do dia e da noite, tornando-se estável e permanente. O treinamento ultra-místico da via filosófica atinge assim seu coroamento. A atividade do pensamento que segue não é mais a mesma que a precedente; torna-se iluminada. O fim último não é, pois, suprimir o pensamento num transe prolongado e solitário; também não é o de liberar a mente dos pensamentos mas apenas de sua tirania, e levá-la a compreender a significação verdadeira de suas manifestações características relativas ao "Eu" e ao mundo, de tornar o homem consciente, sem esforço, de sua essência mais íntima no curso de sua existência pessoal. Logo que penetra no quarto estado, o sábio não mais pode regredir. Dormindo ou desperto, no trabalho ou no repouso, é perpetuamente dominado por essa transcendência enigmática. O quarto estado, quando plenamente alcançado, dura durante os três outros. Não desaparece no estado de sono nem no estado desperto do corpo. Conserva-se sem esforço, no mesmo sentido em que um homem, no estado desperto, conserva sem esforço sua identidade pessoal.
         Nossa intenção não é subestimar os resultados obtidos pelo místico, mas é preciso dizer que a penetração adquirida por ele é somente parcial, enquanto que a do filósofo é perfeita. A Natureza conduz o místico de uma compreensão puramente emotiva, a uma compreensão calma e inteligente que nunca é refutada quando recai num plano inferior. Os pensamentos imperceptivelmente cambiantes dos objetos exteriores e os pensamentos incessantemente cambiantes dos pensamentos dos objetos, isto é, as coisas e suas imagens, tomam seu nascimento original e depois morrem ulteriormente nesta essência da Mente, que se conserva nele mesmo sem forma, sem mutações, sem nunca ser refutado por alguma coisa que nunca foi produzida nem nunca poderá produzir-se. A despeito das inumeráveis formas sob as quais a Mente se manifesta, a Mente-essência nunca abandona sua identidade eterna. Uma ilusão pode ser refutada por uma experiência ulterior, uma aparência pode ser dissipada por uma pesquisa nova, mas a Realidade nunca pode ser negada nem a Verdade, reputada. De sorte que o método que permite cultivar a faculdade mais elevada da mente e dá esta penetração inabalável, traz tradicionalmente o nome de "ioga do irrefutável". No fundo de todas as correntes de pensamentos, o filósofo discerne sempre o Pensamento divino. Sem cair em transe, sem fechar os olhos, sem negar-se a ouvir, sem cruzar as pernas à maneira dos iogues comuns, conserva a consciência da realidade material e sem forma. Quando pode ultrapassar a necessidade do transe, atinge a percepção de que as diferenças entre o Pensamento puro e os pensamentos, isto é, entre a Mente superior e suas manifestações, não existem senão do ponto de vista humano e não nas próprias coisas; todas repousam na sublime unidade de Deus e não são senão uma manifestação ou uma representação da realidade; na verdade, o mundo inteiro é uma proclamação de Deus. Assim, o estado último para o qual tende a evolução e para onde marcha o homem é o de um repouso consciente na Mente, não de uma inação consciente; os sentidos seguem a sua atividade mas não exercem mais a sua tirania; o ser continua mais liberto do domínio do ser pessoal; as engrenagens do pensamento giram sempre, mas sem exagero.
    Somente a penetração permite varar a aparência sensorial do mundo e compreender permanentemente que ele não é radicalmente diferente do próprio Vazio. Eis porque dos pequenos livros, inspirados e destinados aos aspirantes teosóficos avançados, contêm certas declarações paradoxais. Um deles — Luz no Caminho, — baseado numa autoridade do antigo Egito, recomenda no começo "Procura o Caminho retraindo-te para Interior", e depois. "Procura o Caminho avançando decididamente para fora". O outro, "A Voz do Silêncio", fundado numa autoridade tibetana, declara: "tens de estudar o vazio do aparentemente cheio e o cheio do aparentemente vazio".
         O discípulo chega assim ao ponto culminante de todos esses empreendimentos ultra-místicos e deve inclinar-se em homenagem não somente ao vazio sagrado, donde decorrem todas as coisas, não somente diante das trevas santas que são a fonte de toda a luz, mas também ante o mundo visível que tem sua fonte secreta e inefável em Deus, diante das atividades incessantes que constituem a história sem começo nem fim deste maravilhoso universo. Os homens se maravilham de tudo quanto a ciência descobre de novo no mundo, sem compreender que a maior maravilha é a própria existência deste mundo.
        Aquele que chega a compreender que cada átomo da terra cintila misticamente na vida universal que encerra tudo e que não existe ponto algum em que a Existência Única esteja ausente, compreenderá também que a aventura humana é tão sagrada como qualquer outra coisa. Compreenderá igualmente que a existência quotidiana do homem é em si tão misteriosa, tão milagrosa quanto a existência invisível e inefável de qualquer arcanjo imaginável. O conceito dessa penetração transcendental, para aqueles que compreenderam sua significação, deve necessariamente ser o mais prodigioso que tenha brotado na mente humana. E no entanto, essa sabedoria suprema, essa penetração completa do caráter fundamental de toda a existência, não é mais nem menos que a inteligência do homem levada ao seu grau superior.

Paul Brunton

As escolas iniciáticas e a iluminação

O fruto do estado de absorção do iogue filosófico

A mera quietude mental é um excelente objetivo, neste caminho de ascensão espiritual, mas não é a verdadeira transcendência. O vazio mental, que tão frequentemente constitui o estado de absorção dos iogues comuns, não é o mesmo que a consciência auto-compreensiva, que constitui o estado de absorção do iogue filosófico. A paz do primeiro facilmente determina um debilitamento da visão do mundo e um imenso letargo, enquanto que a paz do segundo só pode  determinar um aumento de forças para ajudar o mundo e uma grande inspiração. Observar este estado, de fora, e crer que ambos são uma mesma condição, é ser culpável de um grave equívoco. A negatividade difusa do primeiro é inferior e distinto da inteligência discriminativa e alerta do segundo. 

O tipo de iogue comum simplesmente deixa de pensar. O iogue filosófico compromete ativamente sua consciência livre de pensamentos, na compreensão de sua própria natureza. O primeiro é todo flores, mas sem frutos. O outro é todo flores e todo frutos. Assim, pois, na Senda Suprema,  um texto de normas para os aspirantes, reunidos, há oitocentos anos no Tibete, que é ainda muito apreciado ali, se faz a seguinte advertência: "A quietude do processo inativo do pensamento (na mente individual) pode parecer, equivocadamente, a meta verdadeira, que em realidade consiste em alcançar a quietude da Mente Infinita". A chave desta situação extremamente sutil é, portanto, dupla. Primeiro, a posse ou ausência de conhecimento metafísico. Segundo, a atitude mental graças à qual o contemplativo entra em estado de auto-absorção. Estes dois fatores estão intimamente relacionados entre si, e não podem separar-se porque um depende naturalmente do outro.

O momento em que se passa da vigília para o sono ou sonho é, agora o sabemos, um momento sumamente crítico. A direção geral da consciência neste momento pode determinar o caráter dos sonhos ou sono posteriores; pode, por certo, transformar um ou outro em algo totalmente superior. Da mesma maneira, é sumamente crítico o momento em que a atividade do pensar se submerge na absorção total. Também então a direção geral da consciência pode determinar o caráter do estado seguinte. A atitude mental neste momento é realmente criativa. O místico atravessa este momento interessado só em suas relações pessoais frente à experiência, isto é, arrastado por seus sentimentos pessoais de grande satisfação. A experiência o torna mais feliz e ele jamais poderá olvidá-la depois. Mas deixou sua tarefa pela metade, fato melancólico testemunhado pelo seu retorno posterior, tarde ou cedo, ao estado prosaico comum, no qual permanece. Devido em parte a esta referência pessoal, e em parte à sua ignorância metafísica, e consequente falta de preparação, entra neste estado de auto-absorção contemplativo, como o homem que se afastasse de uma habitação por uma porta aberta, com os olhos tenazmente fixos no lugar familiar que deixou, negando-se olhar para a frente.

Assim como este homem só em parte saberá onde está, inclusive quando se acha dentro da habitação, assim também o místico terá só uma consciência parcial da índole da Mente Pura, inclusive quando está imerso na auto-absorção. Além disso, esta referência pessoal faz que o místico abandone as suas perspectivas preconcebidas e as suas crenças dogmáticas, apenas temporariamente no limiar da Mente, por assim dizer, ao invés de mantê-las em sua chama purificadora; assim, pois, volta a retomar suas crenças anteriores, quando regressa à experiência comum. Pelo contrário, se a meditação é praticada conjuntamente com o treinamento filosófico, isto é, se não é mais um simples exercício místico, senão que está informado pelo conhecimento reflexivo racional, então, a perspectiva equivocada da realidade não volta a aparecer, porque o puro ser a experimentará tal qual é. O divino está presente em ambos os caos, mas no primeiro, seu caráter satisfatório se converte num obstáculo, o que não sucede no segundo caso. Ambos os místicos têm tocado a realidade, mas o primeiro apenas alcançou a superfície, enquanto que o outro penetrou em sua imutável profundidade.

Paul Brunton

Vida e morte do meu orgulho filosófico

Ah! Como me sentia feliz,
Naquele tempo!...
Havia aprendido, com muito esforço,
A pensar filosoficamente...
Altos conceitos, sublimes idéias e ideais
Me enchiam a cabeça e o coração...
E eu olhava com secreto menosprezo
A turbamulta dos profanos,
Da massa anônima,
Dos que não sabiam pensar
Filosoficamente.

Na cabeça e no coração era plenamente triunfante
A minha querida filosofia.
Mas, quando, um dia, tentei passar para a vida,
Para as mãos, para os pés,
Para minha vivência cotidiana,
A minha bela filosofia
Foi tremenda a minha decepção...
Ao primeiro esbarro com o mundo profano
Lá se foi, em mil pedaços,
O meu lindo cristal filosófico!...

Humilde e cabisbaixo, varri
Para a lata de lixo
Os cacos do meu cristal partido...
Quão poéticas são as teorias mentais
E quão prosaica é a prática real!
“Você é filósofo?” perguntou-me um amigo.
Quis responder com um afoito “sim”,
Como outrora,
Mas não tive suficiente energia
Para semelhante audácia....
Os cacos do meu lindo cristal me preservaram
Da infecção do velho orgulho mental.
“Procuro compreender um pouco”, respondi, hesitante.
E fui riscar um zero e mais um zero
Do nédio “100” da minha afirmação categórica
De tempos idos.
Ficou apenas o modesto “1” do orgulhoso “100”,
Esse “1”, mirrado e magro,
A apontar, silenciosamente,
As ignotas alturas do além...
Foi o que sobrou do opulento festim
Da minha filosofia que eu tinha
Na cabeça e no coração,
Mas que não era a minha vida...
Hoje procuro amparar,
Com mãos de solícita Vestal,
A bruxoleante luzinha sagrada,
A chama do meu grande ideal
De espiritualidade,
Feliz quando consigo
“Ser” na vida
Um por cento daquilo
Que “sei” na cabeça.
É tão orgulhosamente doce
Esse “eu sei”
É tão indizivelmente amargo
Esse “eu sou”.
O “eu sei” alimenta o meu velho ego,
O “eu sou” exige a morte desse ego
Para que nascer possa o novo Eu...
Agora, só me resta essa chama humilde
Do meu sincero querer,
Do meu sagrado crer,
Do meu cândido querer-compreender,
Na silente expectativa da graça de Deus
Que venha com sua plenitude
Encher a minha vacuidade...

Huberto Rohden – Escalando o Himalaia

O Anel Atlante Original e a geometria sagrada



O Anel Atlante Original e a relação com a Geometria sagrada, o numero de ouro, PI e PHI. A geometria sagrada mostra como os tijolos da criação são formados em todos os aspectos da vida na terra e no universo. 


A Maneira que o criador da toda a vida na da terra, através da energia primordial, que se transforma em ondas, vibrações e formas.
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey