Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

O Misticismo como pedra de tropeço


O Misticismo não basta. Mas a lei da vida é movimento. O homem não pode permanecer imóvel como um sapo hibernado em prolongado transe. Ele tem de emergir dessa condição mais cedo ou mais tarde. Tem de ligar-se aos seus camaradas místicos, ou à sua família ou ao grande mundo. Ou então terá de desincumbir-se de uma ou outra necessidade fisiológica. Ademais, cedo ou tarde terá de confrontar as várias limitações do misticismo e os defeitos característicos dos místicos. Alguns desses defeitos são graves e relevantes. O pesquisador que nunca se deparou com eles, ou que, tendo se deparado, jamais teve a coragem de encará-los devidamente, não poderá nunca elevar-se acima do segundo grau (da ascensão do homem rumo a Verdade), mas colocará prematuramente um ponto final na sua busca e permanecerá para sempre um estudante sem diploma, presunçoso e oco.[...]

Assim, o pesquisador chegará um dia ao muro que delimita o âmbito do misticismo. Ele verá que, conquanto benéfico, o misticismo não têm condições para fazer todo o bem que alardeia. Verá, ainda, que o valor social do misticismo histórico é tão pequeno como é grande o seu valor individual, e que, por essa razão, não pode o misticismo constituir-se numa solução completa para o problema da existência humana, nem pode funcionar como uma panaceia para os desiludidos, da velada exploração da ignorância, credulidade, recursos financeiros, moléstias, ansiedades ou desejos praticada por aqueles que professam ensinar a matéria ou que proclamam a sua autoridade para atuar como guias espirituais. Perguntar-se-á por que tanta charlatanice perniciosa e tanta superstição grosseira anuviam os céus da história do misticismo. A conclusão final só poderá ser a de que a própria possibilidade desses inconvenientes revela a deficiência e as limitações do misticismo. Este, em seu aspecto meritório, é admirável, embora não seja perfeito. Falta-lhe algo. O elemento em falta é previamente igual àquele mesmo elemento de que carece a religião. Um apela diretamente para a fé emocional; outro para a experiência emocional. Nenhum deles apela para o critério da verdade mais elevada. Ambos carecem de uma base racional  e chegam mesmo a vangloriar-se dessa carência. Para aquele que respira a atmosfera rarefeita da verdade não é possível nenhuma charlatanice, nenhuma superstição, nenhuma exploração. Ele jamais se enganará a si mesmo e tampouco enganará os outros. As variações e contradições da experiência mística estão a indicar que, necessariamente, a verdade derradeira deve situar-se além dos domínios do misticismo. Pois tem que haver uma verdade única a respeito da vida, não duas ou mais. Os fracassos éticos dos místicos e dos ocultistas devem ser atribuídos à sua incapacidade de descobrir e compreender essa verdade suprema, bem como à sua dependência a uma fonte instável e incerta de inspiração, vale dizer, o sentimento, que é reconhecidamente volúvel por mais que possa ser temporariamente exaltado em função de contemplação. As dificuldades intelectuais dos místicos e dos ocultistas são o resultado lógico do seu desdém pela lógica e da sua íntima oposição aos processos racionais comprovados em favor de métodos intuitivos dos mais discutíveis. Claro que aquele que busca o mais alto tem de resolver-se um dia ir ainda além do misticismo, por útil que este tenha sido na sua progressão. 

A incapacidade de obter respostas satisfatórias e convincentes para as perguntas que a plenitude da experiência e o amor do conhecimento irão eventualmente suscitar deve conduzir o místico reflexivo que não se acomodou a uma situação de passividade e autolouvação a um ermo bravio, onde durante algum tempo ele errará aturdido, da mesma forma pela qual terá decerto um dia penetrado no ermo da dúvida, do desespero e do ceticismo, ao emergir das autocontradições da religião dogmática. O processo da passagem de uma submissão total ao sentimento místico para uma percuciente autocrítica racional não é fácil nem rápido para um homem que durante muitos anos esteve entregue à primeira. Sua consumação demandará algum tempo e o princípio da gratidão funcionará com certeza. Embora ele não o saiba, o próprio descontentamento que lhe assaltou a mente é um precursor da sua proximidade da invisível fronteira de uma região mais elevada do pensamento. Contudo, essa fronteira permanecerá fechada a menos que ele prossiga na sua jornada solitária e se recuse a ser obstado por hábitos antigos ou opiniões alheias. A coragem que dele se exige agora não é menor do que a anteriormente requerida na sua memorável passagem da religião ou do agnosticismo para o misticismo. Na ocasião poucos estavam prontos a acompanhá-lo, mas agora serão infinitamente menos numerosos aqueles que lado a lado com ele se disporão a invadir aquele ermo ululante. Mas se ele não perder de vista a gravidade de sua empreitada, não vacilará em ceder às circunstâncias. Acabará por perceber, ainda que obscuramente, que a sua compulsão íntima deve ser respeitada acima de todas as coisas, pois carrega uma inefável santidade que supera em muito a santidade da fé religiosa ou da intuição mística. 

A posição elementar de todas as religiões e sistemas místicos torna-se, portanto, clara quando estes são coordenados segundo as concepções mais amplas da filosofia. Aquilo que de verdade contêm não é senão a tradução simbólica de sutis princípios filosóficos. As pias concepções de um Deus humanizado propiciam um campo fértil para as crendices populares; os tranquilos devaneios da meditação são como bençãos para as mentes mais evoluídas; mas, para ambas as classes a comida sofisticada de uma elite moral, emocional e intelectual sabe inevitavelmente fria e insossa. 

Assim, o místico cujo lema é Excelsior! tem de sofrer e lutar, mesmo em meio aos frequentes, se bem que regulares, interlúdios da paz contemplativa a que chegou. Chegará o momento em que ele se encontrará postado diante da própria fronteira acima referida. Alguns passos mais e poderá transpô-la. Além fica uma nova terra, extremamente misteriosa e quase virgem. Trata-se da região do terceiro grau, o império da suprema sabedoria aberto ao homem. No entanto, este não chegará a saber o quanto está próximo desse império, a menos que surja um guia para fazer-lhe a revelação e acompanhá-lo território adentro. Tal guia poderá ser antigo e falar ao homem através de um livro. Poderá também estar vivo e falar ao homem frente-a-frente. No primeiro caso será como uma carroça capaz de carregá-lo lentamente durante certo trecho do caminho, ao passo que no segundo o homem será levado mais longe e com maior rapidez. Mas, uma vez iniciada a nova jornada e deixada para trás a fronteira, nunca mais será dado ao homem saber o que é o descanso complacente ou a indolência egoísta. Pois o novo acólito do Absoluto tem agora de lutar incessantemente, primeiro com os olhos fitos no seu posicionamento final, depois pela liberação dos outros, sob o comando autoritário de um poder superior — A VERDADE!

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey