Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Despertar, sem autoconhecimento, é escapismo místico

"90 dias, 90 reuniões"... Cena do filme: A TRAVESSIA
A experiência mística é por vezes espontânea mas via de regra é auto-induzida. Neste último caso decorre ela da prática da concentração mental ou de uma intensa aspiração emocional ou da atenção interiorizada transformada numa condição de devaneio ou mesmo de transe. Durante tais estados poderão surgir na mente visões extraordinariamente vívidas de homens, acontecimentos ou lugares; o místico, se bem só ele, talvez ouça vozes, e tais vozes poderão trazer-lhe uma mensagem, uma advertência, uma série de instruções ou uma revelação religiosa; até mesmo Deus poderá ser sentido como uma presença próxima e sublimadora; o místico poderá sentir-se arrebatado no espaço como por vezes acontece em sonho aos não-místicos, de modo que lhe é possível fazer visitas mentais a locais, pessoas e esferas distantes. Ou poderá ainda chegar ao clímax em glorioso êxtase, o qual será violento e erótico ou sereno e beatífico, mas será encarado como o sinal de entrada num reino mais elevado do ser, via de regra chamado de espiritual, alma, realidade divina e assim por diante. 

No entanto, não devemos aceitar falsificações das maravilhosas realidades de tais experiências. Em primeiro lugar, empregando um critério consistente, vejamos até que ponto os místicos não se contradizem entre si. Sem fazer alentadas incursões num terreno controverso, pode-se dizer concisamente que não se deve pensar que o misticismo seja uma experiência tão privilegiada que a seu respeito todos os místicos estejam sempre de acordo. Longe disso. assim como os homens de religião — desde o mais tosco campônio até o mais refinado pregador — variam bastante em calibre pessoal e perspectiva mental, assim também existem diferenças entre os místicos e é fácil constatar que, tirante os cinco princípios já mencionados em capítulo anterior, até mesmo os místicos traem em suas palavras e atos a existência de uma unanimidade entre eles. Malgrado as diversas analogias em suas doutrinas e práticas há também numerosas e insanáveis diferenças entre elas. Enquanto a maioria gasta um bocado de tempo desencravando problemáticos significados esotéricos enterrados nas escrituras, uns poucos desdenham as escrituras e têm tais práticas na conta de acrobacias intelectuais e não de descobertas espirituais, sustentando que o tempo seria melhor empregado na meditação sobre si mesmo. Enquanto a maioria agarra-se de alguma forma ao nome de um personagem sagrado como Jesus ou Krishna, alguns declaram que pouco importa a quem estejam seguindo desde que sintam a presença da divindade. As doutrinas acerca das quais discordam estão repletas de prolíferas fantasias e são muito mais numerosas do que os cinco requisitos essenciais acerca dos quais tendem a ser uníssonos. 

Aqueles que contestam este fato — pessoas em sua maioria bem intencionadas, mas despidas de espírito crítico — deveriam tentar imaginar um conclave dos seguintes místicos encerrados numa sala até que conseguissem chegar a uma total unanimidade de pontos de vista (seria tal coisa realmente possível?): Cornélio Agrippa, que mesclou a piedade mística como uma magia estranha; Emmanuel Swedenborg, que conversava familiarmente com anjos e espíritos; S. Stylintes, que permaneceu muitos anos sentado no topo de um pilar de pedra; mortificando-se; Anna Kingsford, que confessava abertamente matar pela força do pensamento os vivisseccionistas a fim de salvar a vida dos animais; Miguel Molinos, que impregnou de toda a emotividade espanhola a sua união com Deus; Eliphas Levy, que aplicou curiosas interpretações cabalísticas à teologia católica; Jacob Boehme, que foi presa de transe entre os remendos da sua velha sapataria; Hui Ko, que ensinou aos camponeses chineses o seu misticismo e foi cruelmente martirizado por isso; e Wang Yang Ming, que descobriu no próprio coração um mundo divino!

A limitação oculta e a fraqueza desconhecida do misticismo é que não se trata de uma busca da verdade definitiva e sim de um anseio de experiências emocionais. Por isso, o místico preocupa-se mais em ter os seus sentimentos temporariamente apresados numa grande paz ou temporariamente espicaçados por uma grande visão ou temporariamente exaltados por alguma mensagem oracular de caráter pessoal. Daí a filosofia abordá-lo ou assustá-lo com a pergunta: "Como sabe que a fonte da comunhão é de fato Deus ou a Realidade, Jesus ou Krishna?"

Mas ele se recusará a ouvir qualquer crítica, por procedente que seja, a respeito da possível irrelevância das suas conclusões. E insistirá em fazer do fato indiscutível da sua própria experiência o critério discutível da sua validade. Inteiramente inevitável e humano é que em tais circunstâncias ele se deixa empolgar pelo sentimento de extraordinária imediação do acontecimento e pela força das suas inusitadas exaltações a ponto de dar maior importância ao que é menos essencial e que isto lhe baste, sem maiores investigações da natureza oculta e da veracidade da dita experiência.

O valor da meditação para a paz interior, o êxtase sublime e a auto-absorção integral é imenso. Mas o seu valor para a busca da verdade e da realidade, sem o auxílio da filosofia, é coisa bem diferente e requer cuidadosa investigação por parte de inteligências críticas e imparciais dotadas de senso das proporções e da argúcia filosófica — qualidades quase sempre ausentes da constituição do místico. O êxtase é na verdade uma forma de satisfação pessoal, mas não é nem um completo critério de realidade nem uma prova adequada da verdade. Pois qualquer tipo de satisfação, por mais nobre que seja, não é em absoluto uma prova da verdade. De fato, quanto mais calorosos forem os sentimentos de um homem e quanto mais caloroso for o seu entusiasmo, tanto mais ele deverá esfriá-los e refreá-los a fim de examinar a experiência de uma forma imparcial e impessoal. Se esta for verdadeira, nada perderá com tal exame, mas se for falsa, a calma do homem será de grande valia na constatação da falsidade.

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey