Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

O amor é um estado natural da consciência

O amor é um estado natural da consciência. Não é nem fácil nem difícil, essas palavras de forma nenhuma se aplicam a ele. Ele não é um esforço; por isso não pode ser fácil nem pode ser difícil. É como respirar! É como as batidas do coração, é como o sangue circulando no nosso corpo.

O amor é o nosso próprio ser... Mas esse amor ficou quase impossível. A sociedade não o permite. A sociedade condiciona você de tal forma que o amor fica impossível e o ódio passa a ser a única coisa possível. Então o ódio é fácil, e o amor não só é difícil como impossível. O homem tem sido deturpado. Ele não pode ser reduzido à escravidão se não for primeiro deturpado. Os políticos e os padres têm participado de uma profunda conspiração ao longo das eras. Eles têm reduzido a humanidade a uma multidão de escravos. Estão destruindo qualquer possibilidade de rebelião no homem - e o amor é uma rebelião, porque o amor ouve só o coração e não dá a mínima para o resto.

O amor é perigoso porque ele faz de você um indivíduo. O Estado e a Igreja... Eles não querem indivíduos, de jeito nenhum. Não querem seres humanos, querem ovelhas. Querem pessoas que só pareçam seres humanos, mas cuja alma tenha sido esmagada de tal maneira, tenha sido danificada a tal ponto, que o estrago pareça quase irremediável.

E a melhor maneira de destruir o homem é destruir sua espontaneidade de amar. Se o homem tiver amor, não poderá haver nações; as nações existem no ódio. Os indianos odeiam os paquistaneses e os paquistaneses odeiam os indianos - só assim esses dois países podem existir. Se o amor surgir, as fronteiras vão desaparecer. 

Se o amor surgir, então quem vai ser cristão e quem vai ser judeu? Se o amor surgir, as religiões desaparecerão. Se o amor surgir, quem irá ao templo? Para quê? É porque está faltando amor que você sai em busca de Deus. Deus não é nada mais do que um substituto para o amor que está faltando. Como você não é bem-aventurado, não está em paz, não está em êxtase, você está em busca de Deus. Se a sua vida é uma dança, Deus já está no seu coração. O coração amoroso está cheio de Deus. Não há necessidade de mais nenhuma busca, não há necessidade de mais nenhuma prece, não há necessidade de ir a templo nenhum, de procurar sacerdote nenhum.

Osho

Despertar, sem autoconhecimento, é escapismo místico

"90 dias, 90 reuniões"... Cena do filme: A TRAVESSIA
A experiência mística é por vezes espontânea mas via de regra é auto-induzida. Neste último caso decorre ela da prática da concentração mental ou de uma intensa aspiração emocional ou da atenção interiorizada transformada numa condição de devaneio ou mesmo de transe. Durante tais estados poderão surgir na mente visões extraordinariamente vívidas de homens, acontecimentos ou lugares; o místico, se bem só ele, talvez ouça vozes, e tais vozes poderão trazer-lhe uma mensagem, uma advertência, uma série de instruções ou uma revelação religiosa; até mesmo Deus poderá ser sentido como uma presença próxima e sublimadora; o místico poderá sentir-se arrebatado no espaço como por vezes acontece em sonho aos não-místicos, de modo que lhe é possível fazer visitas mentais a locais, pessoas e esferas distantes. Ou poderá ainda chegar ao clímax em glorioso êxtase, o qual será violento e erótico ou sereno e beatífico, mas será encarado como o sinal de entrada num reino mais elevado do ser, via de regra chamado de espiritual, alma, realidade divina e assim por diante. 

No entanto, não devemos aceitar falsificações das maravilhosas realidades de tais experiências. Em primeiro lugar, empregando um critério consistente, vejamos até que ponto os místicos não se contradizem entre si. Sem fazer alentadas incursões num terreno controverso, pode-se dizer concisamente que não se deve pensar que o misticismo seja uma experiência tão privilegiada que a seu respeito todos os místicos estejam sempre de acordo. Longe disso. assim como os homens de religião — desde o mais tosco campônio até o mais refinado pregador — variam bastante em calibre pessoal e perspectiva mental, assim também existem diferenças entre os místicos e é fácil constatar que, tirante os cinco princípios já mencionados em capítulo anterior, até mesmo os místicos traem em suas palavras e atos a existência de uma unanimidade entre eles. Malgrado as diversas analogias em suas doutrinas e práticas há também numerosas e insanáveis diferenças entre elas. Enquanto a maioria gasta um bocado de tempo desencravando problemáticos significados esotéricos enterrados nas escrituras, uns poucos desdenham as escrituras e têm tais práticas na conta de acrobacias intelectuais e não de descobertas espirituais, sustentando que o tempo seria melhor empregado na meditação sobre si mesmo. Enquanto a maioria agarra-se de alguma forma ao nome de um personagem sagrado como Jesus ou Krishna, alguns declaram que pouco importa a quem estejam seguindo desde que sintam a presença da divindade. As doutrinas acerca das quais discordam estão repletas de prolíferas fantasias e são muito mais numerosas do que os cinco requisitos essenciais acerca dos quais tendem a ser uníssonos. 

Aqueles que contestam este fato — pessoas em sua maioria bem intencionadas, mas despidas de espírito crítico — deveriam tentar imaginar um conclave dos seguintes místicos encerrados numa sala até que conseguissem chegar a uma total unanimidade de pontos de vista (seria tal coisa realmente possível?): Cornélio Agrippa, que mesclou a piedade mística como uma magia estranha; Emmanuel Swedenborg, que conversava familiarmente com anjos e espíritos; S. Stylintes, que permaneceu muitos anos sentado no topo de um pilar de pedra; mortificando-se; Anna Kingsford, que confessava abertamente matar pela força do pensamento os vivisseccionistas a fim de salvar a vida dos animais; Miguel Molinos, que impregnou de toda a emotividade espanhola a sua união com Deus; Eliphas Levy, que aplicou curiosas interpretações cabalísticas à teologia católica; Jacob Boehme, que foi presa de transe entre os remendos da sua velha sapataria; Hui Ko, que ensinou aos camponeses chineses o seu misticismo e foi cruelmente martirizado por isso; e Wang Yang Ming, que descobriu no próprio coração um mundo divino!

A limitação oculta e a fraqueza desconhecida do misticismo é que não se trata de uma busca da verdade definitiva e sim de um anseio de experiências emocionais. Por isso, o místico preocupa-se mais em ter os seus sentimentos temporariamente apresados numa grande paz ou temporariamente espicaçados por uma grande visão ou temporariamente exaltados por alguma mensagem oracular de caráter pessoal. Daí a filosofia abordá-lo ou assustá-lo com a pergunta: "Como sabe que a fonte da comunhão é de fato Deus ou a Realidade, Jesus ou Krishna?"

Mas ele se recusará a ouvir qualquer crítica, por procedente que seja, a respeito da possível irrelevância das suas conclusões. E insistirá em fazer do fato indiscutível da sua própria experiência o critério discutível da sua validade. Inteiramente inevitável e humano é que em tais circunstâncias ele se deixa empolgar pelo sentimento de extraordinária imediação do acontecimento e pela força das suas inusitadas exaltações a ponto de dar maior importância ao que é menos essencial e que isto lhe baste, sem maiores investigações da natureza oculta e da veracidade da dita experiência.

O valor da meditação para a paz interior, o êxtase sublime e a auto-absorção integral é imenso. Mas o seu valor para a busca da verdade e da realidade, sem o auxílio da filosofia, é coisa bem diferente e requer cuidadosa investigação por parte de inteligências críticas e imparciais dotadas de senso das proporções e da argúcia filosófica — qualidades quase sempre ausentes da constituição do místico. O êxtase é na verdade uma forma de satisfação pessoal, mas não é nem um completo critério de realidade nem uma prova adequada da verdade. Pois qualquer tipo de satisfação, por mais nobre que seja, não é em absoluto uma prova da verdade. De fato, quanto mais calorosos forem os sentimentos de um homem e quanto mais caloroso for o seu entusiasmo, tanto mais ele deverá esfriá-los e refreá-los a fim de examinar a experiência de uma forma imparcial e impessoal. Se esta for verdadeira, nada perderá com tal exame, mas se for falsa, a calma do homem será de grande valia na constatação da falsidade.

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga

O Misticismo como pedra de tropeço


O Misticismo não basta. Mas a lei da vida é movimento. O homem não pode permanecer imóvel como um sapo hibernado em prolongado transe. Ele tem de emergir dessa condição mais cedo ou mais tarde. Tem de ligar-se aos seus camaradas místicos, ou à sua família ou ao grande mundo. Ou então terá de desincumbir-se de uma ou outra necessidade fisiológica. Ademais, cedo ou tarde terá de confrontar as várias limitações do misticismo e os defeitos característicos dos místicos. Alguns desses defeitos são graves e relevantes. O pesquisador que nunca se deparou com eles, ou que, tendo se deparado, jamais teve a coragem de encará-los devidamente, não poderá nunca elevar-se acima do segundo grau (da ascensão do homem rumo a Verdade), mas colocará prematuramente um ponto final na sua busca e permanecerá para sempre um estudante sem diploma, presunçoso e oco.[...]

Assim, o pesquisador chegará um dia ao muro que delimita o âmbito do misticismo. Ele verá que, conquanto benéfico, o misticismo não têm condições para fazer todo o bem que alardeia. Verá, ainda, que o valor social do misticismo histórico é tão pequeno como é grande o seu valor individual, e que, por essa razão, não pode o misticismo constituir-se numa solução completa para o problema da existência humana, nem pode funcionar como uma panaceia para os desiludidos, da velada exploração da ignorância, credulidade, recursos financeiros, moléstias, ansiedades ou desejos praticada por aqueles que professam ensinar a matéria ou que proclamam a sua autoridade para atuar como guias espirituais. Perguntar-se-á por que tanta charlatanice perniciosa e tanta superstição grosseira anuviam os céus da história do misticismo. A conclusão final só poderá ser a de que a própria possibilidade desses inconvenientes revela a deficiência e as limitações do misticismo. Este, em seu aspecto meritório, é admirável, embora não seja perfeito. Falta-lhe algo. O elemento em falta é previamente igual àquele mesmo elemento de que carece a religião. Um apela diretamente para a fé emocional; outro para a experiência emocional. Nenhum deles apela para o critério da verdade mais elevada. Ambos carecem de uma base racional  e chegam mesmo a vangloriar-se dessa carência. Para aquele que respira a atmosfera rarefeita da verdade não é possível nenhuma charlatanice, nenhuma superstição, nenhuma exploração. Ele jamais se enganará a si mesmo e tampouco enganará os outros. As variações e contradições da experiência mística estão a indicar que, necessariamente, a verdade derradeira deve situar-se além dos domínios do misticismo. Pois tem que haver uma verdade única a respeito da vida, não duas ou mais. Os fracassos éticos dos místicos e dos ocultistas devem ser atribuídos à sua incapacidade de descobrir e compreender essa verdade suprema, bem como à sua dependência a uma fonte instável e incerta de inspiração, vale dizer, o sentimento, que é reconhecidamente volúvel por mais que possa ser temporariamente exaltado em função de contemplação. As dificuldades intelectuais dos místicos e dos ocultistas são o resultado lógico do seu desdém pela lógica e da sua íntima oposição aos processos racionais comprovados em favor de métodos intuitivos dos mais discutíveis. Claro que aquele que busca o mais alto tem de resolver-se um dia ir ainda além do misticismo, por útil que este tenha sido na sua progressão. 

A incapacidade de obter respostas satisfatórias e convincentes para as perguntas que a plenitude da experiência e o amor do conhecimento irão eventualmente suscitar deve conduzir o místico reflexivo que não se acomodou a uma situação de passividade e autolouvação a um ermo bravio, onde durante algum tempo ele errará aturdido, da mesma forma pela qual terá decerto um dia penetrado no ermo da dúvida, do desespero e do ceticismo, ao emergir das autocontradições da religião dogmática. O processo da passagem de uma submissão total ao sentimento místico para uma percuciente autocrítica racional não é fácil nem rápido para um homem que durante muitos anos esteve entregue à primeira. Sua consumação demandará algum tempo e o princípio da gratidão funcionará com certeza. Embora ele não o saiba, o próprio descontentamento que lhe assaltou a mente é um precursor da sua proximidade da invisível fronteira de uma região mais elevada do pensamento. Contudo, essa fronteira permanecerá fechada a menos que ele prossiga na sua jornada solitária e se recuse a ser obstado por hábitos antigos ou opiniões alheias. A coragem que dele se exige agora não é menor do que a anteriormente requerida na sua memorável passagem da religião ou do agnosticismo para o misticismo. Na ocasião poucos estavam prontos a acompanhá-lo, mas agora serão infinitamente menos numerosos aqueles que lado a lado com ele se disporão a invadir aquele ermo ululante. Mas se ele não perder de vista a gravidade de sua empreitada, não vacilará em ceder às circunstâncias. Acabará por perceber, ainda que obscuramente, que a sua compulsão íntima deve ser respeitada acima de todas as coisas, pois carrega uma inefável santidade que supera em muito a santidade da fé religiosa ou da intuição mística. 

A posição elementar de todas as religiões e sistemas místicos torna-se, portanto, clara quando estes são coordenados segundo as concepções mais amplas da filosofia. Aquilo que de verdade contêm não é senão a tradução simbólica de sutis princípios filosóficos. As pias concepções de um Deus humanizado propiciam um campo fértil para as crendices populares; os tranquilos devaneios da meditação são como bençãos para as mentes mais evoluídas; mas, para ambas as classes a comida sofisticada de uma elite moral, emocional e intelectual sabe inevitavelmente fria e insossa. 

Assim, o místico cujo lema é Excelsior! tem de sofrer e lutar, mesmo em meio aos frequentes, se bem que regulares, interlúdios da paz contemplativa a que chegou. Chegará o momento em que ele se encontrará postado diante da própria fronteira acima referida. Alguns passos mais e poderá transpô-la. Além fica uma nova terra, extremamente misteriosa e quase virgem. Trata-se da região do terceiro grau, o império da suprema sabedoria aberto ao homem. No entanto, este não chegará a saber o quanto está próximo desse império, a menos que surja um guia para fazer-lhe a revelação e acompanhá-lo território adentro. Tal guia poderá ser antigo e falar ao homem através de um livro. Poderá também estar vivo e falar ao homem frente-a-frente. No primeiro caso será como uma carroça capaz de carregá-lo lentamente durante certo trecho do caminho, ao passo que no segundo o homem será levado mais longe e com maior rapidez. Mas, uma vez iniciada a nova jornada e deixada para trás a fronteira, nunca mais será dado ao homem saber o que é o descanso complacente ou a indolência egoísta. Pois o novo acólito do Absoluto tem agora de lutar incessantemente, primeiro com os olhos fitos no seu posicionamento final, depois pela liberação dos outros, sob o comando autoritário de um poder superior — A VERDADE!

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga

As duas coisas essenciais no sucesso da Busca

Não chegamos ao Real por nossos próprios esforços, nem ele vem a nós apenas por sua vontade. O esforço que nasce do eu e a Graça que vem de uma região além dele são duas coisas essenciais no sucesso desta Busca. A primeira depende de nós, mas a segunda só pode ser concedida pelo Eu Superior. Foi dito uma vez aos homens: "O Espírito sopra onde lhe apraz". Assim, afirmar que o esforço humano e a dependência do homem em relação à Graça Divina são ambos necessários não expressa ideias contraditórias e opostas, porque há uma espécie de ação recíproca entre eles. E essa participação conjunta da Graça é algo maravilhoso. O convite subconsciente do Eu Superior origina, como reação automática, a sua invocação consciente. Quando o ego se sente atraído em direção à sua fonte sagrada, o Eu Superior é atraído, com intensidade equivalente, em direção ao ego. Nunca duvide de que o Divino retribui sempre essa atração que o eu humano sente por ele. Nem a história passada desse eu, nem sua personalidade atual podem alterar esse fato, que constitui uma benção e que traz tanta esperança. A Graça é a prova final, gloriosa e autêntica de que não é apenas o homem que busca Deus, mas que Deus também está sempre esperando pelo homem. 

A Graça é um dom celestial supra-humano. Os que nunca a sentiram e por isso se apressam a negar imprudentemente sua existência são dignos de pena. Aqueles que zombam da possibilidade e negam a necessidade de ajuda da Graça só podem ser os que se tornaram vítimas de um sistema intelectual inflexível, onde não pode haver lugar para ela.[...]

Tudo o que o ego pode fazer é criar as condições necessárias para que possa ocorrer a iluminação, porém, não tem possibilidade de produzir por si mesmo essa iluminação. Por meio da autopurificação, da aspiração constante, da meditação regular, do estudo profundo e da atitude altruísta na vida prática, ele faz o que é necessário. Mas tudo isso é como bater à porta do Eu Superior. É só a Sua Graça que pode abri-la no final. 

A vontade tem sua participação nesse processo, mas não é tudo. Mais cedo ou mais tarde, ele descobrirá que não pode mais avançar dependendo unicamente dela, e que deve pedir ajuda a algo que está além de si mesmo. Ele deve, na verdade, invocar a Graça para que ela aja sobre ele. Nessa luta terrível, torna-se extremamente necessário obter ajuda de algo que está além do eu comum e de seus recursos normais. Ele precisa, na verdade, da Graça. Felizmente, essa Graça está disponível, mesmo que não seja nos termos dele. 

Em certo estágio, ele deve aprender a "soltar-se" mais e a permitir que o Eu Superior o possua, em vez de lutar para possuir algo que, segundo crê, ainda lhe escapa. O aspirante que já tiver passado por isso vai lembrar-se de como avançou no caminho quando fez essa descoberta. 

Em outro estágio, o Eu Superior, cuja Graça foi o impulso inicial para todos os seus esforços, começa a se manifestar e começa a revelar mais abertamente sua presença e atuação. O aspirante torna-se consciente dele com respeito, reverência e gratidão. Ele deve aprender a atender prontamente a esses chamados interiores da Graça Divina. São como raios de sol que fecunda a terra.
Com a descida da Graça, toda a angústia e as recordações desagradáveis do passado do buscador e as frustrações do presente serão milagrosamente apagadas pela mão invisível e curadora do Eu Superior. Ele sabe que um novo elemento entrou no campo de sua consciência e que, desse momento em diante, sua vida interior irá progredir mais rapidamente. Quando seu esforço pessoal diminui, um poder maior começa a agir em seu benefício. Sem que ele faça nada, a Graça começa a fazer por ele aquilo que ele não pode conseguir por si mesmo e, sob sua atuação benéfica, ele descobrirá que sua vontade está se fortalecendo, seu caráter se aperfeiçoando e sua aspiração espiritual aumentando. 

Ele perceberá claramente que se acha sob o controle de uma influência superior e que esta está conseguindo vitórias morais para ele, as quais ele não poderia obter por intermédio de seu eu comum. Uma série de experiências extraordinárias confirmarão o fato de que algum poder benéfico tomou conta de sua personalidade e de que a está tornando mais nobre, a está elevando, inspirando e guiando. Uma sensação de liberdade que lhe traz enorme alegria o domina. Ela afasta todas as suas preocupações emocionais e seus fardos pessoais. 

A Graça é recebida, não conquistada. O homem deve estar disposto a deixar o poder dela agir livremente em seu coração; ele não deve colocar obstáculos, nem impedir sua atuação por não estar se rendendo completamente. Ele só poderá possuir a Graça se deixar que ela o possua. 

A filosofia afirma a existência da Graça, afirma que aquilo que não podemos realizar, mesmo por meio dos mais intensos esforços, pode ser colocado em nossas mãos como uma dádiva divina. 

Tanto no início como no final deste caminho, a descoberta do Eu Superior não é um ato da vontade humana. Só a Vontade Divina — ou seja, só a própria Graça — pode levar à revelação última, à consciência que, quando mantida, transforma o aspirante em um adepto.

Ao buscar o Eu Superior, o aspirante deve buscá-lo com amor sincero. Na verdade, toda a sua Busca deve estar ardentemente imbuída desse sentimento. Ele pode amar o divino de maneira pura e desinteressada? Essa é a pergunta que ele se deve fazer. Para que esse amor devocional seja mais do que um sentimento superficial, ele terá que fortalecer e redimir a vontade. Deverá elevar o sentido de dever moral e dispor-se a obedecer-lhe. Em razão da devoção a algo que transcende seus interesses egoístas, ele não mais poderá buscar vantagens pessoais em detrimento de outros. Seu objetivo não apenas será o de amar a alma, mas também o de compreendê-la, não apenas o de ouvir sua voz durante a meditação, mas o de viver segundo sua vontade.

Paul Brunton em, Práticas para a busca espiritual - relax e solitude

A Busca, seus estágios progressivos e a obra da Graça

"No dia da entrega da vida, morrerei ansiando por Vós; cederei meu espírito, aspirando ser de Vossa rua a poeira". — Humamud Din (místico persa do século XIV)
Esses versos poéticos expressam até que ponto o místico deve estar disposto a ir para obter a Graça. 

Só quando o indivíduo se apaixonar por sua alma mais profundamente do que já se apaixonou por alguém, terá alguma chance de alcançá-la. A aspiração incessante pelo Eu Superior, com um espírito de devoção religiosa, é um dos quatro aspectos indispensáveis da Busca total. A Nota da aspiração por realizar isso deve ressoar em sua oração, em sua devoção, concentração e meditação. Às vezes, o anseio por Deus pode afetá-lo até mesmo fisicamente, por meio de uma súbita força dinâmica que abala todo o seu corpo e seu sistema nervoso. A prática meramente formal de meditação é insuficiente, embora não seja de todo inútil, pois, sem a aspiração, a descida da Graça é improvável e sem a Graça não pode haver qualquer realização do Eu Superior. 

O fato de alguém ter conscientemente iniciado o Caminho é por si só uma manifestação da Graça, pois ele começou a buscar o Eu Superior apenas porque o próprio Eu Superior tornou claro — através da sensação insuportável de separação com respeito a Ele — que o momento certo para isso havia chegado. Portanto, o aspirante deve ter esperança. Na verdade, ele não está caminhando sozinho. O próprio amor que passou a sentir pelo Eu Superior é um reflexo do amor que lhe é dedicado por Ele. 

Assim, a própria Busca à qual ele aderiu, os estudos que realiza e a meditação que pratica são inspirados pelo Eu Superior desde o princípio e sustentados por ele até o final. o Eu Superior já estava agindo, mesmo antes de ele começar a buscá-lo. Na verdade, ele iniciou a Busca em obediência inconsciente ao chamado divino. E esse chamado é a primeira manifestação da Graça. Mesmo que ele acredite estar fazendo essas coisas por si mesmo, é na verdade a Graça que está abrindo seu coração e iluminando sua mente por trás da cena. 

A iniciativa do homem o impulsiona em direção à meta, enquanto a Graça Divina o atrai para ela. As duas forças precisam se combinar para que o processo se complete e seja coroado com êxito. Contudo, foi a Graça que inicialmente o despertou para a meta, que o inspirou por meio da fé, dando assim origem aos seus esforços. Nesse sentido, tornam-se mais compreensíveis as palavras de Paulo de Tarso: "Por meio da fé, pela Graça, fostes salvos, e isso não vem de vós". 

A Graça Divina não tem preferência por pessoas nem lugares. Ela vem ao coração que a deseja muito, esteja esse coração no corpo de um rei ou de um homem do povo, de um homem de ação ou de um recluso. John Bunyan, o pobre funileiro, encarcerado na prisão de Bedford, viu uma Luz negada a muitos reis e tentou descrevê-la em seu livro Pilgrims's Progress, Jacob Boehme, trabalhando como sapateiro em Seidenburg, recebeu três graus de iluminação, vislumbrando segredos que, segundo ele, eram desconhecidos nas universidades de sua época. 

Se um indivíduo tiver conscientemente seguido esse caminho quádruplo, trabalhado a purificação do caráter, praticado a meditação e a reflexão metafísica, se dedicado ao serviço altruísta, e mesmo assim parecer distante da meta, o que ele deve fazer? Ele precisa seguir o conselho de Jesus: "Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto". Ele precisa literalmente pedir pela Graça com o mais profundo anseio de seu coração. Somos todos pobres. Na verdade, é sábio aquele que compreende isso e se torna um mendigo, implorando a Deus pela Graça.

Primeiramente, ele deve orar para ser libertado da pesada escravidão dos sentidos, dos desejos e dos pensamentos. Depois, orar pela consciência da presença do Eu Superior. Ele deve fazê-lo profundamente e em silêncio, na solidão do próprio coração. Deve orar com emoção e com a mente firme. Seu anseio por essa libertação e por essa presença deve ser inquestionavelmente forte e sincero. Ele deveria utilizar essas orações ao iniciar, ao encerrar, e se desejar, mesmo durante o período de meditação. Ele deve fazê-lo dia após dia, semana após semana, porque o Eu Superior não é meramente um conceito, mas uma realidade viva, o poder que há por trás de todos os outros poderes menores. 

Nenhum aspirante que seja sincero e sensível ficará sem ajuda. Este poderá se manifestar em uma dificuldade, quando a natureza inferior parece inesperadamente dominada por uma ideia poderosa que se opõe a ela. Talvez ele encontre num livro aquilo que ele precisava e que, nesse momento específico, vai ajudá-lo em seu caminho. A ajuda que ele necessita em determinado estágio virá naturalmente. Ela pode assumir a forma de uma mudança nas circunstâncias exteriores ou de um encontro com uma pessoa mais evoluída, de um livro ou de uma carta, de uma inspiração inesperada de ou uma intuição iluminadora. Nem é necessário que ele tenha avançado muito no caminho para colher esses frutos. Muito antes disso ele começará a desfrutar de paz, esperança, conhecimento e transcendência divina. 

No momento em que, numa situação difícil, um indivíduo abandona de boa vontade seu ponto de vista habitual e o substitui por um ponto de vista superior, nesse momento ele recebe a Graça. Acontece um milagre  e o erro do ponto de vista inferior deixa permanentemente de fazer parte de seu caráter. A situação, ao mesmo tempo que o põe à prova, lhe dá a oportunidade. 

A realidade da Graça não anula a necessidade de escolha moral e de esforço pessoal. Seroa um grande erro rotular de inútil o esforço humano na Busca e proclamar a total inabilidade do homem para conquistar a própria salvação. Assim como é verdade que só a Graça Divina pode levar a Busca a ser bem-sucedida, é também verdade que o esforço humano deve preceder e invocar a descida da Graça. Para invocar a Graça é necessário, primeiramente, uma extrema, intensa e sincera humildade; em segundo lugar, uma entrega do ego ao Eu Superior, uma consagração do ser terreno à essência espiritual; em terceiro lugar, executar diariamente exercícios de devoção. As práticas irão possibilitar experiências, a aspiração irá atrair ajuda. A intervenção misteriosa da Graça pode mudar o curso dos acontecimentos. Ela introduz novas possibilidades, imprime um rumo diferente para o destino. 

Paul Brunton em, Práticas para a busca espiritual - relax e solitude

A obra da Graça


Você pode acreditar numa religião, mas não basta acreditar na filosofia; você precisa também compreendê-la. E ela não pode ser compreendida apenas através da mente, mas também através do coração e da vontade. Assim, não espere dominá-la em poucos anos, mas dedique toda a sua vida a essa tarefa. 

Lao Tsé disse: "Não faça nada segundo sua própria vontade, mas conforme a vontade do céu, e tudo será feito por você". Toda Busca pode ser resumida na tentativa de colocar em prática essas sábias palavras. No entanto, essa Busca não é algo para ser realizado em um momento ou um dia; ela se estende por muitos anos, até mesmo pela vida inteira. assim, aprender a "não fazer nada" é por si uma longa tarefa, se for feita verdadeiramente e se não estivermos nos enganando.

Retirar do livro de Lao Tsé certas frase, como, por exemplo, "O caminho não requer atividade alguma, e, no entanto, nada deixa de ser feito", e presumir, como fazem muitos estudiosos ocidentais, que isso significa adotar como forma de vida o completo afastamento do mundo, porque tudo será feito pelo Poder Superior, é confundir a mente do aspirante. A virtude e o poder não residem no afastamento, mas sim na ligação com a força superior que flui através do adepto, uma força que não pode fluir através do iniciante. Tomar outra frase de Lao Tsé — "O Sábio cuida de seus assuntos sem impor sua vontade e difunde sua doutrina sem palavras" — também seria insensato e perigoso, quando se trata de um iniciante. É natural que o ego se afirme, e vai continuar a fazê-lo, mesmo que se afaste do mundo. Só quando o ego perder o poder de controlar os assuntos do indivíduo é que o Eu Superior entrará em cena e passará a controlá-los; porém, não se alcança essa condição apenas falando sobre ela ou desejando que ela seja alcançada. Ela representa o ápice de uma luta que dura a vida inteira. Então, a menos que o homem se tenha unido por inteiro com a força que reside em centro de quietude, ele dependerá necessariamente das palavras para difundir sua doutrina: só o adepto que se uniu a essa força, que é muitas e muitas vezes mais poderosa que o intelecto, pode se permitir permanecer em silêncio, confiando totalmente em que a doutrina será difundida, apenas de seu silêncio.

Paul Brunton em, Práticas para a busca espiritual - relax e solitude
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey