Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Do nascimento da Perene Consciência Amorosa Integrativa

[...]Mas, em verdade, é preciso necessariamente uma volta sobre nós mesmo para que este nascimento se cumpra; é necessário que nos recolhamos fortemente, juntando e unindo interiormente todas as nossas faculdades, tanto inferiores como as superiores e trazê-las de volta de toda dispersão para a concentração, que torna mais poderosa todas as coisas unificadas. Se um atirador quer atingir com segurança o seu alvo, fecha um olho para que o outro vise com exatidão. Quem quiser compreender alguma coisa a fundo, emprega todos os seus sentidos, conduzindo-os ao centro da alma, de onde saíram. Tal como todos os ramos vêm do tronco da árvore, assim todas as nossas faculdades, as da sensibilidade, as do desejo, assim como as da luta, se unem às faculdades superiores no fundo da alma. Eis a entrada em nós mesmos.

Se quisermos agora sair, ou melhor, elevarmo-nos fora e acima de nós mesmos, devemos então, renunciar a todo querer, desejo e agir próprios. Só deve permanecer em nós uma simples e pura busca de Deus sem qualquer outro desejo de ter algo que nos seja próprio, e de qualquer maneira que seja, sem qualquer desejo de ser, de tornar-se ou de obter algo que nos seja próprio mas com a vontade única de pertencer a ele, de dar-lhe lugar do modo mais elevado, mais íntimo a fim de que ele possa cumprir a sua obra e nascer em nós, sem que ponhamos obstáculo a isso. Com efeito, para que dois seres possam ser um, é preciso que um se comporte como paciente e o outro como agente; para que o olho possa perceber as imagens que estão nesta parede, ou qualquer outro objeto, ele não deve ter em si nenhuma outra imagem. Mesmo que tivesse uma imagem de qualquer cor, jamais poderia receber outra, assim como o ouvido que está cheio de ruído não pode perceber outro. Assim, pois, tudo o que deve receber deve ser puro, claro, vazio. 

Eis porque santo Agostinho noz diz: "Esvazia-te para que possas ser preenchido; sai a fim de que possas entrar"; e em outra passagem:"Ó tu, alma nobre, criatura nobre, por que procuras fora de ti o que está em ti, inteiramente e da maneira mais verdadeira e manifesta? E uma vez que participas da natureza divina, que te importam as criaturas e o que tens a fazer com elas?" Se o homem preparasse assim o lugar, o fundo, Deus, sem dúvida alguma, seria obrigado a preenchê-lo completamente, senão o céu romperia para preencher o vazio. Mas Deus não deixaria as coisas vazias, seria contrário à sua natureza, à sua justiça. 

É por isso que deves calar-te: então o Verbo deste nascimento poderá ser pronunciado em ti e poderás ouvi-lo; mas estejas certo de que se queres falar, ele deve calar-se. Não se pode servir melhor o Verbo, que silenciando e ouvindo. Se saíres pois completamente de ti mesmo, Deus entrará por completo; à medida que saíres, nessa medida ele entrará, nem mais nem menos.

Encontramos uma imagem desta saída de nós mesmos no livro de Moisés, quando Deus ordena a Abraão que abandone seu país e sua família, e isso porque ele desejava mostrar-lhe todo bem, isto é, este nascimento divino que representa por si só todo bem. Seu país e sua terra dos quais devia sair, é o corpo com todas as suas concupiscências e desordens; a família simboliza a inclinação das faculdades sensíveis e suas imaginações que atraem e arrastam este corpo, causando-lhe agitações do prazer, da dor, da alegria, da tristeza, do desejo, do medo, da preocupação, da leviandade. Somos ligados a esta família por um estreito parentesco e é preciso vigiar com muito cuidado para dela nos destacarmos completamente, se quisermos ver nascer todo o bem que é em verdade este nascimento.

Johannes Tauler, em Sermões

Acedia: o verdadeiro teste de fidelidade

Mais triste do que a tristeza, a acedia é aquela forma particular do impulso de morte que introduz o desgosto e a lassidão em todos os nossos atos. Ela leva ao desespero e, às vezes, ao suicídio. Na linguagem contemporânea, falaríamos de depressão ou de melancolia, no sentido clínico do termo. Os antigos a denominavam ainda de "demônio do meio-dia" e descreviam com precisão este estado em que o asceta, depois de ter conhecido as consolações espirituais do início e o combate ardente da maturidade, coloca em questão todo o seu caminho. 

É a grande dúvida: tudo não teria sido apenas uma ilusão? Para que todo este tempo passado no deserto? Ele não sente nenhum prazer na liturgia e nos exercícios espirituais. Deus lhe parece uma projeção do homem, um fantasma ou uma ideia segregada por humores infantis. Então, seria melhor abandonar a solidão, ser útil ao mundo, "fazer alguma coisa". Algumas vezes o "demônio do meio dia" incitará este homem casto e sóbrio a "recuperar o tempo perdido" no domínio da sensualidade ou das bebidas fortes... 

Jung, em seu processo de individuação, também descreve este momento de "crise" em que a pessoa humana, por volta dos quarenta anos, coloca sua vida na balança. É um período em que pode manifestar-se com violência o "reaparecimento do recalque", mas pode ser também o momento decisivo de uma "passagem" para uma realização superior. Os valores do "ter" vão ser substituídos pelos valores do "ser" e orientar doravante a vida da pessoa não mais para a afirmação do ego, mas, ao contrário, para sua relativização e sua integração no arquétipo da totalidade que Jung chama de Si mesmo. Este período é particularmente desconfortável. Todos os antigos suportes ou certezas nos faltam e nada ainda toma o lugar do belo edifício desmoronado. Se a pessoa busca ajuda o reconforto, isso só faz aumentar o desespero, o sentimento de total incompreensão ao qual parece estar condenada. Para os que são atingidos pela acedia, os padres do deserto recomendavam muita oração. Não se pode fazer grande coisa além disso. Aconselhar-lhes o trabalho manual não será de grande ajuda. Entretanto, é preciso ocupar o espírito com tarefas simples. Viver no momento presente sem nada esperar, nem do passado, nem do futuro. "A cada dia basta a sua pena". No meio da angústia, trata-se de aguentar firme. É o momento da fidelidade. Amar a Deus não é "sentir que se ama, mas querer amá-lo". É também a entrada no deserto da fé. A pessoa crê porque "quer" crer... Os socorros da razão são muletas já crestadas ao fogo da fadiga e da dúvida. É o momento da maior liberdade em que se pode optar por Deus ou recusá-lo. 

Teria sido o "demônio da acedia" que se apoderou de Judas e de Pedro no momento de sua traição? Ele venceu Judas e o levou ao desespero e ao suicídio: Judas duvidou da misericórdia de Deus... Pedro o venceu num ato de arrependimento. Ele acreditou que se "seu coração o condenava, Deus era maior do que seu próprio coração"... 

A acedia pode levar-nos ao "inferno" no sentido em que ele nos "fecha" em nós mesmos. Não há mais abertura ou passagem para o Amor.  Nenhum "desejo ao desejo do Outro"... 

De novo, os antigos nos lembram que esta tentação "passará". Ela dura, algumas vezes, mais tempo que as outras, mas como tudo que passa, ela passará: não existe dor eterna, e aquele que aguenta firme deve saber que "este demônio não é seguido imediatamente de nenhum outro. Um estado de paz e uma alegria inefável lhe sucedem na alma após a luta". 

Jean-Yves Leloup
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey