Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Que ou quem sou Eu?

Quem é, pois, realmente O Que Vê? Quem, o que, é o Eu observador? 

Ramana Maharshi denominava Eu-Eu a esta Testemunha que é consciente do Eu individual, mas que não pode ser visto. Que é, pois, o Eu-Eu, a Testemunha causal, e o Eu observador puro?

Este Eu profundamente interno contempla o mundo externo e também contempla seus próprios pensamentos. Este Vidente vê o ego, o corpo e o mundo natural. Tudo isso desfila "diante" a Testemunha. Mas O Que Vê não pode ser visto. Tudo o que se pode ver não são mais que objetos e esses objetos, precisamente, não são O Que Vê, não são a Testemunha.

Prossigamos, pois, com nossa investigação. Quem sou Eu? Quem ou que é essa Testemunha que não pode ver-se a si mesma? Dá um passo atrás em tua consciência e desidentifica-te de qualquer objeto que vejas ou possas chegar a ver.

O Eu, O Que Vê ou a Testemunha não é nenhum pensamento concreto, porque a esse pensamento posso vê-lo como objeto. O Eu observador não é nenhuma sensação concreta, porque posso ser consciente dela como objeto, nem tampouco é o corpo, nem a mente, nem o ego, porque a todas essas coisas posso vê-las como objetos. Que é, pois, o que está contemplando esses objetos?  Que é o que, agora mesmo, está contemplando todos esses objetos, contemplando a natureza, as imagens, o corpo, as sensações, a mente e os pensamentos? Que é o que agora está contemplando tudo isso?

Trata de sentir-te a ti mesmo neste instante, trata de ser consciente de ti e da-te conta de que esse eu não é mais que outro objeto de tua consciência. Nem sequer é um sujeito real, um eu real, senão um objeto a mais de tua consciência. Este pequeno eu é o conjunto de pensamentos que desfilam diante de ti se assemelham às nuvens que dobram o céu. E o que é o Eu real que está contemplando tudo isso? Presta muita atenção e pergunta-te: que ou quem sou Eu?

Quando te adentras na Subjetividade pura, no Vidente puro, descobres que não se trata de um objeto. Não podes vê-lo como objeto porque não é um objeto! Não é nada que possas ver. Se permaneces serenamente nesta consciência observadora — contemplando a mente, o corpo e a natureza que te rodeia — começarás a dar-te conta de que estás experimentando uma sensação de liberdade, uma sensação de liberação, uma sensação de não estar atado a nenhum dos objetos que desfilam diante de ti sem ver nada em particular, senão tão só descansando nessa imensa liberdade.

Diante de ti desfilam as nuvens, os pensamentos e as sensações corporais, porém, tu não és nada disso. Tu és o imenso espaço de liberdade através do qual todos esses objetos vem e vão. Tu és a abertura, o clarão, a Vacuidade, o espaço aberto em que se movem todos esses objetos. As nuvens aparecem e acabam desvanecendo-se, os pensamentos aparecem e acabam desvanecendo-se... e tu não és nada disso.Tu és a imensa sensação de liberdade, a Vacuidade aberta, a abertura da qual emanam as distintas  manifestações, o próprio espaço em que emergem, permanecem durante um tempo e acabam desvanecendo-se.

Assim é como começas a dar-te conta de que o "Vidente" que está presenciando todos esses objetos é uma espaçosa Vacuidade. Não é uma coisa, um objeto nem algo que podes ver ou a que possas aferrar-te, senão uma sensação de imensa Liberdade completamente alheia ao mundo objetivo do tempo, e dos objetos, do estresse e do esforço. A Testemunha pura é uma Vacuidade pura na qual todos os sujeitos e objetos individuais aparecem, permanecem um tempo e acabam desvanecendo-se.

De modo que a Testemunha pura não é nada que possas ver! Qualquer tentativa de ver a Testemunha ou de conhecê-lo como objeto não é mais que uma tentativa de identificar-te, buscar e aferrar-te ao tempo. A Testemunha não está fora daqui na corrente, senão na imensa expansão de Liberdade da qual tudo emana. Não podes aferrar-te a ele e dizer "Aja, já o vejo!", porque o Vidente não é nada que possa ser visto. Quando descansas na Testemunha a única coisa que experimentas é uma imensa Vacuidade, uma imensa Liberdade, expansão, abertura ou clarão transparente em que emergem os pequenos sujeitos e objetos que podem ser vistos. A Testemunha, no entanto, não pode ser vista, a Testemunha é a liberação última de tudo aquilo, uma Liberdade que não se acha presa nas confusões, nos desejos, nos medos nem nas expectativas.

Temos a tendência de identificar-nos com estes pequenos sujeitos e objetos individuais e esse é precisamente o problema! Nós identificamos o Vidente com as banalidades que podem ser vistas e esse é a própria origem da escravidão e da falta de liberdade. Nós somos realmente uma imensa expansão de Liberdade, porém, nos identificamos com objetos e sujeitos cativos e limitados que podem ser vistos, que sofrem e são alheios a nossa verdadeira essência.

Patanjali definia a escravidão como a "identificação do Vidente como os instrumentos da visão", com os pequenos sujeitos e objetos que nos levam a afastar-nos da abertura, do clarão e da Vacuidade da qual tudo emana.

Quando descansamos na Vacuidade pura, a Testemunha não se percebe como um objeto. A Testemunha não é nada do que podemos ver, senão a ausência de todo sujeito e de todo objeto, a liberação de tudo isso. O fato de descansar na Vacuidade pura não se "experimenta" como um objeto senão como uma imensa expansão de liberdade, uma liberação das constrições que acompanham a identificação com os pequenos sujeitos e objetos que entram na corrente do tempo e se vem presos por esse angustioso movimento.

Quando descansas na Testemunha pura, no Vidente puro, és invisível, não podes ser visto, nenhum aspecto de ti pode ser visto porque tu não és um objeto. O corpo pode ser visto, a mente pode ser vista, e a natureza pode ser vista, porém tu não és nenhum desses objetos, tu és a origem da consciência e não algo que dela emana.

As coisas aparecem na consciência, perduram um tempo e acabam desaparecendo, elas vem e vão. As coisas aparecem nesses espaço e se movem no tempo, porém a Testemunha pura não vai nem vem, no aparece no espaço nem se movimenta no tempo. A Testemunha é como é, onipresente e imutável. Não é um objeto que se ache fora daqui e, em consequência, jamais entra na corrente da vida, do espaço, do nascimento ou da morte. Todas essas são experiências, objetos que aparecem e acabam desvanecendo-se. Porém tu não vens nem vais, tu não tens nada que ver com a corrente, tu és consciente de tudo e, em consequência, não estás preso por isso. A Testemunha é consciente do espaço, consciente do tempo e, em consequência, livre do espaço e livre do tempo. É atemporal e não-espacial. é a Vacuidade pura através da qual desfilam o tempo e o espaço.

Assim, pois, o Vidente puro é anterior ao nascimento e a morte, anterior ao tempo, anterior ao desassossego, anterior ao espaço, anterior ao movimento, anterior a toda manifestação e anterior inclusive ao próprio Big Bang. Mas não quero dizer com isso que o Eu puro existirá num tempo anterior ao Big Bang, senão que existe antes do tempo, quer dizer, é uma dimensão que não se acha contaminada pelo discorrer do tempo. E, ao ser atemporal, é eterno, o qual tampouco significa que exista uma sucessão temporal interminável, senão tão só que é completamente alheio e independente do tempo.

O Eu puro nunca nasceu e nunca morrerá, porque jamais entrou no mundo do tempo. Esta imensa Liberdade é o Não Nascido, aquele da qual Buda disse: "Existe algo não nascido, algo que não foi feito, algo que não foi criado. Se não existisse o não nascido, o não feito, o não criado, não haveria a liberdade do nascido, do feito e do criado". Descansar na imensa expansão da Liberdade é descansar na Vacuidade pura do Não Criado.

E, ao ser Não Nascido, também és Imortal. Não foi criado com o corpo e, portanto, não morrerá quando este perecer. Não é que more mais além da morte do corpo, senão que nem sequer penetra na corrente da vida. Tampouco é que viva mais além do corpo, senão que desde sempre tem sido anterior ao corpo. E tampouco é que perdure para sempre no tempo, senão que jamais se viu contaminado pela corrente do tempo.

O espaço, o tempo e os objetos discorrem, porém tu és a Testemunha pura, o Vidente puro, a Vacuidade pura, a Liberdade pura, a grande Vacuidade através da qual tudo desfila, sem tocar-te, sem ferir-te e, em consequência, sem necessidade de consolo algum.

És precisamente a existência desta imensa Vacuidade, do Não Nascido, o que pode liberar-nos do nascido e do criado, redimir-nos do sofrimento intrínseco ao espaço, o tempo e os objetos e emancipar-nos do mecanismo do terror inerente ao vale de lágrimas que conhecemos com o nome de samsara.

Kem Wilber em, Breve história de todas as coisas
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey