Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Os limites da experiência supraconsciente

[...] Quanto mais avançavam estas experiências supraconscientes mais claro me ficava que todas elas não eram mais do que isso, simples experiências. Porque a experiência é, por definição, aquilo que tem um começo e um fim (estritamente temporal e estritamente relativa). Assim, quanto mais profundamente via a natureza da experiência , mais profundamente dela me desiludia. Admito que esses reinos são, num sentido especial, mais reais do que os planos material, corporal ou mental, ao menos tal como os conhecia, porém o fato era que esse desenvolvimento experiencial podia seguir de forma indefinida e que podia ter experiências cada vez mais e mais sutis ad infinitum

Creio que foi Hans Sachs, quem disse que a psicoanalise termina quando o paciente se dá conta de que pode seguir psicoanalisando-se durante toda sua vida. Foi esse tipo de compreensão, por assim dizer, o que me curou da fixação ao nível sutil, o complexo de Vishnu. Porque o complexo de Vishnu é precisamente a dificuldade que podemos ter em passar da alma sutil ao espírito causal. As experiências sutis são tão beatificas, maravilhosas, profundas e benéficas que nunca se tem o desejo de abandoná-las, nunca se quer delas se soltar, senão, muito ao contrário, se deseja nelas se banhar para sempre em sua glória arquetípica e em sua imortal libertação. É esse, precisamente o complexo de Vishnu. Se o Complexo de Apolo é a cruz que devem suportar os inexperientes meditadores, o complexo de Vishnu é o grande sedutor de todos os praticantes intermediários. 

Porém, meu adestramento no Zen coincidia com minha compreensão (não importa o qual superficial) de Krishnamurti, de Shankara, de Sri Ramana Maharshi, de São Dionísio e de Mestre Eckhart, segundo os quais o estado último não é, de modo algum, uma experiência. Não e trata de uma experiência concreta entre outras, senão da mesma natureza e fundamento de toda experiência, tanto superior como inferior. É o imenso fundamento ou Abismo (Ruysbroeck) do qual emanam as numeráveis realidades experienciais. Em si mesmo, portanto, não é nenhum tipo de experiência e não tem nada a ver com as troca de estado, com saber isto ou aquilo, com ver isto ou mais além, com este ou aquele sentimento, porque é anterior a tudo isso, a mesma natureza deste, deste e também deste instante, antes de ser qualquer outra coisa, é o que vejo antes de qualquer outra coisa e o que sinto antes de qualquer outra coisa. Por isso se diz que o Tao muito mais além do saber ou não saber, do correto e do equivocado. 

— Que é o Tao? - perguntou Chao-Chou.
— Tua consciência ordinária é o Tao - respondeu o mestre Nan-chuan.
— Mas, como podemos nos harmonizar com ele?
— Quando você tenta fazê-lo não faz mais do que afastar-se dele.
— Mas, como poderei, senão tentar, conhecer o Tao?
— O Tao -concluiu o mestre - é anterior ao saber e ao não saber. O conhecimento é a falsa compreensão e o não conhecimento é simples ignorância. Se você realmente compreende o Tao que precede a dúvida, concordará comigo em que ele é como o céu vazio. Para que derivar para o correto ou para o equivocado?  — [Alan Watts, Tao: The whatercourse way]

Digamos de outro modo: os Upanishads afirmam que Brahman não é um entre muitos, senão o um sem segundo; não um objeto em particular, senão a realidade de todos os objetos. Porém eu estava tratando de apressar a Totalidade como se trata-se de uma experiência concreta — uma Grande Experiência, dizendo a verdade, porém nada mais que uma experiência —, e isso é precisamente o que impede o descobrimento (porque uma experiência é um conhecimento ou  um não-conhecimento e, em consequência, não é anterior a ambas). este é o motivo pelo qual o Zen desdenha todas as experiências superiores com o nome pejorativo de makyo, que quer dizer "ilusões sutis". Segundo o Zen, muitas outras tradições tomam equivocadamente makyo pelo estado último, pelo simples fato de que essas experiências extraordinárias são, na realidade, mais reais que os estados ordinários. Não obstante, todas as experiências, altas ou baixas, ficam muito longe da consciência não dual e, como tais, devem ser superadas. 

O assunto é que todas as experiências, sagradas ou profanas, altas ou baixas, baseiam-se na dualidade entre sujeito e objeto, entre o vidente e o visto, entre o experimentador e a coisa experimentada. Até nesta esfera da alma, incomparavelmente mais real que os níveis anteriores da matéria, o corpo e a mente, não são outra coisa mais do que um sujeito mais sutil e um objeto mais extraordinário. A testemunha destes estados divinos todavia se mantém intacta. O despertar real, sem dúvida, consiste na dissolução da Testemunha e não numa mudança de estado do que se testemunha.

Por isso sempre se tem dito que algumas formas de indagação do tipo "Quem sou eu?", "Quem canta o nome de Buda?", "Quem deseja libertar-se?" é o caminho básico, talvez o único caminho mais além da testemunha (e do Complexo de Vishnu). Não, pois, "Eu devo estar sempre ser consciente da respiração", mas sim, "Quem é consciente da respiração?", não "Eu compreendo o Koan", mas sim, "Quem compreende o Koan?" O efeito dessas perguntas consiste em liberar a atenção dos objetos da consciência e orientá-la para a própria consciência. Mas precisamente, a pergunta desvia a atenção da própria atenção e a dirige para a própria natureza da atenção, que é uma espécie de contração ou resistência sutil. Qualquer atenção — inclusive a "atenção passiva" e muitas outras formas de consciência sutilmente motivada — é exclusiva, porque atende a isto ao mesmo tempo que ignora aquilo ou, em outras palavras, é dualista. Essas são meras contradições subjetivas no Campo da Consciência. Porém, com esse tipo de pergunta a contração subjetiva que é a atenção se converte no objeto da atenção, quer dizer, o sujeito se converte no objeto e o objeto se converte no sujeito, o que rompe a fronteira que existe entre ambos e os faz desaparecer como entidades exclusivamente separadas. O único então que fica é uma consciência inicial, radiante, uma consciência sem obstrução uma consciência que impregna a tudo, uma consciência anterior que não é subjetiva nem objetiva, senão total.

A primeira vez que tornei-me consciente deste fato — uma consciência certamente fugaz — foi durante um retiro intensivo Zen (sesshin). Ao quarto dia apareceu, por assim dizer, o estado de testemunha, a testemunha transpessoal, que instante atrás de instante testemunha, de um modo estável, sereno e claro, todos os objetos que aparecem. Até no sonho, simplesmente se testemunha e pode ver o começo, o desenvolvimento e o final do sonho (o que Charles Tart tem denominado como "Sonhos Lúcidos"). O roshi (monge mais antigo), sem dúvida, permanecia completamente impassível diante todo desenvolvimento das ilusões sutis (makyo). "A testemunha — dizia — é a última fortaleza do ego".

Nesse momento desvaneceu-se completamente toda testemunha, não havia nenhum sujeito nem objeto em nenhuma parte do universo, só havia universo. Tudo estava surgindo instante atrás de instante e estava aflorando em mim e como eu, mas não havia o eu. E é muito importante dar-se conta de que esse estado não supõem diminuir alguma de nossas faculdades senão, muito ao contrário, uma expansão de todas elas, não um transe vazio senão uma perfeita claridade, não uma despersonalização senão uma transpessoalização. Nenhuma das faculdades humanas — língua, lógica, conceitos ou habilidades motoras — se perdeu nem se debilitou. Muito ao contrário, pela primeira vez me pareceu que todas elas funcionavam de um modo completamente aberta, despojadas das defesas impostas pela sensação de identidade separada. Esse estado completamente aberto, indefeso e não dual era, ao mesmo tempo, incrível e profundamente ordinário, tão extraordinariamente ordinário que nem sequer era registrado, porque não havia ninguém ali para compreendê-lo, até que, umas três horas mais tarde, saí dele.

Dito em outras palavras, nesse estado não há nenhum tipo de experiência, senão tão  esse estado que é a Totalidade emergindo instante atrás de instante. Eu não podia contemplar nem experimentar tudo isso senão que, simplesmente, era tudo isso. Não podia ver, porque era tudo o que era visto, não podia ouvir porque era tudo que era ouvido e tampouco podia conhecer porque era todo o conhecido. Por isso é, ao mesmo tempo, um grande mistério e o perfeitamente evidente. Mas foi só quando me dei conta de que estava nesse estado é que na verdade eu não estava nele. O reconhecimento ou a experiência desse estado é menos, muito menos, que o próprio estado porque, para experimentar esse estado, devo separar-me dele (quer dizer, destruí-lo).

A partir desse momento comecei a desconfiar de todos os transpersonalistas que se referem aos estados superiores como "realidades experienciais", apesar de que eu fizera o mesmo em "O espectro da Consciência". Também dei-me conta da inadequação do paradigma de "estados alterados", muito útil em outros casos, mas completamente inadequado para referir-se ao último domínio espiritual, porque esse domínio (melhor dizer, esse "não-domínio") é, na verdade, o que todos os estados têm em comum e que, em si mesmo, não é nenhum estado, como o alfabeto tampouco é nenhuma das letras que o compõem.

Mas todas essas viagens pelos reinos sutis, lutando com o complexo de Vishnu e penetrando na manifestação da verdade em forma absoluta (Dharmakaya) — por mais parcial, inicial e incompleto que possa ter sido — me proporcionou, ao menos, uma sólida introdução e de primeira mão às distintas esferas mais elevadas da consciência. Esse substrato me permitiu regressar com mais facilidade à literatura das tradições transpessoais e estabelecer uma uma classificação bastante exaustiva dos distintos domínios superiores aos que habitualmente se condensa com os nomes de "transpessoal", "transcendente" e "místico". Então, foi quando subdividi o reino transpessoal em, ao menos, quatro ou cinco níveis baseados na análise estrutural. Com essas subdivisões do espectro e as Depois do Éden, acabei esboçando um mapa mais ou menos completo da consciência, uma cartografia que, ainda que imperfeita e, em ocasiões, tida por difusa, ao menos, o mérito de ser compreensiva. Os refinamentos viriam com o correr dos anos; entretanto, apresentei este mapa em O Espectro do Atman, com muitos desenhos de referência que mostravam a inter-relação existente com as principais escolas da psicologia do oriente e do Ocidente.

Ken Wilber em, A Pura Consciência de Ser
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey