Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Lágrimas de gratidão, de compaixão e indignidade

Quando acabei de escrever A Consciência sem Fronteiras (1979), minha prática da meditação, ainda que não precisamente avançada, havia superado a etapa do iniciante. A dor nas pernas (provocada pela postura de lotos) já se mostrava suportável e minha consciência era cada vez mais capaz de manter uma postura atenta porém não relaxada, ativa ao tempo que desidentificada. Mas minha mente, como dizem os budistas, todavia assemelhava-se a de um macaco, compulsivamente ativa  e dominada pela obsessão. Então foi quando tropecei com o Complexo de Apolo, a dificuldade de avançar da esfera mental para a esfera sutil. A esfera sutil (ou, como costumam chamá-la os místicos cristãos, a "alma") é o primeiro dos domínios transpessoais e, nesse sentido, é transmental, transegoico e transverbal. Mas para alcançar essa esfera, deve-se (como ocorre em todas as transformações) "abandonar" a esfera inferior (neste caso, o mental-egoico). O Complexo de Apolo reflete o fracasso em dar esse passo. Do mesmo modo que, quem padece do complexo de Édipo, permanece inconscientemente atado ao corpo e seus prazeres, quem está conflitado do Complexo de Apolo permanece inconscientemente preso à mente e a seu princípio de realidade (que aqui significa "a realidade institucional, racional e verbal" que, ainda que convencionalmente seja bastante real, não é mais que uma fase intermediária no caminho que conduz até o Atman, quer dizer, uma mera descrição da Verdadeira Realidade, de modo que se nos aferramos a ela, acabará impedindo o descobrimento da Autêntica Realidade. 

A luta com meu próprio "pensamento obsessivo-compulsivo" — não com determinados pensamentos obsessivos (vestígios do Complexo de Édipo), senão com o mesmo fluxo dos pensamentos — foi uma tarefa muito difícil. Fui suficientemente afortunado de fazer algum progresso que acabou permitindo-me elevar-me acima das flutuações das contradições mentais e vislumbrar, ainda que só por um instante, um reino incomparavelmente mais profundo, mais real, mais saturado de ser e mais aberto à claridade. Esse reino era o reino sutil que aflora, por assim dizer, depois de haver usado o Complexo de Apolo. E não se trata de que, neste reino, o pensamento necessariamente cesse (ainda que frequentemente o faz, sobretudo no começo), senão que, quando se apresenta, não se quebra do fundamento mais amplo de claridade e consciência. No nível sutil, você "já não se perde nos pensamentos", senão que os pensamentos aparecem na consciência e se desvanecem com a mesma graça, suavidade e clareza com que as nuvens dobram o céu, sem nenhum chiado ou grito. Como disse Chuang Tzu: "O homem perfeito emprega sua mente como um espelho, sem aferrar-se a nada, registrando tudo e sem cair, contudo, com nada". 

Na meditação real, sem dúvida, as experiências do mundo sutil podem ( e frequentemente) ser extraordinárias, maravilhosas e profundas, porque esse é o domínio dos arquétipos e das deidades arquetípicas cuja confrontação é sempre, como dizia Jung, numinosa. Essa foi, para mim, uma época muito real e muito intensa, foi minha primeira experiência direta e inequívoca da sacralidade real do mundo, este mundo que, como disse Plotino, constitui uma emanação e uma expressão do Único. Certamente que já havia tido breves dicas do reino sutil — e inclusive do reino causal que se encontra mais além dele —, contudo não havia entrado nem havia sido iniciado nesse nível. Em certa ocasião, um mestre Zen disse que a resposta mais adequada ao primeiro Kensho (o pequeno satori) não é rir, senão chorar, e isso foi precisamente o que fiz, ao surgir, durante várias horas. Lágrimas de gratidão, de compaixão, de indignidade e, finalmente, de infinita maravilha. (E devo dizer que isto não tem nada a ver com a falsidade humana, porque não conheço ninguém que não seja digno desse domínio). O riso — uma enorme gargalhada — só vem depois já que, neste ponto, teria sido um sacrilégio. 

A isso seguiu-se, em minha prática meditativa, um tour pelos domínios do sutil. Minha descrição favorita deste reino procede de Dante e lhe asseguro que o que disse é literal:
Fixando meu olhar na Luz Eterna
Vi nas suas profundezas,
Unidas com amor em um só volume,
As folhas dispersas de todo o universo.
Dentro da profunda subexistência luminosa.
Dessa Luz exaltada vi três círculos,
De três cores porém de uma só dimensão
E pelo segundo parecia o primeiro refletido
Como o arco-íris é pelo arco-íris, e o terceiro
Parecia fogo que é igualmente exalado por ambos. 
Nessa época descobri a obra de Kirpal Singh, que me foi de grande utilidade para aclarar minhas experiências nesse domínio. Na minha opinião, Singh é o mestre insuperável dos reinos sutis e sem sua guia (ainda que fosse através de um livro), duvido muito que teria podido atravessar tão fácil e rapidamente alguns desses reinos. O ponto central do ensinamento de Sigh é que, dentro do reino sutil, existe uma hierarquia, de audíveis iluminações, o chacra shabd cada vez mais sutil até e mais além dos chacras (como o ajna e o sahasrara) que as escolas de ioga mais antigas e menos sofisticadas consideram últimos. Toda sua abordagem é hierárquica, evolutiva e dinâmica, e se encaixa perfeitamente com minha própria filosofia, de modo que não tive que perder tempo em aprender ou em discutir sua posição senão que, simplesmente, podia usá-la. 

Entretanto, eu havia vislumbrado os reinos sutis e havia tido experiências introdutórias no mundo dos arquétipos, da deidade, do yidam (mente sagrada, nos termos budistas), e do ishtadeva (objeto de devoção nos termos hindus). Tratava-se, sem dúvida alguma, das experiências mais profundas que jamais havia tido e, o que é mais importante, já estava bastante familiarizado (em teoria, pelo menos) com as experiências que podem ser produzidas pelos impulsos subconscientes, todas as imagens "mágicas" e "alucinatórias" descritas por Freud e seus colegas, de modo que não caí na falácia de confundir as experiências supraconscientes com uma espécie de renascimento subconsciente. Na minha opinião, qualquer um que tenha estudado cuidadosa e pessoalmente estes distintos reinos reconhecerá de imediato as profundas diferenças que existem entre as representações prepessoais, subconscientes e instintivas e as transpessoais, supraconscientes e arquetípicas. As escolas orientais são muito explicitas ao assinalar as grandes diferenças existentes entre as implantações emocionais-sexuais (pranamaya kosa) e as intuições arquetípicas (anandamaya kosa)

Ken Wilber em, A Pura Consciência do Ser
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey