Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Interpretação versus Transformação

Numa série de livros (e.g., Um Deus Social; Éden, Queda ou Ascenção? e O Olho do Espírito) tento mostrar que a religião sempre cumpriu duas funções muito importantes, mas muito diferentes. Em primeiro lugar, ela age de modo a criar significado para o self [1] alienado [2]: oferece mitos, histórias, contos, narrativas, rituais e revivescências que, em conjunto, ajudam o self a entender e suportar as pedras e flechas do destino implacável. Normalmente, esta função da religião não necessariamente altera o nível de consciência da pessoa; não provoca transformação radical. Nem provoca, tampouco, uma libertação definitiva do self alienado. Ao contrário, ela consola o self, fortalece o self, defende o self, promove o self. À medida que o self alienado acredita nos mitos, executa os rituais, balbucia as orações ou aceita os dogmas, então crê fervorosamente que será “salvo” – ainda nesta vida, pela glória da salvação de Deus ou da proteção da Deusa, ou na vida após a morte, quando ser-lhe-á assegurada felicidade eterna.

Mas, em segundo lugar, a religião cumpre – usualmente para uma muito, mas muito pequena minoria – uma função de transformação radical e de libertação. Esta função da religião não fortalece o self alienado; ao contrário, despedaça-o completamente – não consolação mas devastação, não entrincheiramento mas esvaziamento, não complacência mas explosão, não conforto mas revolução – em síntese, não fortalecimento convencional da consciência mas transmutação e transformação radicais nas profundezas da própria consciência.

Há algumas diferentes maneiras para explicar essas duas importantes funções da religião. A primeira função – criação de significado para o self – é um tipo de movimento horizontal; a segunda função – transcendência do self – é um tipo de movimento vertical (para cima ou para o fundo, dependendo da sua metáfora). Denominei a primeira interpretação; a segunda, transformação.

A interpretação simplesmente dá ao self uma nova maneira para pensar ou sentir a realidade. O self passa a ter uma nova crença – talvez holística ao invés de atomística, talvez perdão no lugar de acusação, talvez relacional ao invés de analítica. Assim, o self aprende a interpretar seu mundo e seu ser em termos desta nova crença, ou nova linguagem, ou novo paradigma, e esta nova e encantadora interpretação age, pelo menos temporariamente, para aliviar ou diminuir o terror inerente ao coração do self alienado.

Mas com a transformação, o próprio processo de interpretação é desafiado, interpelado, minado e, finalmente, desmantelado. Com a interpretação, é dado ao self (ou sujeito) um novo modo de pensar sobre o mundo (ou objetos); mas com a transformação radical, o próprio self passa a interrogar-se, a olhar para dentro de si, a estrangular-se e, literalmente , a sufocar-se até a morte.

Colocado de uma última maneira: com a interpretação horizontal – que é de longe a dominante, a mais difundida e largamente compartilhada função da religião – o self, pelo menos temporariamente, sente-se feliz com seu entendimento, contente com sua escravidão, complacente em face do terror gritante que é, de fato, sua condição mais íntima. Com a interpretação o self torna-se sonolento no mundo, tropeça entorpecido e com a visão curta no pesadelo do samsara [3], recebe um mapa amarrado com um laço de morfina para encarar o mundo. E esta é, na verdade, a condição normal da humanidade religiosa, precisamente a condição a ser desafiada e, finalmente, desfeita pelos ativistas da transformação espiritual.

Porque a transformação autêntica não é uma questão de crença, e sim de morte do crente; não uma questão de interpretar o mundo, mas sim de transformá-lo; não uma questão de encontrar alívio, mas sim de encontrar o infinito no outro lado da morte. Não é dada importância ao self; ele é cremado.

Agora, embora obviamente eu venha favorecendo a transformação e minimizando a interpretação, o fato é que ambas as funções são incrivelmente importantes e inteiramente indispensáveis. A maioria das pessoas não nasce iluminada. Elas nascem em um mundo de pecado e sofrimento, esperança e medo, desejo e desespero. Nascem como um self ávido e pronto para contrair-se; um self prenhe de fome, sede, lágrimas e terror. E, bem cedo, aprendem várias maneiras de interpretar seu mundo, de fazer com que passe a ter sentido, de dar-lhe um significado e de defender-se do terror e da tortura que nunca estão suficientemente distantes da superfície feliz do self alienado.

E, apesar de nós, você e eu, podermos estar desejando transcender a simples interpretação e encontrar a transformação autêntica, a interpretação, por si só, é uma função absolutamente necessária e crucial na maior parte de nossas vidas. Aqueles que não conseguem interpretar adequadamente, com uma boa dose de integridade e precisão, caem rapidamente em sérias neuroses ou mesmo psicoses: o mundo pára de fazer sentido – os limites entre o self e o mundo não são transcendidos; ao contrário, começam a esfarelar-se. Não é uma descoberta importante (“breakthrough”) e sim um colapso (“breakdown”); não é transcendência, mas desastre.

Mas em algum ponto do nosso processo de amadurecimento, a própria interpretação, não importa quão adequada ou confiável, simplesmente cessa de consolar. Nenhuma nova crença, nenhum novo paradigma, nenhum novo mito, nenhuma nova idéia estancarão a angústia que se instala em nós. Aí, o único caminho que resta não é uma nova crença para o self, mas sim a transcendência do próprio self.

Mesmo assim, o número de pessoas que estão prontas para este novo caminho foi, é e sempre será muitíssimo pequeno. Para a grande maioria, algum tipo de crença religiosa aparecerá na qualidade de consolação: será uma nova interpretação horizontal que apresentará algum sentido para este mundo monstruoso. E, na maior parte do tempo, a religião tem sempre cumprido esta primeira função e se saído bem.

Assim, também uso a palavra legitimidade para descrever esta primeira função (a interpretação horizontal e a criação de significado para o self alienado). E muito da importante missão da religião é dar legitimidade ao self – legitimidade para suas crenças, seus paradigmas, suas visões de mundo, e seu caminho no mundo. Esta função da religião de prover legitimidade para o self e suas crenças – não importa quão temporária, relativa, não-transformadora ou ilusória – tem sido, todavia, a principal e mais importante função das tradições religiosas de todo o mundo. A capacidade de a religião prover significado horizontal, legitimidade e sanção para o self e suas crenças – esta função da religião, historicamente, tem sido a maior “cola social” de qualquer cultura.

E não se mexe facilmente, ou suavemente, na cola básica que mantém juntas as sociedades. Porque, na maioria das vezes, quando essa cola se dissolve, o resultado, como já dissemos, não é uma descoberta importante, mas um colapso, não libertação, mas caos social. (Voltaremos a este ponto crucial mais adiante.)

Enquanto a religião interpretativa oferece legitimidade, a religião transformadora oferece autenticidade. Para aquelas poucas pessoas que estão prontas – isto é, fartas do sofrimento do self alienado e que não mais aceitam a visão de mundo legítima – então uma abertura transformadora para a verdadeira autenticidade, para a verdadeira iluminação, para a verdadeira libertação torna-se cada vez mais premente. E, dependendo da sua capacidade para sofrer, você, mais cedo ou mais tarde, responderá à chamada para a autenticidade, para a transformação, para a libertação no horizonte perdido do infinito.

A espiritualidade transformadora não procura dar suporte ou legitimar nenhuma visão de mundo atual; ao contrário, ela provê a verdadeira autenticidade estilhaçando aquilo que o mundo considera legítimo. A consciência legítima é sancionada pelo consenso, adotada pela mentalidade de rebanho, aceita tanto pela cultura como pela contracultura, promovida pelo self alienado como o caminho para que este mundo tenha sentido. Mas a consciência autêntica sacode tudo isso de suas costas e, em substituição, fixa o olhar numa visão que vê somente um infinito radiante no coração de todas as almas e inspira em seus pulmões a atmosfera de uma eternidade muito simples de acreditar.

Assim, a espiritualidade transformadora, a espiritualidade autêntica é revolucionária. Ela não legitima o mundo; ela rompe com ele. Não consola o mundo, ela o estilhaça. E não dá importância ao self; ela o desfaz.

E esses fatos levam a diversas conclusões.

Ken Wilber



[1] Wilber usa self (com “s” minúsculo) para aquilo que o filósofo Huberto Rohden denomina “ego humano” e Self (com “S” maiúsculo) para o que Rohden chama o “Eu Divino”. (N. T.)
[2] Segundo Hegel, a alienação é um processo essencial à consciência, pelo qual ao observador ingênuo o mundo parece constituído de coisas independentes umas das outras. (N. T.)
[3] A roda das reencarnações. (N. T.)
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey