Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

A borda do abismo que te conduz ao teu Rosto Original

No caminho que leva a Um Só Sabor, as pessoas frequentemente incorrem em dois tipos de erros. O primeiro deles tem lugar quando se estabelece com a Testemunha e o segundo ao passo que conduz desde a Testemunha até o Um Só Sabor. 

Vejamos. Existe a crença de que, no momento em que se estabelece contato com a Testemunha (com o Eu-Eu) experimentará algo muito especial. Mas o certo é que, nesse momento, não se vê nada, senão que simplesmente contempla tudo quanto aparece, porque isso não é algo que possa ver-se senão o Vidente puro e vazio. As luzes, as beatitudes e as visões súbitas não são mais que objetos e, em consequência, não tem nada a ver com a Testemunha ainda que finalmente, em Um Só Sabor, a pessoa se torne em tudo o que vê, não pode começar tratando de fazer isso — tratando de ver a Verdade —, porque essa própria intenção impedirá seu próprio emergir. Por isso temos que partir de "neti, neti" (eu não sou isto, eu não sou isso). 

De modo que o primeiro erro impede a presença da Testemunha tratando de convertê-la num objeto que pode ser pego, quando o certo é que o Vidente de tudo quanto aparece é só pode ser "experimentado" como o substrato da Liberdade e Liberação de todos os objetos. 

Quando descansas nessa Liberdade e Vacuidade — contemplando uniformemente tudo quanto emerge —, te dás conta de que o eu separado (o ego) aparece em tua consciência qualquer outra coisa. E isso é algo que podes sentir do mesmo modo que podes sentir tuas pernas, uma mesa, uma pedra ou teus próprios pés. A contração em si mesmo se experimenta como uma tensão interior que, muitas vezes, se acha localizada atrás dos olhos e se escora na forma de uma leve tensão muscular em todo corpo-mente. É uma sensação de contração diante o mundo, uma ligeira tensão que afeta a totalidade do corpo. Observe, simplesmente, essa tensão. 

Quando se repousa na Testemunha vazia e se percebe dessa contração supõem-se de forma errônea que, para avançar finalmente desde a Testemunha até o Um Só Sabor, deve-se desembaraçar-se dela (libertar-se do ego). E esse é o segundo erro, um erro que não faz mais que fortalecer a tensão. 

Acreditamos que a contração em si mesma oculta ou eclipsa o Espírito quando, de fato, — como ocorre com qualquer Forma do universo —, não é mais que outra de suas resplandescentes manifestações. Todas as Formas — inclusive a forma do ego — não são mais que Vacuidade. E mais, o único que deseja se desembaraçar do ego é o próprio ego. O Espírito ama tudo o que emerge tal como é, e o mesmo ocorre com a Testemunha. A Testemunha ama o ego, porque a Testemunha é a mente-espelho uniforme que reflete e abraça com a mesma aceitação tudo quanto aparece. 

Mas o ego decide julgar ao jogo de desembaraçar-se de si mesmo porque, enquanto isso, seguirá existindo (quem, senão, está julgando?). Como disse Chuang Tzu há muito tempo: "Não é por acaso o desejo de libertar-se do ego uma manifestação a mais do ego?"

O ego não é mais que uma tensão sútil e não é possível recorrer à tensão para livrar-te da tensão porque, em tal caso, acabarias com duas tensões no lugar de uma. O ego é uma manifestação perfeita do Divino e opera melhor repousando na Liberdade do que tratando de desembaraçar-se de si mesmo, o qual, aliás, não faz senão intensificar ainda mais a contradição. 

Qual é, então, a prática mais adequada? Quando repousas na Testemunha, quando repousas no Eu-Eu, quando repousas na Vacuidade, simplesmente presta atenção na contradição em ti mesmo. Descansa na Testemunha e observa essa contradição porque, para senti-la, para contempla-la, deves ter se desidentificado — e, em consequência, já ter se liberado — dela. Então, estarás olhando a partir da posição da Testemunha que sempre se encontra completamente livre de todos os objetos. 

De modo que repousa na Testemunha e perceba-te da contradição em ti mesmo exatamente do mesmo modo em que podes sentir a cadeira em que estás sentado, a terra ou as nuvens que flutuam no céu. Os pensamentos flutuam na mente, as sensações flutuam no corpo, a contradição em ti mesmo flutua em tua consciência e tu contemplas tudo de um modo espontâneo e uniforme.

Nesse simples estado, comodo e sem esforço, não estás tratando de desembaraçar-te da contração, senão que simplesmente estás sentindo-a e, enquanto repousas na Grande Testemunha ou Vacuidade que és, Um Só Sabor poderá resplandecer com mais facilidade. Não há nada que possas fazer para provocar (ou causar) Um Só Sabor, porque este não é o resultado de ações temporais, sempre está completamente presente e jamais te afastas-te um ponto dele.

O máximo que podes fazer, por meio do esforço temporal, é evitar estes dois grandes erros. Não pretendas, pois, ver a Testemunha como um objeto, limita-te a repousar Nele enquanto que Vidente e tampouco trates de desembaraçar-te do ego, senão que deves dedicar-te, simplesmente, a percebe-lo. É assim como chegarás a colocar-te na borda do abismo que conduz ao Rosto Original.

Descansa na Testemunha e dá-te conta da contração em ti mesmo, porque esse é precisamente o âmbito em que resplandece com mais intensidade Um Só Sabor. Porém, não o faças para conseguir aquilo isto ou aquilo, senão de um modo espontâneo durante todo o dia e toda a noite, permanecendo de pé à borda de sua mais surpreendente reconhecimento.

Estes seriam os passos que deverias dar:

Descansa na Testemunha e experimenta a contração em ti mesmo e, quando o fizer, da-te conta de que a Testemunha não é a contração, senão que simplesmente seja consciente dela. A Testemunha está livre da contração... e tu és a Testemunha.

Enquanto que testemunhas, tu estás livre da contração em ti mesmo. Repousa nessa Liberdade, Abertura, Vacuidade e Liberação. Experimenta essa contração e deixe-a ser, do mesmo modo em que permites a existência de qualquer outro tipo de sensação. Não trates de livrar-te das nuvens, das árvores, ou do ego, deixa-os ser enquanto permaneces relaxado no espaço aberto da Liberdade que és.

Nesse espaço de Liberdade — e de um modo espontâneo — podes observar que a sensação  de Liberdade carece de interior e exterior, de centro e de periferia. Os pensamentos flutuam nessa Liberdade, o céu flutua nessa Liberdade, o céu flutua nessa Liberdade, o mundo emana dessa Liberdade e Tu és ISSO. O céu é tua cabeça, o ar tua respiração, a terra teu pé, e tudo isso de um modo imediato e íntimo. Quando descansas nessa Liberdade, que é Plenitude infinita, te convertes na totalidade do mundo.

Este é o mundo de Um Só Sabor, um mundo que não tem dentro nem fora, sujeito nem objeto, aqui nem fora daqui, um mundo que carece de origem e de final, de objetivos e de meios, de caminho e de meta. Esta, como disse Ramana Maharshi, é a verdade última.

Isto é o que poderíamos denominar de um "exercício capital". Porém, não o faças em lugar de, senão além de, qualquer outra prática (centramento, vipassana, oração do coração, zikr, zazen, yoga, etc.). Todas estas práticas estão orientadas a permitir-te adentrar num determinado estado de consciência, porém, Um Só Sabor não é nenhum estado específico de consciência, é compatível com todos e cada um dos estados, como a umidade impregna completamente todas e cada uma das ondas do oceano. Talvez uma onda possa ser maior que a outra, porém, nem por isso estará mais úmida. Um Só Sabor não é uma onda específica senão a umidade da água e, por conseguinte, as práticas específicas (desde a oração até a vipassana e a yoga) não servem para entrar no Um Só Sabor. Todas as práticas têm sido desenhadas para permitir entrar numa onda específica — habitualmente uma onda muito grande — e isso é bom, porém, Um Só Sabor é a umidade que impregna até a mais pequena das ondas, de modo que estarás bem em qualquer onda de consciência que agora te encontres, Repousa nessa onda, dá-te conta da contração em ti mesmo e permanece Livre.

Mas não abandones tuas outras práticas, porque elas te permitirão, em primeiro lugar, entrar nas ondas específicas e importantes de tua consciência (psíquica, sutil e causal), todas as quais são veículos necessários para a manifestação plena do Espírito. Em segundo lugar, o fato de que Um Só Sabor seja demasiado simples para nele acreditar e demasiado fácil de alcançar através do esforço supõem que a maior parte das pessoas jamais observaram que a onda na qual agora se encontram já está molhada, jamais observaram a Mortalidade de seu presente estado e perderam tempo buscando uma onda maior e melhor sobre a qual surfar... Francamente, assim são as coisas.

As práticas tipicamente espirituais constituem uma introdução à experiências cada vez mais sutis e, neste sentido, te ajudaram a cansar-te de toda experiência sem que te dês conta. Quando te sentires entediado de saltar de onda em onda, permanecerás em meio da umidade de qualquer onda em que te encontres. A Testemunha pura não é nenhuma experiência, senão a abertura ou clarão em que aparecem e desaparecem todas as experiências, inclusive as espirituais e, enquanto estejas na caça de experiências, jamais poderás repousar na Testemunha nem mergulharás no oceano onipresente de Um Só Sabor. Quando te cansares das experiências, repousarás na Testemunha e é precisamente ai onde poderás observar a umidade (Um Só Sabor).

Então o vento será tua respiração, as estrelas os neurônios de teu cérebro, o sol e o sabor da manhã e a terra o modo em que experimentas o teu corpo. Então teu coração se abrirá à Totalidade, o Cosmos se precipitará em tua alma e o EU emergirá como as inumeráveis galáxias girando em toda a eternidade. No mundo não há mais que uma só Plenitude, na Vacuidade não há mais que um Resplendor que se contempla a si mesmo. Então poderás ler, gravada nos muros do infinito e presente em toda a eternidade, a única verdade: Isto — estalando os dedos — isto tudo o que há. Nada mais.

Ken Wilber em, A Pura Consciência de Ser
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey