Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Sabedoria e Compaixão

Mas esta minha visão não é terrivelmente elitista? Santo Deus, espero que sim! Quando vai a um jogo de basquete, você quer ver Michael Jordan ou eu? Quando está interessado em música popular, quem pagaria para ouvir? Eu ou Bruce Springsteen? Quando quer boa literatura, quem preferiria passar a noite lendo? Eu ou Tolstoi? Quando você paga sessenta e quatro milhões de dólares por um quadro, será uma pintura minha ou de Van Gogh?

Toda excelência é elitista. E isto inclui também a excelência espiritual. Mas a excelência espiritual é um elitismo para o qual todos estão convidados. Vamos primeiro aos grandes mestres – Padmasambhava, Santa Teresa de Ávila, Buda Gautama, Lady Tsogyal, Emerson, Eckhart, Maimônides, Shankara, Sri Ramana Maharshi, Bodhidarma, Garab Dorje. Sua mensagem é sempre a mesma: que esta consciência que está em mim esteja em você. Você sempre começa elitista; você sempre termina igualitário.

Mas, em algum ponto do caminho, há a furiosa sabedoria que grita do fundo do coração: devemos, todos nós, prestar atenção ao radical e supremo objetivo transformador. Assim, qualquer tipo de espiritualidade autêntica ou integral também envolverá sempre um grito crítico, intenso e ocasionalmente polêmico do campo transformador para o campo meramente interpretativo.

Se usarmos as percentagens do Ch’an chinês como exemplo genérico, isto significa que se 0,000001 da população está realmente envolvida em espiritualidade autêntica ou genuína, então, 0,999999 da população está envolvida em sistemas de crenças horizontais não-transformadores, inautênticos, meramente interpretativos. E isto significa, sim, que a grande maioria dos “buscadores espirituais” deste país [1] (como de qualquer outro) está envolvida em algo muito menor que acontecimentos autênticos. Sempre foi assim e ainda o é hoje. Este país não é exceção.

Mas na América atual isto é muito mais preocupante, porque a grande maioria dos adeptos da espiritualidade horizontal freqüentemente afirma estar representando a vanguarda da transformação espiritual, o “novo paradigma” que transformará o mundo, a “grande transformação” da qual são os líderes. E, na maioria das vezes, eles absolutamente não são profundos transformadores; são meros, mas agressivos, interpretativos – não oferecem meios efetivos para desmontar completamente o self, mas simples caminhos para que o self pense de maneira diferente. Não modos de transformação, mas simplesmente novos modos de interpretação. Em realidade, o que a maioria oferece não é uma prática ou uma série de práticas; não é sadhana, ou satsang, ou shikan-taza, ou ioga. O que a maioria oferece é simplesmente a sugestão: leia meu livro sobre o novo paradigma. Isto é profundamente perturbador e profundamente preocupante.

Os buscadores espirituais autênticos dedicam-se de corpo e alma às grandes tradições transformadoras; mesmo assim, deverão sempre fazer duas coisas ao mesmo tempo: analisar e engajar-se em práticas interpretativas e menores (das quais, normalmente, depende seu sucesso), mas também dar um tonitruante grito do coração de que somente a interpretação não é suficiente.

Assim, todos aqueles que tiveram suas almas sacudidas pela transformação autêntica, acredito, devem lutar com a profunda obrigação moral e gritar do fundo do coração – talvez mansa e gentilmente, com lágrimas de relutância; talvez com agressiva paixão e furiosa sabedoria; talvez com lenta e cuidadosa análise; talvez com inquebrantável exemplo público – pois a autenticidade sempre, e absolutamente, carrega uma exigência e um dever: você deve falar claramente, com o melhor do seu talento, sacudir a árvore espiritual e jogar seus faróis nos olhos dos complacentes. Você deve deixar o entendimento radical vibrar em suas veias e sacudir os que estão a sua volta.

Ah! Se você não age, está traindo sua própria autenticidade. Está escondendo seu verdadeiro tesouro. Você não quer aborrecer os outros porque não quer aborrecer-se. Você está agindo de má-fé, o sabor de um infinito ruim.

Porque, entenda, o fato alarmante é que qualquer entendimento profundo carrega uma terrível responsabilidade: aqueles a quem é permitido ver, simultaneamente estão encilhados no dever de comunicar a visão em termos bem claros; esta é a troca. Foi-lhe permitido ver a verdade com a condição que você a comunicaria a outros (este é o sentido último do voto do bodhisattva [2] ). E, portanto, se você viu, deve falar. Fale com compaixão, fale com furiosa sabedoria, ou fale habilmente, mas fale.

E esta é, verdadeiramente, uma carga terrível, uma carga horrível, porque em nenhuma situação há lugar para timidez. O fato de que você possa estar errado não é desculpa; você pode estar certo em sua comunicação, ou pode estar errado, mas isto não importa. O que importa, como nos lembrou secamente Kierkegaard, é que somente investindo e relatando sua visão com paixão, a verdade pode penetrar, de uma maneira ou de outra, na relutância do mundo. Se você está certo ou errado, somente sua paixão forçará a descoberta. É seu dever promover esta descoberta e, portanto, é seu dever disseminar sua verdade com toda paixão e coragem que puder encontrar em seu coração. Você deve gritar como puder.

O mundo comum já está gritando, e com tal ira roufenha que as verdadeiras vozes mal podem ser ouvidas. O mundo materialista já está cheio de publicidade e fascinação, gritos de atração e brados de comércio, acenos de saudação e convites para achegar-se. Não quero ser duro aqui pois devemos honrar nossos engajamentos menores. Entretanto, você deve ter notado que a palavra “alma” é agora o item mais quente nos títulos de livros à venda, mas na maioria desses livros “alma” realmente significa ego arrastado. “Alma” vem denotando, neste frenesi alimentador de entendimento interpretativo, não o atemporal em você mas sim aquilo que se agita mais intensamente ao longo do tempo, e, assim, “cuidado com a alma” significa, incompreensivelmente, focar-se intensamente em seu ardente self alienado. Do mesmo modo, “espiritual” está na boca de todo mundo, mas normalmente o que realmente significa é qualquer intenso sentimento egóico, assim como “coração” passou a significar qualquer sentimento sincero do self.

Em verdade, tudo isso é simplesmente o mesmo antigo jogo interpretativo, de roupa nova, indo à cidade. E, mesmo assim, poderia ser aceitável se não fosse pelo fato alarmante de que esta manobra interpretativa é agressivamente denominada “transformação”, quando, obviamente, nada mais é que uma nova série de ariscas interpretações. Em outras palavras, infelizmente parece estar ocorrendo uma profunda hipocrisia oculta no jogo que considera qualquer nova interpretação como sendo uma grande transformação. E o mundo em geral, Leste ou Oeste, Norte ou Sul, está, como sempre esteve, na maioria das vezes, completamente surdo a esta calamidade.

Assim, em função da medida de sua realização autêntica, você está realmente pensando em sussurrar gentilmente no ouvido deste mundo quase surdo? Não, meu amigo, você tem que gritar. Gritar do fundo do coração o que você viu, gritar o mais que puder.

Mas não indiscriminadamente. Prossigamos cuidadosamente com o grito transformador. Que pequenos grupos de espiritualidade transformadora radical foquem seus esforços e transformem seus estudantes. E que esses grupos lentamente, cuidadosamente, responsavelmente, humildemente comecem a irradiar sua influência, adotando uma tolerância absoluta com todas as visões, mas tentando, todavia, defender uma espiritualidade verdadeira, autêntica e integral – pelo exemplo, por irradiação, por divulgação óbvia, por libertação inequívoca. Que esses grupos de transformação gentilmente convençam o mundo e seus relutantes egos, desafiem sua legitimidade, desafiem suas interpretações limitadoras e ofereçam um despertar que se contraponha ao entorpecimento que assombra o mundo em geral.

Comecemos aqui e agora – você e eu – o nosso compromisso de respirar ao infinito até que apenas o infinito seja o único estado que o mundo reconhecerá. Deixemos que a realização radical brilhe em nossas faces, ruja em nossos corações e troveje em nossos cérebros – o simples fato, o fato óbvio: você, no imediatismo da sua consciência presente, é, na realidade, o mundo inteiro, em toda sua paixão e sua indiferença, em toda sua glória e sua graça, em todas suas vitórias e suas lágrimas. Você não vê o sol, você é o sol; você não ouve a chuva, você é a chuva; você não sente a terra, você é a terra. E nesta simples, clara, inequívoca consideração, a interpretação cessará em todos os domínios, você transformar-se-á no próprio Coração do Kosmos [3] e aí, exatamente aí, muito simplesmente, muito tranqüilamente, tudo será desfeito. Então, maravilha e remorso serão estranhos a você, você e os outros ser-lhe-ão estranhos, fora e dentro não terão o menor sentido. E num óbvio choque de reconhecimento – onde meu Mestre é meu Self [4], o Self é o Kosmos e o Kosmos é minha Alma – você andará muito suavemente na bruma deste mundo e o transformará inteiramente não fazendo absolutamente nada.

E então, e então, e somente então, você – finalmente, claramente, cuidadosamente e com compaixão – escreverá na lápide de um self que nunca existiu: Há somente Ati.

Ken Wilber



[1] Wilber refere-se aos Estados Unidos. (N. T.)
[2] Do sânscrito bodhi (iluminação) e sattva (ser). No Budismo Mahayana, o bodhisattva, um ser que, por compaixão, evita atingir o Nirvana a fim de salvar outras pessoas, é adorado como uma divindade, (N. T.)
[3] Wilber reapresenta esta palavra em seu livro Sex, Ecology, Spirituality com a seguinte observação: “Os Pitagóricos introduziram a palavra Kosmos que, normalmente, traduzimos como ‘cosmos’. Mas o significado original de Kosmos era a natureza de padrões ou de processos de todos os domínios da existência, da matéria para a matemática para o divino, e não simplesmente o universo físico, que é o significado usual das palavras ‘cosmos’ e ‘universo’ hoje... O Kosmos  contém  o  cosmos  (ou  fisiosfera),  bio  (ou  biosfera),  noo (ou  noosfera)  e  teo  (teosfera  ou  domínio divino)   ” (N. T.)
[4] Vide Nota 1. (N. T.)

Quem Realmente Quer Transformar-se?

Há uma crença muito difundida de que o Oriente está imerso em espiritualidade autêntica e transformadora, enquanto o Ocidente – historicamente e mesmo na “new age” atual – não apresenta nada além do que uma espiritualidade horizontal, interpretativa, meramente legítima e, portanto, morna. Ainda que haja alguma verdade nisso, a situação real é muito sombria, tanto para o Oriente quanto para o Ocidente.

Primeiro, embora seja verdade que o Oriente venha produzindo um maior número de iluminados autênticos, mesmo assim, a percentagem real da população oriental que está engajada em autêntica espiritualidade transformadora é, e sempre foi, extremamente pequena. Uma vez perguntei a Katigiri Roshi, com quem consegui minha primeira experiência de iluminação (espero não ter sido um colapso), quantos grandes mestres Ch’an (China) e Zen (Japão) verdadeiramente existiram. Sem hesitar, ele respondeu “Talvez mil no total”. Perguntei a outro mestre Zen quantos mestres Zens verdadeiramente iluminados – profundamente iluminados – estão vivos hoje, e ele respondeu “Não mais do que uma dúzia.” Vamos considerar para efeito de argumentação que essas sejam respostas não muito precisas. Vejamos os números. Mesmo que considerássemos que só existiu um bilhão de chineses ao longo da história (uma estimativa extremamente baixa), isto significa que apenas mil em um bilhão atingiram a espiritualidade autêntica, transformadora. Para aqueles sem uma calculadora, isto significa 0,000001 da população total. E isto quer dizer, com certeza, que o resto da população estava (e está) envolvido, na melhor das hipóteses, em vários tipos de religião legítima, horizontal, interpretativa: envolvido em práticas mágicas, crenças míticas, egóicas orações petitórias, rituais mágicos etc. – em outras palavras, caminhos interpretativos para dar sentido ao self alienado, uma função interpretativa que, como dissemos, é, até hoje, a maior cola social da cultura chinesa (e de todas as outras).

Então, sem querer de modo algum minimizar as excepcionalmente belas contribuições das gloriosas tradições orientais, a conclusão é simples e direta: a espiritualidade transformadora radical é extremamente rara, em qualquer tempo da história, em qualquer lugar do mundo. (Os números para o Ocidente são ainda mais deprimentes. Encerro meu caso.)

Assim, embora possamos lamentar o pequeno número de pessoas no Ocidente que estão envolvidas, hoje, num processo espiritual de transformação radical, não façamos uso do falso argumento que tenha sido dramaticamente diferente no passado ou em outras culturas. Ocasionalmente, pode ter sido um pouco melhor do que hoje no Ocidente, mas a realidade persiste: a espiritualidade autêntica é um pássaro incrivelmente raro em qualquer lugar, a qualquer tempo. Então, vamos partir do fato indiscutível que a espiritualidade autêntica, vertical, transformadora é uma das mais preciosas jóias de toda a tradição humana – exatamente porque, como todas as jóias preciosas, é incrivelmente rara.

Segundo, mesmo que você e eu acreditemos profundamente que a mais importante função que podemos exercer é oferecer espiritualidade transformadora autêntica, o fato é que o melhor que podemos fazer em nossa capacidade de trazer espiritualidade decente para o mundo é oferecer mais modos de interpretação úteis e benignos. Em outras palavras, mesmo que estejamos praticando, ou oferecendo, espiritualidade transformadora autêntica, de qualquer modo, muito do que devemos primeiramente fazer é prover para a maioria das pessoas um meio mais adequado para interpretar sua condição. Devemos começar com interpretações úteis antes que, efetivamente, possamos oferecer transformações autênticas.

A razão para isso é que se tirarmos do indivíduo (ou da cultura) muito rapidamente, muito abruptamente ou de maneira inepta a interpretação, o resultado, mais uma vez, não será conquista mas derrota, não libertação mas colapso. Deixe-me dar dois rápidos exemplos.

Quando Chogyam Trungpa Rinpoche, um importante (embora polêmico) mestre tibetano veio pela primeira vez a este país, ele ficou conhecido por sempre repetir, quando perguntado sobre o significado de Vajrayana, [1] “Há somente Ati.” Em outras palavras, há somente a mente iluminada, não importa para onde você olhe. Ego, samsara, maya e ilusão – não temos que nos livrar de nenhum deles, porque, em realidade, não existem: há somente Ati, há somente Espírito, há somente Deus, há somente Consciência não-dual em qualquer parte da existência.

Virtualmente ninguém entendeu – ninguém estava pronto para essa compreensão radical e autêntica, embora verdadeira – e, assim, Trungpa finalmente introduziu toda uma série de práticas “menores” que levavam a esta radical e definitiva “não-prática”. Ele apresentou as Nove Yanas como a base da prática – isto é, apresentou nove estágios ou níveis de prática, culminando no último – “não-prática” – do eterno-agora Ati.

Muitas dessas práticas eram simplesmente interpretativas e algumas, poderíamos dizer, “menos transformadoras”: transformações em miniatura que tornam a mente-corpo mais suscetível a atingir a completa iluminação radical. Essas práticas interpretativas e menos transformadoras levavam à “prática perfeita” da não-prática – ou à compreensão radical, instantânea e autêntica que desde o início só existe Ati. Assim, embora a transformação última fosse o objetivo primordial e sempre presente, Trungpa teve de introduzir práticas interpretativas e menores a fim de preparar as pessoas para a obviedade do que é.

Exatamente o mesmo aconteceu com Adi Da, outro influente (e igualmente polêmico) mestre (embora, desta vez, americano). Inicialmente, ele só ensinava “o caminho da compreensão”: não um modo de chegar à iluminação, mas um questionamento de por que você quer chegar à iluminação, em primeiro lugar. O próprio desejo de procurar a iluminação nada mais é do que a tendência ambiciosa do ego em si e, assim, a simples procura pela iluminação evita que ela aconteça. Portanto, a “prática perfeita” não é procurar atingir a iluminação, mas sim questionar o motivo da procura. Você obviamente a procura para evitar o presente e, no entanto, somente o presente possui a resposta: procurá-la para sempre é errar o alvo para sempre. Você já é, desde sempre, Espírito iluminado e, portanto, buscar o Espírito é simplesmente negar o Espírito. Você não pode alcançar o Espírito do mesmo modo que não pode ganhar seus pés ou adquirir seus pulmões.

Ninguém entendeu. Assim, Adi Da, exatamente como Trungpa, apresentou uma série completa de práticas interpretativas e menos transformadoras – de fato, sete estágios – levando ao ponto em que se podia abandonar a procura e abrir-se para a eterna-agora verdade da sua própria condição eterna e atemporal, que estava completa e totalmente presente desde o início, mas que era brutalmente ignorada devido ao enlouquecido desejo da busca.

Agora, qualquer que seja sua opinião sobre esses dois mestres, a realidade é a seguinte: eles realizaram talvez os dois primeiros grandes experimentos neste país de como apresentar a noção de “Há somente Ati.” – há somente Espírito – e, então, concluir que a busca do Espírito é exatamente o que não permite a sua realização. E ambos descobriram que, por mais que estejamos ligados a Ati, ligados à verdade transformadora radical deste momento, práticas interpretativas e práticas transformadoras menores são quase sempre pré-requisitos para esta última e derradeira transformação.
Meu segundo ponto, então, é que, além de oferecer transformação autêntica e radical, devemos ser sensíveis, e cuidadosos, a numerosos modos benéficos de práticas interpretativas e transformadoras menores. Portanto, esta postura mais generosa pede uma “abordagem integral” para a completa transformação, uma abordagem que aceite e incorpore muitas práticas interpretativas e menos transformadoras – cobrindo os aspectos físico, emocional, mental, cultural e comunitário do ser humano – como preparação e como expressão da suprema transformação no estado do eterno-agora.

E assim, no mesmo momento em que criticamos a religião meramente interpretativa (e todos os estados menores de transformação), devemos entender que uma abordagem integral para a espiritualidade combina o melhor do horizontal e do vertical, interpretativo e transformador, legítimo e autêntico – e, então, concentrar nossos esforços numa visão global sã e equilibrada da condição humana.

Ken Wilber


[1] Escola do Budismo Tibetano. (N. T.)

Interpretação versus Transformação

Numa série de livros (e.g., Um Deus Social; Éden, Queda ou Ascenção? e O Olho do Espírito) tento mostrar que a religião sempre cumpriu duas funções muito importantes, mas muito diferentes. Em primeiro lugar, ela age de modo a criar significado para o self [1] alienado [2]: oferece mitos, histórias, contos, narrativas, rituais e revivescências que, em conjunto, ajudam o self a entender e suportar as pedras e flechas do destino implacável. Normalmente, esta função da religião não necessariamente altera o nível de consciência da pessoa; não provoca transformação radical. Nem provoca, tampouco, uma libertação definitiva do self alienado. Ao contrário, ela consola o self, fortalece o self, defende o self, promove o self. À medida que o self alienado acredita nos mitos, executa os rituais, balbucia as orações ou aceita os dogmas, então crê fervorosamente que será “salvo” – ainda nesta vida, pela glória da salvação de Deus ou da proteção da Deusa, ou na vida após a morte, quando ser-lhe-á assegurada felicidade eterna.

Mas, em segundo lugar, a religião cumpre – usualmente para uma muito, mas muito pequena minoria – uma função de transformação radical e de libertação. Esta função da religião não fortalece o self alienado; ao contrário, despedaça-o completamente – não consolação mas devastação, não entrincheiramento mas esvaziamento, não complacência mas explosão, não conforto mas revolução – em síntese, não fortalecimento convencional da consciência mas transmutação e transformação radicais nas profundezas da própria consciência.

Há algumas diferentes maneiras para explicar essas duas importantes funções da religião. A primeira função – criação de significado para o self – é um tipo de movimento horizontal; a segunda função – transcendência do self – é um tipo de movimento vertical (para cima ou para o fundo, dependendo da sua metáfora). Denominei a primeira interpretação; a segunda, transformação.

A interpretação simplesmente dá ao self uma nova maneira para pensar ou sentir a realidade. O self passa a ter uma nova crença – talvez holística ao invés de atomística, talvez perdão no lugar de acusação, talvez relacional ao invés de analítica. Assim, o self aprende a interpretar seu mundo e seu ser em termos desta nova crença, ou nova linguagem, ou novo paradigma, e esta nova e encantadora interpretação age, pelo menos temporariamente, para aliviar ou diminuir o terror inerente ao coração do self alienado.

Mas com a transformação, o próprio processo de interpretação é desafiado, interpelado, minado e, finalmente, desmantelado. Com a interpretação, é dado ao self (ou sujeito) um novo modo de pensar sobre o mundo (ou objetos); mas com a transformação radical, o próprio self passa a interrogar-se, a olhar para dentro de si, a estrangular-se e, literalmente , a sufocar-se até a morte.

Colocado de uma última maneira: com a interpretação horizontal – que é de longe a dominante, a mais difundida e largamente compartilhada função da religião – o self, pelo menos temporariamente, sente-se feliz com seu entendimento, contente com sua escravidão, complacente em face do terror gritante que é, de fato, sua condição mais íntima. Com a interpretação o self torna-se sonolento no mundo, tropeça entorpecido e com a visão curta no pesadelo do samsara [3], recebe um mapa amarrado com um laço de morfina para encarar o mundo. E esta é, na verdade, a condição normal da humanidade religiosa, precisamente a condição a ser desafiada e, finalmente, desfeita pelos ativistas da transformação espiritual.

Porque a transformação autêntica não é uma questão de crença, e sim de morte do crente; não uma questão de interpretar o mundo, mas sim de transformá-lo; não uma questão de encontrar alívio, mas sim de encontrar o infinito no outro lado da morte. Não é dada importância ao self; ele é cremado.

Agora, embora obviamente eu venha favorecendo a transformação e minimizando a interpretação, o fato é que ambas as funções são incrivelmente importantes e inteiramente indispensáveis. A maioria das pessoas não nasce iluminada. Elas nascem em um mundo de pecado e sofrimento, esperança e medo, desejo e desespero. Nascem como um self ávido e pronto para contrair-se; um self prenhe de fome, sede, lágrimas e terror. E, bem cedo, aprendem várias maneiras de interpretar seu mundo, de fazer com que passe a ter sentido, de dar-lhe um significado e de defender-se do terror e da tortura que nunca estão suficientemente distantes da superfície feliz do self alienado.

E, apesar de nós, você e eu, podermos estar desejando transcender a simples interpretação e encontrar a transformação autêntica, a interpretação, por si só, é uma função absolutamente necessária e crucial na maior parte de nossas vidas. Aqueles que não conseguem interpretar adequadamente, com uma boa dose de integridade e precisão, caem rapidamente em sérias neuroses ou mesmo psicoses: o mundo pára de fazer sentido – os limites entre o self e o mundo não são transcendidos; ao contrário, começam a esfarelar-se. Não é uma descoberta importante (“breakthrough”) e sim um colapso (“breakdown”); não é transcendência, mas desastre.

Mas em algum ponto do nosso processo de amadurecimento, a própria interpretação, não importa quão adequada ou confiável, simplesmente cessa de consolar. Nenhuma nova crença, nenhum novo paradigma, nenhum novo mito, nenhuma nova idéia estancarão a angústia que se instala em nós. Aí, o único caminho que resta não é uma nova crença para o self, mas sim a transcendência do próprio self.

Mesmo assim, o número de pessoas que estão prontas para este novo caminho foi, é e sempre será muitíssimo pequeno. Para a grande maioria, algum tipo de crença religiosa aparecerá na qualidade de consolação: será uma nova interpretação horizontal que apresentará algum sentido para este mundo monstruoso. E, na maior parte do tempo, a religião tem sempre cumprido esta primeira função e se saído bem.

Assim, também uso a palavra legitimidade para descrever esta primeira função (a interpretação horizontal e a criação de significado para o self alienado). E muito da importante missão da religião é dar legitimidade ao self – legitimidade para suas crenças, seus paradigmas, suas visões de mundo, e seu caminho no mundo. Esta função da religião de prover legitimidade para o self e suas crenças – não importa quão temporária, relativa, não-transformadora ou ilusória – tem sido, todavia, a principal e mais importante função das tradições religiosas de todo o mundo. A capacidade de a religião prover significado horizontal, legitimidade e sanção para o self e suas crenças – esta função da religião, historicamente, tem sido a maior “cola social” de qualquer cultura.

E não se mexe facilmente, ou suavemente, na cola básica que mantém juntas as sociedades. Porque, na maioria das vezes, quando essa cola se dissolve, o resultado, como já dissemos, não é uma descoberta importante, mas um colapso, não libertação, mas caos social. (Voltaremos a este ponto crucial mais adiante.)

Enquanto a religião interpretativa oferece legitimidade, a religião transformadora oferece autenticidade. Para aquelas poucas pessoas que estão prontas – isto é, fartas do sofrimento do self alienado e que não mais aceitam a visão de mundo legítima – então uma abertura transformadora para a verdadeira autenticidade, para a verdadeira iluminação, para a verdadeira libertação torna-se cada vez mais premente. E, dependendo da sua capacidade para sofrer, você, mais cedo ou mais tarde, responderá à chamada para a autenticidade, para a transformação, para a libertação no horizonte perdido do infinito.

A espiritualidade transformadora não procura dar suporte ou legitimar nenhuma visão de mundo atual; ao contrário, ela provê a verdadeira autenticidade estilhaçando aquilo que o mundo considera legítimo. A consciência legítima é sancionada pelo consenso, adotada pela mentalidade de rebanho, aceita tanto pela cultura como pela contracultura, promovida pelo self alienado como o caminho para que este mundo tenha sentido. Mas a consciência autêntica sacode tudo isso de suas costas e, em substituição, fixa o olhar numa visão que vê somente um infinito radiante no coração de todas as almas e inspira em seus pulmões a atmosfera de uma eternidade muito simples de acreditar.

Assim, a espiritualidade transformadora, a espiritualidade autêntica é revolucionária. Ela não legitima o mundo; ela rompe com ele. Não consola o mundo, ela o estilhaça. E não dá importância ao self; ela o desfaz.

E esses fatos levam a diversas conclusões.

Ken Wilber



[1] Wilber usa self (com “s” minúsculo) para aquilo que o filósofo Huberto Rohden denomina “ego humano” e Self (com “S” maiúsculo) para o que Rohden chama o “Eu Divino”. (N. T.)
[2] Segundo Hegel, a alienação é um processo essencial à consciência, pelo qual ao observador ingênuo o mundo parece constituído de coisas independentes umas das outras. (N. T.)
[3] A roda das reencarnações. (N. T.)

De Ti ao Infinito

[...] O que vou fazer adiante é simplesmente "descrever" a Identidade não-dual agora mesmo, do modo como ela é imediatamente vista. O que se segue é fluxo de consciência, por isso perdoa qualquer falha. Simplesmente descontrai a mente e lê o que se segue levemente (se uma frase faz imediatamente sentido, bem, se não, continua lendo relaxadamente):

O que tu tens andado à procura é literalmente e exatamente O que lê esta página agora mesmo. Esta Identidade não pode ser encontrada pois nunca se perdeu: tu sempre tens visto que tu tens sido tu . Esta Identidade é uma condição permanente de tudo o que surge, é o espaço no qual tudo surge, nada tem fora de Si e por isso é Paz absoluta, e irradia sua própria beleza em todas as direções. O Confrade surge no espaço desta Identidade, o Confrade surge neste espaço infinito, nesta receptividade pura. O Confrade é um objeto, assim tal qual uma árvore ou uma nuvem que surge no espaço da Identidade que tu és. Agora não estou a falar ao Confrade, estou a falar para ti O que está ciente do Confrade é esta Identidade sempre presente. Esta Identidade está ciente do Confrade surgindo agora mesmo. Esta Identidade é Deus. Deus está lendo esta página. O Confrade não está lendo esta página, Deus está lendo esta página. A Identidade está ciente do Confrade e ciente desta página. Tu não és o Confrade. Tu és O que está ciente do Confrade. O que está ciente do Confrade é uma Identidade que em si mesma não pode ser vista mas unicamente sentida, sentida como uma certeza absoluta, uma inabalável Identidade, EU SOU este EU SOU eternamente, intemporalmente, interminavelmente. Só existe esta Identidade em todas as direções. Tudo surge espontaneamente no espaço desta grande perfeição que é esta Identidade, que está lendo esta página agora mesmo.

E tu, Confrade, és essa Identidade. Tu sempre tens visto que tu és esta Identidade. Nunca houve um momento em que não soubeste que tu és tu Não consegues recordar um momento no qual tu não foste tu. A única coisa que sempre podes recordar é aquilo que esta Identidade fez. Só existe esta Identidade. Não a podes alcançar, pois é ela que tenta o alcance, não a podes ver, pois é ela que realiza a visão agora mesmo, isto significa que, tudo simplesmente surge na Sua presença: o mundo inteiro surge na tua presença agora mesmo. Tu és esta extensão na qual tudo espontaneamente, sem esforço, surge. Tu és Este Primeiro. Tu sempre tens sido Este Primeiro. Só existe Este Primeiro. Não suponhas que O estás a encontrar. Não suponhas que te tens esquecido Dele. A única coisa que sempre tens conhecido, a única coisa que te é dado recordar, a única coisa que na verdade estás sentindo agora mesmo é Este Primeiro: a Identidade, a Presença, a qualidade de tudo, tal como é, e tal como surge na tua Presença – a simples sensação de Ser – que é tudo o que tu sempre sentes, permanentemente.

Olha as nuvens: elas estão surgindo na tua consciência: estão surgindo em ti. As nuvens estão fora do Confrade mas dentro da tua Identidade. Olha para o teu corpo e para esta sala. O teu corpo está nesta sala, mas ambos o teu corpo e esta sala surgem NA tua consciência. Tu estás literalmente sustentando-os amorosamente na tua consciência. As montanhas estão aparecendo na tua consciência: estão surgindo em ti e tu sustenta-las amorosamente na tua consciência, segurando o mundo que desponta no teu abraço, qual terno e radiante amor. As montanhas estão surgindo fora do Confrade mas no interior da tua Identidade. As nuvens, as montanhas, e o Confrade estão todos simultaneamente, e sem esforço, surgindo nesta Identidade, o leitor desta página. Tudo o que está surgindo surge neste inabalável EU SOU, que não é uma coisa ou um objeto ou uma pessoa, mas a receptividade ou clareira na qual todas as coisas e todos os objetos e todas as pessoas estão a surgir. Esta vacuidade, esta receptividade, este grandioso espaço é a tua Identidade, é O que tu sempre tens sido, é O que tu és antes de os teus pais terem nascido, é o que tu és antes de acontecer o Big-Bang. Antes de Abraão ser, EU SOU. Não há um antes e um depois para este instante presente, que a Identidade é. Só existe este instante, agora, da Identidade que está lendo esta página neste preciso momento. Não há um passado e um futuro neste interminável instante. Todos os antes e todos os depois surgem nesta consciência. Só existe esta sempre-presente, nunca-iniciada, nunca-terminada, não-nascida, imperecível, beleza radiante que está ciente desta página, que está ciente deste universo, e que encontra todos estes NO espaço que em si mesma é, e por isto, todas as coisas surgem na Paz inabalável que as sustenta facilmente com o seu amparo. O Confrade existe no universo; o universo existe na tua Identidade.

Por isso, sê esta sempre-presente Identidade que está lendo esta página. Não o estou a dizer ao Confrade, estou a falar para ti Deixa o Confrade aparecer e desaparecer como qualquer objeto. Permite que o Confrade apareça, fique por um pouco, e parta: o que tem isto a ver com a tua Identidade? Todos os objetos aparecem, permanecem, e partem no vasto espaço e vacuidade que está ciente deste momento, e este momento, e este momento, e este momento. Ainda assim, este momento não tem fim, tu na verdade nunca sentiste que o presente tenha chegado a um termo pois isso nunca acontece: o presente é a única coisa que é real: este instante imediato, presente, esta simples sensação de Ser, exatamente a mesma sensação-consciência na qual esta página flutua, e na qual o Confrade flutua, e na qual as nuvens flutuam. Quando tu sentes este instante presente, nada encontras fora dele – não é possível vislumbrar o exterior deste instante intemporal, pois nada existe além dele. Este instante, e este e este é tudo quanto tu conheces, e este instante imediato presente é simplesmente outro nome para a imensurável Identidade na qual surge o kosmos inteiro, uma radiante, rejubilante, extasiada dilatação de felicidade e um desejo de partilhar esta Alegria infinita com outra pessoa.

Porque esta página e as montanhas e as nuvens todas surgem na tua consciência, nada existe fora da tua Identidade. Que não existe literalmente nada exterior à tua Identidade significa que não existe literalmente nada que a possa ameaçar. Uma vez que conheces esta Identidade, tu conheces a Paz. Porque tu já és, diretamente, imediatamente, e intimamente um e idêntico a Aquele que está lendo esta página agora mesmo, tu conheces Deus agora mesmo, diretamente e imediatamente e inequivocamente e inegavelmente E porque conheces Deus agora mesmo, como a própria Identidade lendo esta página, tu sabes que finalmente, verdadeiramente, profundamente estás em casa, um lar que sempre diretamente tens conhecido e sempre tens fingido não conhecer.

Por isto, deixa de fingir. Reconhece que tu és Deus. Reconhece que tu és Perfeição. Reconhece que tu és a própria Verdade que os sábios têm procurado há séculos. Reconhece que tu és Paz acima da inteligência. Reconhece que estás tão arrebatadamente feliz que tiveste de manifestar este mundo inteiro só para gerar o testemunho da beleza radiante que não podias conter só em e para ti mesmo. Reconhece que a Testemunha desta página, a Identidade deste e todos os mundos, é o próprio e único verdadeiro Espírito que olha através de todos os olhos e ouve através de todos os ouvidos e se estende em amor e compaixão para abraçar os próprios seres que Ele mesmo criou numa extasiada dança que é o segredo de todos os segredos. E reconhece que estás Só, que és literalmente o Único em todo o universo: não há outros para este Primeiro. Há efetivamente outros para o Confrade, mas tanto o Confrade como os outros surgem na consciência que está lendo esta página, e esta consciência, esta Identidade, não tem um outro, pois todos os outros surgem nesta Identidade. Primeiro sem segundo é O que está lendo esta página.

Portanto, sê esse Primeiro. E dá também um abraço meu ao Confrade.

Ken Wilber


p.s. Compreendes, completamente, plenamente, indubitavelmente, que aquele que está lendo esta página é aquele que a escreveu, sim? O Confrade, e o Ken Wilber, e esta página, todos surgem na Testemunha desta página, percebeste? Difícil não é encontrar a Identidade, o que é impossível é fugir dela. Por isso deixa toda essa excitação do encontrar e do perder, e simplesmente sê Aquele no qual todos os mundos estão agora a surgir. Vá, põe-te então na rua e vê o mundo maravilhoso erguendo-se na tua própria sensação-consciência, surgindo no teu próprio Ser, e depois, como de costume, vai beber uma cerveja, ou qualquer coisa assim… 

Os limites da experiência supraconsciente

[...] Quanto mais avançavam estas experiências supraconscientes mais claro me ficava que todas elas não eram mais do que isso, simples experiências. Porque a experiência é, por definição, aquilo que tem um começo e um fim (estritamente temporal e estritamente relativa). Assim, quanto mais profundamente via a natureza da experiência , mais profundamente dela me desiludia. Admito que esses reinos são, num sentido especial, mais reais do que os planos material, corporal ou mental, ao menos tal como os conhecia, porém o fato era que esse desenvolvimento experiencial podia seguir de forma indefinida e que podia ter experiências cada vez mais e mais sutis ad infinitum

Creio que foi Hans Sachs, quem disse que a psicoanalise termina quando o paciente se dá conta de que pode seguir psicoanalisando-se durante toda sua vida. Foi esse tipo de compreensão, por assim dizer, o que me curou da fixação ao nível sutil, o complexo de Vishnu. Porque o complexo de Vishnu é precisamente a dificuldade que podemos ter em passar da alma sutil ao espírito causal. As experiências sutis são tão beatificas, maravilhosas, profundas e benéficas que nunca se tem o desejo de abandoná-las, nunca se quer delas se soltar, senão, muito ao contrário, se deseja nelas se banhar para sempre em sua glória arquetípica e em sua imortal libertação. É esse, precisamente o complexo de Vishnu. Se o Complexo de Apolo é a cruz que devem suportar os inexperientes meditadores, o complexo de Vishnu é o grande sedutor de todos os praticantes intermediários. 

Porém, meu adestramento no Zen coincidia com minha compreensão (não importa o qual superficial) de Krishnamurti, de Shankara, de Sri Ramana Maharshi, de São Dionísio e de Mestre Eckhart, segundo os quais o estado último não é, de modo algum, uma experiência. Não e trata de uma experiência concreta entre outras, senão da mesma natureza e fundamento de toda experiência, tanto superior como inferior. É o imenso fundamento ou Abismo (Ruysbroeck) do qual emanam as numeráveis realidades experienciais. Em si mesmo, portanto, não é nenhum tipo de experiência e não tem nada a ver com as troca de estado, com saber isto ou aquilo, com ver isto ou mais além, com este ou aquele sentimento, porque é anterior a tudo isso, a mesma natureza deste, deste e também deste instante, antes de ser qualquer outra coisa, é o que vejo antes de qualquer outra coisa e o que sinto antes de qualquer outra coisa. Por isso se diz que o Tao muito mais além do saber ou não saber, do correto e do equivocado. 

— Que é o Tao? - perguntou Chao-Chou.
— Tua consciência ordinária é o Tao - respondeu o mestre Nan-chuan.
— Mas, como podemos nos harmonizar com ele?
— Quando você tenta fazê-lo não faz mais do que afastar-se dele.
— Mas, como poderei, senão tentar, conhecer o Tao?
— O Tao -concluiu o mestre - é anterior ao saber e ao não saber. O conhecimento é a falsa compreensão e o não conhecimento é simples ignorância. Se você realmente compreende o Tao que precede a dúvida, concordará comigo em que ele é como o céu vazio. Para que derivar para o correto ou para o equivocado?  — [Alan Watts, Tao: The whatercourse way]

Digamos de outro modo: os Upanishads afirmam que Brahman não é um entre muitos, senão o um sem segundo; não um objeto em particular, senão a realidade de todos os objetos. Porém eu estava tratando de apressar a Totalidade como se trata-se de uma experiência concreta — uma Grande Experiência, dizendo a verdade, porém nada mais que uma experiência —, e isso é precisamente o que impede o descobrimento (porque uma experiência é um conhecimento ou  um não-conhecimento e, em consequência, não é anterior a ambas). este é o motivo pelo qual o Zen desdenha todas as experiências superiores com o nome pejorativo de makyo, que quer dizer "ilusões sutis". Segundo o Zen, muitas outras tradições tomam equivocadamente makyo pelo estado último, pelo simples fato de que essas experiências extraordinárias são, na realidade, mais reais que os estados ordinários. Não obstante, todas as experiências, altas ou baixas, ficam muito longe da consciência não dual e, como tais, devem ser superadas. 

O assunto é que todas as experiências, sagradas ou profanas, altas ou baixas, baseiam-se na dualidade entre sujeito e objeto, entre o vidente e o visto, entre o experimentador e a coisa experimentada. Até nesta esfera da alma, incomparavelmente mais real que os níveis anteriores da matéria, o corpo e a mente, não são outra coisa mais do que um sujeito mais sutil e um objeto mais extraordinário. A testemunha destes estados divinos todavia se mantém intacta. O despertar real, sem dúvida, consiste na dissolução da Testemunha e não numa mudança de estado do que se testemunha.

Por isso sempre se tem dito que algumas formas de indagação do tipo "Quem sou eu?", "Quem canta o nome de Buda?", "Quem deseja libertar-se?" é o caminho básico, talvez o único caminho mais além da testemunha (e do Complexo de Vishnu). Não, pois, "Eu devo estar sempre ser consciente da respiração", mas sim, "Quem é consciente da respiração?", não "Eu compreendo o Koan", mas sim, "Quem compreende o Koan?" O efeito dessas perguntas consiste em liberar a atenção dos objetos da consciência e orientá-la para a própria consciência. Mas precisamente, a pergunta desvia a atenção da própria atenção e a dirige para a própria natureza da atenção, que é uma espécie de contração ou resistência sutil. Qualquer atenção — inclusive a "atenção passiva" e muitas outras formas de consciência sutilmente motivada — é exclusiva, porque atende a isto ao mesmo tempo que ignora aquilo ou, em outras palavras, é dualista. Essas são meras contradições subjetivas no Campo da Consciência. Porém, com esse tipo de pergunta a contração subjetiva que é a atenção se converte no objeto da atenção, quer dizer, o sujeito se converte no objeto e o objeto se converte no sujeito, o que rompe a fronteira que existe entre ambos e os faz desaparecer como entidades exclusivamente separadas. O único então que fica é uma consciência inicial, radiante, uma consciência sem obstrução uma consciência que impregna a tudo, uma consciência anterior que não é subjetiva nem objetiva, senão total.

A primeira vez que tornei-me consciente deste fato — uma consciência certamente fugaz — foi durante um retiro intensivo Zen (sesshin). Ao quarto dia apareceu, por assim dizer, o estado de testemunha, a testemunha transpessoal, que instante atrás de instante testemunha, de um modo estável, sereno e claro, todos os objetos que aparecem. Até no sonho, simplesmente se testemunha e pode ver o começo, o desenvolvimento e o final do sonho (o que Charles Tart tem denominado como "Sonhos Lúcidos"). O roshi (monge mais antigo), sem dúvida, permanecia completamente impassível diante todo desenvolvimento das ilusões sutis (makyo). "A testemunha — dizia — é a última fortaleza do ego".

Nesse momento desvaneceu-se completamente toda testemunha, não havia nenhum sujeito nem objeto em nenhuma parte do universo, só havia universo. Tudo estava surgindo instante atrás de instante e estava aflorando em mim e como eu, mas não havia o eu. E é muito importante dar-se conta de que esse estado não supõem diminuir alguma de nossas faculdades senão, muito ao contrário, uma expansão de todas elas, não um transe vazio senão uma perfeita claridade, não uma despersonalização senão uma transpessoalização. Nenhuma das faculdades humanas — língua, lógica, conceitos ou habilidades motoras — se perdeu nem se debilitou. Muito ao contrário, pela primeira vez me pareceu que todas elas funcionavam de um modo completamente aberta, despojadas das defesas impostas pela sensação de identidade separada. Esse estado completamente aberto, indefeso e não dual era, ao mesmo tempo, incrível e profundamente ordinário, tão extraordinariamente ordinário que nem sequer era registrado, porque não havia ninguém ali para compreendê-lo, até que, umas três horas mais tarde, saí dele.

Dito em outras palavras, nesse estado não há nenhum tipo de experiência, senão tão  esse estado que é a Totalidade emergindo instante atrás de instante. Eu não podia contemplar nem experimentar tudo isso senão que, simplesmente, era tudo isso. Não podia ver, porque era tudo o que era visto, não podia ouvir porque era tudo que era ouvido e tampouco podia conhecer porque era todo o conhecido. Por isso é, ao mesmo tempo, um grande mistério e o perfeitamente evidente. Mas foi só quando me dei conta de que estava nesse estado é que na verdade eu não estava nele. O reconhecimento ou a experiência desse estado é menos, muito menos, que o próprio estado porque, para experimentar esse estado, devo separar-me dele (quer dizer, destruí-lo).

A partir desse momento comecei a desconfiar de todos os transpersonalistas que se referem aos estados superiores como "realidades experienciais", apesar de que eu fizera o mesmo em "O espectro da Consciência". Também dei-me conta da inadequação do paradigma de "estados alterados", muito útil em outros casos, mas completamente inadequado para referir-se ao último domínio espiritual, porque esse domínio (melhor dizer, esse "não-domínio") é, na verdade, o que todos os estados têm em comum e que, em si mesmo, não é nenhum estado, como o alfabeto tampouco é nenhuma das letras que o compõem.

Mas todas essas viagens pelos reinos sutis, lutando com o complexo de Vishnu e penetrando na manifestação da verdade em forma absoluta (Dharmakaya) — por mais parcial, inicial e incompleto que possa ter sido — me proporcionou, ao menos, uma sólida introdução e de primeira mão às distintas esferas mais elevadas da consciência. Esse substrato me permitiu regressar com mais facilidade à literatura das tradições transpessoais e estabelecer uma uma classificação bastante exaustiva dos distintos domínios superiores aos que habitualmente se condensa com os nomes de "transpessoal", "transcendente" e "místico". Então, foi quando subdividi o reino transpessoal em, ao menos, quatro ou cinco níveis baseados na análise estrutural. Com essas subdivisões do espectro e as Depois do Éden, acabei esboçando um mapa mais ou menos completo da consciência, uma cartografia que, ainda que imperfeita e, em ocasiões, tida por difusa, ao menos, o mérito de ser compreensiva. Os refinamentos viriam com o correr dos anos; entretanto, apresentei este mapa em O Espectro do Atman, com muitos desenhos de referência que mostravam a inter-relação existente com as principais escolas da psicologia do oriente e do Ocidente.

Ken Wilber em, A Pura Consciência de Ser

Lágrimas de gratidão, de compaixão e indignidade

Quando acabei de escrever A Consciência sem Fronteiras (1979), minha prática da meditação, ainda que não precisamente avançada, havia superado a etapa do iniciante. A dor nas pernas (provocada pela postura de lotos) já se mostrava suportável e minha consciência era cada vez mais capaz de manter uma postura atenta porém não relaxada, ativa ao tempo que desidentificada. Mas minha mente, como dizem os budistas, todavia assemelhava-se a de um macaco, compulsivamente ativa  e dominada pela obsessão. Então foi quando tropecei com o Complexo de Apolo, a dificuldade de avançar da esfera mental para a esfera sutil. A esfera sutil (ou, como costumam chamá-la os místicos cristãos, a "alma") é o primeiro dos domínios transpessoais e, nesse sentido, é transmental, transegoico e transverbal. Mas para alcançar essa esfera, deve-se (como ocorre em todas as transformações) "abandonar" a esfera inferior (neste caso, o mental-egoico). O Complexo de Apolo reflete o fracasso em dar esse passo. Do mesmo modo que, quem padece do complexo de Édipo, permanece inconscientemente atado ao corpo e seus prazeres, quem está conflitado do Complexo de Apolo permanece inconscientemente preso à mente e a seu princípio de realidade (que aqui significa "a realidade institucional, racional e verbal" que, ainda que convencionalmente seja bastante real, não é mais que uma fase intermediária no caminho que conduz até o Atman, quer dizer, uma mera descrição da Verdadeira Realidade, de modo que se nos aferramos a ela, acabará impedindo o descobrimento da Autêntica Realidade. 

A luta com meu próprio "pensamento obsessivo-compulsivo" — não com determinados pensamentos obsessivos (vestígios do Complexo de Édipo), senão com o mesmo fluxo dos pensamentos — foi uma tarefa muito difícil. Fui suficientemente afortunado de fazer algum progresso que acabou permitindo-me elevar-me acima das flutuações das contradições mentais e vislumbrar, ainda que só por um instante, um reino incomparavelmente mais profundo, mais real, mais saturado de ser e mais aberto à claridade. Esse reino era o reino sutil que aflora, por assim dizer, depois de haver usado o Complexo de Apolo. E não se trata de que, neste reino, o pensamento necessariamente cesse (ainda que frequentemente o faz, sobretudo no começo), senão que, quando se apresenta, não se quebra do fundamento mais amplo de claridade e consciência. No nível sutil, você "já não se perde nos pensamentos", senão que os pensamentos aparecem na consciência e se desvanecem com a mesma graça, suavidade e clareza com que as nuvens dobram o céu, sem nenhum chiado ou grito. Como disse Chuang Tzu: "O homem perfeito emprega sua mente como um espelho, sem aferrar-se a nada, registrando tudo e sem cair, contudo, com nada". 

Na meditação real, sem dúvida, as experiências do mundo sutil podem ( e frequentemente) ser extraordinárias, maravilhosas e profundas, porque esse é o domínio dos arquétipos e das deidades arquetípicas cuja confrontação é sempre, como dizia Jung, numinosa. Essa foi, para mim, uma época muito real e muito intensa, foi minha primeira experiência direta e inequívoca da sacralidade real do mundo, este mundo que, como disse Plotino, constitui uma emanação e uma expressão do Único. Certamente que já havia tido breves dicas do reino sutil — e inclusive do reino causal que se encontra mais além dele —, contudo não havia entrado nem havia sido iniciado nesse nível. Em certa ocasião, um mestre Zen disse que a resposta mais adequada ao primeiro Kensho (o pequeno satori) não é rir, senão chorar, e isso foi precisamente o que fiz, ao surgir, durante várias horas. Lágrimas de gratidão, de compaixão, de indignidade e, finalmente, de infinita maravilha. (E devo dizer que isto não tem nada a ver com a falsidade humana, porque não conheço ninguém que não seja digno desse domínio). O riso — uma enorme gargalhada — só vem depois já que, neste ponto, teria sido um sacrilégio. 

A isso seguiu-se, em minha prática meditativa, um tour pelos domínios do sutil. Minha descrição favorita deste reino procede de Dante e lhe asseguro que o que disse é literal:
Fixando meu olhar na Luz Eterna
Vi nas suas profundezas,
Unidas com amor em um só volume,
As folhas dispersas de todo o universo.
Dentro da profunda subexistência luminosa.
Dessa Luz exaltada vi três círculos,
De três cores porém de uma só dimensão
E pelo segundo parecia o primeiro refletido
Como o arco-íris é pelo arco-íris, e o terceiro
Parecia fogo que é igualmente exalado por ambos. 
Nessa época descobri a obra de Kirpal Singh, que me foi de grande utilidade para aclarar minhas experiências nesse domínio. Na minha opinião, Singh é o mestre insuperável dos reinos sutis e sem sua guia (ainda que fosse através de um livro), duvido muito que teria podido atravessar tão fácil e rapidamente alguns desses reinos. O ponto central do ensinamento de Sigh é que, dentro do reino sutil, existe uma hierarquia, de audíveis iluminações, o chacra shabd cada vez mais sutil até e mais além dos chacras (como o ajna e o sahasrara) que as escolas de ioga mais antigas e menos sofisticadas consideram últimos. Toda sua abordagem é hierárquica, evolutiva e dinâmica, e se encaixa perfeitamente com minha própria filosofia, de modo que não tive que perder tempo em aprender ou em discutir sua posição senão que, simplesmente, podia usá-la. 

Entretanto, eu havia vislumbrado os reinos sutis e havia tido experiências introdutórias no mundo dos arquétipos, da deidade, do yidam (mente sagrada, nos termos budistas), e do ishtadeva (objeto de devoção nos termos hindus). Tratava-se, sem dúvida alguma, das experiências mais profundas que jamais havia tido e, o que é mais importante, já estava bastante familiarizado (em teoria, pelo menos) com as experiências que podem ser produzidas pelos impulsos subconscientes, todas as imagens "mágicas" e "alucinatórias" descritas por Freud e seus colegas, de modo que não caí na falácia de confundir as experiências supraconscientes com uma espécie de renascimento subconsciente. Na minha opinião, qualquer um que tenha estudado cuidadosa e pessoalmente estes distintos reinos reconhecerá de imediato as profundas diferenças que existem entre as representações prepessoais, subconscientes e instintivas e as transpessoais, supraconscientes e arquetípicas. As escolas orientais são muito explicitas ao assinalar as grandes diferenças existentes entre as implantações emocionais-sexuais (pranamaya kosa) e as intuições arquetípicas (anandamaya kosa)

Ken Wilber em, A Pura Consciência do Ser

Relato de um confrade agraciado e agradecido

Estava sozinho como de costume, e sempre mergulhando nos ensinamentos de Jiddu Krishnamurti. Assistia aos videos e lia alguns textos virtuais. Além disto acabara, por pouco tempo, de conhecer a página dos pensadores compulsivos juntamente com seus áudios.

Era um tempo alegre, pois a busca me trazia certa alegria. No entanto a dor permanecia, estava desiludido com todo o mundo. Nada mais fazia sentir. Estava desprendido de qualquer tipo de relação estreita ou familiar e de amizade. O trabalho estava largado, deixado a deriva. Não fazia parte de nenhuma crença organizada há um bom tempo.

Permanecia sozinho, pois só isto bastava para seguir seriamente e com muita paixão. A busca me puxava, fazia eu acordar pela manhã, e tirava o meu sono.

Era um tempo difícil mas, muito alegre. Já difícil de explicar.

Queria a verdade, pois o mundo já tinha mostrado a cara. E era isto que fazia eu praticar tudo o que eu aprendia.

Num dia de fim de semana, com um céu de poucas nuvens. Estava eu, ainda sozinho a refletir, meditar, observar e contemplar sobre o tapete de um ensinamento específico de Krishnamurti - a palavra não é a coisa.

Já estava com a verdade, mas ainda não tinha esta visão.

Na varanda, tinha-me um pequeno pedaço de céu, uma árvore ao lado, com lindas flores vermelhas, um cachorro, e ao longe alguns topos de outras árvores.

Então o processo se mostrou intenso:

Olhei para o céu e pensei: a palavra céu não é céu. Ela não diz sobre o que vejo, não trata do infinito. Se eu digo céu, uma pessoa pode imaginar um todo estrelado, já outra pessoa pode ter como um céu azul, ou nublado, enfim.

Olhei para a árvore e pensei: a palavra árvore não é o que vejo, pois eu chamo isto de árvore, mas o indiano chama de outra coisa, o japonês de outra, o índio de outra..., e no entanto a coisa está aqui, frente à mim.

Olhei para o cachorro, e pensei: o cachorro não tem nada haver com a palavra cachorro, pois a palavra cachorro não expressa o que vejo agora.

Olhei para o nada e pensei: a palavra deus não é deus porque não alcança o real significado do que é.

Quando eu ia voltar a palavra a mim, e continuar o processo... Bummm!!!

De repente, do nada..., eu, o cachorro, a árvore, os topos das árvore, e tão logo tudo ao meu redor, todo o meu entorno, até mesmo as coisa que eu não enxergava, e rapidamente todo o universo, era a mesma Coisa.

Eu mesmo já não existia mais, e juntamente comigo tudo, absolutamente tudo, não existia mais. Era o amor, a paz, e o infinito no mesmo lugar. Uma energia fora do comum.

Depois de pouquíssimo tempo, coisa de segundos, entre os cinco, eu estava de volta. Andando rápido de um lado para outro, já dentro de casa, com a mão na cabeça, me perguntando: — O que foi isso, o que foi isso, meu deus o que foi isso?! E logo já estava chorando muito, como nunca antes. Era o choro mais profundo que se pode ter (ainda choro, até hoje, e agora tenho meus olhos encharcados por relembrar...). Caí no chão, ainda num choro de soluçar. A cabeça já estava de volta, mas tinha nela uma energia profunda de culpa, dizia-me que eu não era digno de receber uma graça daquela, que Aquilo poderia acabar com todo o sofrimento da humanidade, que eu não era um merecedor. Já estava em estado de compaixão profunda. E ainda no chão passei quase meia hora chorando (nunca imaginei que pudesse existir Aquilo, nunca ouvira antes alguém tratar disto).

Então me levantei, ainda chorando, e escrevi num pedaço de papel: é preciso saber que não és Nada, para veres que és Tudo.

Passei anos procurando por pessoas que tiveram aquilo também. Encontrei-me com a inveja alheia, a mentira, e ironia de muitos. Graças ao nome do universo, pude encontrar com Deca e Out, que tiveram o mesmo, e me ajudam muito a poder caminhar, seguir em frente! 

Grato Deca, grato Nelson! Não me canso de agradecer-lhes, ainda.

(por conta desta experiência, digo aos demais confrades que pratiquem, exercitem tudo o que aprendem, mas de forma intensa e, principalmente com muita seriedade e paixão, pois não há outra coisa a se fazer neste lugar, neste mundo)

Um confrade agraciado e agradecido

Breve relato de Nisargadatta Maharaj

Encontrei meu guru quando tinha 34 anos e me realizei aos 37[...] O prazer e a dor perderam seu poder sobre mim. Fiquei livre de desejos e temores. Encontrei-me pleno, sem necessitar nada. Vi que no oceano da Consciência pura, na superfície da consciência universal, as numerosas ondas dos mundos fenomênicos emergiam e desapareciam sem princípio nem fim. Como consciência, todas são minhas. Como fatos, todos são meus. Há um misterioso poder que cuida deles. Este poder é a Consciência, o ser, a vida, deus, não importa o nome que lhe dê. É o alicerce, o último apoio de tudo o que existe, da mesma forma que o ouro é a base de todas as jóias. E é tão intimamente nosso! Abstraia o nome e a forma das jóias e o ouro se torna óbvio. Liberte-se do nome e da forma e dos desejos e temores que criam, e o que permanece?[...] permanece o vazio. Mas o Vazio está cheio até a borda. É o eterno potencial, como a consciência é o eterno presente.

[...] Meu destino foi nascer um homem simples, comum, um humilde comerciante, com pouca educação formal. Minha vida era do tipo comum, com desejos e temores comuns. Quando, através da fé em meu mestre e pela obediência a suas palavras, realizei meu verdadeiro ser, deixe para trás minha natureza humana para que cuidasse de si mesma, até que seu destino terminasse. Ocasionalmente aparece na mente uma velha reação, emocional ou mental, mas é advertida e desprezada de imediato. Depois de tudo, enquanto alguém levar a carga de uma pessoa, está exposta a suas idiossincrasias e hábitos.[...] Eu já estou morto... Estou duas vezes morto. Não só para um corpo, mas também para a mente. Nisargadatta Maharaj  

Nisargadatta Maharaj

Eu sou, consciência

Eu sou o rei do mundo!
As pessoas frequentemente acham-se presas pela vida, presas pelo universo, porque acreditam estar dentro do universo e que, em consequência, o universo pode esmagá-las como se se tratasse de um bicho. Porém, essa suposição é falsa porque tu não estás no universo, senão o universo é que está em ti. 

A crença habitual é a seguinte: minha consciência está em meu corpo (fundamentalmente em minha cabeça), meu corpo está nesta habitação e esta habitação está no espaço que me rodeia, o próprio universo. Se bem que, de uma certa perspectiva, isso é certo, da perspectiva do Eu se mostra completamente falso. 

Quando descanso na Testemunha, no Eu-Eu sem forma, é evidente que, neste mesmo instante, não estou em meu corpo, senão que meu corpo está em minha consciência. Eu sou consciente de meu corpo e, portanto, não sou meu corpo. Eu não estou em meu corpo, senão que meu corpo está em minha consciência. Eu sou, por conseguinte, consciência.

Quando repouso na Testemunha, no Eu-Eu sem forma, é evidente que, neste mesmo instante, não estou nesta casa, senão que esta casa é que está em minha consciência. Eu sou, portanto, consciência.

Quando dirijo meu olhar para fora desta casa para o espaço circundante — talvez uma grande extensão de terra, uma grande abertura no céu, outras casa, árvores e automóveis —, quando olho, em suma, o universo que me rodeia e repouso na Testemunha, no Eu-Eu sem forma, é evidente que, neste mesmo instante, eu não estou no universo, senão que o universo é que está dentro de minha consciência. Eu sou a Testemunha pura em que agora mesmo emerge este universo. Eu não estou no universo, senão que o universo é que está em minha consciência. Eu sou, por conseguinte, consciência.

É certo que a matéria física de teu corpo se acha dentro da matéria da casa e que a matéria da casa se encontra dentro da matéria do universo. Porém tu não és algo somente físico, tu és algo mais que matéria, tu também és Consciência, da qual a matéria não é mais que uma mera concha. Quando o ego adota o ponto de vista da matéria, acaba preso na matéria e se vê, portanto, continuamente torturado pelo aspecto físico da dor. Porém, a dor também emerge em tua consciência e tu podes encontrar-te na dor ou, quando repousas na imensidão da Vacuidade pura que constitui tua identidade mais profunda, podes dar-te conta de que é a dor que se acha em ti, de que és tu o que inclui a dor, de que és maior que a dor e de que, em consequência, a transcendes.

O que é, pois o que sou? Se me contraio no ego, parece que estou confinado no corpo, que por sua vez está confinado na casa, que por sua vez está confinada no imenso universo que a rodeia. Mas quando repouso na Testemunha — a consciência aberta, imensa e vazia —, se mostra evidente que eu não estou no corpo, senão que o corpo está em mim, que eu não estou nesta casa, senão que a casa está em mim, e que eu não estou no universo, senão que o universo está em mim. Tudo isso é o que emerge no Espaço imenso, vazio, puro e resplandecente da Consciência primordial, agora e também agora e eternamente agora.

Eu sou, por conseguinte, consciência.

Ken Wilber em, One Taste

O caminho de retorno ao Espírito

A alma, no sentido em que agora estou usando o termo, é uma espécie de estágio de transição entre a mente-ego pessoal e o espírito impessoal ou transpessoal. A Alma é a Testemunha que resplandece dentro de ti. Por isso digo que a alma é o lugar da Testemunha. Quanto te assentas na alma, o fazes como Testemunha, como Eu Verdadeiro. Quando transcendes o nível da alma, a Testemunha se funde com tudo que observa e és um com tudo aquilo com o que tens na consciência. Não se trata então de que observas as nuvens, porque haverás te convertido nas próprias nuvens. Isso é o Espírito...

A partir de certa perspectiva, a alma ou a Testemunha é o estágio mais elevado do caminho de retorno ao Espírito porém, por outra perspectiva, é o último obstáculo que nos impede de acessar ao Espírito. Somente da Testemunha podes, por assim dizer, saltar ao Espírito porém, chegado o momento, até mesmo a Testemunha deve dissolver-se ou morrer. É que, para poder alcançar tua identidade suprema com o Espírito, tua alma deve ser sacrificada, liberada e abandonada e deve morrer. Em última instância, a alma não é mais que a última contração da consciência, o nó mais sutil que contrai o Espírito universal, a última e mais sutil forma de sensação de identidade separada. E esse nó final também deve ser desatado. Essa é, por assim dizer, a última morte. Primeiro morre o material, — quer dizer, nos desidentificamos dele —, logo morre a identidade exclusiva com o eu corporal, logo ocorre o mesmo com o eu mental e finalmente com a alma. este último é o que o zen denomina a Grande Morte. 

Ken Wilber em, Graça e Coragem

O Testemunhar imparcial

A Testemunha não se identifica com o ego nem com nenhum outro objeto mental, porque é a testemunha imparcial de todos os objetos. Porém ai precisamente é onde radica o problema, porque a Testemunha se mantém separada de todos os objetos que observa ou, em outras palavras, segue sendo uma forma muito sutil de dualismo sujeito/objeto. A Testemunha é um grande passo a frente e constitui uma fase imprescindível e necessária da meditação, porém, não é a última. Quando finalmente se desvanece, a alma ou a Testemunha acaba dissolvendo-se naquele que testemunha. Então desaparece a dualidade sujeito/objeto e só há pura consciência não dual pura, que é muito simples e muito evidente... Tudo segue discorrendo, instante atrás de instante, porém não há nada divorciado ou separado disso. O que vês fora é o mesmo que vês dentro. Não há separação nem fragmentação alguma entre sujeito e objeto, senão tão só um contínuo fluxo de experiência, perfeitamente clara, luminosa e aberta. Agora sou tudo o que aparece. 

Ken Wilber em, Graça e Coragem


A borda do abismo que te conduz ao teu Rosto Original

No caminho que leva a Um Só Sabor, as pessoas frequentemente incorrem em dois tipos de erros. O primeiro deles tem lugar quando se estabelece com a Testemunha e o segundo ao passo que conduz desde a Testemunha até o Um Só Sabor. 

Vejamos. Existe a crença de que, no momento em que se estabelece contato com a Testemunha (com o Eu-Eu) experimentará algo muito especial. Mas o certo é que, nesse momento, não se vê nada, senão que simplesmente contempla tudo quanto aparece, porque isso não é algo que possa ver-se senão o Vidente puro e vazio. As luzes, as beatitudes e as visões súbitas não são mais que objetos e, em consequência, não tem nada a ver com a Testemunha ainda que finalmente, em Um Só Sabor, a pessoa se torne em tudo o que vê, não pode começar tratando de fazer isso — tratando de ver a Verdade —, porque essa própria intenção impedirá seu próprio emergir. Por isso temos que partir de "neti, neti" (eu não sou isto, eu não sou isso). 

De modo que o primeiro erro impede a presença da Testemunha tratando de convertê-la num objeto que pode ser pego, quando o certo é que o Vidente de tudo quanto aparece é só pode ser "experimentado" como o substrato da Liberdade e Liberação de todos os objetos. 

Quando descansas nessa Liberdade e Vacuidade — contemplando uniformemente tudo quanto emerge —, te dás conta de que o eu separado (o ego) aparece em tua consciência qualquer outra coisa. E isso é algo que podes sentir do mesmo modo que podes sentir tuas pernas, uma mesa, uma pedra ou teus próprios pés. A contração em si mesmo se experimenta como uma tensão interior que, muitas vezes, se acha localizada atrás dos olhos e se escora na forma de uma leve tensão muscular em todo corpo-mente. É uma sensação de contração diante o mundo, uma ligeira tensão que afeta a totalidade do corpo. Observe, simplesmente, essa tensão. 

Quando se repousa na Testemunha vazia e se percebe dessa contração supõem-se de forma errônea que, para avançar finalmente desde a Testemunha até o Um Só Sabor, deve-se desembaraçar-se dela (libertar-se do ego). E esse é o segundo erro, um erro que não faz mais que fortalecer a tensão. 

Acreditamos que a contração em si mesma oculta ou eclipsa o Espírito quando, de fato, — como ocorre com qualquer Forma do universo —, não é mais que outra de suas resplandescentes manifestações. Todas as Formas — inclusive a forma do ego — não são mais que Vacuidade. E mais, o único que deseja se desembaraçar do ego é o próprio ego. O Espírito ama tudo o que emerge tal como é, e o mesmo ocorre com a Testemunha. A Testemunha ama o ego, porque a Testemunha é a mente-espelho uniforme que reflete e abraça com a mesma aceitação tudo quanto aparece. 

Mas o ego decide julgar ao jogo de desembaraçar-se de si mesmo porque, enquanto isso, seguirá existindo (quem, senão, está julgando?). Como disse Chuang Tzu há muito tempo: "Não é por acaso o desejo de libertar-se do ego uma manifestação a mais do ego?"

O ego não é mais que uma tensão sútil e não é possível recorrer à tensão para livrar-te da tensão porque, em tal caso, acabarias com duas tensões no lugar de uma. O ego é uma manifestação perfeita do Divino e opera melhor repousando na Liberdade do que tratando de desembaraçar-se de si mesmo, o qual, aliás, não faz senão intensificar ainda mais a contradição. 

Qual é, então, a prática mais adequada? Quando repousas na Testemunha, quando repousas no Eu-Eu, quando repousas na Vacuidade, simplesmente presta atenção na contradição em ti mesmo. Descansa na Testemunha e observa essa contradição porque, para senti-la, para contempla-la, deves ter se desidentificado — e, em consequência, já ter se liberado — dela. Então, estarás olhando a partir da posição da Testemunha que sempre se encontra completamente livre de todos os objetos. 

De modo que repousa na Testemunha e perceba-te da contradição em ti mesmo exatamente do mesmo modo em que podes sentir a cadeira em que estás sentado, a terra ou as nuvens que flutuam no céu. Os pensamentos flutuam na mente, as sensações flutuam no corpo, a contradição em ti mesmo flutua em tua consciência e tu contemplas tudo de um modo espontâneo e uniforme.

Nesse simples estado, comodo e sem esforço, não estás tratando de desembaraçar-te da contração, senão que simplesmente estás sentindo-a e, enquanto repousas na Grande Testemunha ou Vacuidade que és, Um Só Sabor poderá resplandecer com mais facilidade. Não há nada que possas fazer para provocar (ou causar) Um Só Sabor, porque este não é o resultado de ações temporais, sempre está completamente presente e jamais te afastas-te um ponto dele.

O máximo que podes fazer, por meio do esforço temporal, é evitar estes dois grandes erros. Não pretendas, pois, ver a Testemunha como um objeto, limita-te a repousar Nele enquanto que Vidente e tampouco trates de desembaraçar-te do ego, senão que deves dedicar-te, simplesmente, a percebe-lo. É assim como chegarás a colocar-te na borda do abismo que conduz ao Rosto Original.

Descansa na Testemunha e dá-te conta da contração em ti mesmo, porque esse é precisamente o âmbito em que resplandece com mais intensidade Um Só Sabor. Porém, não o faças para conseguir aquilo isto ou aquilo, senão de um modo espontâneo durante todo o dia e toda a noite, permanecendo de pé à borda de sua mais surpreendente reconhecimento.

Estes seriam os passos que deverias dar:

Descansa na Testemunha e experimenta a contração em ti mesmo e, quando o fizer, da-te conta de que a Testemunha não é a contração, senão que simplesmente seja consciente dela. A Testemunha está livre da contração... e tu és a Testemunha.

Enquanto que testemunhas, tu estás livre da contração em ti mesmo. Repousa nessa Liberdade, Abertura, Vacuidade e Liberação. Experimenta essa contração e deixe-a ser, do mesmo modo em que permites a existência de qualquer outro tipo de sensação. Não trates de livrar-te das nuvens, das árvores, ou do ego, deixa-os ser enquanto permaneces relaxado no espaço aberto da Liberdade que és.

Nesse espaço de Liberdade — e de um modo espontâneo — podes observar que a sensação  de Liberdade carece de interior e exterior, de centro e de periferia. Os pensamentos flutuam nessa Liberdade, o céu flutua nessa Liberdade, o céu flutua nessa Liberdade, o mundo emana dessa Liberdade e Tu és ISSO. O céu é tua cabeça, o ar tua respiração, a terra teu pé, e tudo isso de um modo imediato e íntimo. Quando descansas nessa Liberdade, que é Plenitude infinita, te convertes na totalidade do mundo.

Este é o mundo de Um Só Sabor, um mundo que não tem dentro nem fora, sujeito nem objeto, aqui nem fora daqui, um mundo que carece de origem e de final, de objetivos e de meios, de caminho e de meta. Esta, como disse Ramana Maharshi, é a verdade última.

Isto é o que poderíamos denominar de um "exercício capital". Porém, não o faças em lugar de, senão além de, qualquer outra prática (centramento, vipassana, oração do coração, zikr, zazen, yoga, etc.). Todas estas práticas estão orientadas a permitir-te adentrar num determinado estado de consciência, porém, Um Só Sabor não é nenhum estado específico de consciência, é compatível com todos e cada um dos estados, como a umidade impregna completamente todas e cada uma das ondas do oceano. Talvez uma onda possa ser maior que a outra, porém, nem por isso estará mais úmida. Um Só Sabor não é uma onda específica senão a umidade da água e, por conseguinte, as práticas específicas (desde a oração até a vipassana e a yoga) não servem para entrar no Um Só Sabor. Todas as práticas têm sido desenhadas para permitir entrar numa onda específica — habitualmente uma onda muito grande — e isso é bom, porém, Um Só Sabor é a umidade que impregna até a mais pequena das ondas, de modo que estarás bem em qualquer onda de consciência que agora te encontres, Repousa nessa onda, dá-te conta da contração em ti mesmo e permanece Livre.

Mas não abandones tuas outras práticas, porque elas te permitirão, em primeiro lugar, entrar nas ondas específicas e importantes de tua consciência (psíquica, sutil e causal), todas as quais são veículos necessários para a manifestação plena do Espírito. Em segundo lugar, o fato de que Um Só Sabor seja demasiado simples para nele acreditar e demasiado fácil de alcançar através do esforço supõem que a maior parte das pessoas jamais observaram que a onda na qual agora se encontram já está molhada, jamais observaram a Mortalidade de seu presente estado e perderam tempo buscando uma onda maior e melhor sobre a qual surfar... Francamente, assim são as coisas.

As práticas tipicamente espirituais constituem uma introdução à experiências cada vez mais sutis e, neste sentido, te ajudaram a cansar-te de toda experiência sem que te dês conta. Quando te sentires entediado de saltar de onda em onda, permanecerás em meio da umidade de qualquer onda em que te encontres. A Testemunha pura não é nenhuma experiência, senão a abertura ou clarão em que aparecem e desaparecem todas as experiências, inclusive as espirituais e, enquanto estejas na caça de experiências, jamais poderás repousar na Testemunha nem mergulharás no oceano onipresente de Um Só Sabor. Quando te cansares das experiências, repousarás na Testemunha e é precisamente ai onde poderás observar a umidade (Um Só Sabor).

Então o vento será tua respiração, as estrelas os neurônios de teu cérebro, o sol e o sabor da manhã e a terra o modo em que experimentas o teu corpo. Então teu coração se abrirá à Totalidade, o Cosmos se precipitará em tua alma e o EU emergirá como as inumeráveis galáxias girando em toda a eternidade. No mundo não há mais que uma só Plenitude, na Vacuidade não há mais que um Resplendor que se contempla a si mesmo. Então poderás ler, gravada nos muros do infinito e presente em toda a eternidade, a única verdade: Isto — estalando os dedos — isto tudo o que há. Nada mais.

Ken Wilber em, A Pura Consciência de Ser
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey