Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Breve relato de retomada da Perene Consciência

Essa felicidade não iluminava apenas o interior de minha alma, o mundo exterior também me aparecia sob um aspecto maravilhoso, tudo me convidava a louvar e a amar Deus; os homens, às árvores, as plantas, os animais, tudo me era familiar e, para onde quer que eu dirigisse o meu olhar, eu encontrava a imagem do nome de Jesus Cristo. Às vezes eu me sentia tão leve que tinha a impressão de estar flutuando suavemente no ar e, às vezes, entrava completamente dentro de mim mesmo. Eu via o meu interior nitidamente e admirava o edifício admirável do corpo do humano. 

Relatos de um peregrino russo (de autoria anônima)

O despertar do Ser

[...]O homem de nosso tempo tem muita dificuldade em reconhecer que a natureza, tal como hoje a conhecemos enquanto trama de fatos e causas, não existia assim no princípio. Estamos ainda sob o influxo do entusiasmo que marcava os primeiros descobrimentos que havia nos levado de experiência em inexperiência, de observação em observação. Aquele passo é a origem de uma nova representação da realidade, que não só governa o mundo da técnica, senão que determina todas as nossas categorias no pensar, na visão, na concepção de mundo e da vida. E rege não somente nossa atitude com respeito aos fatos naturais objetivos, senão também, com tanta ingenuidade como orgulho, o mundo dos valores, a realidade humana, a revelação divina. Ao transpassar a fronteira que distingue o mundo natural do mundo espiritual, torna-se problemático o valor do que a Realidade representa. E isso porque se fez evidente que o homem, ao alcançar o topo de sua pretendida autonomia de ação e de pensamento no mundo considerado como puramente natural, descuidou de sua supranatureza, chegando ao limite do afastamento de Deus. Problemático, por outro lado, porque o conceito de “experiência” que deveria ser a pedra angular do verdadeiro conhecimento, já não alcança a considerar seriamente as mais profundas e pessoais experiências humanas. De fato, tais experiências se suplantam por um experimentar que possa ser registrado e medido. Com respeito ao conhecimento baseado em aparatos, o homem acaba definido como “fonte de erro”. Sem dúvida, a realidade — descoberta pelo tempo que toca a seu fim — se revela cada vez mais como realidade na qual é possível existir em como seres condicionados, mas não no viver na plenitude de nossa humanidade.
Uma vez que o homem despertou seu olhar interior, dá-se conta que o conteúdo de uma experiência marca o começo de uma nova vida.

Abrir-se para essa “experiência” é a virada decisiva na vida humana, supondo o começo da metanóia, ou Grande Conversão. Quem de uma vez tenha “compreendido” seu ser essencial, compreendido com isso que toda nossa existência está impregnada pelo SER (sem que se coloque no fundo deste ordenamento racional de nossa vida outra coisa que não seja o Ser, refletindo-se através do centro de nosso eu racional), se sentirá prontamente cheio de assombro (na medida em que admite o que sente) porque, de pronto, o SER, essência de tudo, brilha em toda sua existência.

O principio fundamental de nossa consciência ordinária é de dualidade, que parte da oposição sujeito/objeto, e que em sua significação humana representa sempre a forma dualista com a qual o Grande Uno se apresenta diante do olhar do homem, depois de havê-lo passado pelo prisma de sua consciência racional. Para o homem, o raio de luz do SER se apresenta sob a forma de opostos e de relações. Se for despertado o olhar interior, bem além da dualidade, o homem poderá contemplar a luz primária.

Através do véu de nossa visão racional, quebra-se a luz do Real, transformando-a numa visão distinta, igualmente como a luz do sol que alcança a chuva forma um arco-íris. Se o homem se conscientiza do sol, compreenderá o arco-íris de maneira diferente. Mas aquele que tenha a coragem dar as costas ao arco-íris, verá o sol. O homem sente em si mesmo e em seu mundo, a promessa de uma Realidade que se oculta ali onde se origina seu desenvolvimento racional.

É assim que se inaugura um tempo de novas descobertas: colhendo novos conhecimentos relativos ao que é autenticamente humano, o homem se liberta de um conhecimento exclusivamente científico, que lhe havia reduzido a não ser ele mesmo, senão um objeto. Abre-se à observação incorruptível. Trata-se agora de descobrir a autêntica Realidade do homem e da vida que lhe havia sido dada, partindo de seu ser transcendente, quer dizer, de abrir-se à Realidade que corresponde àquele e aquilo ao qual havia sido destinado.

Aquilo para o que o homem foi destinado, o sentido de sua vida e de sua realidade — lugar em que a essência é seu cumplice —, permanecem ocultos pelo véu da ordem da consciência racional, centrada num eu objetivo. Sem dúvida, esta ordem é necessária se se quer ser dono da existência cotidiana, e por ela, dar testemunho. O começo da nova era, hoje já superada, abriam ao homem o caminho que dominara a realidade do mundo espaço-temporal. Por que esse conhecimento objetivo do mundo possui o véu que oculta nossa visão da verdadeira realidade? Jamais um sujeito para quem o mundo e a vida se fixem num tecido de leis, fatos e objetos poderá adentrar nessa outra realidade em que reside o homem em seu ser essencial. Para adentrar nela, é preciso que tenhamos com seriedade a “experiência” já que, graças a ela, o homem, transpassa os dados objetivos da consciência, alcança um contato — em si mesmo e nas coisas — com essa Realidade que não é possível escapar na natureza condicionada pela existência, senão que representa a revelação do Ser universal e Supra-temporal (além do tempo e espaço). A forma que o homem participa do Ser é o que chamamos “Ser essencial”. Com respeito a essa visão estreita do tempo que chega a seu fim, este Ser essencial, necessariamente, não considerará ainda nada mais que um produto de especulação teórica, um objeto de piedosa crença incontrolável.

Mas o papel da vida existencial e de sua ordem racional com respeito a “experiência do Ser” é tripla:
  1.  Oculta antes de tudo.
  2. A própria “experiência do Ser” não seria possível sem esta sofrida transformação da vida existencial.
  3. O mundo existencial é o campo de manifestação da Grande Vida, manifestação que se realiza conscientemente uma ver vivida a experiência pela forma de ver, de atuar e amar.


Todo tempo leva em si o presente, o passado e o futuro, mas além do tempo que engloba estas três dimensões, existe o Tempo que está mais além do tempo, e nesse tempo supratemporal em que habita o Ser do homem. O despertar desse Ser é chamado “Grande Experiência”. Esta marca o começo de uma vida mais profunda. Graças à Experiência, poderá se cumprir a liberdade que Deus tem dado ao homem; somente graças ao “si” a tal experiência o home se abre para a Plenitude da Criação. E unicamente se o homem se “enraíza” na experiência chegará à sua maturidade, que lhe capacitará para responder com obediência ao chamado do Ser, dando testemunho Dele em sua existência. Quando se manifesta a Grande Vida por meio de nossa existência, cumpre-se o que significa “O Despertar do Ser.

Karlfried Graf Dürckheim


O despertar é uma coisa instantânea

Gostaria de começar por onde você nasceu.

Responder-lhe isso seria ir contra tudo o que explico. Ninguém nasceu.

Ninguém nasceu? Como assim?

É assim.

Mas estamos aqui, de alguma forma.

Enquanto consideramos que somos um corpo, também haveremos de morrer.

Onde nasceu seu corpo?

Na Europa Central.

Desde pequeno você sentiu uma grande necessidade de conhecer a si mesmo?

Sim, desde pequeno.

O que aconteceu quando sentiu essa inspiração?

Primeiro, busquei a solução no mundo, nos objetos e nas situações.

Em seguida viu que no mundo não estava a solução?

Não, não vi tão rapidamente. Tive que buscar durante muito tempo nos objetos e nas situações deste mundo.

Os objetos e as situações pareciam muito reais, não é verdade?

Sim.

Tudo está muito bem montado, para que pareça real.

Finalmente me dei conta de que, quando eu estava desfrutado do objeto, não eram reais nem o objeto nem eu mesmo. Somente era real a alegria.

Quem é que estava desfrutando?

Não há ninguém que desfruta. Somente está a alegria.

Não há ninguém em nenhuma parte?

No momento da alegria e da liberdade, não existe outra coisa que a alegria e a liberdade. Não há dualidade.

Quem é Deus?

Deus é um conceito.

Mas se deixamos de lado o conceito... que existe? Quem existe?

Deus não existe. Deus é.

Pode-se conhecer Deus?

Temos que nos libertar da ideia de ser uma pessoa. No momento em que nos liberamos de acreditar que somos uma identidade pessoal, damos lugar para que Deus surja.

O desejo de nos liberarmos de nós mesmos, não implica em passar de um conceito para outro conceito?

A ausência da ideia de ser um alguém lhe deixa num estado totalmente livre.

Você ama a Deus?

Se eu lhe disser que sim, estaria lhe dizendo que existe uma dualidade entre Deus e eu.

Se sente satisfeito de ser que é?

Sinto-me feliz.

Você é feliz sempre, ou só algumas vezes?

Sou sempre feliz. Eu “sou” e isso não é nenhum estado. De um estado se entra e se sai. E nesta alegria não há espaço para o conceito de ser uma pessoa feliz.

Eu vejo, pela rua, que muitíssima gente não é feliz.

E qual é a causa disso? Não é outra coisa do que se sentir separado. Há que se ser si mesmo na unidade.

Que se pode fazer por eles? Que se pode fazer para evitar essa separação?

Primeiro você tem que ser você mesmo. Não tem que tratar de ajudar aos demais enquanto você mesmo necessita de ajuda.

Você necessita de ajuda?

Não.

Tem medo da morte?

Não. Além do mais, já lhe disse que a morte não existe.

Bem, mas... Essa coisa que nós conhecemos como morte, essa coisa que ocorre com o corpo quando a vida se vai... O que significa para você?

Uma mudança. Tudo está mudando, constantemente. Quando se vai um pensamento, vem outro. A mudança é sempre constante.

Temos motivos para estarmos contentes? Temos motivos para ter fé no futuro?

O futuro não existe.

Modificarei a pergunta: Temos motivos para sermos felizes agora?

Sim. Mas o que ocorre é que não aceitamos, estamos sempre recusando essa felicidade

Temos medo?

Sim.

De que temos medo?

Temos medo de perder a ideia de acreditar numa identidade pessoal.

Quanto gostamos dessa ideia de nós mesmos?

Trata-se de uma espécie de mal costume, uma ideia acumulada e alimentada pela sociedade.

Esta vida é um sonho, de verdade?

Sim, é um sonho.

Mas é um sonho tão verdadeiro que parece real, não é assim?

Sim. Assim, se você está sonhando que é um mendigo, você nesse momento é um mendigo. Se você sonha que é um rei nesse momento está sendo um rei. Somente deixará de ser rei ou mendigo quando você despertar e comprovar que tudo isso é um sonho.

Então, isso é nossa vida?

Olha, o fato de você acreditar que está aqui nesta casa fazendo-me perguntas e ouvindo minhas respostas... isso é um sonho. E é um sonho não mais real do que o que  você podia ter a noite em sua cama, enquanto descansava.

Então, o que se pode fazer?

Não se pode fazer nada. Mas no momento em que você se der conta que não pode fazer nada, há uma parada, ocorre algo, se produz um despertar à realidade.

Se você visse um homem na beira de um penhasco, próximo de se jogar abaixo, o que você faria?

Não posso lhe dizer.

Não pode me dizer?

Não.

Por que não pode me dizer, vejamos?

Porque esta situação não está acontecendo agora. Não se podem examinar as ações que não ocorreram. As ações surgem a cada instante. Não se pode codificar a moral.

Você teve um mestre?

Sim, tive um mestre que vivia na Índia.

Ainda vive?

Não.

Tem um mestre agora?

Não.

Você é um mestre?

Há circunstâncias em que posso cumprir a função de um mestre. Porém, não quero restringir-me ou limitar-me a ser um mestre.

O amor existe neste mundo?

Sim, não há nada a mais que o amor.

Não é tudo nesta vida algo assim como uma ação teatral, uma espécie de representação cênica?

Sim. E nosso papel é permanecer na sala comodamente instalados, e observar o que acontece. E não cair na tentação de subir no cenário e nos colocar a atuar ou interpretar.

O amor de que temos falado, esse amor a que nos referimos há momentos, é muito grande?

Não é grande nem pequeno. É amor.

Para mim me dá a sensação de que tem que ser muito grande.

Nesse caso, é que em você há uma referência a algo pequeno. E está, então, objetivando o amor. O amor objetivado não é amor. É como quando vemos a lua refletida na superfície de um lago. O que estamos vendo não é a lua, senão um reflexo.

E não é assim como ocorre na vida? Tudo que nos rodeia não é como que um reflexo de algo muito mais real?

Sim, as formas encobrem a realidade.

Você gosta desta conversa que estamos tendo, eu e você?

Sim, gosto desta conversa que mantemos. E, além do mais, eu posso sentir amor por você.

Sabe se eu também sinto amor por você?

Inevitável. Não pode fazer outra coisa.

Há muito sofrimento no mundo. Diga-me algo a respeito do sofrimento.

O sofrimento, se o observa bem, não é mal em si. Se você sofre e interpreta bem esse sofrimento, isso criará para você uma libertação.

O sofrimento é necessário?

Não, eu não digo que seja necessário. Mas, desde o momento em que aí está, é indicativo de algo.

Sofrer é triste e desagradável.

É triste e desagradável para a pessoa. Sim.

Eu às vezes sou muito feliz, e sem dúvida, por vezes também tenho medo. O que é isso?

O que teria que ver é o que precede ao sentimento de medo.

Eu não sei como se faz isso.

Se lhe dói o fígado, deve observar a que obedece isso. O melhor é que você deve ter comido em demasia. A isso é que me refiro. Há que se saber viver com tudo o que nos rodeia, com nossos pensamentos. Há que ser cada vez mais consciente, na vida. Sobretudo, não há que se tratar de mudar a vida. Nós não podemos modificar a vida. A vida se modifica na medida em que aumenta nossa compreensão da vida.

 Não entendo essa frase.

A compreensão da vida é a mudança. Se alguém quer modificar, então, permanece trancado num circulo vicioso da memória e do passado.

Está cometendo um erro essa pessoa que não gosta de si mesma e pretende estabelecer mudanças em sua existência?

Sim, um erro. Não há que procurar nada.

Então, não há nada que fazer?

Não há nada que fazer.

Estamos muito longe do despertar?

Estamos despertos apenas nos objetos. Nós estamos dormindo.

Repito: estamos longe do despertar?

Não estamos nem longe e nem próximos.

Quando terminará este sonho? Sou consciente de que repito esta pergunta pela terceira vez.

O problema do despertar não tem nada a ver com o tempo. Podemos despertar num só instante.

Isso é certo?

Sim, é verdade. O despertar é uma coisa instantânea.

Você já despertou?

Sim, num só instante.

Pode me ajudar a despertar?

Sim.

Faça-o.

Escute: dois cientistas estão trabalhando num laboratório. Um deles faz a descoberta. Então, transmite essa descoberta ao seu companheiro. Explica-lhe todas as combinações que fizeram com que chegasse a determinado resultado. Seu companheiro deve aceitar o que lhe diz, deve ter confiança no que está recebendo. Mas ele está recebendo uma informação de segunda mão. Para que esta pessoa tenha uma informação de primeira mão, deveria atravessar e passar pelas mesmas etapas pelas quais passou o primeiro cientista.

Não quer me ajudar. Não quer me dar a fórmula encontrada em seu laboratório.

Sim, quero dar-lhe, sim. Vamos ver, para quem lhe parece estar ocorrendo esta situação que estamos vivendo?

Para mim.

Quem é você?

Uma consciência que está observando algo, uma consciência.

Quando esta situação que você agora está observando terminar, onde estará a sua Consciência?

Haverá abandonado esta casa e estará passeando abaixo das árvores.

O que demonstra que a sua Consciência está fora da situação. Sua Consciência é como uma tela e as situações são as imagens que se projetam sobre ela. As situações modificam, porém a tela não modifica. A tela nunca é afetada pelas imagens. A tela é a realidade. A tela é a alegria, o amor, a liberdade.

Posso seguir em frente contente? Então, tudo está bem?

Pode ir contente. E seja corajoso e não tire conclusões. Tirar conclusões é uma função mental. O que temos falado aqui irá encontrando em você distintos ecos. E um dia, você despertará na compreensão. E, então, será você mesmo compreensão.

Era absolutamente indispensável que eu e você tivéssemos nos encontrado?

Não há azar na vida. Não se pode considerar o problema do indispensável nosso cérebro está condicionado para indicar passado, presente e futuro. Mas isso é somente uma função em nosso cérebro. Não existe passado, presente e futuro. Somente existe o estado do presente. O que se manifesta nesta tripla vertente é somente o presente.

Muito agradecido.

Entrevista com Jean Klein, realizada por José Mª Mendiola

Relato da experiência de retomada da Perene Consciência Amorosa

Depois do derrubamento de 1918, a grande questão que animava os espíritos investigadores era o novo homem. Uma experiência decisiva me impulsionou a não fazer dela um simples dever nessa época de reconstrução, senão a colocá-la no centro de minha vida. O que vivi então, o denomino como a grande experiência do SER... Eu tinha vinte e quatro anos e me encontrava no ateliê do pintor Willi Geiger em Munique... Minha futura esposa, Madame Von Hattingberg, estava sentada na mesa e ao seu lado havia um livro... Ainda o vejo... Ela abre o livro e lê em voz alta o décimo primeiro verso do Tao Te King:
Trinta raios convergem para o meio de uma roda
Mas é o buraco em que vai entrar o eixo que a torna útil.
Molda-se o barro para fazer um vaso;
É o espaço dentro dele que o torna útil.
Fazem-se portas e janelas para um quarto;
São os buracos que o tornam útil.
Por isso, a vantagem do que está lá
Assenta exclusivamente
na utilidade do que lá não está.

E de pronto, Isso chegou!... Enquanto escutava, me atravessou um relâmpago... O véu caiu, eu havia despertado! Acabará de ter a experiência “Disso”. Tudo existia e não existia, este mundo e, através dele, o pensamento de outra Realidade... Eu mesmo existia e não existia. Estava sobrecarregado no encantamento em outro lugar e, sem dúvida, estava ali, feliz e como que privado de sentimentos, distantes e, ao mesmo tempo, profundamente arraigado nas coisas. Toda a realidade que me rodeava estava formada por dois polos: um que era imediatamente visível e outro invisível que estava no fundo da essência daquilo que via. Via realmente ao Ser... Via o Ser no Existente. E isso me calou tão fundo que eu tinha a impressão de haver deixado de ser eu mesmo plenamente. Sentia que estava preenchido de algo extraordinário, imenso, que me banhava de alegria e ao mesmo tempo me sumia num grande silêncio. Estive neste estado aproximadamente por vinte e quatro horas. Naquela mesma tarde estávamos visitando a casa de uns amigos para escutar um grande pianista. Eu estava agachado num canto da sala, ainda sobre essa mesma influência e, desde então, creio que nunca me abandonou. Não havia compreendido totalmente do que se tratava; mas, a partir daquele momento, sempre havia algo diferente em minha vida, algo que me rodeava, que me preenchia e me fazia seguir adiante. Estava movido por uma espécie de nostalgia e de inexplicável promessa... Hoje ainda é assim. Mas naquela época eu não havia compreendido que se tratava de um chamado e do nascimento de uma nova consciência. Descobri isso muito tempo depois; mas me sentia impulsionado, empurrado nesse sentido. Isso me tem dado também certo valor para viver, certa inocência no tato, no trato com as pessoas e com as coisas. De pronto, havia ali outra realidade, angélica, que me rodeava desde aquele momento.

Karlfried Graf Dürckheim em, O caminho a verdade e a vida



Breve relato Jean Klein

"Eu estava esperando por um trem numa tarde quente. A plataforma estava deserta e a paisagem era celestial. Houve um silêncio. O trem estava atrasado, e esperei, sem esperar, muito relaxado e livre de todos os pensamentos. De repente, um galo cantou e o som incomum me fez perceber meu silêncio. Não foi o silêncio objetivo que é consciente, como muitas vezes acontece quando se está num lugar tranquilo e um som repentino destaca o silêncio do ambiente. Não, fui jogado em meu próprio silêncio. Senti-me na consciência além do som ou silêncio. Posteriormente, este sentimento me visitou várias vezes." 

Jean Klein

Sobre a crise religiosa atual

A crise religiosa que estamos atualmente atravessando provém do quebrantamento que tem sofrido a confiança na justiça divina.

É ao menos um paradoxo que um cristão possa perder a fé ou que possa duvidar da justiça divina pelo simples fato de que o mundo não funcione segundo suas próprias razões. Não vem ao caso da fé cristã o crer, segundo revela Jesus Cristo, na Realidade divina que vence a morte, o sem-sentido e a solidão do homem? Por acaso a crise do nosso tempo significa outra coisa? Não deveriam conduzir o homem a descobrir novas doente de fé que brotem sem ter que excluir as catástrofes de sua existência, e sem que desmoronem as crenças da infância? Não deveria, quem sabe, que provocar o homem para que deste modo entre em sua “maturidade espiritual” e possa escutar ao “consolador”, ao espírito da verdade em si mesmo? (São João). As graves desordens e as sacudidas pelas quais estamos atravessando não são, quem sabe, uma chamada única ao homem para que entre em si mesmo e escute com atenção o que dita sua secreta voz interior com respeito a realidade aparente de um mundo que sofre, e o que lhe revela em relação com aquela Realidade que não é deste mundo, mas que vence toda sua desolação?

“Eu não creio, senão, em minha própria experiência!” Esta exclamação, cada vez mais frequente, brota do coração de quem tenha perdido a fé; não expressa somente um desafio, senão, sobretudo, o desespero. Um desespero que de ser consequente consigo mesmo contém no fundo uma grande oportunidade. Se o homem está realmente aberto para a sua experiência íntima, terá também a suficiente força para poder desatar os laços — de que é prisioneiro — de um racionalismo estéril e de uma crença que, em vez de havê-la vivido em palavras e nas imagens tradicionais, terminou com elas petrificado. Ali onde vivi sua experiência interior, perceberá uma luz que iluminará seu espírito humano. Porque nele está a fonte sagrada de seu Ser, o homem tem a possibilidade de viver a experiência interior, de sofrer metamorfoses, assim como despertar aquelas forças que são o testemunho de uma realidade mais profunda do que a que reflete o edifício de seu próprio espírito.

O homem pode descobrir nele aquela Realidade, que se desejar ser penetrado por ela, lhe libertará do temor da morte, fazendo-lhe suportar o que era insuportável para sua razão, e na medida em que se encontre na solidão, liberar nele uma misteriosa presença de amor. Aquele que vive uma experiência assim, pode com todo direito dizer que em seu Ser profundo, e no senso de sua dura existência cotidiana, vive um espírito salvador. Preside algo que, em humildade, quase nem se atreve expressar com palavras, e que de nomeá-lo, seria como que a presença nele de um sopro do espírito divino.

O que o homem crente entende por “espírito divino”, aprende pela revelação das Sagradas Escrituras. Quem tenha perdido a fé, porém, continua sobre o influxo da “inquietude sagrada” e sempre que possa levar a sério sua experiência pessoal interior, se sentirá sempre, novamente, elevado por cima da desolação, da falta de sentido e da solidão.

Não se tem então só o direito, senão o dever, de recorrer ao vasto campo do autêntico espírito religioso pré e pós-teológico, para poder chegar às fontes ocultas da verdadeira Vida.

Em todo tempo e lugar tem havido homens que, bebendo desta fonte viva, estão nascendo para um Nono Nascer; este renascimento os têm transformado na raiz, às vezes graças a uma nova fé que brota da experiência e graça que encontram novamente em Deus, havendo-se aberto ao amor. O caminho que segue está fé tem necessariamente que passar pelos recessos do espírito humano; é o fracasso nesse campo o que faz do homem consciente e maduro, permitindo-lhe assim ouvir, em si mesmo, o espírito da Verdade.


Karlfried Graf Dürckheim, O Despontar do Ser - Etapas de Maturação

Uma crise natureza essencialmente religiosa

Qualquer terapia se baseia num conceito do homem, de seu SER essencial e de seu destino. Este conceito determina para o terapeuta, de uma maneira mais ou menos consciente, o tipo de tratamento que deve aplicar. O resultado de tradições espirituais, de experiências e de decisões pessoais e em parte depende também da participação numa determinada escola.

[...] A maior influencia exercida sobre minha evolução espiritual em geral foi por meio de Mestre Eckhart. Minha concepção do homem provém de uma tradição cristã livre, de um fundo experimental cujo valor universal e atemporal me revelou o Mestre Eckhart, em primeiro lugar, e posteriormente meu encontro com a sabedoria oriental. As experiências que formam a base universal e comum de todos os homens, de qualquer religião viva, orientam o caráter fundamental de minha terapia. Os problemas do homem atual me parecem de natureza essencialmente religiosa. A ausência de fundamentos religiosos é a raiz de sua desgraça, de seu “mal-estar”. Qualquer tentativa de terapia que não tenha conta esta carência ou que tente substituir as bases religiosas ausentes por outras de tipo racional, por exemplo, não permite a recuperação mais que num limitado. Desse modo, estéril é também a intenção de reconstruir as bases religiosas perdidas mediante uma vulgarização dos mistérios da fé. Não há mais que um caminho para a renovação e a cura: reconhecer e tratar com seriedade as experiências religiosas. Isto é justamente o que, devido ao crescente racionalismo, se escapa do homem. Toda expressão legítima da “profundidade” termina por fazer-se suspeita de ilusão, enquanto que a deformação intelectual que o proíbe se considera justa e natural. Contudo, hoje observamos que nada prepara melhor um renascimento do homem com seu Ser essencial, do que essa lenta asfixia de seu centro vital. O perigo que lhe ameaça suscita justamente seu despertar. O derrubamento caótico de qualquer tipo, a revolução da juventude contra uma educação unicamente preocupada para prepara-la para assentar-se no mundo e para nele ser eficaz, servem ao nascimento do novo homem que desperta para seu Ser essencial. Hoje, para mim, curar é colaborar com essa renovação. 

Karlfried Graf Dürckheim, Outono de 1956

Experiência e Transformação

Tende-se facilmente a pensar que a experiência de um momento de iluminação é uma posse definitiva que é o suficiente para fazer de nós um novo homem. Sem dúvida, quando essa experiência não está animada por um perseverante exercício, ainda que nos afete no mais profundo de nosso ser e nos arranque num instante da esterilidade do eu existencial para elevar-nos para a realidade de uma Vida maior, arrisca-se a perder-se nas recordações sentimentais. Sem esse esforço contínuo, o homem que se sentia banhado pela luz da experiência e livre, graças a ela, de alcançar um plano superior, vê-se obrigado a comprovar desgraçadamente que não se modificou. A consciência de seu fracasso e a lembrança da felicidade do compromisso que acaba de experimentar vai se tornar ainda mais sensível aos limites e as trevas de onde lhe tem preso a velha concha de seu eu. A consciência de sua participação no SER essencial despertou nele uma grande nostalgia. Não obstante, deve reconhecer que experiência e transformação são duas coisas diferentes. 

O conturbador choque do reencontro com a verdadeira realidade com que a luz lhe golpeou, há que acrescentar uma lenta transformação que afeta a todo homem. Sem a experiência do SER não há transformação, o essencial da experiência se perde. Só na medida em que o homem deixa que aquilo que experimentou profundamente ganhe seu espaço interior e se integre nele, só assim a grande experiência ganha significado. É preciso que sua fusão com o SER essencial faça nascer uma disposição interior que não só lhe permita conservar o que viveu intensamente, senão também dar testemunho ao mundo. Então, é quando responde ao seu destino: dando testemunho do sobrenatural com sua realização prática no mundo. 

Karlfried Graf Dürckheim, Outono de 1956

A natureza do Ser

O que posso fazer para ser mais receptivo à realidade suprema?

Não há nenhum sistema, método ou técnica pela qual aproximar-se da realidade. Ela se revela por si mesma quando todas as técnicas e sistemas falham e a futilidade da volição é percebida. Então a mente se envolve em um estado de entrega inocente. A técnica apenas faz a mente mais astuta e engenhosa. Você ainda permanece em sua rede e, embora possa ter a impressão de transformação, está de fato desempenhando os velhos jogos. É um círculo vicioso.

Liberdade, humildade e amor aparecem instantaneamente, nunca como um empreendimento. A mente, o processo de pensamento, acontece em termos de tempo e espaço. Mas a Consciência silenciosa não é condicionada ou qualificada nem por um nem pelo outro. Por esta razão a mente limitada não pode alcançar o absoluto pela expansão de si mesma. Todos os esforços apenas resultam na perpetuação do ego.

Se você presta atenção enquanto falamos, então, neste próprio estado de atenção, sua mente passa por uma transformação. O importante é o ato de escutar, de observar sua reação a estas palavras. A escuta real envolve seu ser total, e nele as fronteiras do ego se dissolvem. A mente então se envolve em um estado de grande atenção.

A respeito de sua pergunta, qualquer método ou técnica implica especialização ou localização. Mas tal focalização parcial nunca pode levá-lo à totalidade. Quanto mais você se especializa, mais estreita seu campo de visão, mas a causa básica do conflito na psique não é removida. A tranquilidade obtida através das técnicas está apenas na superfície, enquanto a origem profunda do conflito continua.

Como posso livrar minha mente do condicionamento?

A mente é função, energia em movimento. É um depósito, em diferentes níveis de consciência, das experiências individuais e coletivas passadas. Sem a memória, não há mente, pois os pensamentos são sons, palavras e símbolos que nela aparecem. A memória é em si mesma condicionada, estando baseada na estrutura do prazer e da dor: todo prazer está armazenado e tudo o que é doloroso é relegado às camadas do inconsciente.

A função básica do organismo humano é sobreviver. A sobrevivência biológica é um instinto natural, mas a sobrevivência psicológica é a fonte do conflito, pois é simplesmente sobrevivência da psique com o seu centro, o “eu”. O que chamamos geralmente de aprendizagem é apropriação condicionada pela sobrevivência psicológica. A mente condicionada não pode mudar por seu próprio esforço ou sistema.

Então, como acontece esta transformação, esta integração?

A mente deve chegar a um estado de silêncio, vazia completamente de medo, desejo e de todas as imagens. Isto não pode ser produzido pela supressão, mas pela observação de todo sentimento e pensamento sem qualificação, condenação, julgamento, ou comparação. Se a atenção desmotivada está para funcionar, o censor deve desaparecer. Deve existir apenas uma observação serena sobre o que a mente elabora. Ao descobrir os fatos como eles são, a agitação é eliminada, e o movimento dos pensamentos se torna lento; podemos observar cada pensamento, sua causa e conteúdo, à medida que surge. Nós nos tornamos conscientes de todo pensamento em sua integridade e, nesta totalidade, não pode existir conflito. Então apenas a atenção permanece, apenas o silêncio no qual não há nem observador nem observado. Portanto, não force sua mente. Apenas observe seus vários movimentos como você olharia o vôo dos pássaros. Neste olhar desanuviado, todas as suas experiências emergem e se aclaram. Pois a visão desmotivada não apenas gera tremenda energia, mas libera toda tensão, todas as várias camadas de inibições. Você vê a totalidade de si mesmo.

Observar tudo com plena atenção torna-se um modo de vida, um retorno a seu ser meditativo original e natural.

Como posso agir para não criar uma reação adicional, o carma?

Sempre que o amor e a bondade estão em seu coração, você terá a inteligência para saber o que fazer e quando – e como – agir. Quando a mente vê suas limitações, as limitações do intelecto, surgirão uma humildade e uma inocência que não são questão de cultura, acumulação ou aprendizado, mas resultado do entendimento instantâneo. No momento em que você vê seu desamparo, que nada funciona, chega ao ponto da rendição, a uma parada, onde você está em comunhão com o silêncio, a verdade derradeira. É esta realidade que transforma sua mente, não o esforço ou a decisão.

Creio conhecer algo de mim mesmo, tenho uma certa Consciência de minha força e debilidade psicológica, mas também sinto uma falta de satisfação perfeita; de outra forma, não estaria aqui. Há algo que possa fazer agora?

Se você observar, verá que é violento com sua percepção. Você interfere constantemente ao tentar controlá-la e dirigí-la. O controlador faz parte do que é controlado; ambos são objetos e um objeto não pode conhecer outro. Portanto, você deve progressivamente permitir que a percepção se expanda, dando-lhe a liberdade completa. Se você permitir que a percepção se expanda, cedo ou tarde ela o trará de volta para você mesmo. Deixe-a ir para que se revele a si mesma e o dinamismo para produzir desaparecerá.

Como aprender a partir do conflito?

Veja que você está condicionado na aceitação e na rejeição, pois não há nada para aceitar ou rejeitar. Na escuta total, a atenção sem memória, não há conflito. Há apenas visão. Na escuta silenciosa, o que é dito, o que é ouvido e o que surge como resposta e reação, está dentro de seu próprio Eu. Esta percepção da totalidade é a atenção real e não há nela nem problemas nem condicionamentos. Há simplesmente liberdade.

O que você quer dizer quando você diz que não há ator no fazer, falar ou escutar?

Na ação que surge da plenitude não há um ator no ato, há apenas ação. Você está funcionando e o “eu” está ausente. No momento em que o pensamento do “eu” aparece, você se torna autoconsciente e é dominado pelo conflito. Na ausência deste pensamento, não há nem quem fale nem quem escute, não há nenhum sujeito controlando um objeto. Somente então há harmonia completa e adequação a cada circunstância.

Qual é o lugar do intelecto na escuta incondicionada?

O intelecto é uma defesa contra algo que você aceita ou rejeita. Uma vez que você tenha, pela totalidade, visto a verdade de alguma coisa, não há mais como escapar. Você vive com ela. Com este entendimento completo, a mente não pode evitar a mudança e a transformação que ocorrem. Quando o intelecto está ausente, há atenção total; escutar e falar podem espontaneamente acontecer, mas brotam da realidade. Não há mais produção por parte da mente. Em atenção silenciosa, a mente está completamente vazia e o que é ouvido penetra profundamente. No estado de rejeição ou aceitação há apenas um jogo com as palavras, com a memória, com o intelecto. Mas, no estado de escuta silenciosa, não há lugar para certo ou errado, compensação ou conclusão. Eles se tornaram, através da compreensão intuitiva, conhecidos ou não.

Seja consciente dos processos de seu corpo e de sua mente e você começará a compreender a si mesmo. Não há diferença entre esta compreensão e a compreensão da totalidade do universo. Sua percepção se abre completamente para a realidade em sua plenitude.

Pode-se pensar uma experiência real?

Uma experiência é um acontecimento. Não pode ser pensada. O pensamento não é a experiência direta, mas a busca e a tentativa de repetir a sensação. Na experiência real, o experimentador está completamente absorvido no experimentado – eles são um, não restando nem memória nem identificação. É uma não-experiência, pois não há ninguém experimentando qualquer coisa.

No campo da tecnologia, a acumulação de experiência é necessária e não leva ao conflito. Mas, no plano psicológico, o qual é orientado em função de agrado e desagrado, a acumulação da experiência fortalece o ego e nega a possibilidade da experiência real: a não-experiência.

O ponto mais elevado e amadurecido de uma experiência é a liberdade da unidade sem sujeito e objeto. Esta não é a unidade da experiência mística, que é ainda um estado em que se entra e sai. A experiência real não é uma busca de prazer em qualquer nível porque a satisfação é a sensação que não foi plenamente reabsorvida. É o remanescente de uma experiência incompleta, uma repetição das projeções da memória. A mente, então, fica entediada e busca experiências novas. Na não-experiência real, nenhum resíduo é deixado. Ela nos traz de volta a todo momento para nossa natureza atemporal.

Como posso libertar-me do tédio que sinto freqüentemente?

Se vivemos superficialmente e observamos isto, nós nos tornamos conscientes de uma profunda falta ou desconforto que pode aparecer como tédio. Vemo-nos indo de uma compensação à outra. Encare estes momentos de aborrecimento. Realmente, perceba-os sem justificação ou conceituação. Você deve libertar a percepção, deixando-a desdobrar-se em sua consciência. Então, uma transformação acontece em todos os níveis. Toda a energia que estava dispersa e localizada em hábitos fixos se libera e recombina. Cada circunstância requer uma reorganização de energia que é perfeitamente adequada a uma situação. Na reorganização completa que acontece, a energia que estava anteriormente dissipada no tempo psicológico “retorna” e desaparece em nossa presença atemporal.

Você diz que, quando vivemos na liberdade da relação sujeito-objeto, vivemos no atemporal. Mas nossos corpos vêm e vão, o sol se levanta e se põe; não estamos, no final das contas, ligados ao tempo?

O que você chama “tempo” está claro para você? É verdadeiro que o homem sempre está criando tempo. O tempo psicológico é pensamento baseado na memória. É essencialmente o passado, e nós revivemos continuamente o passado através dele. De fato, o que chamamos futuro é apenas um passado modificado. O tempo psicológico nunca está no agora, mas, como um pêndulo, está em constante movimento do passado para o futuro, do futuro para o presente, em rápida sucessão. Existe apenas no plano horizontal do ter -devir, do prazer-desprazer, da avidez-contenção, da segurança-insegurança. É a origem da miséria e do conflito. A compreensão psicológica do tempo e do espaço é o caminho para a meditação e para o viver correto.

O tempo cronológico, astronômico, está baseado igualmente na memória, mas é uma memória puramente funcional, livre da intervenção do ego, da vontade. É essencialmente presente. Os eventos prosseguem em sucessão ordenada e, desde que não há movimento entre o que chamamos passado e futuro, não há conflito.

A vida é o presente, mas quando nós pensamos, pensamos em termos de passado ou futuro. Viver no agora implica uma mente livre de balanços e recapitulações, livre de ambição e esforço. No presente, não há nenhum pensamento; os pensamentos estão fundidos na totalidade. Viver o momento contém todos os acontecimentos possíveis, de modo que não há lugar para o tempo. Tudo pode ser resumido nisto: o tempo é pensamento e o pensamento aparece no tempo. A beleza e a alegria são reveladas apenas no tempo.

Você diz com freqüência que a ação correta não é uma questão de moralidade, mas surge naturalmente da espontaneidade. Como eu posso chegar a essa espontaneidade?

A espontaneidade vem com a escuta e resulta na compreensão. Na audição incondicionada, a qual é silêncio, livre de toda agitação e conceito, a situação é vista em sua inteireza e é desta visão total que surge a ação instantânea apropriada.

É óbvio que uma ação que procede do pensamento consciente não pode ser espontânea. É igualmente verdadeiro, mas menos óbvio, que as ações que decorrem do hábito, da inclinação ou do instinto não podem ser também espontâneas; porque o hábito e o instinto são condicionados, automáticos e mecânicos, e as ações que surgem da inclinação são motivadas pela justificação, racionalização e conflito. Todas estas são regidas pelo pensamento inconsciente. De fato, apenas podemos chamar de ação aquilo que surge da espontaneidade. Tudo o mais não está livre da interferência e é, portanto, reação.

Para revelar a espontaneidade, o pensamento consciente e o inconsciente devem terminar. Todas as projeções do intelecto devem cessar para que a espontaneidade criativa possa operar. O esforço intelectual e o cultivo da força de vontade são inúteis na integração da espontaneidade. A mente deve tornar-se humilde e sensitiva, livre de violência, orgulho e ambição. Então, a inteligência real pode funcionar.

Quando o intelecto se torna silencioso através da observação, através da audição, a natureza básica da mente sofre uma transformação. Esta transformação atinge ao máximo os impulsos e movimentos de nossa vida animal. O intelecto se converte em pensamento claro à luz da inteligência que a tudo integra e nasce um ser humano em toda sua beleza.

A vida é vivência espontânea intocada pelo tempo.

O que pode dizer sobre a moralidade social e convencional?

Quando permite que o Supremo se encarregue de você, a espontaneidade é virtuosa e vai além da moralidade social e convencional.

Pode-se ser ativo em silêncio?

O silêncio é nosso estado natural. É o fundamento de tudo. Nenhuma concentração é necessária para estar nele. Enquanto estivermos envolvidos na percepção, nós viveremos no tempo, isto é, apenas no plano horizontal. Mas o silêncio é atemporal. Está no centro onde se encontram tempo e eternidade, onde o horizontal e o vertical se juntam. Este ponto é o coração.

Habitualmente, em nosso envolvimento com objetos, nós não percebemos realmente as coisas como elas são, mas as vemos apenas como projeções do ego. A menos que permitamos o florescimento de nossas percepções no silêncio sem ego, não poderemos conhecer verdadeiramente a realidade. Você vê esta flor? Permita que ela chegue a você em sua plenitude sem impor sua mente sobre ela. A observação verdadeira é multidimensional. Você vê, ouve, saboreia, cheira, sente, com todo seu ser, globalmente. A visão verdadeira é receptividade vigilante, passividade ativa. Nesta observação, um objeto pode aparecer, mas não se é dirigido para ele.

O que pensar sobre a morte, e como podemos enfrentar esta experiência?

O pensamento aparece no silêncio e desaparece no silêncio. Algo que aparece e desaparece em algo, não é senão este algo.

Igualmente, o que você acredita ser também aparece e desaparece no silêncio. O que você entende por morte não é nada senão um indicador que aponta para o silêncio, para a própria vida. A morte não tem realidade. Mas se não vê desse modo, permanece como uma idéia estagnada na qual você está aprisionado. Enquanto você se tomar por uma entidade independente, está submetido ao karma. Coloquemos de outra forma: antes de falar da morte, pergunte-se o que é a vida. Toda percepção existe apenas porque é existência presente e eterna. Este é o plano de fundo da vigília, do sonho e do sono profundo. No conhecimento vivo, no presente, o problema da morte não tem significado.

(Diálogos com Jean Klein)

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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey