Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

As duas horas que transformaram toda a minha vida

Facilmente nos esquecemos da influência que a vida de um único homem pode exercer sobre os outros. Um único momento em nossa vida pode ser de importância decisiva. Muitos terão feito experiências parecidas com a que eu realizei no fim do ano de 1928, quando fiz uma meditação em companhia de um verdadeiro iluminado (Ramana Maharishi) — e veio sobre o espírito e me elevou acima daquilo que se chama "o mundo". Depois deste acontecimento, as coisas do mundo perderam para mim a sua força de atração. A partir daí, toda minha vida se desenrola no ambiente dos livros sacros e do meu Eu interior, auxiliado por escritos filosóficos e místicos e pela comunhão com pessoas que trilham a senda espiritual. Todo o resto de minha vida se eclipsou. 

Essas duas horas transformaram toda a minha vida. Quando me retirei, tinha recebido a iluminação que me tirou da vida do comércio e me iniciou na missão de curador espiritual, vida que, a partir daquela hora, decorre através de um progressivo desenvolvimento até hoje. Quem poderia medir o valor do encontro naquele dia? Não há medida para o imensurável. Entretanto, impossível teria sido aquela experiência decisiva se ela não fora precedida por treze anos de leitura dos livros sacros, de escritos místicos, de orações e súplica a Deus: "Fala-me, ó Deus! Fala-me! Inspira-me!... Faze algo para me fazer saber que Tu existes!"... Cada um dos pormenores dessa incessante busca contribuiu para me preparar para esse minuto único, que transformou a minha vida toda. Ninguém sabe em que momento, a sua vida começará a mudar, quando ele entrará em contato com o homem, com a mensagem, com o livro que lhe abrirá a alma. Quem se jula por demais insignificante para isto, não deixe de evocar a lembrança de um ou outro dos homens que inspiram a geração presente ou vindoura. Que ilimitada influência sobre a saúde e harmonia da tua vida se manifestaria se soubesse que essa transformação depende da tua irrestrita entrega a Deus, através de teu pensar, meditar e amar!

Joel Goldsmith

A pensamentose tem cura pra quem procura

Ninguém pode encontrar saúde externa enquanto não encontrar uma querência, uma lar interno em Deus. Ninguém alcança plena satisfação, mesmo em boa situação econômica, enquanto não encontrar a sua comunhão interna com Deus. 

A televisão não pode satisfazer a alma do homem. Futebol e outros esportes não são caminhos para encontrar a paz da alma e do espírito, nem são métodos convincentes para restabelecer a paz e a boa vontade entre os homens, aqui na terra. Não há nada de mal nestas coisas; elas têm o seu lugar e razão-de-ser — mas nunca ninguém encontrou harmonia duradoura em jogos, danças ou televisão. 

O homem só encontra verdadeira harmonia em seu ser quando encontra Deus, quando entra numa comunhão interna com algo maior do que ele mesmo. E isto é a sua cura verdadeira e permanente. É esta a cura que o mundo busca. E é por esta razão que sempre resta um desassossego e uma insatisfação, mesmo que, neste momento, fossem resolvidas satisfatoriamente todas as tuas condições econômicas e relações sociais e fosses liberto de qualquer enfermidade física e psíquica. Por maior que seja a alegria que a tua família te dê — quando, à noite, te retiras, te sentirás solitário, porque há em ti algo que tem saudades de casa, algo que deseja integração num outro lar. 

Por motivos vários procura o homem cura espiritual. Muitos a procuram por causa de doenças corporais, outros para solucionar problemas de ordem emocional, moral ou econômica; outros ainda por causa duma inquietação interna que os atormenta, apesar de todos os sucessos externos que talvez tenham encontrado em sua vida. Cedo ou tarde, descobrirão eles, que nunca deixará de haver inquietação, tristeza e descontentamento enquanto não estabelecerem contato consciente com a Fonte da vida, nem mesmo em plena saúde e prosperidade.

Cura espiritual é muito mais que uma experiência meramente física e psíquica; cura real é o descobrimento de uma comunhão interna com algo maior, algo muitíssimo maior do que jamais possa ser encontrado no mundo; é a experiência de nosso encontro com Deus, de uma paz espiritual, de uma tranquilidade interior, de uma luminosidade de dentro — e tudo isto nos vem com a conscientização de Deus, com a consciência da presença e da força de Deus em nós. Quando repousamos nessa maravilhosa paz, o corpo toma as suas funções normais, e essas funções se realizam, daí por diante, por uma força que não parece ser dele. E é então que o nosso corpo revela saúde perfeita e plena, força, juventude e vitalidade — todos eles dons de Deus.

Cura espiritual é o contato do espírito de Deus com o do homem; a alma, quando tocada pelo espírito divino, desperta para uma nova dimensão da vida, uma dimensão espiritual — e "onde reina o espírito de Deus, aí há liberdade".[...] Quando o homem atinge esse estado de consciência vive ele numa nova dimensão da vida, além do estado tridimensional conhecido, e faz experiências totalmente desconhecidas no plano comum da vida humana. É esta a meta que a humanidade demanda, embora não saiba nitidamente qual seja essa meta e quais os métodos que a ela conduzem. 

[...] A cura pelo espírito é algo tão estranho, tão revolucionário, tão diferente do modo cotidiano de pensar, que é difícil ensiná-la ou comunicá-la a outros. 

É inegável que para muitos, mesmo para os homens inteligentes, é difícil compreender o segredo da cura espiritual.[...]  Essa atitude em face da cura espiritual é típica para muitos, que acham este assunto inconcebível e diametralmente oposto a todo o bom-senso da inteligência humana, coisa que lhes parece totalmente absurda. Acham que a cura pelo espírito ultrapassa todo entendimento humano, uma vez que todas as experiências da humanidade são contrárias a ela. 

Há um só caminho para o homem aprender os princípios básicos em que repousa a cura espiritual, e este caminho se abre quando alguém sente em seu interior a certeza, e depois começa a perceber a harmonia que se revela na própria vida do homem. 

Aquele que experimentou, mesmo em pequena escala, uma cura espiritual em sua própria pessoa, tem plena clareza de que o caminho para a cura total de espírito, corpo e alma, se abriu diante dele. No momento em que alguém se torna instrumento pelo qual outro recebe cura — mesmo que se trate apenas duma simples indigestão ou duma ordinária dor de cabeça — isto é uma prova de que há uma presença, uma força; entramos em contato com Algo, que transcende a capacidade da inteligência humana. E isto quer dizer que, a partir daí, o nosso trabalho deve consistir em continuar a procurar, intensificando a consciência dessa presença e fazendo exercícios práticos, até que venha a compreensão, seguida da verdadeira realização.

[...] Parece mesmo que, de fato, não há nenhum limite para a velocidade que o homem possa alcançar. Quando o primeiro automóvel conseguiu cruzar, com sucesso, uma rua, solveu o problema do transporte dessa natureza, e a era do cavalo e da carruagem declinou para o acaso.

Coisa análoga acontece no momento em que o homem vive a sua primeira experiência duma presença ou força extra-sensorial, quando percebe aquele Algo, que se pode chamar Deus, Espírito, ou Cristo; é o sinal para um novo início, e o homem sabe que, mais dia menos dia, ele poderá dizer com Paulo: "Já não sou eu que vivo — o Cristo é que vive em mim": ou com Jesus: "De mim mesmo nada posso fazer... quem faz as obras é o Pai que está em mim".

Joel Goldsmith

O desejo de realizar a iluminação mística

Muitas pessoas querem saber se o fato de se alcançar a percepção de Deus¹ torna alguém um instrumento de cura. Não há resposta categórica para essa pergunta. O alcance da percepção pode gerar uma consciência regeneradora, mas isso não ocorre necessariamente. Se a percepção alcançada é bastante profunda, pode ser uma experiência mística, que significa união consciente ou reconciliação consciente com Deus. Mas isso, certamente, nem sempre habilita uma pessoa a realizar o trabalho de cura. 

A consciência regeneradora é a consciência que tem o discernimento espiritual de enxergar, através "deste mundo", a "Meu reino" além. Este discernimento ou habilidade de perceber a Realidade não está reservado àqueles que tiveram iluminação mística. É possível para quase todo mundo, que está desejoso de se tornar aluno da verdade espiritual, atingir uma medida de discernimento espiritual. Há aqueles que o alcançam em um dia. Há os que o alcançam em poucas semanas ou alguns meses e há outros que trabalham durante anos para alcançá-lo. Um fator decisivo na extensão do tempo leva a desenvolver esse estado de consciência: o desejo de realizar isso. 

O discernimento espiritual não é para ser obtido nas horas vagas. Ele exige uma devoção maior do que seria necessário ao esforço de aprender uma nova linguagem ou tocar um instrumento musical. Deve haver o desejo do coração. dado isso e a disposição de estudar e praticar, levará apenas pouco tempo até que uma pessoa possa alcançar a medida de consciência espiritual e mostrá-la em trabalho real.

Joel Goldsmith
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¹ Perene Consciência Amorosa Integrativa

A percepção de uma Presença interior constante

[...] Um dia, no nosso interior, algo acontece. A consciência se expande e vê aquilo que antes era invisível. Sentimos um fluxo de calor: uma Presença, antes desconhecida, torna-se tangível, muito real. Isto, muitas vezes, é uma experiência fugaz. Podemos mesmo duvidar que ela tenha ocorrido. Subsiste na memória, mais como um sonho do que como uma realidade, até que se repita, e desta vez com maior clareza, mais definição, e, talvez, por um tempo maior. Aos poucos se fixa na nossa consciência a PERCEPÇÃO DE UMA PRESENÇA CONSTANTE. Esta Presença pode ser sentida como que furtiva, por trás da consciência ordinária. Por vezes se torna uma Presença imperiosa, que domina a situação ou a experiência daquele instante. 

Nesse momento, contudo, o mal se torna menos real; a doença não é tão aguda; a tensão financeira e mesmo a necessidade cedem caminho para a suficiência; a preocupação consigo mesmo desaparece, pois as necessidades são satisfeitas sem aflições, sem que planejemos, sem que nos aborreçamos ou temamos. As pessoas ou os poderes que antes temíamos, se esvanecem agora da vista, ou até desaparecem da nossa vida, ou então são vistas em sua impotência. Os desejos se fazem menos pungentes. Os medos se esvaem. Segurança, confiança, atenção e entusiasmo se tornam evidentes, não apenas para nós mesmos, mas também para aqueles que encontramos e com quem lidamos na vida cotidiana. 

A PRESENÇA INTERIOR torna-se também um Poder interior. De uma experiência fugaz, transforma-se em CONSCIÊNCIA CONTÍNUA. A força da dor e do prazer na vida externa diminui, enquanto nos tornamos cientes de um PODER INTERIOR que é real, e que gera e direciona a vida externa de modo harmonioso e proveitoso. Não há mais o medo do mundo exterior, nem há o prazer intenso nas alegrias do mundo exterior. É possível ter os prazeres do mundo e se alegrar com eles, ou não tê-los e não lhes sentir a falta. O que passa a existir, é uma alegria interior que não precisa de estímulos externos. 

(...) Encontrando sua vida interior, o homem encontra a paz, a alegria, a harmonia e a segurança. Mesmo em meio a um mundo tão decadente, ele permanece indiferente e intacto — a exata presença do Ser imortal. 

(...) Nesse estado de consciência, desaparece o sentido de finitude, e a visão se torna sem fronteiras. A vida é vista e compreendida como uma forma totalmente liberta e de beleza infinita. Mesmo a sabedoria milenar será abarcada em instantes. (...) É a realidade trazida à luz.(...) Nessa luz, vemos não com os olhos; ouvimos sem os ouvidos; compreendemos as coisas que desconhecíamos. Onde nós estamos, Deus está, pois não há mais separação ou divisão. Aqui não há recompensas ou punições. Há harmonia. 

Joel S. Goldsmith em, O Caminho Infinito

Relato de um anônimo caminhante

Eu gozava de perfeita saúde: estávamos em nosso sexto dia de caminhada, e em bom estado atlético. Tínhamos ido, na véspera, de Six a Trient, passando por Buet. Eu não sentia cansaço, nem fome, nem sede, e meu estado de espírito era igualmente saudável. recebera, em Forlaz, boas notícias de casa. Não me afligia nenhum tipo de ansiedade, nem próxima nem remota, pois tínhamos um bom guia, e não havia sequer a sombra de uma incerteza quanto à estrada que deveríamos seguir. A melhor maneira que tenho de descrever o estado em que eu me achava era chamar-lhe um estado de equilíbrio. Eis senão quando experimentei a repentina sensação de estar sendo erguido acima de mim, senti a presença de Deus — conto a coisa exatamente como dela tive consciência — como se a sua bondade e o seu poder me estivessem penetrando de todo em todo. A vibração da emoção foi tão violenta que mal pude dizer aos rapazes que passassem e não esperassem por mim. Sentei-me, então, numa pedra, incapaz de ficar de pé por mais tempo, e meus olhos inundaram-se de lágrimas. Agradeci a Deus o haver-me ensinado, no curso da minha vida, a conhecê-lo, o haver sustentado minha vida e compadecido não só da criatura insignificante mas também do pecador que eu era. Supliquei-lhe ardentemente que me permitisse consagrar minha existência a fazer-lhe a vontade. Senti-lhe a resposta, segundo a qual eu deveria fazer-lhe a vontade dia a dia, na humildade e na pobreza, deixando que Ele, o Deus Todo Poderoso, fosse o juiz da conveniência ou não de eu ser, algum dia, chamado da dar testemunho dele de maneira mais conspícua. Depois, devagarinho, o êxtase deixou meu coração; isto é, senti que Deus recolhera a comunhão que havia concedido, e pude andar, mas muito devagar, tão vigorosamente ainda me possuía a emoção anterior. Além disso, eu chorara sem interrupção por vários minutos, tinha os olhos inchados e não queria que meus companheiros me vissem. O estado de êxtase pode ter durado quatro ou cinco minutos, embora parecesse na ocasião haver durado muito mais. Meus companheiros esperaram por mim dez minutos na encruzilhada de Barine. mas levei cerca de vinte e cinco ou trinta para juntar-me a eles pois, se não me falha a memória, eles me acusaram de havê-los atrasado cerca de meia hora. A impressão fora tão profunda que, enquanto subia lentamente o aclive, eu perguntava a mim mesmo se era possível que Moisés no Sinai tivesse tido uma comunicação mais íntima com Deus. Creio dever acrescentar que, no meu êxtase, Deus não tinha forma, nem cor, nem cheiro, nem sabor; além disso, a sensação da sua presença não era acompanhada de nenhuma localização determinada. Era antes como se a minha personalidade houvesse sido transformada pela presença de um espírito espiritual. Mas, por mais que eu procure palavras para expressar esse intercâmbio íntimo, mais sinto a impossibilidade de descrever a coisa por qualquer uma de nossas imagens costumeiras. No fundo, a expressão mais capaz de traduzir o que senti é esta: Deus estava presente, embora invisível; não caiu debaixo de nenhum dos meus sentidos e, no entanto, minha consciência o percebeu.

Coleção de documentos psicológicos do Professor Flournoy

Manuscritos de Starbuck

Lembro-me da noite e quase me lembro exatamente do lugar, no topo do morro, em que minha alma se abriu, por assim dizer, para o Infinito, e os dois mundos, o interno e o externo, pareceram fundir-se num só. Era o abismo chamando o abismo — o abismo que a minha própria luta abrira no interior, correspondido pelo insondável abismo exterior, que se estendia além das estrelas. Quedei-me a sós com Aquele que me fizera, e toda a beleza do mundo, e o amor, e a tristeza e até a tentação. Não O procurei, mas senti a perfeita harmonia do meu espírito com o Seu. Desvaneceu-se o sentido ordinário das coisas à minha volta. Por um momento, nada ficou além de uma alegria e uma exaltação inefáveis. É impossível descrever plenamente a experiência. Dir-se-ia o efeito de alguma grande orquestra, quando todas as notas separadas se fundem numa única harmonia transbordante, que deixa o ouvinte cônscio de nada mais a não ser de que sua alma está sendo levada para o alto, quase rebentando de emoção. A perfeita quietude da noite vibrava por efeito de um silêncio mais solene. A escuridão tinha uma presença tanto mais sentido quanto menos visível. Eu não podia duvidar mais da presença d'Ele ali do que da minha. Na verdade, senti-me, se possível, o menos real dos dois.

Minha fé mais alta em Deus e minha ideia mais verdadeira d'Ele nasceram, então, em mim. Tenho subido ao Monte da Visão depois disso e sentido o Eterno ao meu redor. Nunca mais, porém, experimentei o mesmo despertar do coração. Se alguma vez estive frente a frente com Deus, creio que foi nesse momento, quando nasci de novo de seu espírito. Não houve, se bem me lembro, nenhuma mudança súbita de pensamento ou de crença, a não ser que a minha primitiva e grosseira concepção explodira, por assim dizer, numa flor. Não houve destruição do antigo, senão um rápido e maravilhoso desdobrar-se. Desde esse momento, nenhuma discussão que eu tenha ouvido das provas da existência de Deus foi capaz de abalar-me a fé. Tendo sentido uma vez a presença do espírito divino, nunca tornei a perdê-lo por muito tempo. Minha prova mais indubitável da sua existência está profundamente enraizada naquela hora de visão, na lembrança daquela experiência suprema, e na convicção, que me incutiram a leitura e a reflexão, de que alguma coisa parecida ocorreu a quantos já encontraram Deus. Estou ciente de que isso pode, com justeza, ser chamado místico. Não estou tão familiarizado com a filosofia que possa defendê-la dessa ou de qualquer outra acusação. Sinto que, ao descrever sobre ela, sobrecarreguei-me de palavras em lugar de expô-la com clareza para o pensamento do leitor. Mas, tal como é, descrevi-a tão cuidadosamente quanto me foi possível fazê-lo. 

Manuscritos de Starbuck

Sobre o caráter do sábio

Diz-se que o caráter do sábio é sempre desinteressado e sereno, desprendido e disciplinado, sem paixão e impessoal. Seria um erro crer, como muitos, que se pode alcançar esse estado por esforço pessoal ou vontade. Nada disso. Isso está acima das forças humanas. Não pode alcançar este grau senão pela graça misteriosa do Eu Superior. Quando esta pousa nele, sente uma outra força que invade sua consciência e o eleva a um estado de exaltação. Percebe-se, desde então, em uma estreita dependência como criança junto à sua mãe. Daí as palavras profundas de Jesus: "A menos que sejais semelhantes às crianças, não entrareis nos Reinos dos céus". 

Aquele que chega a conhecer a experiência da submissão interior, nunca poderá ser o mesmo homem. Quanto mais o Eu Superior opera nele, menos sente o fardo da vida moderna. Quando o sente como uma força viva em cada momento de sua existência, quando se torna um executor submisso da vontade desse mestre interior de sua personalidade, por entregar-se com confiança a qualquer atividade que seja, porque, com efeito, descobre enfim o segredo da ação inspirada. Ela nada tem de oculto, nada de mágico, e parece tão natural como o alegre borborinho das abelhas em torno do serpão. Poderá daí em diante participar da vida do mundo sem ser desviado de seu fim elevado. 

Crer que o acordar da penetração afeta unicamente a inteligência é enganar-se; provoca também o despertar das mais belas qualidades do coração. Neste esfera transcendente em que entra o filósofo, o pensamento e o sentimento são inseparáveis. A compaixão acompanha automaticamente a penetração mental. A natureza interior de todos os homens pertence ao único e mesmo espírito. Aí está porque aquele que o alcança plenamente joga a baixo a barreira que separa o seu "eu" da do semelhante. Compreende a qualificação paradoxal do Eu Superior, distinto mas não separado de outro homem. Torna-se capaz de sentir plenamente com os outros e por eles, conservando sua personalidade completa. É também por isso que não se pode conservar um observador passivo ante as lutas da humanidade, como o foi no estado místico, e porque não pode ficar encadeado por interesses pessoais puramente como estava talvez em sua época materialista. Servirá então pelo único prazer de servir. O fato de ser guiado por uma inteligência racional garante o sucesso de sua ação. 

Por uma consequência curiosa de seu altruísmo, o filósofo, que não procura apenas a sua felicidade, encontra-a; enquanto isso se dá, o egoísta, que a tem como fim constante, nunca a encontra. Enquanto um homem procura arrancar da vida de punhos fechados, somente o que lhe convém, podemos estar seguros de que, quaisquer que sejam seus sucessos momentâneos, não encontrará, afinal, o seu benefício. Como poderá alcançá-lo se seu bem-estar é inseparável do bem-estar comum? Que procure este ao mesmo tempo que o seu, e ele alcançará sempre os dois juntos, sempre em jogo. Isto, sabedoria prática da penetração do Eu Superior, é plenamente confirmado pelas teorias raciocinadas da metafísica iluminada, pelas observações diretas e pelos anais da humanidade. 

Os progressos efetuados nessa busca fazem descer naturalmente uma grande paz no coração; as paixões, as agitações, os conflitos interiores que perturbam tantas existências, se moderam, a princípio, e depois se aplacam completamente; isso não quer dizer, porém, que o estudante filósofo viva de uma maneira menos ardente e menos plena que as outras pessoas. Não, de modo nenhum; ele não tem necessidade de repudiar a felicidade disciplinada dos sentidos, por efêmera que seja, mesmo que procure uma que esteja fora de seu domínio. Se perceber as lastimáveis ilusões e erros a que tanta gente se escraviza, perceberá também as realidades e as verdades gloriosas para as quais a evolução encaminha lentamente seus passos reticentes. Será possível que este ensino confira aos seus adeptos o sentimento da vaidade, das ambições humanas, o sentido do caráter efêmero de todos os desejos terrenos? Reduz ele o mundo a um sonho e o homem a uma sombra? Não, absolutamente. É um chamado de clarim para uma via natural e racional, para a pesquisa da verdade, da paz e da beleza. Chegando ao fim deste ensino, vemos que ele oferece, compreendendo-o bem, uma esperança prática, um guia verdadeiro, e cria um estado de espírito favorável à vida corrente. Se a realidade para a qual procura conduzir-nos fosse apenas uma fria concepção intelectual ou uma efervescência sentimental, poderia ser interessante para a humanidade, sem contudo constituir para ela um socorro permanente. Poderia, em particular, tornar a vida digna de ser vivida; mas, o espírito, sendo a base secreta e vital de toda a existência, o seu conhecimento traz uma ajuda considerável à vida. A filosofia oferece a todos uma experiência suprema e maravilhosa e constitui nossa mais brilhante esperança. Todas as palavras são miseráveis diante desta grande experiência que um dia toda a raça humana conhecerá; todos os que estudam com sinceridade e perseverança podem conhecê-la desde já. 

É portanto um erro crer que a vida exterior, a existência pessoal, as relações sociais do estudante filósofo possam sofrer uma espécie de mutilação ou de diminuição. Elas se enriquecerão e se alargarão, contrariamente às expectativas malsãs, pois, com efeito, o espírito deve fazer descer, neste mundo de espaço e de tempo, um pouco desta grandeza bem-aventurada, deste milagre permanente que percebe no seu mundo transcendental. Embora o Real no absoluto e na sua pureza se encontre permanentemente como um Vazio, além do mundo manifesto e relativo, não será menos paradoxalmente a fonte e a inspiração dos valores mais altos que este contém. O estudante acha, pois, na filosofia, em função de suas tendências interiores a das circunstâncias exteriores, o que não encontra no asceticismo místico: um poderoso impulso para criar novos valores na arte, na literatura, na civilização e no trabalho, na instrução e na política, bem como na economia e na indústria; em suma, em todos os campos da atividade humana. 

O problema de nosso século é justamente aprender a combinar a contemplação com a atividade energética, a razão aguda com a intuição sutil, o serviço altruísta de interesse geral com a pesquisa de interesse pessoal, os princípios do Cristo com as exigências de César de maneira pela qual os homens do século precedente jamais cuidaram.

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

Breve relato de Durval Duarte

Eu queria saber da verdade. Só da verdade, e mais nada. Estava cansado de todo o mundo, mas não de seus tesouros. Estava cansado de mim mesmo, mas não da minha busca. Não sabia o que iria encontrar. Mas aquela busca, por si só, me alimentava. Me trazia ares novos. Me dava fôlego. E eu seguia em frente. Estava pronto para "o que der e vier". Mal sabia que estava pronto a morrer.

(...) Veio-me de repente, e me roubou todas as palavras. Calou a minha boca e abriu todo o coração. E está ainda aqui, presente, infinita, viva! Por vezes caímos em choro, e sentimos o calor de seu colo, do seu consolo. Sou a própria gratidão, o próprio amor, felicidade e humildade. E ficamos em paz com tudo o que há. Tornastes a minha melhor companhia, e o meu segredo. Guardo-lhe quando estou aos olhos dos invejosos, e falo de ti para aqueles que se mostram humildes. O amor transborda nos olhos, a humildade opera em todas as partes. O choro é de gratidão, felicidade e compaixão. Mudastes tudo em meu coração, e hoje não preciso de mais nada. (é preciso compreender que não és nada, para saber que és Tudo) De outro jeito, não há como.

Durval Duarte

O grau supremo de ser

Não se consegue esse grau Supremo (de ser) senão no fim de um longo noviciado. A consciência transcendental não se torna permanente senão quando o Real ocupa SEMPRE o centro da atenção. É o fruto de uma longa e tenaz educação desta para harmonizar a Mente Imanifestada com suas ideias constantemente cambiantes. Aquele que consegue chegar a isso é capaz, portanto, não somente de ter uma percepção verdadeira da realidade mas, ao recebê-la com compreensão, pode estender a percepção à sua vida quotidiana, Acaba por persistir nas vinte e quatro horas do dia e da noite, tornando-se estável e permanente. O treinamento ultra-místico da via filosófica atinge assim seu coroamento. A atividade do pensamento que segue não é mais a mesma que a precedente; torna-se iluminada. O fim último não é, pois, suprimir o pensamento num transe prolongado e solitário; também não é o de liberar a mente dos pensamentos MAS APENAS DE SUA TIRANIA, e levá-la a compreender a significação verdadeira de suas manifestações características relativas ao "EU" e ao mundo, de tornar o homem consciente, sem esforço, DE SUA ESSÊNCIA MAIS ÍNTIMA no curso de sua existência pessoal. Logo que penetra no quarto estado, o sábio não pode mais regredir. Dormindo ou desperto, no trabalho ou em repouso, é perpetuamente dominado por essa TRANSCENDÊNCIA ENIGMÁTICA. O quarto estado, quando plenamente alcançado, dura durante os três outros. Não desaparece no estado de sono nem no estado desperto do corpo. Conserva-se sem esforço, no mesmo sentido em que um homem, no estado desperto, conserva sem esforço sua identidade.
Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

A transmissão da mensagem da realidade da Consciência Cósmica

A explicação do que pode ser chamado mistério da religião, tal como hoje em dia existe entre nós, pode afirmar-se da seguinte forma: todos os homens, com exceção de algumas centenas, viveram no mundo da autoconsciência sem o poder de abandoná-lo. Os maiores videntes, profetas, mestres religiosos, também viveram nesse mundo, mas ao mesmo tempo em outro, o mundo da Consciência Cósmica, sendo esse mais amplo, interessante e importante para eles. Não é relevante o fato de ter cada um desses mundos uma existência objetiva. Eles são igualmente reais e momentâneos para nós, em qualquer das hipóteses. Os homens que viveram no mundo Cosmicamente Consciente, no mundo feito visível pela Consciência Cósmica, tal como as florestas e o céu se tornam visíveis pelo sentido da visão, desejaram, pelo bem e conforto de seus companheiros, contar a espécie humana o que haviam visto. Mas, obrigados a empregar a linguagem da autoconsciência, na falta de outra mais adequada, seus relatos foram se tornando extremamente incompletos e as palavras e frases usadas foram tão inadequadas que acabaram por ser mal-entendidas. E não apenas isso, mas, supondo-se que tivesse sido possível proporcionar um relato claro, ainda assim ele estaria além dos limites da compreensão da mente autoconsciente. Assim sendo, os relatos feitos por esses trabalhadores espirituais não somente não foram compreendidos, como ainda foram mal-interpretados numa extensa variedade de sentidos e os relatos essencialmente similares, feitos, por exemplo, por Paulo de Tarso, Maomé, Dante, Jesus, Gautama, Walt Whitman e outros, foram analisados como uma variedade de relatos referindo-se não a uma única e idêntica coisa, mas a uma diversidade de coisas. Esses relatos, de acordo com a influência sob a qual nasceu quem os escuta, ficam por conta da imaginação do narrador. Um estudo crítico de todos esses relatos demonstrará que eles são tentativas mais ou menos mal sucedidas de escrever a mesma coisa. Por estar além do poder do relator original, o vidente, proporcionar uma visão clara e completa, em forma de relato, do fenômeno por ele experimentado, em grande parte pela inadequabilidade da linguagem que pertence à mente autoconsciente ou porque os seus relatores (como no caso de Jesus e Gautama, que não escreveram de próprio punho) possuíam apenas autoconsciência, o retrato torna-se ainda mais pobre. Tradutores, meramente autoconscientes e muitas vezes compreendendo apenas parcialmente e imperfeitamente o que o mestre pretendeu transmitir, ainda distorcem mais ainda esses relatos. Por essas razões, a importância da unidade no ensinamento desses homens em geral tem sido negligenciada. Daí surgem a confusão e o chamado mistério. Trata-se de um mal-entendido, sem dúvida alguma, devido às circunstâncias, mas que algum dia será esclarecido. 

Já muitos outros estudiosos, além de nós, observaram a unidade essencial dos aparentemente diversos ensinamentos em pauta, como, por exemplo, Hartman, que nos diz "comparei cuidadosamente as doutrinas de Jacob Behmen com as do Oriente, tal como a preservada na "Doutrina Secreta" e na liturgia religiosa do Oriente e observei uma enorme harmonia entre elas, no que concerne a seu significado esotérico. De fato, a religião de Buda, Krishna e Cristo a mim me parece única e idêntica". Vale a pena observar que os mestres citados por Hartman eram todos possuidores de Consciência Cósmica, embora ele nada soubesse sobre este estado mental específico. 

Richard Maurice Bucke em, Consciência Cósmica

A poética da Consciência Cósmica

Veja! Que olhos mortais não viram, ou que ouvidos não escutaram —
Acabadas todas as penas — abrindo-se dentro o profundíssimo oceano de felicidade — 
a  superfície brilhando. 
A miríade formada abrindo-se, cada uma delas e todas, todas as coisas que são, transfiguradas — 
Enchendo-se de felicidade, tocando apenas o solo, 
levantando os braços para as estrelas, nas montanhas e florestas, habitação de inúmeras criaturas, cantando a felicidade sem fim.
Como o sol em manhã velada rompendo as nuvens — assim detrás do sol um outro sol, de dentro do corpo, um outro corpo. 
Veja! Agora por fim, embora ainda em tempo certo, para alcançar aquilo que por tanto tempo sonhamos — 
Ó, olhos! A que maravilhas estão atentos!
Naquele dia — no dia da libertação — virá a ti em lugar que desconheces; virá sem que saibas em que tempo. 
No púlpito, enquanto estejas pregando o sermão! Subitamente os laços e vendas no berço, no caixão, as mortalhas cairão; 
O único chegará às prisões; e as cadeias mais fortes do que o aço, os grilhões mais pesados do que o ferro, se dissolverão — tu estarás livre para sempre. 
No quarto dos doentes, entre os sofrimentos e lágrimas, haverá um som de asas e saberás que o fim se aproxima. 
(Ó, bem-amado, acompanha-me gentilmente, não sejas pesado, deixa que a felicidade te invada). 
Nos campos, com o arado, ao lado de teu cavalo, nos sulcos, 
No prostíbulo, entre a indecência, consertando tua roupa e a de tuas companheiras;
Em meio à vida mundana, fazendo e recebendo chamados matinais, arrumando tua sala de estar — até mesmo aí, quem sabe?
Chegará, sem dúvida, quando for chegada a hora.
Só há paz onde estou — disse o Senhor. 
Embora tenhas saúde — isso a que chamam saúde — sem mim é apenas doença encoberta; 
Embora tenhas amor, se eu não estiver entre e em torno dos amantes, seu amor é apenas tormento e cansaço;
Embora tenhas riquezas e amigos e lar, tudo isso vem e desaparece, nada existe de estável e seguro que não possa ser arrancado. 
Mas eu permaneço — eu não mudo, 
Como existe o espaço em toda parte, e como todas as coisas mudam e se movem dentro dele, mas ele nem se move, nem muda. 
Assim, eu sou o espaço dentro da alma e o espaço exterior é apenas à minha semelhança e imagem mental.
Vem, pois, habitar-me, terás entrada à vida — a morte já não te separará daqueles a quem amas. 
Sou o sol que desde dentro brilha sobre todas as criaturas — envolve-te comigo e te sentirás cheio de felicidade eterna. 
Não te decepciones. Em breve o mundo exterior desaparecerá, será consumido como o homem consome seu corpo mortal. 
Aprende desde agora a abrir tuas asas naquele outro mundo  o mundo da igualdade — para nadar no oceano, meu filho, de mim e do meu amor. 
(Ah! não tivesse eu te ensinado pela semelhança com o mundo exterior, por suas alienações e mortes e sofrimentos mortais — apenas para isso
Para a Felicidade, a felicidade total!

Edward Carpenter em, Rumo à Democracia
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey