Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

A união Mística: Uma Interpretação Biológica Sugerida

A união mística tem recebido diferentes interpretações daqueles que a têm experimentado. É considerada, pela maioria dos místicos religiosos, uma união espiritual com Deus ou com o Divino, participando, assim, do sobrenatural, ao passo que é considerada, pela maioria dos místicos não religiosos ou panteístas, uma espécie de união com o universo e dentro dos limites do reino no natural. 

Além dessas diferenças quanto à interpretação, há diferenças quanto a descrição da experiência. Vários autores modernos do misticismo têm chamado a atenção para o fato de que a maioria dos místicos, ao relatarem suas experiências em relação à união mística, descreveram-na ocorrendo num ou no outro, ou em ambos dos dois modos opostos. Sugiro que as duas interpretações podem ser incorretas, mas que todas as três descrições podem ser, em parte, corretas.

Em defesa dessa sugestão, chamo a atenção para o fato talvez mais significativo de que cada um desses modos de descrever a experiência é análogo à descrição da união do esperma com o óvulo. Nessa união biológica, o esperma penetra no óvulo, ou é por ele absorvido, e se dissolve; seu protoplasma funde-se e seus cromossomas fazem pares com as partes semelhantes do óvulo. O resultado é que o óvulo se transforma de gameta em zigoto e o esperma deixa de existir como uma entidade separada, mas continua existindo como uma parte integrante do zigoto. 

Tendo esta descrição em mente, consideremos agora o modo pelo qual os místicos têm descrito a união mística. Alguns místicos, principalmente aqueles do Ocidente, afirmaram que o Espírito Divino penetra na alma e, unindo-se a ela, transforma-a e imortaliza-a. Outros, entre os quais se incluem a maioria dos místicos orientais, afirmaram que a alma ou o eu penetra no Divino "do mesmo modo que um pingo de chuva cai no oceano" e, desse modo, dissolve-se e funde-se com o Divino, perdendo assim sua identidade separada e tornando-se um com o Divino. Outros ainda, que formam uma minoria, afirmaram que, na união mística, a alma tanto é penetrada pelo Divino quanto penetra no Divino. Um exemplo do último tipo de descrição foi fornecido por santo Tomás de Aquino, que escreveu: "Nesse momento, a alma, de um modo maravilhoso e indizível, tanto se apodera quanto é apoderada, tanto devora quanto é, ela própria, devorada; não só abraça mas é também violentamente abraçada; e, pelo vínculo do amor, ela se une a Deus e está com Ele como o Solitário com o Solitário".

As analogias entre essas diversas descrições da união mística e a descrição anterior da união do esperma com o óvulo são óbvias e de tal modo semelhantes que sugerem a possibilidade de que a experiência de união mística, nas suas várias formas, pode ser uma "reprodução" de uma gravação da concepção biológica do místico tal como poderia ter sido experimentada, respectivamente, pelo óvulo, pelo esperma e por ambos ao mesmo tempo. (O indício da existência de memória nos organismos unicelulares é relatado por Halstead e Rucker, 1968).

Além de sugerir de que modo todas as três descrições fornecidas pelos místicos poderiam ser verdadeiras, a despeito do fato de que as duas primeiras parecem ser opostas e a terceira parece ser paradoxal, esta interpretação sugerida da experiência da união mística oferece explicações possíveis das três características da experiência, atestadas, senão por todos os místicos, pelo menos pela maioria: a imediação, a inefabilidade e o efeito amortizador. 

Os místicos são quase unânimes em afirmar que a experiência é mais imediata do que qualquer experiência comum, tão imediata que sua realidade não pode ser posta em dúvida. Alguns chegam mesmo a dizer que a realidade revelada pela experiência mística é a única realidade, sendo, tudo o mais, ilusão. Julga-se que a sua apreensão da experiência está além da sensação, da percepção, da conceituação, da racionalização ou da compreensão e é diferente de qualquer coisa que se possa recordar ou imaginar. Trata-se, dizem os místicos, de pura intuição, de pura consciência. Parece que tudo isso equivale a dizer que a apreensão está além do funcionamento de um sistema nervoso e de um cérebro. Acrescento que isso seria verdadeiro quanto a qualquer apreensão de um organismo unicelular tal como um gameta ou um zigoto. Se um organismo desse tipo pode, consciente ou inconscientemente, experimentar o que quer que seja, isso se deve dar graças a alguns outros meios, e mais básicos, que um sistema nervoso ou cérebro, quer se trate de algo físico ou não — alguma forma de percepção extra-sensorial talvez. 
Tudo o que estiver subentendido pelas palavras "mente" e "mentalidade" é impensável sem que haja uma estrutura palpável com a qual se possa associá-lo. O cérebro desenvolve-se por completo na mente; mas não está provado que o cérebro tenha um monopólio dela. Ninguém discordaria de uma afirmação tão patente, mas não é isso que tem ocorrido. Não há, sem dúvida, algo palpável em relação à mente: ela é uma função e não uma entidade, e esse é o motivo pelo qual amiúde se prefere a palavra "mentalidade" (Roddam, p. 120)
E se, como devemos supor, o organismo unicelular é capaz de gravar de algum modo suas experiências para que possam ser "reproduzidas", é bem possível que a gravação seria registrada em cada célula do organismo pluricelular que se desenvolve a partir do zigoto. Esse exato registro poderia justificar a sensação de uma imediação de uma "reprodução" que tem levado alguns místicos a dizer que sentiram a experiência "até a medula dos ossos". 

Os místicos também são unânimes em dizer que a experiência da união mística é inefável. Paradoxalmente, porém, parecem ser capazes de dizer muita coisa a respeito dela. Alguns estudiosos do misticismo tentam explicar esse paradoxo sustentando que a experiência é inefável durante a sua ocorrência mas que, quando recordada, torna-se possível falar a seu respeito. Mas isso não explica por que ela é inefável enquanto está sendo experimentada. Sugiro que o motivo pode estar simplesmente no seguinte: se a experiência mística é uma "reprodução" da experiência da concepção biológico do místico, ela é experimentada como inefável porque a experiência original da concepção, por ter ocorrido antes do aprendizado de uma língua por parte do místico, não possui nenhum componente verbal. A "reprodução", na experiência mística, também carece, portanto, de um componente verbal e é desse modo experimentada. Mas a "reprodução" pode ser descrita quando, mais tarde, for recordada. 

A sensação de imortalização que caracteriza a união mística também pode ser explicável em função da união do esperma com o óvulo. Nas circunstâncias em que a concepção ocorre, a união de um gameta com outro oposto significa a morte. Mas o zigoto que resulta da união é, pelo menos potencialmente, imortal no sentido de que a centelha de vida que ele representa poderia indefinidamente transferida às gerações posteriores. 

Uma quarta característica da união mística, tal como relatada por muitos, consiste em se fazer acompanhar por sensações extremamente agradáveis: êxtase e grande felicidade, geralmente. 

Tendo em vista que, para uma grande maioria de nãos místicos, o contato mais próximo com esse tipo de sensações, por eles experimentado, ocorre durante o ato sexual, sugiro que a união sexual do esperma com o óvulo também pode se fazer acompanhar dessas sensações. Considerando a precariedade geral da vida, parece razoável supor que, a fim de garantir sua sobrevivência, a obediência às exigências do instinto seria reforçada ao ser auto-recompensada, particularmente numa ocasião tão importante como o da concepção biológica no que diz respeito às formas de vida que se reproduzem sexualmente. 

Neste caso, o instinto seria aquele do gameta que o leva a união com um outro oposto. Isso sugere que a memória da experiência da experiência da união poderia ser uma memória herdada, bem como uma memória da própria concepção do indivíduo. Se há uma memória herdada, parece bastante provável que a ocorrência da concepção estaria incluída nessa memória, tendo-se repetido a cada geração da humanidade e em seus antepassados pré-humanos durante, presumivelmente, um período de centenas de milhões de anos.

O instinto de união do gameta também poderia justificar o anseio de unidade aludido no seguinte trecho (Schoeps, 1966):
Se examinarmos o conteúdo essencial, comum a todas as religiões desenvolvidas que conhecemos, poderíamos talvez cautelosamente sugerir que por toda parte encontra a busca de uma união perdida. A religião sempre se origina de uma dicotomia existencial entre o homem e o mundo, entre o homem e Deus ou os deuses. O homem anseia pela unidade, deseja superar a dicotomia; a unidade em vez da divisão parece-lhe necessária à vida. Mas — e eis aqui o elemento crucial — ele nunca consegue alcançar, na realidade, a unidade que busca. Por conseguinte, a essência da religião pode ser vista como emanando da contradição, no centro e na fonte onde se encontra a dicotomia da própria vida.
Se a unidade ansiada nunca pode ser alcançada, ou o anseio não tem sentido ou tem sido mal interpretado. Mas se o anseio for interpretado como o impulso instintivo de união do gameta, torna-se significativo, uma vez que a unidade é alcançada em toda ocorrência de concepção biológica.

Esta interpretação destina-se a ser aplicada apenas à experiência da união mística. Ela deixa de explicar as inúmeras outras experiências místicas que têm sido relatadas. 

Uma dessas outras experiências, frequentemente relatada pelos místicos, é a da luz interior:
Súbito, sem aviso de espécie alguma, vi-me envolto numa nuvem cor de chama. Por um instante, pensei em fogo, numa imensa conflagração em algum lugar, perto dali, na grande cidade; mas em seguida conheci que o fogo estava dentro de mim. Acudiu-me de pronto um sentido de exultação, de imensa alegria, acompanhado ou imediatamente seguido de uma iluminação intelectual, impossível de descrever. Entre outras coisas, não somente vim a acreditar, senão que vi que o universo não se compõe de matéria morta mas, pelo contrário, de uma Presença Viva; tornei-me consciente, em mim mesmo, da vida eterna. Não era a convicção de que eu teria vida eterna, mas a consciência de que já a possuía; vi que todos os homens são imortais; que a ordem cósmica é de tal natureza que, sem nenhuma dúvida, todas as coisas trabalham juntas pelo bem de cada um e de todos; que o princípio fundamental do mundo, de todos os mundos, é o que chamamos amor, e que a felicidade de cada um e de todos, afinal de contas, é absolutamente certa... (William James, 1902, citado por R.M. Bucke).
Esse trecho contém tantas alusões referentes às características da experiência da união mística a ponto de sugerir que a experiência aí registrada poderia ter a mesma origem e ser explicável do mesmo modo que a experiência da união mística. Além do conhecimento de que "... todas as coisas vivas são elétricas. Todas as células vivas são essencialmente baterias" (Komarek, 1966), não pude apurar se há alguma razão verificável para pensar que a união do esperma e do óvulo poderia, pelo menos às vezes, provocar a experiência da luz, ou fazer-se dela acompanhar. Não me surpreenderia, contudo, se alguém, talvez algum bioquímico ou biofísico, viesse a descobrir essa razão desde que voltasse a sua atenção para isso. 

Da natureza especulativa e baseada na suposição não demonstrada, sugerida por analogias, de que os gametas humanos são capazes de experimentar o evento da união e de gravar essa experiência para que ela possa ser "reproduzida", esta análise pode não parecer convincente, especialmente àqueles que preferem considerar a união mística como algo sobrenatural. A sugestão desta interpretação biológica é naturalista. Pesquisas futuras talvez possam fornecer provas científicas que venham confirmar ou refutar esta hipótese especulativa.

Alexander Maven em Journal Transpersonal Psychology, vol.1, nº 1, primavera de 1969
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey