Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

O amor é um estado natural da consciência

O amor é um estado natural da consciência. Não é nem fácil nem difícil, essas palavras de forma nenhuma se aplicam a ele. Ele não é um esforço; por isso não pode ser fácil nem pode ser difícil. É como respirar! É como as batidas do coração, é como o sangue circulando no nosso corpo.

O amor é o nosso próprio ser... Mas esse amor ficou quase impossível. A sociedade não o permite. A sociedade condiciona você de tal forma que o amor fica impossível e o ódio passa a ser a única coisa possível. Então o ódio é fácil, e o amor não só é difícil como impossível. O homem tem sido deturpado. Ele não pode ser reduzido à escravidão se não for primeiro deturpado. Os políticos e os padres têm participado de uma profunda conspiração ao longo das eras. Eles têm reduzido a humanidade a uma multidão de escravos. Estão destruindo qualquer possibilidade de rebelião no homem - e o amor é uma rebelião, porque o amor ouve só o coração e não dá a mínima para o resto.

O amor é perigoso porque ele faz de você um indivíduo. O Estado e a Igreja... Eles não querem indivíduos, de jeito nenhum. Não querem seres humanos, querem ovelhas. Querem pessoas que só pareçam seres humanos, mas cuja alma tenha sido esmagada de tal maneira, tenha sido danificada a tal ponto, que o estrago pareça quase irremediável.

E a melhor maneira de destruir o homem é destruir sua espontaneidade de amar. Se o homem tiver amor, não poderá haver nações; as nações existem no ódio. Os indianos odeiam os paquistaneses e os paquistaneses odeiam os indianos - só assim esses dois países podem existir. Se o amor surgir, as fronteiras vão desaparecer. 

Se o amor surgir, então quem vai ser cristão e quem vai ser judeu? Se o amor surgir, as religiões desaparecerão. Se o amor surgir, quem irá ao templo? Para quê? É porque está faltando amor que você sai em busca de Deus. Deus não é nada mais do que um substituto para o amor que está faltando. Como você não é bem-aventurado, não está em paz, não está em êxtase, você está em busca de Deus. Se a sua vida é uma dança, Deus já está no seu coração. O coração amoroso está cheio de Deus. Não há necessidade de mais nenhuma busca, não há necessidade de mais nenhuma prece, não há necessidade de ir a templo nenhum, de procurar sacerdote nenhum.

Osho

Despertar, sem autoconhecimento, é escapismo místico

"90 dias, 90 reuniões"... Cena do filme: A TRAVESSIA
A experiência mística é por vezes espontânea mas via de regra é auto-induzida. Neste último caso decorre ela da prática da concentração mental ou de uma intensa aspiração emocional ou da atenção interiorizada transformada numa condição de devaneio ou mesmo de transe. Durante tais estados poderão surgir na mente visões extraordinariamente vívidas de homens, acontecimentos ou lugares; o místico, se bem só ele, talvez ouça vozes, e tais vozes poderão trazer-lhe uma mensagem, uma advertência, uma série de instruções ou uma revelação religiosa; até mesmo Deus poderá ser sentido como uma presença próxima e sublimadora; o místico poderá sentir-se arrebatado no espaço como por vezes acontece em sonho aos não-místicos, de modo que lhe é possível fazer visitas mentais a locais, pessoas e esferas distantes. Ou poderá ainda chegar ao clímax em glorioso êxtase, o qual será violento e erótico ou sereno e beatífico, mas será encarado como o sinal de entrada num reino mais elevado do ser, via de regra chamado de espiritual, alma, realidade divina e assim por diante. 

No entanto, não devemos aceitar falsificações das maravilhosas realidades de tais experiências. Em primeiro lugar, empregando um critério consistente, vejamos até que ponto os místicos não se contradizem entre si. Sem fazer alentadas incursões num terreno controverso, pode-se dizer concisamente que não se deve pensar que o misticismo seja uma experiência tão privilegiada que a seu respeito todos os místicos estejam sempre de acordo. Longe disso. assim como os homens de religião — desde o mais tosco campônio até o mais refinado pregador — variam bastante em calibre pessoal e perspectiva mental, assim também existem diferenças entre os místicos e é fácil constatar que, tirante os cinco princípios já mencionados em capítulo anterior, até mesmo os místicos traem em suas palavras e atos a existência de uma unanimidade entre eles. Malgrado as diversas analogias em suas doutrinas e práticas há também numerosas e insanáveis diferenças entre elas. Enquanto a maioria gasta um bocado de tempo desencravando problemáticos significados esotéricos enterrados nas escrituras, uns poucos desdenham as escrituras e têm tais práticas na conta de acrobacias intelectuais e não de descobertas espirituais, sustentando que o tempo seria melhor empregado na meditação sobre si mesmo. Enquanto a maioria agarra-se de alguma forma ao nome de um personagem sagrado como Jesus ou Krishna, alguns declaram que pouco importa a quem estejam seguindo desde que sintam a presença da divindade. As doutrinas acerca das quais discordam estão repletas de prolíferas fantasias e são muito mais numerosas do que os cinco requisitos essenciais acerca dos quais tendem a ser uníssonos. 

Aqueles que contestam este fato — pessoas em sua maioria bem intencionadas, mas despidas de espírito crítico — deveriam tentar imaginar um conclave dos seguintes místicos encerrados numa sala até que conseguissem chegar a uma total unanimidade de pontos de vista (seria tal coisa realmente possível?): Cornélio Agrippa, que mesclou a piedade mística como uma magia estranha; Emmanuel Swedenborg, que conversava familiarmente com anjos e espíritos; S. Stylintes, que permaneceu muitos anos sentado no topo de um pilar de pedra; mortificando-se; Anna Kingsford, que confessava abertamente matar pela força do pensamento os vivisseccionistas a fim de salvar a vida dos animais; Miguel Molinos, que impregnou de toda a emotividade espanhola a sua união com Deus; Eliphas Levy, que aplicou curiosas interpretações cabalísticas à teologia católica; Jacob Boehme, que foi presa de transe entre os remendos da sua velha sapataria; Hui Ko, que ensinou aos camponeses chineses o seu misticismo e foi cruelmente martirizado por isso; e Wang Yang Ming, que descobriu no próprio coração um mundo divino!

A limitação oculta e a fraqueza desconhecida do misticismo é que não se trata de uma busca da verdade definitiva e sim de um anseio de experiências emocionais. Por isso, o místico preocupa-se mais em ter os seus sentimentos temporariamente apresados numa grande paz ou temporariamente espicaçados por uma grande visão ou temporariamente exaltados por alguma mensagem oracular de caráter pessoal. Daí a filosofia abordá-lo ou assustá-lo com a pergunta: "Como sabe que a fonte da comunhão é de fato Deus ou a Realidade, Jesus ou Krishna?"

Mas ele se recusará a ouvir qualquer crítica, por procedente que seja, a respeito da possível irrelevância das suas conclusões. E insistirá em fazer do fato indiscutível da sua própria experiência o critério discutível da sua validade. Inteiramente inevitável e humano é que em tais circunstâncias ele se deixa empolgar pelo sentimento de extraordinária imediação do acontecimento e pela força das suas inusitadas exaltações a ponto de dar maior importância ao que é menos essencial e que isto lhe baste, sem maiores investigações da natureza oculta e da veracidade da dita experiência.

O valor da meditação para a paz interior, o êxtase sublime e a auto-absorção integral é imenso. Mas o seu valor para a busca da verdade e da realidade, sem o auxílio da filosofia, é coisa bem diferente e requer cuidadosa investigação por parte de inteligências críticas e imparciais dotadas de senso das proporções e da argúcia filosófica — qualidades quase sempre ausentes da constituição do místico. O êxtase é na verdade uma forma de satisfação pessoal, mas não é nem um completo critério de realidade nem uma prova adequada da verdade. Pois qualquer tipo de satisfação, por mais nobre que seja, não é em absoluto uma prova da verdade. De fato, quanto mais calorosos forem os sentimentos de um homem e quanto mais caloroso for o seu entusiasmo, tanto mais ele deverá esfriá-los e refreá-los a fim de examinar a experiência de uma forma imparcial e impessoal. Se esta for verdadeira, nada perderá com tal exame, mas se for falsa, a calma do homem será de grande valia na constatação da falsidade.

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga

O Misticismo como pedra de tropeço


O Misticismo não basta. Mas a lei da vida é movimento. O homem não pode permanecer imóvel como um sapo hibernado em prolongado transe. Ele tem de emergir dessa condição mais cedo ou mais tarde. Tem de ligar-se aos seus camaradas místicos, ou à sua família ou ao grande mundo. Ou então terá de desincumbir-se de uma ou outra necessidade fisiológica. Ademais, cedo ou tarde terá de confrontar as várias limitações do misticismo e os defeitos característicos dos místicos. Alguns desses defeitos são graves e relevantes. O pesquisador que nunca se deparou com eles, ou que, tendo se deparado, jamais teve a coragem de encará-los devidamente, não poderá nunca elevar-se acima do segundo grau (da ascensão do homem rumo a Verdade), mas colocará prematuramente um ponto final na sua busca e permanecerá para sempre um estudante sem diploma, presunçoso e oco.[...]

Assim, o pesquisador chegará um dia ao muro que delimita o âmbito do misticismo. Ele verá que, conquanto benéfico, o misticismo não têm condições para fazer todo o bem que alardeia. Verá, ainda, que o valor social do misticismo histórico é tão pequeno como é grande o seu valor individual, e que, por essa razão, não pode o misticismo constituir-se numa solução completa para o problema da existência humana, nem pode funcionar como uma panaceia para os desiludidos, da velada exploração da ignorância, credulidade, recursos financeiros, moléstias, ansiedades ou desejos praticada por aqueles que professam ensinar a matéria ou que proclamam a sua autoridade para atuar como guias espirituais. Perguntar-se-á por que tanta charlatanice perniciosa e tanta superstição grosseira anuviam os céus da história do misticismo. A conclusão final só poderá ser a de que a própria possibilidade desses inconvenientes revela a deficiência e as limitações do misticismo. Este, em seu aspecto meritório, é admirável, embora não seja perfeito. Falta-lhe algo. O elemento em falta é previamente igual àquele mesmo elemento de que carece a religião. Um apela diretamente para a fé emocional; outro para a experiência emocional. Nenhum deles apela para o critério da verdade mais elevada. Ambos carecem de uma base racional  e chegam mesmo a vangloriar-se dessa carência. Para aquele que respira a atmosfera rarefeita da verdade não é possível nenhuma charlatanice, nenhuma superstição, nenhuma exploração. Ele jamais se enganará a si mesmo e tampouco enganará os outros. As variações e contradições da experiência mística estão a indicar que, necessariamente, a verdade derradeira deve situar-se além dos domínios do misticismo. Pois tem que haver uma verdade única a respeito da vida, não duas ou mais. Os fracassos éticos dos místicos e dos ocultistas devem ser atribuídos à sua incapacidade de descobrir e compreender essa verdade suprema, bem como à sua dependência a uma fonte instável e incerta de inspiração, vale dizer, o sentimento, que é reconhecidamente volúvel por mais que possa ser temporariamente exaltado em função de contemplação. As dificuldades intelectuais dos místicos e dos ocultistas são o resultado lógico do seu desdém pela lógica e da sua íntima oposição aos processos racionais comprovados em favor de métodos intuitivos dos mais discutíveis. Claro que aquele que busca o mais alto tem de resolver-se um dia ir ainda além do misticismo, por útil que este tenha sido na sua progressão. 

A incapacidade de obter respostas satisfatórias e convincentes para as perguntas que a plenitude da experiência e o amor do conhecimento irão eventualmente suscitar deve conduzir o místico reflexivo que não se acomodou a uma situação de passividade e autolouvação a um ermo bravio, onde durante algum tempo ele errará aturdido, da mesma forma pela qual terá decerto um dia penetrado no ermo da dúvida, do desespero e do ceticismo, ao emergir das autocontradições da religião dogmática. O processo da passagem de uma submissão total ao sentimento místico para uma percuciente autocrítica racional não é fácil nem rápido para um homem que durante muitos anos esteve entregue à primeira. Sua consumação demandará algum tempo e o princípio da gratidão funcionará com certeza. Embora ele não o saiba, o próprio descontentamento que lhe assaltou a mente é um precursor da sua proximidade da invisível fronteira de uma região mais elevada do pensamento. Contudo, essa fronteira permanecerá fechada a menos que ele prossiga na sua jornada solitária e se recuse a ser obstado por hábitos antigos ou opiniões alheias. A coragem que dele se exige agora não é menor do que a anteriormente requerida na sua memorável passagem da religião ou do agnosticismo para o misticismo. Na ocasião poucos estavam prontos a acompanhá-lo, mas agora serão infinitamente menos numerosos aqueles que lado a lado com ele se disporão a invadir aquele ermo ululante. Mas se ele não perder de vista a gravidade de sua empreitada, não vacilará em ceder às circunstâncias. Acabará por perceber, ainda que obscuramente, que a sua compulsão íntima deve ser respeitada acima de todas as coisas, pois carrega uma inefável santidade que supera em muito a santidade da fé religiosa ou da intuição mística. 

A posição elementar de todas as religiões e sistemas místicos torna-se, portanto, clara quando estes são coordenados segundo as concepções mais amplas da filosofia. Aquilo que de verdade contêm não é senão a tradução simbólica de sutis princípios filosóficos. As pias concepções de um Deus humanizado propiciam um campo fértil para as crendices populares; os tranquilos devaneios da meditação são como bençãos para as mentes mais evoluídas; mas, para ambas as classes a comida sofisticada de uma elite moral, emocional e intelectual sabe inevitavelmente fria e insossa. 

Assim, o místico cujo lema é Excelsior! tem de sofrer e lutar, mesmo em meio aos frequentes, se bem que regulares, interlúdios da paz contemplativa a que chegou. Chegará o momento em que ele se encontrará postado diante da própria fronteira acima referida. Alguns passos mais e poderá transpô-la. Além fica uma nova terra, extremamente misteriosa e quase virgem. Trata-se da região do terceiro grau, o império da suprema sabedoria aberto ao homem. No entanto, este não chegará a saber o quanto está próximo desse império, a menos que surja um guia para fazer-lhe a revelação e acompanhá-lo território adentro. Tal guia poderá ser antigo e falar ao homem através de um livro. Poderá também estar vivo e falar ao homem frente-a-frente. No primeiro caso será como uma carroça capaz de carregá-lo lentamente durante certo trecho do caminho, ao passo que no segundo o homem será levado mais longe e com maior rapidez. Mas, uma vez iniciada a nova jornada e deixada para trás a fronteira, nunca mais será dado ao homem saber o que é o descanso complacente ou a indolência egoísta. Pois o novo acólito do Absoluto tem agora de lutar incessantemente, primeiro com os olhos fitos no seu posicionamento final, depois pela liberação dos outros, sob o comando autoritário de um poder superior — A VERDADE!

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga

As duas coisas essenciais no sucesso da Busca

Não chegamos ao Real por nossos próprios esforços, nem ele vem a nós apenas por sua vontade. O esforço que nasce do eu e a Graça que vem de uma região além dele são duas coisas essenciais no sucesso desta Busca. A primeira depende de nós, mas a segunda só pode ser concedida pelo Eu Superior. Foi dito uma vez aos homens: "O Espírito sopra onde lhe apraz". Assim, afirmar que o esforço humano e a dependência do homem em relação à Graça Divina são ambos necessários não expressa ideias contraditórias e opostas, porque há uma espécie de ação recíproca entre eles. E essa participação conjunta da Graça é algo maravilhoso. O convite subconsciente do Eu Superior origina, como reação automática, a sua invocação consciente. Quando o ego se sente atraído em direção à sua fonte sagrada, o Eu Superior é atraído, com intensidade equivalente, em direção ao ego. Nunca duvide de que o Divino retribui sempre essa atração que o eu humano sente por ele. Nem a história passada desse eu, nem sua personalidade atual podem alterar esse fato, que constitui uma benção e que traz tanta esperança. A Graça é a prova final, gloriosa e autêntica de que não é apenas o homem que busca Deus, mas que Deus também está sempre esperando pelo homem. 

A Graça é um dom celestial supra-humano. Os que nunca a sentiram e por isso se apressam a negar imprudentemente sua existência são dignos de pena. Aqueles que zombam da possibilidade e negam a necessidade de ajuda da Graça só podem ser os que se tornaram vítimas de um sistema intelectual inflexível, onde não pode haver lugar para ela.[...]

Tudo o que o ego pode fazer é criar as condições necessárias para que possa ocorrer a iluminação, porém, não tem possibilidade de produzir por si mesmo essa iluminação. Por meio da autopurificação, da aspiração constante, da meditação regular, do estudo profundo e da atitude altruísta na vida prática, ele faz o que é necessário. Mas tudo isso é como bater à porta do Eu Superior. É só a Sua Graça que pode abri-la no final. 

A vontade tem sua participação nesse processo, mas não é tudo. Mais cedo ou mais tarde, ele descobrirá que não pode mais avançar dependendo unicamente dela, e que deve pedir ajuda a algo que está além de si mesmo. Ele deve, na verdade, invocar a Graça para que ela aja sobre ele. Nessa luta terrível, torna-se extremamente necessário obter ajuda de algo que está além do eu comum e de seus recursos normais. Ele precisa, na verdade, da Graça. Felizmente, essa Graça está disponível, mesmo que não seja nos termos dele. 

Em certo estágio, ele deve aprender a "soltar-se" mais e a permitir que o Eu Superior o possua, em vez de lutar para possuir algo que, segundo crê, ainda lhe escapa. O aspirante que já tiver passado por isso vai lembrar-se de como avançou no caminho quando fez essa descoberta. 

Em outro estágio, o Eu Superior, cuja Graça foi o impulso inicial para todos os seus esforços, começa a se manifestar e começa a revelar mais abertamente sua presença e atuação. O aspirante torna-se consciente dele com respeito, reverência e gratidão. Ele deve aprender a atender prontamente a esses chamados interiores da Graça Divina. São como raios de sol que fecunda a terra.
Com a descida da Graça, toda a angústia e as recordações desagradáveis do passado do buscador e as frustrações do presente serão milagrosamente apagadas pela mão invisível e curadora do Eu Superior. Ele sabe que um novo elemento entrou no campo de sua consciência e que, desse momento em diante, sua vida interior irá progredir mais rapidamente. Quando seu esforço pessoal diminui, um poder maior começa a agir em seu benefício. Sem que ele faça nada, a Graça começa a fazer por ele aquilo que ele não pode conseguir por si mesmo e, sob sua atuação benéfica, ele descobrirá que sua vontade está se fortalecendo, seu caráter se aperfeiçoando e sua aspiração espiritual aumentando. 

Ele perceberá claramente que se acha sob o controle de uma influência superior e que esta está conseguindo vitórias morais para ele, as quais ele não poderia obter por intermédio de seu eu comum. Uma série de experiências extraordinárias confirmarão o fato de que algum poder benéfico tomou conta de sua personalidade e de que a está tornando mais nobre, a está elevando, inspirando e guiando. Uma sensação de liberdade que lhe traz enorme alegria o domina. Ela afasta todas as suas preocupações emocionais e seus fardos pessoais. 

A Graça é recebida, não conquistada. O homem deve estar disposto a deixar o poder dela agir livremente em seu coração; ele não deve colocar obstáculos, nem impedir sua atuação por não estar se rendendo completamente. Ele só poderá possuir a Graça se deixar que ela o possua. 

A filosofia afirma a existência da Graça, afirma que aquilo que não podemos realizar, mesmo por meio dos mais intensos esforços, pode ser colocado em nossas mãos como uma dádiva divina. 

Tanto no início como no final deste caminho, a descoberta do Eu Superior não é um ato da vontade humana. Só a Vontade Divina — ou seja, só a própria Graça — pode levar à revelação última, à consciência que, quando mantida, transforma o aspirante em um adepto.

Ao buscar o Eu Superior, o aspirante deve buscá-lo com amor sincero. Na verdade, toda a sua Busca deve estar ardentemente imbuída desse sentimento. Ele pode amar o divino de maneira pura e desinteressada? Essa é a pergunta que ele se deve fazer. Para que esse amor devocional seja mais do que um sentimento superficial, ele terá que fortalecer e redimir a vontade. Deverá elevar o sentido de dever moral e dispor-se a obedecer-lhe. Em razão da devoção a algo que transcende seus interesses egoístas, ele não mais poderá buscar vantagens pessoais em detrimento de outros. Seu objetivo não apenas será o de amar a alma, mas também o de compreendê-la, não apenas o de ouvir sua voz durante a meditação, mas o de viver segundo sua vontade.

Paul Brunton em, Práticas para a busca espiritual - relax e solitude

A Busca, seus estágios progressivos e a obra da Graça

"No dia da entrega da vida, morrerei ansiando por Vós; cederei meu espírito, aspirando ser de Vossa rua a poeira". — Humamud Din (místico persa do século XIV)
Esses versos poéticos expressam até que ponto o místico deve estar disposto a ir para obter a Graça. 

Só quando o indivíduo se apaixonar por sua alma mais profundamente do que já se apaixonou por alguém, terá alguma chance de alcançá-la. A aspiração incessante pelo Eu Superior, com um espírito de devoção religiosa, é um dos quatro aspectos indispensáveis da Busca total. A Nota da aspiração por realizar isso deve ressoar em sua oração, em sua devoção, concentração e meditação. Às vezes, o anseio por Deus pode afetá-lo até mesmo fisicamente, por meio de uma súbita força dinâmica que abala todo o seu corpo e seu sistema nervoso. A prática meramente formal de meditação é insuficiente, embora não seja de todo inútil, pois, sem a aspiração, a descida da Graça é improvável e sem a Graça não pode haver qualquer realização do Eu Superior. 

O fato de alguém ter conscientemente iniciado o Caminho é por si só uma manifestação da Graça, pois ele começou a buscar o Eu Superior apenas porque o próprio Eu Superior tornou claro — através da sensação insuportável de separação com respeito a Ele — que o momento certo para isso havia chegado. Portanto, o aspirante deve ter esperança. Na verdade, ele não está caminhando sozinho. O próprio amor que passou a sentir pelo Eu Superior é um reflexo do amor que lhe é dedicado por Ele. 

Assim, a própria Busca à qual ele aderiu, os estudos que realiza e a meditação que pratica são inspirados pelo Eu Superior desde o princípio e sustentados por ele até o final. o Eu Superior já estava agindo, mesmo antes de ele começar a buscá-lo. Na verdade, ele iniciou a Busca em obediência inconsciente ao chamado divino. E esse chamado é a primeira manifestação da Graça. Mesmo que ele acredite estar fazendo essas coisas por si mesmo, é na verdade a Graça que está abrindo seu coração e iluminando sua mente por trás da cena. 

A iniciativa do homem o impulsiona em direção à meta, enquanto a Graça Divina o atrai para ela. As duas forças precisam se combinar para que o processo se complete e seja coroado com êxito. Contudo, foi a Graça que inicialmente o despertou para a meta, que o inspirou por meio da fé, dando assim origem aos seus esforços. Nesse sentido, tornam-se mais compreensíveis as palavras de Paulo de Tarso: "Por meio da fé, pela Graça, fostes salvos, e isso não vem de vós". 

A Graça Divina não tem preferência por pessoas nem lugares. Ela vem ao coração que a deseja muito, esteja esse coração no corpo de um rei ou de um homem do povo, de um homem de ação ou de um recluso. John Bunyan, o pobre funileiro, encarcerado na prisão de Bedford, viu uma Luz negada a muitos reis e tentou descrevê-la em seu livro Pilgrims's Progress, Jacob Boehme, trabalhando como sapateiro em Seidenburg, recebeu três graus de iluminação, vislumbrando segredos que, segundo ele, eram desconhecidos nas universidades de sua época. 

Se um indivíduo tiver conscientemente seguido esse caminho quádruplo, trabalhado a purificação do caráter, praticado a meditação e a reflexão metafísica, se dedicado ao serviço altruísta, e mesmo assim parecer distante da meta, o que ele deve fazer? Ele precisa seguir o conselho de Jesus: "Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto". Ele precisa literalmente pedir pela Graça com o mais profundo anseio de seu coração. Somos todos pobres. Na verdade, é sábio aquele que compreende isso e se torna um mendigo, implorando a Deus pela Graça.

Primeiramente, ele deve orar para ser libertado da pesada escravidão dos sentidos, dos desejos e dos pensamentos. Depois, orar pela consciência da presença do Eu Superior. Ele deve fazê-lo profundamente e em silêncio, na solidão do próprio coração. Deve orar com emoção e com a mente firme. Seu anseio por essa libertação e por essa presença deve ser inquestionavelmente forte e sincero. Ele deveria utilizar essas orações ao iniciar, ao encerrar, e se desejar, mesmo durante o período de meditação. Ele deve fazê-lo dia após dia, semana após semana, porque o Eu Superior não é meramente um conceito, mas uma realidade viva, o poder que há por trás de todos os outros poderes menores. 

Nenhum aspirante que seja sincero e sensível ficará sem ajuda. Este poderá se manifestar em uma dificuldade, quando a natureza inferior parece inesperadamente dominada por uma ideia poderosa que se opõe a ela. Talvez ele encontre num livro aquilo que ele precisava e que, nesse momento específico, vai ajudá-lo em seu caminho. A ajuda que ele necessita em determinado estágio virá naturalmente. Ela pode assumir a forma de uma mudança nas circunstâncias exteriores ou de um encontro com uma pessoa mais evoluída, de um livro ou de uma carta, de uma inspiração inesperada de ou uma intuição iluminadora. Nem é necessário que ele tenha avançado muito no caminho para colher esses frutos. Muito antes disso ele começará a desfrutar de paz, esperança, conhecimento e transcendência divina. 

No momento em que, numa situação difícil, um indivíduo abandona de boa vontade seu ponto de vista habitual e o substitui por um ponto de vista superior, nesse momento ele recebe a Graça. Acontece um milagre  e o erro do ponto de vista inferior deixa permanentemente de fazer parte de seu caráter. A situação, ao mesmo tempo que o põe à prova, lhe dá a oportunidade. 

A realidade da Graça não anula a necessidade de escolha moral e de esforço pessoal. Seroa um grande erro rotular de inútil o esforço humano na Busca e proclamar a total inabilidade do homem para conquistar a própria salvação. Assim como é verdade que só a Graça Divina pode levar a Busca a ser bem-sucedida, é também verdade que o esforço humano deve preceder e invocar a descida da Graça. Para invocar a Graça é necessário, primeiramente, uma extrema, intensa e sincera humildade; em segundo lugar, uma entrega do ego ao Eu Superior, uma consagração do ser terreno à essência espiritual; em terceiro lugar, executar diariamente exercícios de devoção. As práticas irão possibilitar experiências, a aspiração irá atrair ajuda. A intervenção misteriosa da Graça pode mudar o curso dos acontecimentos. Ela introduz novas possibilidades, imprime um rumo diferente para o destino. 

Paul Brunton em, Práticas para a busca espiritual - relax e solitude

A obra da Graça


Você pode acreditar numa religião, mas não basta acreditar na filosofia; você precisa também compreendê-la. E ela não pode ser compreendida apenas através da mente, mas também através do coração e da vontade. Assim, não espere dominá-la em poucos anos, mas dedique toda a sua vida a essa tarefa. 

Lao Tsé disse: "Não faça nada segundo sua própria vontade, mas conforme a vontade do céu, e tudo será feito por você". Toda Busca pode ser resumida na tentativa de colocar em prática essas sábias palavras. No entanto, essa Busca não é algo para ser realizado em um momento ou um dia; ela se estende por muitos anos, até mesmo pela vida inteira. assim, aprender a "não fazer nada" é por si uma longa tarefa, se for feita verdadeiramente e se não estivermos nos enganando.

Retirar do livro de Lao Tsé certas frase, como, por exemplo, "O caminho não requer atividade alguma, e, no entanto, nada deixa de ser feito", e presumir, como fazem muitos estudiosos ocidentais, que isso significa adotar como forma de vida o completo afastamento do mundo, porque tudo será feito pelo Poder Superior, é confundir a mente do aspirante. A virtude e o poder não residem no afastamento, mas sim na ligação com a força superior que flui através do adepto, uma força que não pode fluir através do iniciante. Tomar outra frase de Lao Tsé — "O Sábio cuida de seus assuntos sem impor sua vontade e difunde sua doutrina sem palavras" — também seria insensato e perigoso, quando se trata de um iniciante. É natural que o ego se afirme, e vai continuar a fazê-lo, mesmo que se afaste do mundo. Só quando o ego perder o poder de controlar os assuntos do indivíduo é que o Eu Superior entrará em cena e passará a controlá-los; porém, não se alcança essa condição apenas falando sobre ela ou desejando que ela seja alcançada. Ela representa o ápice de uma luta que dura a vida inteira. Então, a menos que o homem se tenha unido por inteiro com a força que reside em centro de quietude, ele dependerá necessariamente das palavras para difundir sua doutrina: só o adepto que se uniu a essa força, que é muitas e muitas vezes mais poderosa que o intelecto, pode se permitir permanecer em silêncio, confiando totalmente em que a doutrina será difundida, apenas de seu silêncio.

Paul Brunton em, Práticas para a busca espiritual - relax e solitude

O movimento final de consumação da transformação espiritual


[...]É somente por uma abertura para dentro da consciência cósmica que a ascensão e descida da sobremente pode tornar-se de todo possível: uma alta e intensa abertura individual para cima não é suficiente — e esta ascensão vertical rumo à Luz culminante deve ser acrescentada uma vasta expansão horizontal da consciência para dentro de uma totalidade do Espírito. 

Quando a sobremente desce, a predominância do sentido-de-ego centralizador é inteiramente subordinada, perde-se em grandeza de ser e é finalmente abolida; uma ampla percepção e sentir cósmicos de um si e movimento universal ilimitado a substituem: muitas moções que anteriormente era egocêntricas podem continuar ainda, mas elas ocorrem como correntes ou pequenas ondulações de superfície na amplidão cósmica. O Pensamento, em sua maior parte, não parece mais originar-se individualmente no corpo ou na pessoa, mas se manifesta de cima ou entra trazido pelas ondas de mente cósmicas: toda visão ou inteligência individual interior das coisas é agora uma revelação ou iluminação do que é visto ou compreendido, mas a fonte da revelação não está em nosso si separado e sim no conhecimento universal; os sentimentos, emoções, sensações são semelhantemente sentidos como ondas da mesma intensidade cósmica irrompendo sobre o corpo sutil e o corpo grosseiro e respondidas do mesmo modo pelo centro individual da universalidade; pois o corpo é apenas um pequeno suporte, ou até menos, um ponto de relação, para a ação de uma vasta instrumentação cósmica. Nesta grandeza ilimitada, não apenas o ego separado mas todos os sentidos de individualidade, mesmo de uma individualidade subordinada ou instrumental, podem desaparecer por completo; ficam unicamente a existência cósmica, a consciência cósmica, o deleite cósmico, o jogo de forças cósmicas: se o deleite ou o centro de Força é sentido naquilo que era a mente, vida ou corpo pessoal, não é como um senso de personalidade, mas como um campo de manifestação, e este sentir do deleite ou da ação da Força não se confina à pessoa ou ao corpo, mas pode estender-se a todos os pontos, numa consciência ilimitada que se espalha por toda parte. 

Mas pode haver muitas formulações de consciência e experiência de sobremente; pois a sobremente tem uma grande plasticidade e é um campo de múltiplas possibilidades. Em lugar de uma difusão não centrada e não localizada, pode haver o sentido do universo na pessoa ou como sendo a pessoa: mas igualmente aqui, este si não é o ego; é uma extensão de uma livre e pura autoconsciência essencial, ou é uma identificação com o Todo — a extensão ou a identificação constituindo um ser cósmico, um indivíduo universal... Na transição para a supramente, esta ação centralizadora tende à descoberta de um indivíduo verdadeiro substituindo o ego morto, um ser que em sua existência é um com o Si Supremo, um com o universo em extensão, e mesmo assim um centro e circunferência cósmica da ação especializada do Infinito. 

A mudança para a sobremente é o movimento final de consumação da transformação espiritual dinâmica; ela é a mais alta dinâmica de status possível do espírito no plano da mente-espiritual. Ela assume tudo o que está nos três estágios abaixo dela e eleva suas operações características a seu poder mais alto e maior, acrescentando a elas uma amplitude universal de consciência e força, um acordo harmonioso de conhecimento, um mais multiforme deleite de ser. Mas há certas razões, que se erguem de seu próprio status e poder característicos, que a impedem de ser a possibilidade final da evolução espiritual. Ela, embora sendo o poder mais alto, é um poder do hemisfério inferior; muito embora sua base seja uma unidade cósmica, sua ação é uma ação de divisão e interação, uma ação fundada no jogo da multiplicidade. Seu jogo, como o de toda mente, é um jogo de possibilidades; muito embora ela aja não na Ignorância mas com o conhecimento da Verdade destas possibilidades, ela as elabora, contudo, através da própria evolução independente dos poderes delas. 
A descida da Sobremente não é suficiente para transformar por completo a Inconsciência; só a Força Supramental é capaz de conseguir isto.
Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A Mente Iluminada


Esta força maior é a da Mente Iluminada, uma mente não mais de Pensamento mais alto, mas de luz espiritual. Aqui a claridade da inteligência espiritual, sua tranquila luz diurna, dá lugar ou se subordina a um brilho intenso, um esplendor e iluminação do espírito: um jogo de relâmpagos de verdade e de poder espiritual desencadeia-se do alto para dentro da consciência e adiciona à calma e ampla iluminação e à vasta descida de paz que caracterizam ou acompanham a ação do princípio espiritual-conceitual maior, um fogoso ardor de realização e um arrebatado êxtase de conhecimento. Uma vertente de Luz interiormente visível quase sempre envolve esta ação; pois deve-se notar que, ao contrário de nossas concepções usuais, luz não é primariamente uma criação material, e o sentido ou visão de luz que acompanha a iluminação interior não é meramente uma imagem visual subjetiva ou um fenômeno simbólico: luz é primordialmente uma manifestação espiritual da Realidade Divina iluminadora e criativa; luz material é uma representação ou conversão subsequente dela dentro da Matéria, para os propósitos da Energia material. Há também nesta descida a chegada de uma dinâmica maior, um ímpeto dourado, um entusiasmo luminoso de força e poder internos que substitui o processo comparativamente lento e deliberado da Mente Mais Alta por um ímpeto veloz, às vezes veemente, quase violento, de transformação rápida. 

A Mente Iluminada não trabalha primariamente por pensamento, mas por visão; o pensamento aqui é apenas um movimento subordinado expressivo da visão. A mente humana, que confia principalmente no pensamento, concebe-o como sendo o mais alto ou o principal processo de conhecimento; mas na ordem espiritual o pensamento é um processo secundário e não indispensável. 

Uma consciência que procede por visão, a consciência daquele que vê, é um poder de conhecimento maior do que a consciência do pensador. O poder perceptivo da visão interior é maior e mais direto que o poder perceptivo do pensamento: é um senso espiritual que capta algo da substância da Verdade, e não apenas sua figura; mas ele também delineia a figura, e ao mesmo tempo apanha a significação da figura, e ele pode corporificá-la com um contorno revelador mais belo e mais audacioso e com uma compreensão e poder da totalidade maiores do que o que pode conseguir a concepção do pensamento.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A transição da mente para a Supramente

A transição da mente para a Supramente é uma passagem da Natureza para a Supernatureza. Exatamente por essa razão, ela não pode ser alcançada por um mero esforço de nossa mente ou nossa aspiração desajudada. A Sobremente e a Supramente estão involuídas e escondidas na natureza da terra; mas para que elas possam emergir em nós, é preciso uma pressão dos mesmos poderes, já formulados em sua plena força natural nos seus próprios planos supraconscientes. Os poderes da Supraconsciência têm de descer para dentro de nós e elevar-nos, e transformar nosso ser.
A transição para a Supramente através da sobremente é uma passagem da Natureza tal como a conhecemos para a Supra-Natureza. Exatamente por isso é impossível a qualquer esforço da Mente ordinária alcançá-la; nossa aspiração e empenho pessoais desajudados não podem chegar até ela: nosso esforço pertence ao poder inferior da Natureza; um poder da Ignorância não pode alcançar, por sua própria força, característica ou métodos disponíveis, o que está além dos domínios da natureza. Todas as ascensões anteriores foram efetuadas por uma Força-Consciência secreta operando primeiramente na Inconsciência e depois na Ignorância: ela trabalhou por uma emersão de seus poderes envolvidos à superfície, poderes escondidos atrás do véu e superiores às formulações passadas da Natureza, mas mesmo assim é preciso uma pressão dos mesmos poderes superiores, já formulados em sua plena força natural nos seus próprios planos; estes planos superiores criam seu próprio fundamento em nossas partes subliminais, e de lá são capazes de influenciar o processo evolucionário na superfície. Sobremente e Supramente estão também involuídas e ocultas na Natureza-terra, mas elas não têm formações nos níveis acessíveis de nossa consciência interior subliminal; ainda não há nenhum ser de sobremente ou natureza organizada de sobremente, nenhum ser supramental ou natureza organizada de supramente atuando, quer sobre nossa superfície, quer em nossas partes subliminais normais: pois estes poderes maiores de consciência são supraconscientes em relação ao nível de nossa ignorância. Para que os princípios da Sobremente e da Supramente involuídos pudessem emergir de seu segredo velado, o ser e os poderes da supraconsciência teriam que descer para dentro de nós e elevar-nos, e formularem-se em nosso ser e em nossas faculdades; esta descida é um sine qua non da transição e da transformação. 

Para uma verdadeira transformação deve haver uma intervenção direta e clara de cima; seria necessário também uma submissão e entrega total da consciência mais baixa, cessação de sua insistência, uma vontade, nela, de que sua lei isolada de ação seja completamente anulada por transformação, perdendo todos os direitos sobre nosso ser. Se estas duas condições, mesmo agora, podem ser alcançadas por um chamado e vontade conscientes no espírito e uma participação de todo o nosso ser manifestado e interior em sua mudança e elevação, a evolução, a transformação pode ter lugar por uma mudança de consciência comparativamente rápida; a Força-Consciência supramental de cima e a Força-Consciência envolvente de trás do véu, agindo sobre a percepção e a vontade despertas do ser humano mental, cumpririam por seu poder unido a transição capital. Não haveria mais necessidade de uma lenta evolução exigindo milênios para cada passo, a evolução vacilante e difícil operada pela Natureza, no passado, nas criaturas não-conscientes da Ignorância. 

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A resultante da vivência da sublime invasão do Infinito

Uma nova consciência começa a se formar, com novas forças de pensamento e visão, e um poder de realização espiritual direta que é mais do que pensamento ou visão.
Esta experiência de descida (de uma nova Consciência) pode efetuar-se como resultado dos outros dois movimentos, ou então automaticamente, antes de um ou outro ter acontecido, por uma súbita brecha na membrana mental, ou uma filtragem, uma chuva forte ou um influxo. Uma luz desce e toca ou envolve ou penetra o ser inferior, a mente, a vida ou o corpo; ou uma presença, um poder ou um rio de conhecimento derrama-se em ondas ou correntes, ou há uma inundação de alegria ou um súbito êxtase; o contato com o supraconsciente foi estabelecido; pois tais experiências se repetem até que se tornem normais, familiares e bem entendidas, reveladoras de seu conteúdo e de seu significado, os quais podem ter sido, primeiro, envoltos e revestidos com um segredo pela figura da experiência encobridora. Pois um conhecimento de cima começa a descer, frequentemente, constantemente, depois ininterruptamente e a manifestar-se na quietude ou no silêncio da mente; intuições e aspirações, revelações nascidas de uma visão maior, uma verdade e sabedoria mais alta entram no ser, uma luminosa discriminação intuitiva trabalha, dissipando toda escuridão de entendimento ou confusões aturdidoras, pondo tudo em ordem; uma nova consciência começa a se formar, a mente de um alto conhecimento pensante, vasto e auto-existente, ou uma consciência iluminada ou intuitiva ou sobremental, com novas forças de pensamento ou visão e um maior poder de realização espiritual direta que é mais do que pensamento ou visão, um maior devir aparece na substância espiritual de nosso ser atual; o coração e os sentidos tornam-se sutis, intensos, grandes para abraçar toda existência, ver deus, sentir e ouvir e tocar o Eterno, criar uma unidade mais funda e mais íntima do si e do mundo numa realização transcendente. Outras experiências decisivas, outras mudanças de consciência se determinam, sendo corolários e consequências desta mudança fundamental. Nenhum limite para esta revolução pode ser fixado; pois ela é, em sua própria natureza, uma invasão do Infinito

Pois esta nova consciência tem, ela própria, a natureza da infinidade; ela traz para nós o sentido e percepção espiritual inabalável do infinito e do eterno, com uma grande amplidão da natureza e um desmoronamento de suas limitações; a imortalidade torna-se não mais uma crença ou experiência, mas uma autoconsciência normal; a íntima presença do Ser Divino, seu governo do mundo e de nosso si e de nossos membros naturais, sua força operando em nós e em toda parte, a paz do infinito, a alegria do infinito são agora concretos e constantes no ser; em tudo o que é visto e em todas as formas nós vemos o Eterno, a Realidade; em todos os sons nós o ouvimos, em todos os toques o sentimos; há unicamente suas formas e personalidades e manifestações; a alegria ou adoração do coração, o abraço de toda a existência, a unidade do espírito são realidades duradouras. A consciência da criatura mental está se convertendo, ou já se converteu inteiramente, na consciência do ser espiritual. Esta é a segunda das três transformações; unindo a existência manifesta com o que está cima dela, ela é, dos três passos, o do meio, a transição decisiva da natureza evoluindo espiritualmente.
Para tornar esta nova criação permanente e perfeita, a própria base de nossa natureza de ignorância deve ser TRANSFIGURADA, e um poder maior, uma Força supramental, deve intervir para cumprir a transfiguração. Esta é a terceira fase: a transformação supramental.
Assim como a mudança psíquica tem que apelar ao auxílio do espiritual para se completar, a primeira mudança espiritual tem que apelar ao auxílio da transformação supramental para se completar. Pois todos esses passos de avanço são, como os anteriores a eles, de transição; a mudança radical total na evolução, de uma base de Ignorância para uma base de Conhecimento, só pode acontecer pela intervenção do Poder Supramental e por sua ação direta na existência terrestre.

Esta, então, deve ser a natureza da terceira e última transformação, que finaliza a passagem da alma pela Ignorância e assenta a base de sua consciência, sua vida, seu poder e forma de manifestação num conhecimento completo e efetivo. A Consciência-Verdade, encontrando pronta a Natureza evolucionária, tem que descer para dentro dela e capacitá-la a liberar o princípio supramental que ela contém; assim deve ser criado o ser supramental e espiritual, como a primeira manifestação não-velada da verdade do Si e do espírito no universo material.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

O maior triunfo futuro do consciente pensador

Acima da lei individual natural, que estabelece como nosso único padrão de conduta a satisfação de nossas necessidades, preferências e desejos individuais, e acima da lei comunal natural, que estabelece como padrão superior a satisfação das necessidades, preferências e desejos da comunidade como um todo, teve que surgir a noção de uma lei moral ideal que não é a satisfação de necessidade e desejo, mas que os controla e mesmo os coage ou anula o interesse de uma ordem ideal que não é animal, não é vital e física, mas mental, uma criação da busca, por parte da mente, de luz e conhecimento e lei certa e movimento certo e ordem verdadeira. No momento em que essa noção se torna poderosa no homem, ele começa a escapar do vital e material absorventes e aproximar-se da vida mental... É portanto essencialmente um padrão individual; não é uma criação da mente-de-massa. O pensador é o indivíduo; é ele que convoca e dá forma àquilo que de outro modo permaneceria subconsciente no todo humano amorfo. Também o batalhador moral é o indivíduo; autodisciplina, não sob o jugo de uma lei externa, mas em obediência a uma luz interna, é essencialmente um esforço individual. Mas, postulando seu padrão pessoal como a tradução de um ideal moral absoluto, o pensador impõe não sobre si mesmo apenas, mas sobre todos os indivíduos a quem seu pensamento pode alcançar e penetrar. E como a massa de indivíduos vem cada vez mais a aceitá-lo em ideia, mesmo que apenas numa prática imperfeita ou em nenhuma prática, a sociedade também é compelida a obedecer a nova orientação. Ela absorve a influência ideativa e tenta, não com um sucesso notável, moldar suas instituições em novas formas tocadas por estes ideais mais altos. Mas sempre seu instinto é traduzi-los em lei obrigatória, em formas-padrão, em costume mecânico, em uma compulsão social externa sobre suas unidades vivas. 

Porque, muito depois de o indivíduo ter-se tornado parcialmente livre, um organismo moral capaz de crescimento consciente, com a percepção de uma vida interior, ansioso por progresso espiritual, a sociedade continua sendo externa em seus métodos, um organismo material e econômico, mecânica, mais voltada para o status e autopreservação do que para crescimento e autoperfeição. O maior triunfo atual do indivíduo pensante e progressivo sobre a sociedade instintiva e estática tem sido o poder que ele adquiriu, por sua vontade-pensamento, de compeli-la a também pensara abrir-se à ideia de justiça e retidão socialsimpatia comunal compaixão mútua, a tentar compreender, como o critério de suas instituições, antes a regra de razão do que o costume cego, e a considerar o assentimento mental e moral de seus indivíduos como pelo menos um elemento essencial na validez de suas leis. Idealmente pelo menos, considerar antes a luz do que a força como sua sanção, desenvolvimento moral e não represália ou coibição como o objeto mesmo de sua ação penal, está começando a se tornar possível para a mente comunal. O maior triunfo futuro do pensador virá quando ele puder persuadir o todo individual e o conjunto coletivo a assentarem sua relação-vida e sua união e estabilidade sobre um consentimento e auto-adaptação livres e harmoniosos, e a moldarem e governarem a verdade externa pela interna, em vez de constrangerem o espírito interior pela tirania da forma e estrutura externas.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

Breve relato de retomada da Perene Consciência Integrativa

Algo interior me move a relatar, expressar e compartilhar com vós, o mundo, a nossa Consciência um relato de experiência... Que está durando até o dado momento no tempo e no espaço. Agradeço aos irmãos que lerem e em vossas mentes meditar sobre a história.

Carta :

Pai e Mãe de toda Vida...

Neste momento no tempo, transfiro de nossa presente Consciência para o papel como uma maneira de entregar-te toda a história do desenrolar da Existência. E, como vós estais Aqui, que teus olhos, ouvidos e mãos de Amor e Compaixão possam Ver, resgatar, reemergir de volta... Retornar, Recordar, Mãe : ''Daquilo''.

Bem jovem, aos 18 anos bem recordo da imensa beleza talvez de uma pontinha do Real. Talvez tenha tocado por méritos de minhas existências passadas o som da tua Luz, por Ti sempre conduzida, em corpo e presença, tão naturalmente como uma criancinha, um Lótus a desabrochar, junto de infinitos outros Lótus, nesta mesma Terra, neste mesmo espaço tempo. Tudo era Tua forma, Tua Voz, tuas bençãos que como um canal, tocava. O coração era um templo infinito, Verde, Sendo... A visão de presente passado e futuro unificados manifestando portais pelo olho interno.

De tanta certeza que essa música da harmonia do Amor Universal jamais pararia de tocar, não soltaria de teu aconchego, não me perderia no meio do Caminho, pois tudo já estava tão claro que nenhum esforço e resistência existiam...  Já estava feito. O manisfesto e imanifesto. Flexível e firme como um bambu, derretendo o Centro na chama da Tua Compaixão um coração amaciado, leve como uma pena no Céu, mantida e sustentada em Tuas mãos.

Em certa noite, aquilo aconteceu. Uma porta, uma brecha mal estruturada invadiu. E cai. Assisti o minha queda, nas dimensões superiores quando o ego jamais poderia penetrar, assim eu estava convicta interiormente. Como uma criança assustada chorei e clamei por dias, prostrada a visão escurecia bem diante do meu ser. Não havia terror maior do que a separação do Universo e do Todo, a ilusão maior... A dualidade. Sentia o corpo do Todo se dividindo, os átomos violeta do Ser se confundindo...

Certa manhã recorria a meu irmão, ministrando Johrei, prostrava-me já dominada pelo terror diante do Mestre no altar de casa.  Enfim, Sentir e vivenciar a separação era o que havia de pior.

Fiquei vigilante. Na noite seguinte, em um plano ''Eu'' estava no Astral. Ali houve uma prova interior. Fui colocada diante de cães raivosos, com um certo frio do medo no coração. De um lado, o desafio da coragem para caminhar por entre os cães, e do outro grande tensão era gerada.

Ali, o Mestre surgiu em Consciência. Seu braço direito, como um Pai forte me seguravam para avançar, subir. Mas, no ultimo suspiro a dúvida se insinuou em minha mente, e do Alto, caí. Novamente assisti minha queda, bem no terreno do sítio onde residia, ali em outros planos, irmãos me acolhiam perguntando o que havia acontecido. Minha voz não saía, a intensidade da experiência era tal que não conseguia expressar o ocorrido.
Teu manto límpido, luminoso como o dourado que me cobria foi invadido por nebulosas nuvens. As vozes ao meu redor já não estavam claras, passavam a influenciar facilmente, pressionar. Desnorteada e cambaleando, fui levando os dias no fundo sustentando uma certa fé que aquilo era impermanente, tentando fazer a mente não se agarrar, as no fundo, a base do apego devido a intensidade do trauma já estava densificando em energia.

Ansiedade, auto cobrança moralista e outras coisas começaram a se manifestar, reforçando o medo. Pois quando recorria aos ensinamentos o que me levava já não era a Criança, e sim o próprio terror. Tudo o que antes era um instrumento de Luz interior, agora o efeito surgia como uma moralidade paternal e punitória. Uma verdadeira prisão para o Coração. 
Suportando, a Dor chegou. A doença, o desalinho cósmico.

Ao longo de 2 anos, Mãe, no curso destes acontecimentos posso recordar de minha memória.

Primeiro, a terra tremeu. As raízes (pernas) da arvore formigavam e ficavam densas.

Em seguida, alguma parte do Coração iniciou agitação. Logo, noutra ocorrência, as tensões elétricas acometiam o pescoço, esquerdo e frontal da árvore.

Depois, era nítido força em todo o lado direito e fraqueza e dor no lado esquerdo.

Da fraqueza, invasões bruscas de susto, vindo do exterior pelas pessoas que estavam ao meu redor(realidade distorcida) rasgando pelo abdome direito. Em formas tão bruscas como sustos, abalos estruturais. ''Eu'' não queria aquilo, mas aquilo acontecia mesmo sem o meu controle.

Quanto mais consciente estava do ataque, mais a repetição do ataque acontecia no ambiente interno.

Dos sustos, a Criança Árvore* recebia raios vindos de cima, irradiando para o coração esquerdo.

A tempestade começou. Muita chuva, vento Calor com vento no alto secando a hidratação e endurecendo o pilar da árvore (força Ancestral)
Perigo na natureza. Os tremores embaixo não davam estabilidade.

No enfraquecimento, a Bexiga perdeu o controle numa ocasião. Assisti a Vesicula obstruindo. I.G perdeu o controle noutra ocasião. Topor e fraqueza acometiam. Pressão vinda do exterior causando rigidez, bloqueio, pescoço curvou-se. Pelos médicos, diagnosticada com Fibromialgia. 

Deste momento, o Universo me levou a um retiro de Vipassana. Na época, residia junto de uma Sangha (comunidade e família). Na época os ensinamentos do Mestre e do Buddha já chegavam para nós, junto do Acesso ao Insight e a Primeira Nobre Verdade: a Verdade do Sofrimento.
Retirei-me por 10 dias em Monteiro Lobato e ali a flor começava a reencontrar uma esperança, uma forma de penetrar e ''re-abrochar''. Sou muito grata a professora Fátima e a todos os irmãos do Centro.

Enfim, hoje tive contato com a Mandala da Roda da Vida e todos os Reinos, sofrimentos e passagens. E ali alguma compreensão da existência me passou, superficialmente, mas passou. Nunca deixei de vagar pelo Samsara. Desde pequena, sempre estive a navegar entre diversos reinos. O que posso recordar é que quando você está'' lá'', você está vivenciando verdadeiramente aquele estado, sem nenhuma artificialidade. Sua Consciência está, naturalmente, naquele estado.

Desta existência, o Caminho para mim se abriu com o Xamanismo, hinduísmo (Yoga). No Xamanismo, e por méritos daquele tempo, agradeço ao Universo por ter Visitado e aprendido com os seres da Lua, e do Sol em Corpo. Por ter visto os raios dos Elohins e Arcanjos abrindo do Alto, como guardiões do Mundo e da Consciência. Todos Eles existem mesmo e estão a trabalhar na Cura e Amor de nossos corpos e consciência. No momento em que Abrir para alguém serão vistos.  Naquele tempo, vivenciei uma prova muito bela. O medo quando se apresentava na Força, virava Amor... Pois estava Presente o suficiente para transmuta-lo sem escolha, por mais embaraçoso que fosse, no meio da floresta. Recordo-me que junto do Medo, O Olho via vários símbolos de religiões embotados na Consciência, todos formas de medos que nós mesmos criamos, e o ato da presença de Ver e testemunhar era como lavar o Mundo com a simplicidade do Amor . Graças por todas essas experiências que hoje compartilho com vós. Vivi um pouquinho, talvez uma fagulha da beleza  do que é o Ser, quando  o Outro é Você e Você é o Outro.  E Tudo É Aquilo. Quando o Som é Você inteiro, quando o movimento inteiro está presente e Uno. 

Quando a qualidade do cuidado com o Todo está lá, você onde quer que vá, estará a serviço do Cosmos. Vi seres criando e co criando juntos diversos reinos maravilhosos. Certa vez, minha mão se alongava para curar outras partes da Vida, outros Seres, como uma Mãe acolhedora. A Consciência via e aquilo já era inteligencia e Amor em ação. Não havia confusão alguma para compreender o mecanismo ilimitado da Consciência Universal que somos. Havia cuidado para com as energias mas era fácil de aprender, pois não havia resistência racional. O Corpo é o Todo a trabalhar pelo próprio Todo. Díficil de pôr em palavras. Quando o tempo para e você só assiste manifestar. Quando o silencio é Vital e o barulho é silêncio luminoso manifesto.

Voltando ao presente e a realidade após essa longa viagem existencial, estou conscientemente, e falando a Verdade, nos reinos inferiores de muita dor e sofrimento. Mente lamenta muito pelo passado, traz muitas memorias a tona, a dor física é forte... Bem como as inúmeras resistências acumuladas pelo pensamento e suas reações . Mas, devo entrar. Devo sentar... E ficar. Não pode ser permanente.

Aqui tenho, os ensinamentos do Mestre, este corpo...e esta Consciência para trabalhar... Não posso desistir.

Relato de Caso.  E agora? ''Continua''.... Observa o movimento...........

Att
Como Aline Pontes Pesci (23 anos, residente da cidade de Santos- SP)

Somos uma espécie em risco de extinção

Para que a humanidade sobreviva, é indispensável uma transformação radical da natureza humana.
Mas não se verificou na experiência, seja o que for que alguma vez se possa ter esperado, que a educação e o treinamento intelectual possam, por si sós, modificar o homem; eles somente proporcionam ao ego humano individual e coletivo melhores informações e uma maquinaria mais eficiente para sua auto-afirmação, mas deixam-no o mesmo ego humano modificado. Tampouco podem a mente e a vida humana ser talhadas para chegarem à perfeição — mesmo àquilo que se pensa ser perfeição, um substituto construído — por nenhuma espécie de maquinaria social; a matéria pode ser assim talhada, o pensamento pode ser assim talhado, mas em nossa existência humana matéria e pensamento são apenas instrumentos para a alma e a força-vida. Maquinaria não pode forma a alma e a força-vida dentro de moldes padronizados; ela pode no máximo coagi-las, tornar a alma e a mente inertes e estacionárias e regular a ação exterior da vida; mas para fazer isto, efetivamente, a coerção e a compreensão da mente e da vida são indispensáveis, e isto de novo significa ou uma estabilidade não progressiva ou decadência. 

Existe a possibilidade de que, no movimento de recuo de uma ideia mecanicista de vida e sociedade, a mente humana possa buscar refúgio num retorno à ideia religiosa e a uma sociedade governada ou sancionada pela religião. Mas a religião organizada, embora possa fornecer um meio de elevação interior para o indivíduo e preservar neste meio, ou por detrás ele, um caminho para sua abertura à experiência espiritual,  não modificou a vida e a sociedade humana; ela não pode fazê-lo porque, no governar a sociedade, comprometeu-se com as partes mais baixas da vida e não pode insistir na mudança interior do ser inteiro; ela pode insistir apenas na aderência a um credo, na aceitação formal de seus padrões éticos e na conformidade com instituição, cerimônia e ritual. Religião, assim concebida, pode dar uma cor ético-religiosa ou uma tintura de superfície — às vezes, se ela mantém um forte núcleo de experiência interior, ela pode generalizar em alguma medida uma tendência espiritual incompleta; mas não transforma a espécie, não pode criar um novo princípio de existência humana. Somente uma direção espiritual total, dada à vida toda e à natureza toda, pode erguer a humanidade acima de si mesma. Outra concepção possível, semelhante à solução religiosa, é o governo da sociedade por homens espiritualmente realizados, a irmandade ou unidade de todos na fé ou na disciplina, a espiritualização da vida e sociedade pelo assumir e transformar a velha maquinaria de vida numa tal unificação, ou inventando uma nova maquinaria. Isto também foi tentando antes sem sucesso; foi a ideia-base original de mais de uma religião: mas o ego humano e a natureza vital eram demasiado fortes para que uma ideia religiosa, trabalhando sobre a mente e através da mente, vencesse a resistência desta. É somente o pleno emergir da alma, a plena descida da luz e poder nativos do Espírito, e a consequente substituição ou transformação e elevação de nossa natureza mental e vital insuficiente por uma supranatureza espiritual e supramental, que pode efetuar esse milagre evolucionário. 

À primeira vista, esta insistência numa mudança radical da natureza poderia parecer afastar toda a esperança da humanidade para um futuro evolucionário distante; pois o transcender de nossa natureza humana normal, um transcender de nosso ser mental, vital e físico, tem a aparência de um esforço demasiado alto e difícil e, no presente, para o homem tal como ele é, impossível. Mesmo que assim fosse, restaria ainda a possibilidade única da transmutação da vida; pois esperar por uma mudança real da vida humana, sem uma mudança da natureza humana, é uma proposição irracional e não-espiritual; é pedir algo não-natural e não-real, um milagre impossível. Mas o que é exigido por esta mudança não é algo completamente distante, alheio à nossa existência e radicalmente impossível; pois o que tem que ser desenvolvido está aí em nosso ser, não é algo fora dele: aquilo para o que a Natureza evolucionária pressiona é um despertar para o conhecimento de si, a descoberta do si, a manifestação do si e espírito dentro de nós e a liberação de seu auto-conhecimento, seu auto-poder, sua auto-instrumentação inata. É, além disso, um passo para o qual o todo da evolução tem sido uma preparação, e que é trazido para mais perto a cada crise do destino humano, quando a evolução mental e vital do ser toca um ponto onde o intelecto e a força vital atingem o auge da tensão e há necessidade ou de sofrerem um colapso, recaírem num torpor de derrota ou num repouso de quiescência não progressiva, ou de abrirem caminho através do véu contra o qual eles estão pressionando. O que seria necessário é que houvesse uma virada na humanidade, sentida por alguns ou muitos, rumo à visão desta mudança, um sentir de sua necessidade imperativa, o sentido de sua possibilidade, a vontade de fazê-la possível em si mesmos e de encontrar o caminho. Essa tendência não está ausente, e deve crescer com a tensão da crise no destino-mundo humano; a necessidade de um escape ou de uma solução, o sentir que não há nenhuma oura solução a não ser a espiritual, só pode crescer e tornar-se mais imperativo sob a premência da circunstância crítica. A este chamado no ser tem que haver sempre uma resposta na Realidade Divina e na Natureza.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem   

A agressiva e obscura expansão do ego coletivo

A atual crise evolucionária origina-se de uma disparidade entre as faculdades limitadas do homem — mental, ética e espiritual — e os meios técnicos e econômicos à sua disposição.
Presentemente, a espécie humana está sofrendo uma crise evolucionária em que se oculta uma escolha de seu destino; pois foi atingido um estágio no qual a mente humana alcançou em certas direções um enorme desenvolvimento, enquanto em outras ela está parada e confusa e não consegue mais encontrar seu caminho. Uma estrutura da vida externa foi erguida pela mente e vontade vital sempre ativas do homem, uma estrutura de incontrolável enormidade e complexidade, para o serviço de suas exigências e anseios mentais, vitais, físicos, uma complexa maquinaria política, social, administrativa, econômica, cultural, um meio coletivo organizado para sua satisfação intelectual, sensorial, estética e material. O homem criou um sistema de civilização que se tornou grande demais para ser utilizado e manejado por sua limitada capacidade e entendimento mental, e sua capacidade moral e espiritual ainda mais limitada, um servo demasiado perigoso de seu ego vacilante e seus apetites. Porque nenhuma mente de maior visão, nenhuma alma intuitiva de conhecimento, que pudesse tornar essa plenitude básica da vida uma condição para o livre crescimento de algo que a excedesse, veio ainda à sua superfície de consciência. Esta nova plenitude dos recursos da vida, devido a seu poder para uma liberação da incessante pressão insatisfeita das necessidades econômicas e físicas do homem, poderia ser uma oportunidade para a total busca de outros e maiores objetivos que ultrapassassem a existência material, para a descoberta de uma verdade, bem e beleza mais altos, para a descoberta de um espírito maior e mais divino que interviria e usaria a vida para uma perfeição mais alta do ser: mas em vez disso ela está sendo usada para a multiplicação de novas ciências e uma agressiva expansão do ego coletivo. Ao mesmo tempo, a Ciência colocou-lhe à disposição muitas potências da Força Universal e tornou a vida da humanidade materialmente una; mas o que usa esta Força universal é um pequeno ego humano individual ou comunal, com nada de universal em sua luz de conhecimento ou em seus movimentos, nenhum sentido ou poder interior que criaria, nesta conjunção física do mundo humano, uma verdadeira unidade de vida, uma unidade mental ou uma unidade espiritual. Tudo que está aí é um caos de ideias mentais que se chocam, anseios de carência e necessidade física individual e coletiva, exigências e desejos vitais, impulsos de um ignorante ímpeto de vida, ânsias e chamados para a satisfação vital de indivíduos, classes, nações, um rico cogumelo de medicinas e noções políticas e sociais e econômicas, uma azafamada miscelânea de slogans e panaceias pelos quais os homens estão prontos a oprimir e a serem oprimidos, a matar e a serem mortos, a se imporem de uma maneira ou de outra pelos imensos e tão formidáveis recursos colocados à sua disposição, na crença de que esta é sua saída para algo ideal. A evolução da mente e da vida humana deve necessariamente levar a uma crescente universalidade; mas sobre uma base de ego e de uma mente que segmenta e divide, esta abertura ao universal pode apenas criar uma vasta pululação de ideias e impulsos discordantes, uma vaga de enormes poderes e desejos, uma massa caótica de material mental, vital e físico não assimilado e misturado, de uma existência maior que, por não ser erguida por uma luz harmonizadora criativa do espírito, tem que tumultuar-se numa confusão e discórdia universalizada, a partir da qual é impossível construir uma vida harmônica maior. 

Sem uma mudança interior, o homem não pode mais fazer face ao gigantesco desenvolvimento da vida exterior.
Uma vida de unidade e harmonia, nascida de uma verdade mais profunda e vasta de nosso ser, é a única verdade da vida que pode com sucesso tomar o lugar das construções imperfeitas do passado, que formam uma combinação de associação e conflito regulado, uma acomodação de egos e interesses agrupados ou mutuamente encaixados para formarem uma sociedade, uma consolidação pelos motivos-vida gerais comuns, uma unificação por necessidade e pela pressão da luta com forças de fora. É uma tal mudança e um tal remodelar a vida que a humanidade está cegamente começando a procurar, agora cada vez mais com o sentido de que sua própria existência depende de encontrar o caminho. A evolução da mente trabalhando sobre a vida desenvolveu uma organização da atividade da mente e um uso da matéria que não podem mais ser suportados pela capacidade humana sem uma mudança interior. É imperativa uma adaptação da individualidade humana egocêntrica, separativa mesmo em associação, a um sistema de viver que exige unidade, mutualidade perfeita, harmonia. Mas, porque a carga está sendo colocada sobre a espécie humana é grande demais para a presente pequenez da personalidade humana e sua insignificante mente e pequenos instintos-de-vida, porque ela não pode operar a mudança necessária, porque ela está usando este novo aparato e organização para servir ao velho si-de-vida infra-espiritual e infra-racional da humanidade, o destino da espécie parece estar conduzindo perigosamente, como que impacientemente e a despeito dela mesma — sob o ímpeto do ego vital dominado por forças colossais que estão na mesma escala que a enorme organização mecânica da vida e o conhecimento científico que ela evoluiu, uma escala grande demais para ser manipulada por sua razão e vontade — para dentro de uma prolongada confusão e perigosa crise e escuridão de uma violenta incerteza em constante mudança. Mesmo se isso vier a ser uma fase ou aparência passageira, e se for encontrada uma tolerável acomodação estrutural que torne a espécie humana capaz de proceder menos catastroficamente em sua jornada incerta, isto pode ser apenas um adiamento. Pois o problema é fundamental, e, colocando-o, a Natureza evolucionária do homem se confronta com uma opção crítica que deve um dia ser resolvida no sentido verdadeiro, se a espécie deve alcançar seu objetivo ou mesmo sobreviver. 
A exaltação da coletividade, do Estado, apenas substitui o ego individual pelo ego coletivo.
Uma fórmula racional e científica do ser humano vitalista e materialista e sua vida, a busca de uma sociedade econômica aperfeiçoada e o culto democrático do homem comum, são, nesta crise, tudo o que a mente moderna nos apresenta como luz para sua solução. Qualquer que seja a verdade em que se apoiam estas ideias, isto claramente não é suficiente para fazer face à necessidade de uma humanidade que tem a missão de evoluir muito além de qualquer coisa que ela presentemente é. Um instinto-de-vida na espécie e no próprio homem comum sentiu a inadequação e vem impulsionando rumo a uma reversão de valores ou a uma descoberta de valores novos e à transferência da vida para um novo fundamento. Isto tomou a forma de uma tentativa de encontrar uma base simples e pré-fabricada de unidade, mutualidade, harmonia para a vida em comum, de impô-la através de uma supressão do choque competitivo de egos, e assim chegar a uma vida de identidade para a comunidade, em vez de uma vida de diferença. Mas para realizar estes desejáveis fins, o meio adotado tem sido a materialização forçosa e bem sucedida de uma poucas ideias ou slogans restritos, entronados, excluindo todo pensamento diferente, a repressão da mente do indivíduo, uma compressão mecanizada de elementos da vida, uma unidade e ímpeto mecanizados da força-vida, uma coerção do homem pelo Estado, a substituição do ego individual pelo ego coletivo. O ego coletivo é idealizado como a alma da nação, da espécie, da comunidade; mas isto é um erro colossal e pode chegar a ser um erro fatal. Uma unanimidade forçada e imposta, de mente, vida, ação erguidas até sua mais alta tensão sob a impulsão de algo que se pensa ser maior, a alma coletiva, a vida coletiva, é a fórmula encontrada. Mas este obscuro ser coletivo não é a alma ou o si da comunidade; é uma força-vida que se levanta do subconsciente, e, se privada da luz da orientação pela razão, pode ser dirigida apenas por forças maciças escuras, potentes mas perigosas para a espécie, porque alheias à evolução consciente da qual o homem é o depositário e portador. Não foi nesta direção que a Natureza evolucionária apontou a espécie humana; isto é uma reversão rumo a algo que ela deixou atrás de si.

O indivíduo é a chave do movimento evolucionário

É errado exigir que o indivíduo se subordine à comunidade ou se funda nela, porque é através de seus indivíduos mais avançados que a coletividade progride, e eles só podem realmente avançar se forem livres. Mas é verdade que, à medida que o indivíduo avança espiritualmente, ele se descobre cada vez mais unido com a coletividade e o Todo. 
O indivíduo é de fato a chave do movimento evolucionário; pois é o indivíduo que se encontra a si mesmo, que se torna consciente da Realidade. O movimento da coletividade é um movimento-em-massa grandemente subconsciente; ele tem que formular-se e expressar-se através dos indivíduos, para tornar-se consciente: sua consciência-massa geral é sempre menos evoluída que a consciência de seus indivíduos mais desenvolvidos, e ela progride na medida em que aceita o cunho deles ou desenvolve o que eles desenvolveram. O indivíduo não deve sua última obediência nem ao Estado, que é uma máquina, nem à comunidade, que é uma parte da vida, e não a vida toda: sua obediência deve ser à Verdade, ao Si, ao espírito, ao Divino, que está nele e em tudo; não subordinar-se ou perder-se na massa, mas descobrir e expressar essa verdade de ser em si mesmo e ajudar a comunidade e a humanidade em sua busca por sua própria verdade e plenitude de ser, deve ser seu real objetivo de existência. Mas o limite até o qual o poder da vida individual ou da Realidade espiritual dentro dela se torna operativo, depende do desenvolvimento do próprio indivíduo: enquanto for não-desenvolvido, ele tem que subordinar de muitas maneiras seu si não-desenvolvido ao que quer que seja maior do que esse si. À medida que se desenvolve, ele se move rumo a uma liberdade espiritual, mas esta liberdade não é algo inteiramente separado da existência-de-tudo; ela tem uma solidariedade com esta, porque esta também é o si,  o mesmo espírito. À medida em que ele se move rumo à liberdade espiritual, move-se também rumo à unidade espiritual. O homem espiritualmente realizado, o homem liberto, se preocupa, diz a Gita, com o bem de todos os seres; Buda, descobrindo o caminho do Nirvana, tem que voltar para abrir esse caminho àqueles que ainda estão sob a ilusão de seu ser construtivo em lugar de seu ser real — ou não-ser; Vivekananda, atraído pelo Absoluto, sente também o chamado da disfarçada Divindade na humanidade, e mais do que tudo o chamado do caído e do sofredor, o chamado do si para o si no corpo obscuro do universo. Para o indivíduo despertado, a realização de sua verdade de ser e sua libertação e perfeição interiores devem ser sua busca primeira — em primeiro lugar porque esse é o chamado do Espírito dentro dele, mas também porque é apenas pela libertação e perfeição e realização da verdade do ser que o homem pode chegar à verdade do viver. Também uma comunidade aperfeiçoada pode apenas existir pela perfeição de seus indivíduos, e a perfeição pode somente vir cada um descobrindo e afirmando na vida seu próprio ser espiritual, e todos descobrindo sua unidade espiritual e uma resultante unidade de vida. 

Sri Aurobindo em, A evolução Futura do Homem 

Do nascimento da Perene Consciência Amorosa Integrativa

[...]Mas, em verdade, é preciso necessariamente uma volta sobre nós mesmo para que este nascimento se cumpra; é necessário que nos recolhamos fortemente, juntando e unindo interiormente todas as nossas faculdades, tanto inferiores como as superiores e trazê-las de volta de toda dispersão para a concentração, que torna mais poderosa todas as coisas unificadas. Se um atirador quer atingir com segurança o seu alvo, fecha um olho para que o outro vise com exatidão. Quem quiser compreender alguma coisa a fundo, emprega todos os seus sentidos, conduzindo-os ao centro da alma, de onde saíram. Tal como todos os ramos vêm do tronco da árvore, assim todas as nossas faculdades, as da sensibilidade, as do desejo, assim como as da luta, se unem às faculdades superiores no fundo da alma. Eis a entrada em nós mesmos.

Se quisermos agora sair, ou melhor, elevarmo-nos fora e acima de nós mesmos, devemos então, renunciar a todo querer, desejo e agir próprios. Só deve permanecer em nós uma simples e pura busca de Deus sem qualquer outro desejo de ter algo que nos seja próprio, e de qualquer maneira que seja, sem qualquer desejo de ser, de tornar-se ou de obter algo que nos seja próprio mas com a vontade única de pertencer a ele, de dar-lhe lugar do modo mais elevado, mais íntimo a fim de que ele possa cumprir a sua obra e nascer em nós, sem que ponhamos obstáculo a isso. Com efeito, para que dois seres possam ser um, é preciso que um se comporte como paciente e o outro como agente; para que o olho possa perceber as imagens que estão nesta parede, ou qualquer outro objeto, ele não deve ter em si nenhuma outra imagem. Mesmo que tivesse uma imagem de qualquer cor, jamais poderia receber outra, assim como o ouvido que está cheio de ruído não pode perceber outro. Assim, pois, tudo o que deve receber deve ser puro, claro, vazio. 

Eis porque santo Agostinho noz diz: "Esvazia-te para que possas ser preenchido; sai a fim de que possas entrar"; e em outra passagem:"Ó tu, alma nobre, criatura nobre, por que procuras fora de ti o que está em ti, inteiramente e da maneira mais verdadeira e manifesta? E uma vez que participas da natureza divina, que te importam as criaturas e o que tens a fazer com elas?" Se o homem preparasse assim o lugar, o fundo, Deus, sem dúvida alguma, seria obrigado a preenchê-lo completamente, senão o céu romperia para preencher o vazio. Mas Deus não deixaria as coisas vazias, seria contrário à sua natureza, à sua justiça. 

É por isso que deves calar-te: então o Verbo deste nascimento poderá ser pronunciado em ti e poderás ouvi-lo; mas estejas certo de que se queres falar, ele deve calar-se. Não se pode servir melhor o Verbo, que silenciando e ouvindo. Se saíres pois completamente de ti mesmo, Deus entrará por completo; à medida que saíres, nessa medida ele entrará, nem mais nem menos.

Encontramos uma imagem desta saída de nós mesmos no livro de Moisés, quando Deus ordena a Abraão que abandone seu país e sua família, e isso porque ele desejava mostrar-lhe todo bem, isto é, este nascimento divino que representa por si só todo bem. Seu país e sua terra dos quais devia sair, é o corpo com todas as suas concupiscências e desordens; a família simboliza a inclinação das faculdades sensíveis e suas imaginações que atraem e arrastam este corpo, causando-lhe agitações do prazer, da dor, da alegria, da tristeza, do desejo, do medo, da preocupação, da leviandade. Somos ligados a esta família por um estreito parentesco e é preciso vigiar com muito cuidado para dela nos destacarmos completamente, se quisermos ver nascer todo o bem que é em verdade este nascimento.

Johannes Tauler, em Sermões

Acedia: o verdadeiro teste de fidelidade

Mais triste do que a tristeza, a acedia é aquela forma particular do impulso de morte que introduz o desgosto e a lassidão em todos os nossos atos. Ela leva ao desespero e, às vezes, ao suicídio. Na linguagem contemporânea, falaríamos de depressão ou de melancolia, no sentido clínico do termo. Os antigos a denominavam ainda de "demônio do meio-dia" e descreviam com precisão este estado em que o asceta, depois de ter conhecido as consolações espirituais do início e o combate ardente da maturidade, coloca em questão todo o seu caminho. 

É a grande dúvida: tudo não teria sido apenas uma ilusão? Para que todo este tempo passado no deserto? Ele não sente nenhum prazer na liturgia e nos exercícios espirituais. Deus lhe parece uma projeção do homem, um fantasma ou uma ideia segregada por humores infantis. Então, seria melhor abandonar a solidão, ser útil ao mundo, "fazer alguma coisa". Algumas vezes o "demônio do meio dia" incitará este homem casto e sóbrio a "recuperar o tempo perdido" no domínio da sensualidade ou das bebidas fortes... 

Jung, em seu processo de individuação, também descreve este momento de "crise" em que a pessoa humana, por volta dos quarenta anos, coloca sua vida na balança. É um período em que pode manifestar-se com violência o "reaparecimento do recalque", mas pode ser também o momento decisivo de uma "passagem" para uma realização superior. Os valores do "ter" vão ser substituídos pelos valores do "ser" e orientar doravante a vida da pessoa não mais para a afirmação do ego, mas, ao contrário, para sua relativização e sua integração no arquétipo da totalidade que Jung chama de Si mesmo. Este período é particularmente desconfortável. Todos os antigos suportes ou certezas nos faltam e nada ainda toma o lugar do belo edifício desmoronado. Se a pessoa busca ajuda o reconforto, isso só faz aumentar o desespero, o sentimento de total incompreensão ao qual parece estar condenada. Para os que são atingidos pela acedia, os padres do deserto recomendavam muita oração. Não se pode fazer grande coisa além disso. Aconselhar-lhes o trabalho manual não será de grande ajuda. Entretanto, é preciso ocupar o espírito com tarefas simples. Viver no momento presente sem nada esperar, nem do passado, nem do futuro. "A cada dia basta a sua pena". No meio da angústia, trata-se de aguentar firme. É o momento da fidelidade. Amar a Deus não é "sentir que se ama, mas querer amá-lo". É também a entrada no deserto da fé. A pessoa crê porque "quer" crer... Os socorros da razão são muletas já crestadas ao fogo da fadiga e da dúvida. É o momento da maior liberdade em que se pode optar por Deus ou recusá-lo. 

Teria sido o "demônio da acedia" que se apoderou de Judas e de Pedro no momento de sua traição? Ele venceu Judas e o levou ao desespero e ao suicídio: Judas duvidou da misericórdia de Deus... Pedro o venceu num ato de arrependimento. Ele acreditou que se "seu coração o condenava, Deus era maior do que seu próprio coração"... 

A acedia pode levar-nos ao "inferno" no sentido em que ele nos "fecha" em nós mesmos. Não há mais abertura ou passagem para o Amor.  Nenhum "desejo ao desejo do Outro"... 

De novo, os antigos nos lembram que esta tentação "passará". Ela dura, algumas vezes, mais tempo que as outras, mas como tudo que passa, ela passará: não existe dor eterna, e aquele que aguenta firme deve saber que "este demônio não é seguido imediatamente de nenhum outro. Um estado de paz e uma alegria inefável lhe sucedem na alma após a luta". 

Jean-Yves Leloup
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey