Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

Breve relato de Simeão, o novo teólogo

"Fiz a experiência do amor de Deus pelos homens e de sua compaixão... e tendo recebido a graça, indigno que eu era de toda a graça, não posso suportar permanecer sozinho para ocultá-la no fundo de minha alma, mas é a todos vocês, meus confrades e padres, que manifesto os dons de Deus; além disso, na medida em que depende de mim, apresento a vocês em que consiste o talento que me foi dado e pela palavra, procuro revelá-lo como se estivesse oculto no fundo da minha mão. E não lhes falo às escondidas ou em segredo, mas proclamo em voz alta: 'Corram, irmãos, corram!' e não me contento em gritar, mas indico-lhes o Mestre que me deu tal talento, estendendo minhas palavras diante de vocês à maneira de flecha... O que vi e conheci de fato e por experiência em relação às maravilhas de Deus, não me resigno em deixar de falar, mas dou testemunho de tudo isso diante de todos como se estivesse na presença de Deus... 

Este tesouro que se dissimula sob as divinas escrituras... eu andei à sua procura, não deixei de escavar dia e noite... e acabei por encontrá-lo. E, diante dele, não cesso de proclamar: 'Venham e aprendam que não é só no futuro, mas já agora, diante de vocês, diante das mãos e dos pés de vocês, que repousa o tesouro inefável que supera todo o poder e toda potência... Venham e deixem-se convencer que este tesouro... é a luz do mundo'". 


A diferença entre uma mente vazia e uma mente calma

Nós não estamos trabalhando para uma raça ou um continente ou para uma realização de que apenas indianos ou apenas orientais sejam capazes. Nosso objetivo não é fundar uma religião ou uma escola de filosofia ou uma escola de yoga, mas criar um fundamento de crescimento e experiência espiritual e um caminho que trará para baixo uma Verdade maio, além da mente, mas não inacessível à alma e à consciência humanas. Todos os que forem atraídos por esta Verdade podem tomar este caminho, sejam eles da Índia ou de qualquer outro lugar, do Oriente ou do Ocidente...

Não é possível construir um fundamento no Yoga se a mente é inquieta. A primeira coisa necessária é a quietude na mente. E, também, dissolver a consciência pessoal não é o primeiro objetivo do Yoga; o primeiro objetivo é abri-la a uma consciência espiritual mais alta, e também para isto uma mente quieta é a primeira necessidade.

A primeira coisa a fazer na sadhana é conseguir uma paz e um silêncio estáveis na mente. Se não, você pode ter experiências mas nada será permanente. É na mente silenciosa que a verdadeira consciência pode ser construída.

Uma mente quieta não significa que não haverá de modo algum pensamentos ou movimentos mentais, mas que estes estarão na superfície, e você sentirá seu verdadeiro ser, DENTRO, separado deles, observando mas não sendo levado embora, capaz de vigiá-los e julgá-los e de rejeitar tudo que tem que ser rejeitado e aceitar conservar tudo que é consciência verdadeira e experiência verdadeira.

A passividade da mente é uma coisa boa, mas tome cuidado para ser passivo somente em relação à Verdade e ao contato da Energia Divina. Se você for passivo às sugestões e influências da natureza inferior, você não será capaz de progredir, ou então irá se expor a forças adversas que podem levá-lo para muito longe do verdadeiro caminho do Yoga.

As forças que dificultam o caminho da sadhana são as forças da natureza inferior mental, vital e física. Por trás delas há poderes adversos dos mundos mental, vital e físico sutil. Só se pode lidar com elas depois que a mente e o coração estiverem reunidos em uma só direção e se concentrarem na aspiração única ao Divino.

O silêncio é sempre bom; mas com quietude da mente eu não quero dizer um silêncio total. Quero dizer uma mente livre de perturbação e dificuldade, firme, leve e contente, podendo abri-se à Força que mudará a natureza. A coisa importante é livrar-se do hábito da invasão de pensamentos perturbadores, sentimentos errados, confusão de ideias, movimentos infelizes. Todos eles perturbam a natureza, obscurecem-na e tornam difícil o trabalho da Força; quando a mente está quieta e em paz, a Força pode trabalhar mais facilmente. Deveria ser possível você ver as coisas que têm que ser mudadas em você, sem ficar aborrecido ou deprimido; assim a mudança é feita mais facilmente.

A diferença entre uma mente vazia e uma mente calma é esta: quando a mente está vazia, não há pensamento, nem concepção, nem ação mental de qualquer espécie, exceto uma percepção essencial das coisas, sem uma ideia formada; mas na mente calma é a substância do ser mental que está imóvel, tão imóvel que nada a perturba. Se vêm pensamentos ou atividades, eles não surgem absolutamente da mente, mas vêm de fora e cruzam a mente como um voo de pássaro cruza o céu no ar sem vento. Passa, não perturba nada, não deixa traço. Mesmo se mil imagens ou os acontecimentos mais violentos as atravessam, a calma imobilidade permanece, como se a própria textura da mente fosse uma substância de paz eterna e indestrutível. Uma mente que adquiriu esta calma pode começar a agir, mesmo intensamente e poderosamente, mas ela manterá sua imobilidade fundamental — não originando nada de si própria mas recebendo de Cima e dando a isso uma forma mental, sem adicionar nada de si própria, calmamente, desapaixonadamente, se bem que com alegria da Verdade e o feliz poder e luz de sua passagem.

 Sri Aurobindo - A Consciência que vê - Volume 1

Sobre o necessário estado de PRONTIFICAÇÃO

Se você quiser suportar a pressão da DESCIDA Divina, deve ser muito forte e poderoso, de outro modo você será despedaçado. Algumas pessoas perguntam "Por que o Divino ainda não veio?". Porque você ainda NÃO ESTÁ PRONTO. Se uma pequena gota faz você cantar e dançar e gritar, que aconteceria se o todo descesse? 

Por isso dizemos às pessoas que não têm uma base ampla, forte e firme no corpo, no vital e na mente: "Não puxem", significando "não tentem puxar as forças do Divino, mas esperem em paz e tranquilidade", porque elas não seriam capazes de suportar a descida. Mas àqueles que possuem a necessária base e estrutura, dizemos, pelo contrário: "Aspirem e puxem", porque esses seriam capazes de receber, sem ficar perturbados pelas forças que descem do Divino.

Conversas com A Mãe
Sri Aurobindo Ashram

A questão dos impulsos sexuais

O mundo inteiro está cheio de veneno. Você o absorve em cada respiração. Se você trocar algumas palavras com um homem indesejável ou mesmo se este homem meramente passar por você, você pode apanhar o contágio dele. É suficiente que você chegue perto de um lugar onde exista praga para ser infectado pelo seu veneno; você não precisa saber, de forma alguma, que a praga está lá. Você pode perder, em poucos minutos, o que levou meses para ganhar.

Existe um outro perigo; é com relação aos impulsos sexuais. O Yoga, em seu processo de purificação, vai desnudar e expulsar todos os impulsos e desejos escondidos em você. E você deve aprender a não esconder nada ou deixá-los de lado, você deve enfrentá-los e conquistá-los e remodelá-los. O primeiro efeito do Yoga, contudo, é retirar o controle mental, e os desejos ardentes que jazem adormecidos são subitamente postos em liberdade, precipitam-se e invadem o ser. Enquanto esse controle mental não tiver sido substituído pelo controle do Divino, há um período de transição, quando a sua sinceridade e entrega serão submetidas a um teste. A força destes impulsos, como os do sexo, decorre geralmente do fato de que as pessoas lhe dão demasiada importância. Elas protestam violentamente contra ele e esforçam para controlá-los por coerção, reprimem-nos dentro e sentam-se sobre eles. Mas quanto mais você pensar numa coisa e disser: "Não quero isto, não quero isto", tanto mais se prende a ela. O que você deveria fazer é afastá-la de si, dissociar-se dela, dar-lhe a mínima importância possível e, se acontecer de pensar nela, ficar indiferente e despreocupado.

os impulsos e desejos que sobem pela pressão do Yoga devem ser encarados com um espírito de desprendimento e serenidade, como alguma coisa estranha a você ou pertencer ao mundo exterior. Eles deveriam ser oferecidos ao Divino, para que o Divino os tomasse e transmutasse.

Se você se abriu algum dia ao Divino, se o poder do Divino começou a descer em você e ainda assim você se obstina em se apegar às forças antigas, você está preparando problemas, dificuldades e perigos para si mesmo. Você deve ser vigilante e compreender que não pode servir-se do Divino como uma capa para a satisfação de seus desejos. Há muitos que se intitulam mestres e não fazem outra coisa. Então, quando você abandona o caminho reto e tem um pouco de conhecimento e não muito poder, você é agarrado por seres e entidades de um certo tipo que o transformam num instrumento cego em suas mãos e terminam por devorá-lo. Sempre que há fingimento, há perigo; você não pode enganar a Deus. Não se achegue a Deus dizendo: "Quero união com você" e no coração caminhando direto para a beira do precipício. E, no entanto, é tão fácil evitar toda a catástrofe. Torne-se como uma criança, entregue-se à Mãe, deixe-a carregá-lo e não há mais perigo para você.

Isto não significa que você não tenha que enfrentar outras espécies de dificuldades ou que não tenha que lutar ou vencer outros obstáculos. A entrega não assegura um progresso suave, tranquilo e contínuo. E isto porque seu ser não está ainda unificado, nem sua entrega absoluta é completa. Apenas uma parte sua se entrega; e hoje é uma e no dia seguinte é outra. O propósito total do Yoga é reunir todas as partes divergentes do ser e forjá-las numa unidade indivisível. Até lá você não pode esperar ficar sem dificuldades — dificuldades como por exemplo, a dúvida, a depressão ou a hesitação. O mundo inteiro está cheio de veneno. Você o absorve em cada respiração. Se você trocar algumas palavras com um homem indesejável ou mesmo se este homem meramente passar por você, você pode apanhar o contágio dele. É suficiente que você chegue perto de um lugar onde exista praga para ser infetado pelo seu veneno; você não precisa saber, de forma alguma, que a praga está lá. Você pode perder, em poucos minutos, o que levou meses para ganhar. Enquanto você fizer parte da humanidade e levar a vida comum, não importa tanto se você se mistura com as pessoas do mundo; mas se você quiser a vida divina, você terá que ser excessivamente escrupuloso em suas relações e seu ambiente.

Conversas com a Mãe
Sri Aurobindo Ashram   
    

O novo ser humano é integral

Existe uma nova aventura aqui, uma nova política aqui e até mesmo uma nova revolução, aguardando no horizonte. Você a está percebendo, não está?
 Novo trabalho a ser feito, novas epopéias a serem narradas, novo fundamento a ser descoberto; e recônditos do coração a serem revelados quando ele está repleto demais para falar, exultante demais para ver, infinito demais para conter, eterno demais para tocar, mas simplesmente porque está aqui e agora, mais perto de você do que seu próprio nariz, mas dentro de você do que seus próprios pensamentos e mais próximo do Espírito do que todos eles, esse interior de Você que está agora lendo esta gina, olhando para o mundo e perguntando o que tudo isso significa, quando esse mesmo “o que tudo isso significa” é você. Não o você que pode ser visto, mas o Você que está vendo.
 O observador em você, a Testemunha desta página e do mundo inteiro ao seu redor: ele brilha e cintila com uma alegria esfuziante diante da liberdade de todo e qualquer momento, uma liberdade ardente e sublime que se liberta para o infinito a cada expiração, provocando arrepios em sua coluna com sua radiante intensidade ao deixar seu corpo, levando dádivas de infinita compaixão e perfeição radical e amor radiante, dádivas tão excessivamente imensas que todo o seu corpo explodiria se tentasse contê-las. Você pode sentir agora essa Plenitude que é sua instigando-o, tentando se expandir, essa Liberdade que é sua, se você apenas se colocar de lado e permitir que ela o tome de assalto. E é o que ela faz se você descansar como Testemunha disso e de todos os mundos que facilmente surgem em sua própria percepção, mundos que você mesmo cria a cada nascer e pôr-do-sol, quando a órbita luminosa atravessa a vastidão do céu de seu próprio vazio transparente. A grande e radiante vastidão descerrada mudaram, o ambiente ao meu redor mudou, mas percepção do “Eu Sou” está sempre-presente, radiante, aberta, vazia, clara, ampla, transparente, livre. Os objetos mudaram, mas não a percepção desse “Eu sou” sem forma. Essa óbvia e presente percepção do “Eu sou” está presente agora como esteve presente cinco horas atrás.
 O que esteve presente cinco anos atrás?
 A percepção do “Eu sou”. Muitos objetos apareceram e desapareceram, tantos sentimentos vieram e se foram, muitos pensamentos surgiram e foram embora, muitos dramas e terrores e amores e ódios vieram, ficaram por um tempo e se foram. Mas uma coisa não veio nem foi embora. O que é essa coisa? Qual é a única coisa presente em sua percepção neste exato momento que você se lembra que esteve presente cinco anos atrás? Essa percepção intemporal sempre presente do “Eu sou” está presente agora como esteve presente cinco anos atrás.
 O que esteve presente cinco séculos atrás?
 Tudo que está sempre presente é a percepção do “Eu sou”. Toda pessoa tem essa mesma percepção de “Eu sou” – porque ele não é um corpo, não é um pensamento, não é um objeto, não é o ambiente circundante, não é nada quer possa ser visto, mas é antes Aquele que , o Observador sempre presente, a Testemunha constante, aberta e vazia de tudo o que está surgindo, em toda e qualquer pessoa, em qualquer mundo, lugar e tempo em todos os mundos até o fim dos tempos, existe apenas e sempre essa óbvia e imediata percepção do “Eu sou”. O que mais você poderia conhecer? O que mais poderia haver para conhecer? Existe apenas e sempre essa percepção sempre presente do “Eu sou”, radiante que conhece a si próprio, sente e transcende a si próprio, presente tanto agora, como cinco minutos, cinco horas e cinco séculos atrás.
Cinco milênios atrás?
 Antes de Abraão existir, EU SOU. Antes de o universo existir, EU SOU. Esta é a minha Face original, a face que eu tinha antes de meus pais nascerem, a face que eu tinha antes de o universo nascer, a Face que eu tive por toda a eternidade até ter decidido entrar nesta brincadeira de esconde-esconde e me perder nos objetos criados por mim mesmo.
Eu NUNCA mais vou fingir que não conheço ou não sinto a minha própria percepção sempre presente do “Eu sou”.
 E com isso, a brincadeira chega ao fim. Milhões de pensamentos apareceram e desapareceram, milhões de sentimentos vieram e se desvaneceram, milhões de objetos surgiram e se foram. Mas uma única coisa não apareceu e uma única coisa não desapareceu: o grande Não-nascido e o grande Imortal, que jamais entra nem deixa a corrente do tempo, uma pura Presença fora do tempo, flutuando na eternidade. Eu sou esse grande e óbvioEu sou”, que conhece a si mesmo, valida a si mesmo e libera a si mesmo.
 Antes de Abraão existir, EU SOU.
EU SOU não é nada mais do que o Espírito na primeira pessoa, o Ser último, sublime e radiante de tudo e de todo o Cosmos, presente em mim, em você, nele, nela e neles – como a percepção sempre presente do “Eu sou” que todo e cada um de nós sente.
 Porque em todos os universos conhecidos, o número total de “Eu sou” é apenas um.
 Descanse sempre nessa percepção sempre presente do “Eu sou”, a mesma percepção do “Eu sou” que está sentindo neste exato momento, que é o próprio Espírito Não-nascido brilhando em você e através de você. Assuma também a sua identidade pessoalcomo este ou aquele objeto, este ou aquele eu ou esta ou aquela coisa –, permanecendo sempre no Fundamento de Tudo o que Existe, como essa grande e totalmente óbvia percepção sempre presente do “Eu sou”, e levante-se para prosseguir seu dia, no universo que essa percepção sempre presente do “Eu sou” criou.
 É um novo dia, um novo alvorecer, um novo homem e uma nova mulher. O novo ser humano, assim como o novo mundo, é integral.

Ken Wilber

Ser consciente, primeiro que tudo

Ser consciente, primeiro que tudo. Somos conscientes apenas de uma insignificante porção de nosso ser, pois da maior parte somos inconscientes. É esta inconsciência que nos mantém sujeitos à nossa natureza irregenerada e impede a sua mudança e transformação. É através da inconsciência que a s forças não divinas entram em nós e nos fazem seus escravos. Você deve ser consciente de si mesmo, você deve despertar para a natureza e seus movimentos, você deve saber como e por que faz ou sente as coisas ou pensa nelas; você deve entender seus motivos e impulsos, as forças escondidas ou aparentes que o movem; na verdade, você deve, por assim dizer, desmontar em pequenos pedaços o mecanismo inteiro de seu ser. Somente quando você se torna consciente é que você pode distinguir e peneirar as coisas, você pode ver quais as forças que o puxam para baixo e quais as que o ajudam. E quando você distinguir o certo do errado, o verdadeiro do falso, o divino do não-divino, você deve agir estritamente segundo o seu conhecimento; quer dizer, resolutamente rejeitar um e aceitar o outro. A dualidade se apresentará a cada passo você terá que fazer a sua escolha. Você terá que ser paciente e persistente e vigilante — "acordado", como dizem os adeptos; você deve sempre recusar a dar ao não-divino qualquer oportunidade que seja contra o divino.

Conversas com a Mãe

O ego não é seu si real

Para ser o possuidor de seu ser com qualquer realidade completa de liberdade e domínio, o homem deve encontrar seu mais alto si, o homem real ou o mais alto Espírito nele, que é livre e mestre de seu próprio e inalienável poder. Ele deve cessar de ser o ego mental, vital e físico; pois esses são sempre a criação, instrumento, submissos à Natureza mental, vital e física. Esse ego não é seu si real, mas uma instrumentação da Natureza pela qual ela desenvolveu um sentido de ser individual limitado e separado em mente, vida e corpo. Por essa instrumentação ele age como se fosse uma existência separada no universo material. A Natureza desenvolveu certas condições limitantes habituais sob as quais aquela ação ocorre; auto-identificação da alma com o ego é o meio pelo qual ela induz a alma a consentir essa ação e aceitar essas condições limitantes habituais. Enquanto a identificação perdura, existe um auto-aprisionamento nessa ação habitual circular e estreita, e, até que seja transcendida, não pode haver nenhum uso livre pela alma de sua vida individual, muito menos um real auto-exceder-se. Por essa razão um movimento essencial do Yoga é retirar-se do sentido de ego exterior pelo qual nós somos identificados com a ação da mente, vida e corpo e viver interiormente na alma. A libertação de um sentido de ego externalizado é o primeiro passo em direção à libertação e domínio da alma. 

Sri Aurobindo

Os Chakras Iluminados - Anodea Judith

O estado de prontificação para o Supramental

Qual seria a preparação para a transformação supramental? Primeiro, um controle cada vez maior do indivíduo sobre sua própria natureza e uma participação mais e mais consciente na ação da Supranatureza. 
Uma primeira condição desta mudança é que o Homem mental, que agora somos, deveria tornar-se interiormente desperto e em posse da lei mais funda de seu ser e seus processos; ele deveria tornar-se o ser psíquico e mental interior, mestre de suas energias, não mais um escravo dos movimentos da Prakriti* mais baixa, mas controlando-a, seguramente situado em uma livre harmonia com uma lei mais alta da Natureza. 

Na mente humana, há o primeiro aparecimento de uma inteligência observadora que olha o que está sendo feito, e de uma vontade e escolha que se tornaram conscientes; mas a consciência é ainda limitada e superficial: também o conhecimento é limitado e imperfeito, ele é uma inteligência parcial, um semi-entendimento, em grande parte tateante e empírico, ou, se racional, então racional por construções, teorias, fórmulas. Não há até agora uma visão luminosa que conheça as coisas por apreensão direta e as arranje com uma precisão espontânea de acordo com a visão, de acordo com o esquema de sua verdade inerente; embora haja um certo elemento de instinto, intuição e insight que tem algum começo deste poder, o caráter normal da inteligência humana é uma razão inquiridora ou um pensamento refletivo, que observa, supõe, infere, conclui, chega através de um duro trabalho a uma verdade construída, um esquema de pensamento construído, uma ação deliberadamente ordenada, de sua própria fabricação. 

Somente uma consciência intuitiva inteira e livre seria capaz de ver e de aprender as coisas por um contato direto e uma visão penetradora ou um senso de verdade espontâneo nascido de unidade ou identidade subjacente, e de ordenar uma ação da Natureza de acordo com a verdade da Natureza. Isto seria uma participação real do indivíduo no trabalho da Força-Consciência universal; o Purusha* individual se tornaria senhor de sua própria energia executiva a ao mesmo tempo um parceiro, agente e instrumento consciente do Espírito Cósmico no trabalhar da Energia universal; a Energia universal operaria através dele, mas também ele operaria através dela, e a harmonia da verdade intuitiva faria deste duplo trabalho uma única ação. Uma participação consciente cada vez maior deste tipo mais alto e mais íntimo deve ser um dos acompanhamentos da transição de nosso presente estado de ser para um estado de supranatureza. 

A individualidade tornar-se-ia, assim, cada vez mais poderosa e efetiva à proporção que se compreendesse como um centro e formação do Ser e Natureza universal e transcendente. Pois à medida que a progressão da mudança se processasse, a energia do indivíduo liberto não seria mais a energia limitada da mente, vida e corpo, com a qual ele começou; o ser emergiria dentro de uma maior luz de Consciência e de uma maior ação de Força e as assumiria — como elas emergiriam para dentro dele, assumindo-o para dentro de si mesmas: sua existência natural seria a instrumentação de um Poder superior, uma Força-Consciência sobremental e supramental, o poder da Shakti** Divina original. Todos os processo da evolução seriam sentidos como a ação de uma Consciência suprema e universal, uma Força suprema e universal trabalhando em qualquer modo que escolhesse, em qualquer nível, dentro de quaisquer limites autodeterminados, um trabalho consciente do Ser transcendente e cósmico, ação da onisciente Mãe-Mundo erguendo o ser para dentro de si mesma, para sua supranatureza. Em lugar da Natureza da Ignorância tendo o indivíduo como seu campo fechado e instrumento não-consciente ou semiconsciente, haveria uma Supra-Natureza da Gnose*** divina, e a alma individual seria seu campo e instrumento consciente, averto e livre, um participante em sua ação, ciente de seu propósito e processo, ciente também de seu próprio Si maior, a Realidade Universal e transcendente, e de sua própria Pessoa como ilimitavelmente una com isso, e ainda assim um ser individual de seu Ser, um instrumento e um centro espiritual. 

Uma primeira abertura a esta participação numa ação da Supranatureza é uma condição da virada rumo à transformação final, a supramental; pois esta transformação é a conclusão de uma passagem da harmonia obscura de um automatismo cego, com o qual a Natureza parte para a autêntica espontaneidade luminosa, o movimento infalível da verdade auto-existente do Espírito. A evolução começa com o automatismo da Matéria e de uma vida inferior, em que tudo obedece implicitamente ao ímpeto da Natureza, tudo cumpre mecanicamente sua lei de ser, e por isso consegue manter satisfatoriamente uma harmonia de seu tipo limitado de existência e ação; ela prossegue através da prenhe confusão da mente e da vida de uma humanidade impelida por esta Natureza inferior, mas lutando para escapar de suas limitações, para dominá-la, dirigi-la, usá-la; ela emerge numa maior harmonia espontânea e ação autocumpridora automática, fundada na Verdade espiritual das coisas. Neste estado mais alto a consciência verá essa Verdade e seguirá a linha de suas energias com conhecimento pleno, uma participação forte e uma maestria instrumental, um completo deleite em ação e existência. Haverá uma perfeição de luminosa e desfrutada unidade com todos, em vez da sujeição cega e penosa do individual ao universal, e a todo momento a ação do universal no individual e do individual no universal será iluminada e governada pela lei da Supranatureza transcendente. 

Sri Aurobindo — The Life Divine


A transição da mente para a Supramente

A transição da mente para a Supramente é uma passagem da Natureza para a Supernatureza. Exatamente por essa razão, ela não pode ser alcançada por um mero esforço de nossa mente ou nossa aspiração desajudada. A Sobremente e a Supramente estão involuídas e escondidas na natureza da terra; mas para que elas possam emergir em nós, é preciso uma pressão dos mesmos poderes, já formulados em sua plena força natural nos seus planos supraconscientes. Os poderes da Supraconsciência têm que descer para dentro de nós e elevar-nos, e transformar nosso ser. 
A transição para a Supramente através da sobremente é uma passagem da Natureza tal como a conhecemos para a Supra-Natureza. Exatamente por isso é impossível a qualquer esforço da Mente ordinária alcançá-la; nossa aspiração e empenho pessoais desajustados não podem chegar até ela: nosso esforço pertence ao poder inferior da Natureza; um poder da Ignorância não pode alcançar, por sua própria força, características ou métodos disponíveis, o que está além dos domínios da sua própria natureza. Todas as ascensões anteriores foram efetuadas por uma Força-Consciência secreta operando primeiramente na Inconsciência e depois na Ignorância: ela trabalhou por uma emersão de seus poderes envolvidos à superfície, poderes escondidos atrás do véu e superiores às formulações passadas da Natureza, mas mesmo assim é preciso uma pressão dos mesmos poderes superiores, já formulados em sua plena força natural nos seus próprios planos; estes planos superiores criam seu próprio fundamento em nossas partes subliminais, e de lá são capazes de influenciar o processo evolucionário na superfície. Sobremente e Supramente estão também involuídas e ocultas na Natureza-terra, mas elas não têm formações nos níveis acessíveis de nossa consciência interior subliminal; ainda não há nenhum ser de sobremente ou natureza organizada de sobremente, nenhum ser supramental ou natureza organizada de supramente atuando, quer sobre nossa superfície, quer em nossas partes subliminais normais: pois estes poderes maiores de consciência são supraconscientes em relação ao nível de nossa ignorância. Para que os princípios da Sobremente e da Supramente involuídos pudessem emergir de seu segredo velado, o ser e os poderes da Supraconsciencia teriam que descer para dentro de nós e elevar-nos, e formularem-se em nosso ser e em nossas faculdades; esta descida é um sine qua non da transição e da transformação. 

Para uma verdadeira transformação deve haver uma intervenção direta e clara de cima; seria necessário também uma submissão e entrega total da consciência mais baixa, a cessação de sua insistência, uma vontade, nela, de que sua lei isolada de ação seja completamente anulada por transformação, perdendo todos os direitos sobre nosso ser. Se estas duas condições, mesmo agora, podem ser alcançadas por um chamado e vontade conscientes no espírito e uma participação  de todo o nosso ser manifestado e interior em sua mudança e elevação, a evolução, a transformação pode ter lugar por uma mudança de consciência comparativamente rápida; a Força-Consciência supramental de cima e a Força-Consciência envolvente de trás do véu, agindo sobre a percepção e a vontade despertas do ser humano mental, cumpririam por seu poder unido a transição capital. Não haveria mais necessidade de uma lenta evolução exigindo milênios para cada passo, a evolução vacilante e difícil operada pela Natureza, no passado, nas criaturas não-conscientes da Ignorância. 

Sri Aurobindo — The Life Divine

Ascensão rumo à supramente

É difícil conceber intelectualmente o que é a Supramente; e para descrevê-la seria preciso uma outra linguagem que não os pobres e abstratos indicadores mecânicos da mente. 
A transformação psíquica e os primeiros estágios da transformação espiritual estão perfeitamente dentro de nossa concepção; sua perfeição seria a perfeição, a inteireza, a unidade consumada de um conhecimento e experiência que já é parte de coisas realizadas, conquanto só por um pequeno número de seres humanos. Mas a mudança supramental, em seu processo, leva-nos para dentro de regiões bem menos exploradas; ela introduz uma visão de alturas de consciência que foram de fato vislumbradas e visitadas, mas ainda têm que ser descobertas e exploradas em sua inteireza. O mais alto destes picos ou elevados platôs de consciência, o supramental, reside bem além da possibilidade de qualquer esquema ou mapa mental dele que seja satisfatório, ou de qualquer apreensão da visão ou descrição mental. Seria difícil, para a concepção mental normal não-iluminada ou não-transformada, expressar ou penetrar algo que se baseia numa consciência tão diferente, com uma percepção das coisas radicalmente diferente; mesmo que essas alturas fossem vistas ou concebidas por um aclaramento ou abertura de visão, seria necessária uma linguagem diferente dos pobres e abstratos indicadores mecânicos usados por nossa mente, para traduzi-las em termos que tornassem palpável para nós sua realidade. Do mesmo modo que os cimos da mente humana estão além da percepção animal, os movimentos da supramente estão além da concepção mental humana ordinária: só quando já tivéssemos experienciado uma consciência intermediária mais alta, é que os termos que tentam descrever o ser supramental poderiam transmitir um significado real para nossa inteligência; porque então, tendo experienciado algo semelhante ao que é descrito, poderíamos traduzir em linguagem inadequada, em uma figura daquilo que já tínhamos conhecido. Se a mente não pode penetrar a natureza da supramente, ela pode olhar em sua direção através destas aproximações altas e luminosas, e apanhar alguma impressão refletida da Verdade, do Certo, do Vasto, que é o reino nativo do Espírito livre. 

Sri Aurobindo - LD 19, 26 pp. 919/920

O controle da fala

Quando se fala em austeridade mental, pensa-se imediatamente nas longas meditações que levam ao controle do pensamento, e que são coroadas pelo silêncio interior. Esse aspecto da disciplina ióguica é conhecido demais para que ainda seja necessário estender-se sobre o assunto. Mas há um outro, com o qual as pessoas geralmente se preocupam menos: é o controle da fala. Com raríssimas exceções, só o silêncio absoluto é contraposto à livre tagarelice. No entanto, há uma austeridade muito maior e mais fecunda no controle da fala do que em sua abolição.

Na terra, o homem é o primeiro animal capaz de servir-se de sons articulados. Ele é muito orgulhoso disso, aliás, e utiliza essa capacidade sem medida nem discernimento. O mundo está ensurdecido pelo ruído de suas palavras, e às vezes se é tentado a lastimar o silêncio harmonioso do reino vegetal.

É, aliás, um fato bem conhecido que quanto menor o poder mental, mais é necessário o uso da palavra. Assim, há pessoas primitivas e sem instrução que não conseguem pensar coisa alguma a menos que falem. Podemos ouvi-las resmungando em voz mais ou menos baixa. Porque este é seu único meio de seguir um pensamento que não se formularia nelas sem as palavras pronunciadas.

Há também um grande número de pessoas, mesmo entre as que receberam instrução, mas cujo poder mental é fraco, que só sabem o que querem dizer à medida que o dizem. Isso torna suas conversas intermináveis e tediosas. Pois à medida que falam, seu pensamento se torna mais claro e mais preciso, e assim elas são obrigadas a repetir a mesma coisa várias vezes, a fim de dizê-las cada vez mais exatamente.

Há aquelas que devem preparar com antecedência o que terão a dizer, e que ficam embaraçadas se são obrigadas a falar de improviso, porque não tiveram tempo de elaborar progressivamente os termos exatos daquilo que querem dizer.

Há, enfim, os oradores natos que têm o domínio da elocução; eles acham espontaneamente todas as palavras necessárias para dizer o que querem dizer, e o dizem bem.

Tudo isso, no entanto, do ponto de vista da austeridade mental, não sai da categoria das tagarelices. Pois eu chamo tagarelice todas as palavras pronunciadas sem que sejam absolutamente indispensáveis. Como julgá-lo? pode-se perguntar. Para isso, é preciso primeiro classificar de uma maneira geral as diferentes categorias de palavras pronunciadas.

Temos primeiro, no domínio físico, todas as palavras ditas por razões materiais. São de longe as mais numerosas, e, na vida comum, muito provavelmente também as mais úteis.

O constante zumbido das palavras parece o acompanhamento indispensável das tarefas cotidianas. No entanto, logo que se procura reduzir o ruído ao mínimo, percebe-se que muitas coisas são feitas melhor e mais rápido no silêncio, e que isto ajuda a manter a paz no interior e a concentração.

Se você não é sozinho e vive com outros, adquira o hábito de não se exteriorizar constantemente em palavras pronunciadas em voz alta, e você perceberá que pouco a pouco uma compreensão interior se estabelece entre você e os outros; você poderá então intercomunicar-se reduzindo as palavras ao mínimo, ou mesmo sem palavra alguma. Esse silêncio exterior é muito favorável à paz interior, e com boa vontade e constância na aspiração você poderá criar um ambiente harmonioso, muito propício ao progresso.

Na vida em comum, às palavras que dizem respeito à existência e às ocupações materiais virão juntar-se aquelas que exprimem as sensações, os sentimentos, as emoções. É aqui que o hábito do silêncio exterior se revela como uma ajuda preciosa. Pois quando somos invadidos por uma onda de sensações ou de sentimentos, esse silêncio habitual nos dá tempo de refletir e, se for preciso, de nos retomarmos, antes de projetarmos em palavras a sensação ou o sentimento experimentado. Quantas disputas podem assim ser evitadas! Quantas vezes seremos salvos de uma dessas catástrofes psicológicas que são, na sua maioria das vezes, o resultado de uma incontinência verbal.

Sem chegar até esse extremo, é preciso sempre controlar as palavras que pronunciamos e nunca deixar a língua ser movida por movimento de cólera, de violência ou de irritação. Não é só a disputa que é má em seus resultados; é o fato de emprestar nossa boca para que vibrações más sejam projetadas na atmosfera, porque nada é mais contagioso do que as vibrações do som, e dando a esses movimentos a ocasião de se exprimirem, os perpetuamos em nós e nos outros.

Entre os mais indesejáveis tipos de tagarelice deve-se incluir também tudo o que é dito a respeito dos outros.

A menos que você seja responsável por certas pessoas, como guardião, instrutor ou chefe de serviço, você não tem nada a ver com o que os outros fazem ou não fazem e é preciso abster-se de falar deles, de dar sua opinião sobre eles e sobre o que fazem, ou mesmo de repetir o que os outros podem pensar e dizer deles.

É possível que pela própria natureza de seu trabalho, seja seu dever fazer um relatório sobre o que se passa num departamento, numa empresa, num trabalho em comum. Nesse caso, o relatório deve limitar-se àquilo que diz respeito só ao trabalho, e não tocar nas coisas privadas. E de uma maneira absoluta, deve ser totalmente objetivo. Você não deve permitir que nenhuma reação pessoal, nenhuma preferência, nenhuma simpatia ou antipatia seja introduzida nele. E, sobretudo, nunca misture seus mesquinhos rancores pessoais ao trabalho que lhe compete fazer.

Em todos os casos e de uma maneira geral, quanto menos se fala dos outros, mesmo se for para elogiá-los, melhor. Já é tão difícil saber exatamente o que acontece em si mesmo, como saber com certeza o que acontece nos outros? Abstenha-se, portanto, totalmente de pronunciar sobre uma pessoa um desses julgamentos definitivos que só podem ser uma tolice, se não uma maldade.

Quando o pensamento é exprimido pela palavra, a vibração do som tem um poder considerável de colocar a substância mais material em contato com esse pensamento e dar-lhe assim uma realidade concreta e efetiva. É por isso que não se deve nunca maldizer as pessoas e as coisas, nem exprimir pela palavra pronunciada em voz alta as coisas que no mundo contradizem o progresso da realização divina. Esta é uma regra geral absoluta. No entanto ela comporta uma exceção. Nenhuma crítica deve ser feita, a menos que se tenha ao mesmo tempo o poder consciente e a vontade ativa de dissolver os movimentos ou as coisas criticadas, ou de transformá-los. Esse poder consciente e essa vontade agente têm efetivamente a capacidade de infundir na matéria a possibilidade de reagir e de recusar a vibração má e finalmente de corrigi-la, a ponto de se tornar impossível para ela continuar a exprimir-se no plano material.

Só pode fazê-lo sem risco e sem perigo quem se move nas regiões gnósticas, e quem possui em suas faculdades mentais a luz do espírito e o poder da verdade. Esse, o obreiro do Divino, está livre de toda preferência e de todo apego; ele rompeu em si mesmo os limites do ego e não é mais que um instrumento perfeitamente puro e impessoal da ação supramental sobre a terra.

Há também todas as palavras pronunciadas para exprimir as idéias, as opiniões, os resultados das reflexões ou dos estudos. Aqui nos achamos num domínio intelectual, e poderíamos pensar que nesse domínio os homens fossem mais razoáveis, mais ponderados, e que a prática de uma austeridade rigorosa fosse aí menos indispensável. No entanto, não é nada disso, porque mesmo aí, nessa morada das idéias e do conhecimento, o homem introduziu a violência de suas convicções, a intolerância de seu sectarismo, a paixão de suas preferências. Assim, também aqui, será preciso recorrer à austeridade mental e evitar cuidadosamente as trocas de idéias que acabam levando a controvérsias amiúde ásperas demais e quase sempre ociosas, evitar as oposições de opiniões que terminam em discussões vivas e mesmo em disputas, vindo sempre de uma estreiteza de espírito facilmente curável quando nos elevamos bastante alto no domínio mental.

De fato, o sectarismo torna-se torna-se impossível quando se sabe que todo pensamento formulado é apenas uma maneira de dizer alguma coisa que escapa a toda expressão. Cada idéia contém um pouco de verdade ou um aspecto da verdade. Mas não há idéia que seja em si mesma absolutamente verdadeira.

Este sentido da relatividade das coisas é uma ajuda poderosa para manter seu equilíbrio e conservar uma serena ponderação em seu falar. Ouvi um velho ocultista, que possuía alguma sabedoria, dizer: “Não há coisa alguma que seja essencialmente má; há apenas coisas que não estão em seu lugar. Coloque cada coisa em seu lugar verdadeiro e você obterá um mundo harmonioso”.

No entanto, do ponto de vista da ação, o valor de uma idéia existe em função de seu poder pragmático. Este poder, é verdade, é muito diferente, de acordo com os indivíduos aos quais se aplica. Uma idéia determinada que tem num indivíduo um grande poder impulsionador, num outro pode falhar totalmente. Mas esse poder é, ele mesmo,contagioso. Certas idéias são capazes de transformar o mundo. São essas que devem ser exprimidas; elas são as estrelas mestras do firmamento do espírito, aquelas que servirão de guias para conduzir a terra em direção a sua realização suprema.

Finalmente, temos todas as palavras pronunciadas com o objetivo de dar um ensinamento. Esta categoria se estende do jardim de infância até os cursos universitários, sem esquecer todas as produções humanas artísticas e literárias que pretendem divertir ou educar. Nesse domínio tudo depende do valor da produção, e o assunto é vasto demais para poder ser tratado aqui. É um fato que a preocupação com a educação está muito em voga atualmente, e esforços louváveis têm sido feitos para utilizar as novas descobertas científicas, colocando-as a serviço da educação. Mas mesmo nisto uma austeridade se impõe ao aspirante à verdade.

Admite-se geralmente, no processo educativo, que um certo gênero de produções mais leves, mais fúteis, mais divertidas seja necessário para reduzir a tensão do esforço e descansar as crianças e mesmo os adultos. De um certo ponto de vista, isso é verdadeiro; mas infelizmente essa admissão serviu de desculpa para legitimar toda uma categoria de coisas que não são nada mais do que o florescimento de tudo o que é vulgar, grosseiro e baixo na natureza humana; seus instintos mais canalhas, seu gosto mais depravado encontram nessa admissão uma boa desculpa para se exibirem e se imporem como uma necessidade inevitável. E, no entanto, não é nada disso; você pode descansar sem ser devasso repousar sem ser vulgar, relaxar sem permitir que tudo o que é grosseiro na natureza venha à superfície. Mas do ponto de vista da austeridade, estas próprias necessidades mudam de natureza; o descanso se transforma em silêncio interior, o repouso em contemplação e o relaxamento em felicidade.

Essa necessidade tão geralmente reconhecida de distração, relaxamento no esforço, esquecimento mais ou menos longo e total do objetivo da vida, da razão de ser da existência, não deve ser considerada como uma coisa absolutamente natural e indispensável, mas como uma fraqueza à qual se cede por falta de intensidade na aspiração, por instabilidade na vontade, por ignorância, inconsciência, baixeza. Não legitime esses movimentos e você perceberá logo que eles são necessários e até, num dado momento, passarão a ser repugnantes e inaceitáveis para você. Então toda uma parte, e não a menor, da produção humana dita recreativa, mas em verdade degradante, perderá seu suporte e cessará de ser encorajada.

Entretanto, não se deve pensar que, da natureza do assunto da conversa, depende o valor das palavras pronunciadas. Pode-se tagarelar sobre os assuntos espirituais como sobre qualquer outro, e essas tagarelices talvez estejam entre as mais perigosas. Por exemplo, o neófito está sempre muito ansioso em compartilhar com outros o pouquinho que aprendeu. Mas à medida que ele avança no caminho, percebe mais e mais que não sabe muita coisa e que antes de querer instruir os outros é preciso estar bem seguro do valor do que se sabe, até o dia em que, tendo-se tornado razoável, ele se dá conta de que numerosas horas de concentração silenciosa são necessárias para poder falar utilmente durante alguns minutos. Além disso, no que tange à vida interior e ao esforço espiritual, o uso da palavra deve ser submetido a uma regulamentação ainda mais estrita, e nada deve ser dito a menos que seja absolutamente indispensável dizê-lo.

É um fato bem conhecido que não se deve nunca falar de suas experiências espirituais, se não se quer ver dissipar-se num instante a energia acumulada na experiência, e que deveria servir para apressar o progresso. A única exceção que pode ser feita à regra é em relação a seu guru, se se quiser obter dele algum esclarecimento ou algum ensinamento sobre o conteúdo e o significado da experiência realizada. De fato, é só ao guru que se pode falar dessas coisas sem perigo, porque só o guru, por seu conhecimento, é capaz de utilizar para o bem de seu discípulo os elementos da experiência como degraus para novas ascensões.

É verdade que o próprio guru está submetido à mesma regra de silêncio no que lhe diz respeito pessoalmente. Na natureza tudo está em movimento; assim, aquele que não avança, recua necessariamente. O guru deve fazer progressos da mesma maneira que seus discípulos, embora esses progressos possam não estar no mesmo plano. E para ele também, falar de suas experiências não é favorável: a força dinâmica de progresso contida na experiência se evapora em grande parte nas palavras. Por outro lado, explicando suas experiências a seus discípulos, ele ajuda poderosamente a compreensão e, portanto, o progresso deles. Cabe a ele, em sua sabedoria, saber até que ponto ele pode e deve sacrificar um pelo outro. Não é preciso dizer que em seu relato não deve entrar nenhuma ostentação, nenhuma vanglória; porque a menor vaidade faria dele não mais um guru, mais um impostor.

Quanto ao discípulo, eu direi a ele: “Em todos os casos sê fiel a teu guru, seja ele como for; ele te levará tão longe quanto puderes ir. Mas se tiveres a felicidade de ter o Divino como guru, aí não haverá limites à tua realização”.

No entanto, mesmo o Divino, quando se encarna sobre a terra, está submetido à mesma lei de progresso. O instrumento de sua manifestação, e ser físico de que ele se revestiu, deve está num constante estado de progresso, e a lei de sua expressão pessoal está de alguma maneira ligada à lei geral do progresso terrestre. Assim, mesmo o deus encarnado só poderá ser perfeito sobre a terra quando os homens estiverem prontos para compreender e para aceitar a perfeição. Será o dia em que poderá ser feito por amor ao Divino o que agora se faz por dever em relação a Ele. O progresso será uma alegria, em vez de ser um esforço e freqüentemente até uma luta. Ou mais exatamente, o progresso se fará na alegria, com a plena adesão de todo o ser, em vez de se fazer através de coerção sobre a resistência do ego, necessitando um grande esforço e às vezes mesmo um grande sofrimento.

Para concluir, eu lhe direi: “Se você quiser que sua palavra exprima a verdade e que assim adquira o poder do Verbo, nunca pense com antecedência no que você quer, não decida o que é bom ou ruim dizer, não calcule qual será o efeito do que você vai dizer. Seja silencioso mentalmente e mantenha-se sem vacilar na atitude verdadeira, a de uma aspiração constante à sabedoria plena, ao conhecimento pleno, à consciência plena. Então, se sua aspiração for sincera, se ela não é uma capa para sua ambição de fazer as coisas bem e de obter sucesso, se ela for pura, espontânea e integral, aí você poderá falar muito simplesmente, você poderá pronunciar as palavras que devem ser ditas, nem mais nem menos, e elas terão um poder criador”.

(Do livro “As quatro austeridades e as quatro libertações”, de Mira Alfassa – A Mãe, do Sri Aurobindo Ashram).

Sobre o culminar da mudança espiritual

A mudança espiritual culmina numa permanente ascensão partindo da consciência inferior para a superior, seguida de uma efetiva e permanente decida da natureza superior para dentro da inferior.
Com o tempo a ascensão chega a ser feita à vontade e a consciência recorda e retém algum efeito ou algum ganho de sua estada temporária nessas regiões mais altas do espírito. Em muitos, estas ascensões têm lugar em estado de transe, mas elas são perfeitamente possíveis por meio de uma concentração da consciência desperta, ou, onde esta consciência se tornou suficientemente psíquica, em qualquer momento não concentrado, por uma atração ou afinidade para com o alto.

Mas estes dois tipos de contato com o supraconsciente, embora possam ser poderosamente iluminadores, extasiantes ou libertadores, são por si mesmos insuficientemente efetivos: para a plena transformação espiritual é necessário mais, uma permanente ascensão, partindo da consciência inferior para dentro da superior, e uma descida eficaz e permanente da natureza superior para dentro da inferior.
Uma nova consciência começa a se formar, com novas forças de pensamento e visão, e um poder de realização espiritual direta que é mais do que pensamento ou visão. 
Esta experiência de descida pode efetuar-se como resultado dos dois outros movimentos, ou então automaticamente, antes de um ou outro ter acontecido, por uma súbita brecha na membrana mental, ou uma filtragem, uma chuva forte ou um influxo. Uma luz desce e toca ou envolve ou penetra o ser inferior, a mente, a vida ou o corpo; ou uma presença, um poder ou um rio de conhecimento derrama-se em ondas correntes, ou há uma inundação de alegria ou um súbito êxtase; o contato com o supraconsciente foi estabelecido; pois tais experiências se repetem até que se tornem normais, familiares e bem entendidas, reveladoras de seu conteúdo e de seu significado, os quais podem ter sido, primeiro, envoltos e revestidos como um segredo pela figura da experiência encobridora. Pois um conhecimento de cima começa a descer, frequentemente, constantemente, ininterruptamente e a manifestar-se NA QUIETUDE OU NO SILÊNCIO DA MENTE; intuições e inspirações, revelações nascidas de uma visão maior, uma verdade e sabedoria mais alta entram no ser, uma luminosa discriminação intuitiva trabalha, dissipando toda a escuridão de entendimento ou confusões aturdidoras, pondo tudo em ordem; uma nova consciência começa a se formar, a mente de um alto conhecimento pensante, vasto e auto-existente, ou uma consciência iluminada ou intuitiva ou sobremental, com novas forças de pensamento ou visão e um maior poder de realização espiritual direta que é mais do que pensamento ou visão, um maior devir aparece na substância espiritual de nosso ser atual; o coração e os sentidos tornam-se sutis, intensos, grandes para abraçar toda a existência, ver Deus, sentir e ouvir e tocar o Eterno, criar uma unidade mais funda e mais íntima do si e do mundo, uma realização transcendente. Outras experiências decisivas, outras mudanças de consciência se determinam, sendo corolários e consequências desta mudança fundamental. Nenhum limite para esta revolução pode ser fixado; pois ela é, em sua própria natureza, uma invasão do Infinito. 

Pois esta consciência tem, ela própria, a natureza da infinidade; ela traz para nós o sentido e percepção espiritual inabalável do infinito e do eterno, com uma grande amplidão da natureza e um desmoronamento de suas limitações; a imortalidade torna-se não mais uma crença ou experiência, mas uma autoconsciência normal; a íntima presença do Ser Divino, seu governo do mundo e de nosso si e de nossos membros naturais, sua força operando em nós e em toda parte, a paz do infinito, a alegria do infinito são agora concretos  e constantes no ser; em tudo que é visto e em todas as formas nós vemos o Eterno, a Realidade; em todos os sons nós o ouvimos, em todos os toques o sentimos; há unicamente suas formas e personalidades e manifestações; a alegria ou adoração do coração, o abraço de toda a existência, a unidade do espírito são realidades duradouras. A consciência da criatura mental está se convertendo, ou já se converteu inteiramente, na consciência do ser espiritual. Esta é a segunda das três transformações; unindo a existência manifesta com o que está acima dela, ela é, dos três passos, o do meio, a transição decisiva da natureza evoluindo espiritualmente.

Sri Aurobindo - The Life Dinive 

Uma mudança radical de toda a natureza humana

Para estabelecer-se permanentemente, esta nova ordem de existência requer uma mudança radical de toda a natureza humana. Nesta transformação há três fases.

Ela deve tornar-se a natureza normal de um novo tipo de ser; assim como a mente está estabelecida aqui em uma base de Ignorância que busca Conhecimento e cresce tornando-se Conhecimento, assim também a supramente deve ser estabelecida aqui em uma base de Conhecimento tornando-se sua própria Luz maior. Mais isto não pode acontecer enquanto o ser espiritual-mental não se elevar plenamente à supramente e não trouxer seus poderes para baixo, para dentro da existência terrestre. Pois é necessário estender uma ponte sobre o golfo entre a mente e a supramente, as passagens fechadas têm que ser abertas e vias de ascensão e descida criadas onde agora há vazio e silêncio... Deve haver primeiro a mudança psíquica, a conversão de toda a nossa presente natureza numa instrumentação da alma; a partir disso, ou justamente com isto, deve haver a mudança espiritual, a descida de uma Liz, Conhecimento, Poder, Força, Beatitude, Pureza mais alta, para dentro do ser inteiro, mesmo para dentro dos recessos mais baixos da vida e do corpo, mesmo para dentro da escuridão de nossa subconsciência; por último, deve sobrevir a transmutação supramental — como movimento coroador deve ter lugar a ascensão para dentro da supramente e a descida transformadora da Consciência supramental para dentro de nosso ser e natureza inteiros.

Sri Aurobindo

Os caminhos de abertura do ser interior

Em sua tentativa de começar a abrir o ser interior, a Natureza seguiu quatro linhas principaisreligião, ocultismo, pensamento espiritual e uma realização e experiência espiritual interior.

Há quatro linhas principais que a Natureza seguiu em sua tentativa de começar a abrir o ser interior — religião, ocultismo, pensamento espiritual e uma realização e experiência espiritual interior: as três primeiras são aproximações, a última é a avenida decisiva de entrada. Todos estes quatro poderes trabalharam em ação simultânea, mais ou menos relacionados, às vezes em colaboração variável, às vezes em mútua disputa, às vezes em sua independência isolada. A religião admitiu um elemento oculto em seu ritual, cerimônia e sacramento; ela se debruçou sobre o pensamento espiritual de apoio — o primeiro é ordinariamente o método ocidental, o último o oriental: mas a experiência espiritual é o objetivo e a consecução final da religião, seu céu e ápice. 

Cada um desses meios ou aproximações corresponde a algo em nosso ser total, e portanto a algo necessário ao objetivo total de sua evolução. Há quatro necessidades de auto-expressão do homem, para ele não permanecer este ser da ignorância de superfície, procurando obscuramente a verdade das coisas, coletando e sistematizando fragmentos e secções de conhecimento, a pequena criatura limitada e semicompetente da Força cósmica, que ele é agora em sua natureza fenômenica. Ele deve conhecer-se, descobrir e utilizar todas as suas potencialidades: mas para conhecer a si próprio e ao mundo completamente, ele tem que ir atrás de si mesmo e de seu exterior, tem que mergulhar fundo, abaixo de sua própria superfície mental e da superfície física da Natureza. Isto ele só pode fazer conhecendo seu ser mental, vital, físico e psíquico interior e seus poderes e movimentos, e as leis e processos universais da mente e Vida ocultas que estão atrás da fronte material do universo: este é o campo do ocultismo, se tomarmos a palavra em sua significação mais ampla. Ele deve também conhecer o Poder ou Poderes escondidos que controlam o mundo: se existe um Si Cósmico ou Espírito ou um Criador, ele deve ser capaz de entrar em relação com Ele ou com Isto, e ser capaz de se manter em qualquer contato ou comunhão possível, entrar em algum tipo de sintonização com Seres mestres do universo, ou com o Ser universal e sua vontade universal, ou com um Ser supremo e Sua suprema vontade, seguir a lei que Ele lhe dá e o objetivo assinalado ou revelado de sua vida e conduta, erguer-se em direção à maior altura que Ele lhe exige em sua vida de agora ou em sua existência posterior; se não existe um tal Espírito ou Ser universal ou supremo, o homem deve saber o que existe e como erguer-se até isso, saindo de sua presente imperfeição e impotência. Esta aproximação é o objetivo da religião: seu propósito é ligar o humano com o Divino, e com isso sublimar o pensamento e a vida e a carne, de modo que eles possam admitir o governo da alma e do espírito. Mas este conhecimento deve ser algo mais do que um credo ou uma revelação mística; a mente pensante do homem deve ser capaz de aceitá-lo, de correlacioná-lo com o princípio das coisas e a verdade observada do universo: este é o trabalho da filosofia, e no campo da verdade do espírito ele só pode ser feito por uma filosofia espiritual, seja intelectual em seu método ou intuitiva. Mas todo conhecimento e esforço só pode alcançar sua fruição se convertido em experiência e se chegou a ser parte integrante da consciência e de suas operações estabelecidas; no campo espiritual, todo esse esforço e conhecimento religioso, oculto ou filosófico, deve, para ser fecundo, terminar num abrir da consciência espiritual, em experiências que fundamentam e continuamente elevam, expandem e enriquecem esta consciência, e na edificação de uma vida e ação que está em conformidade com a verdade do espírito: este é o trabalho da realização e experiência espiritual. (1)

Somente a realização e experiência espiritual pode consumar a mudança do ser mental em um ser espiritual

Mas nenhuma destas três [primeiras] linhas de aproximação pode, por si mesma, cumprir inteiramente a intenção maior e ulterior da Natureza; elas não podem criar no homem mental o ser espiritual, a não ser, e não antes, que elas abram a porta para a experiência espiritual. É somente por uma realização interior daquilo que estas aproximações estão buscando ou por uma experiência decisiva ou por muitas experiências que edifiquem uma mudança interior, por uma transmutação de consciência, por uma libertação do espírito de seu atual véu da mente, vida e corpo, que, então, o ser espiritual pode emergir.   Esta é a linha final do progresso da alma, rumo à qual as outras estão apontadas, e quando ela está pronta para desprender-se das aproximações preliminares, então o trabalho real começou e o ponto decisivo da mudança não está mais longe. Até então, tudo o que o ser humano mental alcançou foi a familiaridade com a ideia das coisas que estão além dele, com a possibilidade de um movimento de um outro mundo, com o ideal de uma perfeição ética; ele pode também ter estabelecido algum contato com Poderes ou Realidades maiores que ajudam sua mente ou coração ou vida. Pode haver uma mudança aí, mas não a transmutação do ser mental no espiritual. A religião, seu pensamento e ética e oculto misticismo, produziu nos tempos antigos o sacerdote e o mago, o homem da piedade, o homem justo, o homem da sabedoria, muitos pontos altos da humanidade mental; mas — só depois que a experiência espiritual através do coração e da mente começou, que nós vemos surgirem o santo, o profeta, o Rishi, o Yogue, o vidente, o sábio espiritual e o místico, e são as religiões em que nasceram estes tipos do estágio humano de espiritualização as que duraram, cobriram o globo e deram à humanidade toda a sua aspiração e culturas espirituais.

O último ou mais alto estágio é o homem liberto que realizou o Si e Espírito dentro dele, entrou na consciência cósmica, atingiu a união com o Eterno e, até onde ele aceita ainda a vida e a ação, age, pela luz e energia do Poder dentro dele trabalhando através de seus instrumentos humanos da Natureza. A mais ampla formulação desta mudança e consecução espiritual é uma libertação total da alma, mente, coração e ação, um lançá-los todos para dentro do sentido do Si cósmico e da Realidade Divina. Foi então que a evolução espiritual do indivíduo achou seu caminho e arrojou para o alto seu pleno alcance de eminência himalaiana e seus cumes da mais alta natureza. Para além desta altura e amplidão abre-se somente a ascensão supramental ou Transcendência incomunicável. (2)
Sri Aurobindo - The Life Divive  

(1) LD. 19, 24, pp 860/861/862
(2) LD. 19, 24, pp 880/881/882


O que é espiritualidade?

Espiritualidade é algo diferente de intelectualidade; seu aparecimento é o sinal de que um Poder maior do que a mente está lutando para emergir a seu tempo.

[...] A espiritualidade é um despertar progressivo para a realidade interna do nosso ser, para um espírito, em si, uma alma, que é diferente de nossa mente, vida e corpo. É uma aspiração interior a conhecer, a entrar em contato e união com a Realidade maior que está além, a qual também preenche o universo e habita em nós, e, como resultado dessa aspiração, desse contato e dessa união, uma virada, uma conversão, o nascimento rumo a um novo ser.

Espiritualidade não é uma intelectualidade elevada, não é um idealismo, não é um movimento ético de mente ou pureza e austeridade morais, não é uma religiosidade ou um fervor emocional ardente e exaltado, nem mesmo um composto de todas estas excelentes coisas; uma crença, credo ou fé mentais, uma aspiração emocional, uma regulação da conduta conforme uma fórmula ética ou religiosa não são experiência nem conquista espiritual. Estas coisas são de valor considerável para a mente e para a vida; elas têm valor para a própria evolução espiritual como movimentos preparatórios, disciplinando, purificando ou dando uma forma adequada à natureza; mas ainda pertencem à evolução mental — o começo de uma realização, uma experiência, uma mudança espiritual ainda não está aí. A espiritualidade é em sua essência um despertar para a realidade interior de nosso ser, para um espírito, um si, uma alma, que é diferente de nossa mente, vida e corpo, uma aspiração interior a conhecer, sentir, ser isso, a entrar em contato com a Realidade maior que está além, que penetra o universo e habita também nosso próprio ser, a estar em comunhão com Ela, em união com Ela, e é uma guinada, uma conversão, uma transformação de nosso ser inteiro, como resultado da aspiração, do contato, da união, um crescimento ou despertar para um novo vir-a-ser, ou um novo ser, um novo si, uma nova natureza.

Sri Aurobindo - A evolução futura do homem

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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey