Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

O Homo Holotrópico

O homem integral é, certamente, um santo, mas é também um sábio, um sapiente, um vidente da Realidade total, um ser dotado de infinita verticalidade e de ilimitada horizontalidade. Não é estreitamente unilateral, mas amplamente onilateral. É um iniciado na Universidade Cósmica — um homem divinizado. 

Por onde se vê que o homem cósmico não é simplesmente um homem erudito; muito menos um mero perito ou um pesquisador cientificamente treinado. Tão pouco é ele apenas um homem inteligente e talentoso, nem somente um gênio, no sentido tradicional da palavra. Pode alguém ser tudo isto sem por isto ser um homem sábio, um iniciado... O homem erudito em todas as variantes é um viajante que segue o seu caminho por entre as estreitas paredes de um túnel, escuro e longo, e enxerga no fim dessa galeria subterrânea uma luz, que ele vai demandando com grande velocidade e entusiasmo. Mas a sua jornada desenrola-se em sentido linear, unilateral. O homem sábio, porém, não conhece escuros túneis e estreitos corredores. Acha-se colocado como que numa vasta planura, envolto em claridade solar. A sua grandeza tem afinidade com a luz do sol, tão distante e tão propínqua, tão poderosa e tão delicada — esse sol que arremessa gigantescas esferas pelos espaços sidéricos e acaricia maternalmente as faces duma criança dormente... Assim é o sábio, na potência do seu gênio e na suavidade do seu amor...

O verdadeiro sábio, em sua vasta jornada, transcendeu a desconcertante pluralidade dos conhecimentos periféricos e meramente quantitativos, e atingiu a tranquilizante unidade do Todo, numa vidência central e qualitativa. É possível que ele não conheça muitas coisas, mas sabe muito. O seu modo de conhecer não é um simples agregado mecânico de elementos desconexos e fortuitamente justapostos, como os grãos de areia num deserto, mas é um sistema orgânico de partes afins que convergem num Todo natural e espontâneo, como as células e os tecidos de uma planta dominados por um princípio vital. O saber do sábio é antes profundo que agudo; a sua visão atravessa todas as superfícies, invólucros e camadas do mundo fenomenal, e penetra até o fundo essencial de todas as coisas. Para ele, o mundo circunjacente deixou de ser opaco; tornou-se transparente como um cristal, através do qual ele contempla a essência e última razão-de-ser de todas as coisas. Vê o eterno "Simbolizado" através de todos os símbolos temporais... a Essência divina através das aparências mundanas. 

O homem cósmico é, pois, um vidente da Suprema Realidade, essência e subproduto universal de todos os fenômenos individuais. O seu saber vai à origem e raiz de todos os seres, ao foco gerador de todas as luzes, à nascente profunda de todas as águas. Ele é um "essencialista", um "realista" no mais verdadeiro sentido da palavra; um genuíno "iniciado", quer dizer, um homem que "está dentro", e não mais um "profano¹", um homem que "está de fora". 

Ser sábio é tomar o "sabor, a noção intuitiva da íntima natureza das coisas; é deixar de ser vítima das aparências ilusórias; é conhecer a Verdade libertadora, no dizer do maior de todos os iniciados, Jesus de Nazaré. 

A perspectiva do sábio é a da centralidade, ao passo que o homem simplesmente erudito observa o mundo do lado de fora, de um determinado ponto da periferia, e tem por isto mesmo apenas uma visão parcial do Todo, visão externa e unilateral. É esta a razão porque um homem assim não pode conhecer a Deus. O homem cósmico, da profunda e alta sentinela da sua absoluta centralidade, abrange o universo numa visão panorâmica, assim como o próprio Deus o contempla. Ele é o homem divino por excelência, perfeitamente identificado com Deus: "Eu e o Pai somos Um). 

À luz do exposto, é evidente que o verdadeiro sábio é também um santo. Sabedoria e santidade são conceitos idênticos:ambos designam Totalidade, Integridade, Universalidade. O olhar do sábio não se prende jamais a uma parte ou fragmento do Todo. Ele não é unilateral, mas onilateral. Não se assemelha à luz intermitente do relâmpago, ou à luz estreita dum holofote — mas, sim, à luz vasta e permanente do sol a espraiar-se em oceanos de claridade por montes e vales, compreendendo todas as latitudes e longitudes do sistema planetário. 

Graças a essa visão vasta e tranquila, possui a alma do homem sábio uma como que passividade dinâmica, ou seja, um dinamismo pacífico. Ao profano e inexperiente pode essa serenidade do iniciado parecer apatia e indiferença, quando de fato é precisamente o contrário. O profano não conhece atividade que não seja ruidosa e explosiva; ser ativo é, para ele, idêntico a ser nervoso, espalhafatoso, afobado, andar numa incessante lufa-lufa, contar o programa diário por minutos, segundos e frações de segundos. A essa enervante precipitação é que ele chama atividade ou dinamismo. Ignora a silenciosa dinâmica da vida, a taciturna potência dos astros e a onipotente serenidade do espírito. O homem sapiente é intensamente ativo, mas a sua atividade é de outra qualidade que a do insipiente. Não conhece pressa ou nervosidade, porque sabe que, por mais que ainda tenha de andar e aprender, está sempre no fim de todas as suas jornadas, uma vez que o valor da sua jornada não é quantitativa, mas qualitativa; não obedece a uma horizontalidade extensiva, mas antes uma verticalidade intensiva. Embora perene viajante, está sempre no termo da viagem... O homem cósmico, a bem dizer, vive fora do tempo e espaço, vive na eternidade e no infinito e é por isto que, embora peregrino, está sempre em casa. É o que lhe outorga essa serenidade dinâmica, essa atividade pacífica que lhe circunda e permeia a existência terrestre...

Graças à sua visão panorâmica, o homem cósmico não conhece temor de espécie alguma. Que admira? Pois, para ele, o universo não contém tenebrosos esconderijos donde possa irromper, de inopino, algum perigo, alguma surpresa ingrata, algum inimigo traiçoeiro. Temor é filho da ignorância ou erro; mas o sábio está além de ignorância e erros, na plena luz da verdade... O homem cósmico tem plena confiança em todos os seres do universo, e vive numa grande e sincera simpatia com todos eles. 

(...) Devido ao fato de perceber essa divina afinidade que o liga a todos os seres do universo é que o homem sapiente lhes consagra um amor sincero e deposita inteira confiança nas criaturas que o rodeiam, usando-as sem jamais as abusar. O homem cósmico é amigo e aliado da Natureza, não o seu tirano e explorador, como o homem profano e insipiente. É esta a razão por que o homem sábio e santo é, em geral, um taumaturgo, porque a Natureza, aliada e amiga, lhe revela seus segredos, suas potências dormentes, seus divinos mistérios, na certeza de que um amigo de Deus não abusará da confiança de nenhuma criatura de Deus. 

O homem sábio, como dizíamos, é por força uma alma amante, uma alma assas ampla e acolhedora para abranger todos os seres do universo como em sua casa e querência natural. De fato, só um homem amante pode ser um homem sábio. Amor e sabedoria são dois atributos inseparáveis do homem integral — assim como luz e calor são propriedades da energia elétrica. 

(...) O homem cósmico, vidente que é da Verdade, é sempre um grande defensor da mesma, e, portanto, inimigo do erro — mas nunca um descaridoso excomungador dos errantes. A apologia que ele faz da Verdade é essencialmente positiva e construtora; nunca desce ao terreno de polêmicas meramente negativas e destruidoras. 

(...) 
Só pode transformar o mundo quem vive no mundo, mas não se conforma com o mundo.

O homem cósmico é um catalizador que transmuda os elementos sem se mudar ele mesmo. 

Só pode conduzir os outros que não é seduzido por criatura alguma. 

Só pode conduzir para Deus quem é por Deus conduzido.

Huberto Rohden
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(¹) A antiquíssima distinção em profanos e iniciados revela profunda intuição. "Profano" é derivado de "pro" (diante) e "fanum" (templo, santuário), e designa alguém que está "diante do santuário", contemplando-o apenas do lado de fora, sem saber da realidade interna das coisas. — "Iniciado" vem de "in" (dentro) e "ire" (ir), designando um homem que "está dentro", que entrou no templo cósmico da Realidade e que conhece a essência íntima das coisas por imediata e direta intuição espiritual. 

Breve relato de Pandita Ramabai

Pandita Ramabai, notável líder cristã da Índia, conta que trocou a sua religião hindu pelo cristianismo, na esperança de encontrar paz e tranquilidade para sua alma sequiosa de Deus — mas não encontrou o que desejava, embora cumprisse meticulosamente todos os seus deveres de cristã. Muito mais tarde, em Londres, ouvindo falar sobre o "renascimento espiritual" e abismando-se na comunhão com Deus, passou pela grande crise redentora — encontrou-se com o Cristo...

Escreve: "Havia eu encontrado a religião cristã — mas não encontrará o Cristo. Tinha aceito o cristianismo como uma troca de religião — mas não havia entrado em contato com o Cristo"... 

Pode-se estudar o cristianismo — e continuar irredento; mas quem entra em contato vital com o Cristo é remido.

Huberto Rohden em, Metafísica do Cristianismo

O clamor vital da natureza humana

"O reino de Deus não vem com observâncias (externas), nem se pode dizer: ei-lo aqui! ei-lo acolá! O reino de Deus está dentro de vós".
Isto quer dizer que quem não descobre o reino de Deus dentro de si mesmo não presenciará jamais o seu advento, não entrará no reino de Deus — assim como a árvore não vem de fora mas de dentro da semente; essa semente é a própria árvore em potência, assim como a árvore é a própria semente atualizada. O reino de Deus não tem nenhum "aqui" ou "acolá", não vem de fora em virtude de certas "observâncias" legais ou formalidades rituais... O reino de Deus não é uma espécie de prêmio ou recompensa que se confira ou outorgue ao homem pela fiel observância de certas leis — mas é antes o fruto maduro duma revolução intrínseca do próprio ser humano que descobre dentro de si a "imagem e semelhança de Deus", o "espírito de Deus que nele habita". 

Sendo que o reino de Deus está latente em cada homem, como a potência está no ato, e o ato na potência, deve o homem viver permanentemente esta prece: "Venha o teu reino!" Este silencioso clamor vital da natureza humana é como a luz solar atualizando paulatinamente a vida potencial da semente e transformando-a na verdejante maravilha da planta. Não é a luz solar externa que cria a vida, mas é a condição necessária e indispensável para que a vida dormente desperte e a planta passe a ser atualmente o que já é potencialmente. 

O que os grandes gênios filosóficos — Sócrates, Platão, os Neo-platônicos de Alexandria, os metafísicos do Egito e da Índia, a alma solitária de Spinoza e tantos outros — procuraram definir analítica e intelectualmente, sabia-o Jesus numa grandiosa e espontânea síntese intuitiva: que Deus é a eterna essência de todas as coisas. O que os remontados gênios filosóficos excogitaram laboriosamente, possui-o e vive-o naturalmente, o gênio místico do Nazareno, com a leveza e facilidade de consumado artista. 

Huberto Rohden em, Metafísica do Cristianismo

Sobre a decisiva e genuína experiência pessoal da Verdade

A desgastada objeção que os inexperientes levantam contra a ideia da experiência pessoal da Verdade como fator decisivo na vida do homem, é a seguinte:

Essa experiência não passa, geralmente, de uma ilusão sentimental ou de uma auto-sugestão criada pela ingênua ignorância do pretenso iniciado, ou então pela subconsciente vaidade do seu secreto orgulho individual. 

Somos os primeiros a admitir que há, nesse terreno, infinitas ilusões e auto-sugestões da parte de pseudos místicos de todos os matizes. Negamos, todavia, que seja impossível distinguir do erro a verdade, dos fogos-tolos do sentimento subjetivo o valor real da realidade objetiva. Desafiamos a todos os nossos contrariantes que nos provem com um só exemplo histórico que um homem, depois de uma genuína experiência espiritual dessa natureza, se tenha tornado pior do que antes; que essa experiência o tenha tornado mais sensual, mais egoísta, mais rancoroso, mais cobiçoso, mais explorador de seus semelhantes, menos amigo de servir e mais interessado em ser servido — numa palavra, menos ético do que antes da experiência. A história de todos os povos e tempos prova exatamente o contrário. 

Francisco de Assis, depois de uma grande iniciação interior, beija as chagas fétidas de um leproso e torna-se, para o resto da vida, servo dos servos de Deus. 

Plotino,o místico fundador da escola neo-platônica de Alexandria, não aceita para si um só dos ricos presentes que seus discípulos e admiradores, entre eles o imperador Galieno e a imperatriz Salonina, lhe ofereciam; mas emprega-os todos para resgatar escravos e emparar crianças abandonadas. 

Spinoza recusa todas as ofertas materiais e todas as honrosas posições universitárias, vivendo pobremente numa modesta pensão e ganhando o seu sustento com o trabalho das suas mãos, polindo lentes para instrumentos óticos. 

Gandhi, que, como ótimo advogado, ganhava milhões, morreu deixando como únicos bens materiais uma caneta-tinteiro, um relógio barato e uma tanga. 

Albert Schweitzer, após aquela tempestade de experiência mística aos 21 anos, resolve abandonar todo o conforto da civilização européia e todas as suas glórias humanas afim de se internar nas florestas insalubres da África Equatorial servindo, para o resto de sua vida, aos mais infelizes de seus irmãos. 

Blaise Pascal, após aquela misteriosa iluminação divina da noite de 23 e 24 de novembro de 1654, cede a sua casa para hospital de doentes pobres e vai morar numa modesta pensão para o resto da vida. 

E assim por diante. 

Perguntamos: onde está o orgulho, a vaidade, a auto-complacência espiritual que teria produzido essa transformação, ou dela teria nascido? Será que uma simples ilusão sentimental, ou uma momentânea auto-sugestão subjetiva pode fazer de um egoísta um herói de renúncia e de amor? de um caniço agitado pelos ventos, uma casa edificada sobre rocha a desafiar todas as tempestades da vida e da morte?...

Em resumo: a única coisa que pode, em definitivo, consolidar a nossa ética vacilante e inaugurar uma nova era para a humanidade não é a crença nesta ou naquela teoria ou teologia mais ou menos intelectualista, erudita, arbitrária — há quase dois mil anos que estamos saturados dessas crenças, que não impediram as mais horripilantes explorações e guerras de extermínio dentro do ocidente cristão e o mais vergonhoso descalabro da nossa moralidade individual e social — a única coisa que pode nos salvar é uma experiência vital da Verdade, um contato real com o mundo infinito do espírito eterno, a completa e radical penetração da nossa vida ética pela experiência mística, porque só essa experiência dá conteúdo, substância, razão-de-ser, força e serena alegria à nossa vida. 

É justo que os chefes espirituais insistam com seus rebanhos que creiam nas doutrinas teológicas herdadas de outros — mas é injusto que identifiquem a Verdade com essas doutrinas e, desse modo, fechem as portas para uma evolução espiritual ulterior, rumo à Verdade Integral, que ninguém pode atingir apenas pelo fato de crer, mas pode e deve atingir por um saber íntimo e vital, isto é, pelo renascimento espiritual. 

Huberto Rohden

Quando o homem antigo já não existe, e o novo chegou

Samadhi começa com um intervalo, mas nunca termina. Um intervalo sempre começa e termina — tem limites: um início e um fim, mas samadhi começa com um intervalo e assim se eterniza. Não há fim para ela. Portanto se a ocorrência vem com um intervalo, e não há fim nela, trata-se de samadhi, mas se é um intervalo completo — com um início e um fim — então é satori, e isso é diferente. 

Se é apenas um relance, apenas um intervalo, e o intervalo de novo é percebido — se algo está enquadrado e o enquadramento é completo (você dá uma olhadela furtiva e volta; você salta para aquilo e volta), se algo acontece e de novo é perdido — trata-se de satori. É um relance, um relance de samadhi, mas não é o samadhi. Samadhi significa o inicio do conhecimento, sem fim algum. 

Na Índia não temos palavra que corresponda a satori, assim, as vezes, quando o intervalo é grande, podemos confundir satori com samadhi. Mas uma coisa nunca é a outra. Trata-se de um relance, apenas. Você veio ao cósmico, olhou para ele, e então tornou a desaparecer. Você não será o mesmo, naturalmente; agora, nunca mais você será o mesmo. Algo penetrou em você, algo lhe foi acrescentado, você não pode ser novamente o mesmo, mas, ainda assim, o que lhe modificou não está em você. É apenas uma recordação, uma memória. É apenas um relance. 

Se você pode recordar isso — se pode dizer: "Conheci o momento" — ele foi apenas um relance, porque, do momento em que samadhi acontece, você não estará ali para recordar. Então, você nunca poderá dizer: "Eu o conheci", porque, com o conhecimento, o conhecedor se perde. Só com o relance o conhecedor permanece. 

Assim, o conhecedor pode conservar aquele relance como memória — pode adorá-lo, ansiar por ele, desejá-lo, tentar novamente senti-lo — mas ele ainda está ali. Quem teve um relance, quem olhou, ali está. Aquilo fez-se uma lembrança. E agora aquela lembrança irá segui-lo de perto, irá assediá-lo, e pedirá o fenômeno, uma e muitas vezes. 

Do momento em que samadhi acontece, você não está ali para recordá-lo. Samadhi jamais se torna uma parte da memória, porque o que era já não é. Como dizem no Zen: "O homem antigo já não existe, e o novo chegou..." Esses dois jamais se encontraram, portanto não há possibilidade de que exista qualquer lembrança. Não há assédio nem anseio com relação a isso. Não há desejo dirigido a isso. Então, tal como você é, está à vontade e nada há a desejar. 

Não se trata de você ter matado o desejo — não! É a indesejabilidade, no sentido de que aquele que podia desejar já não está ali. Então, não há anseio, não há futuro, porque o futuro é criado através de nossos anseios, é uma projeção de nossos desejos. 

Se não há desejo, não há futuro. E, se não há futuro, não há necessidade do passado, porque o passado é sempre o cenário de findo contra o qual, ou através do qual, o futuro é desejado. 

Se não há futuro, se você sabe que neste mesmo momento você vai morrer, não há necessidade de recordar o passado. Então, não há necessidade nem mesmo de recordar seu nome, porque o nome só tem significação se houver um futuro. Pode ser necessário. Mas, se não há futuro, você apenas queima, todas as pontes que ligavam-lhe ao passado. Você não precisa delas. O passado fez-se inteiramente sem importância. 

Do momento em que aconteceu o samadhi, o futuro torna-se não-existencial. Não existe, só o presente existe. É o único tempo. Não há nem mesmo o passado. O passado desapareceu e o futuro também, e uma só e momentânea existência se torna a existência total. Você está nela, mas não como uma entidade que é diferente dela. Você não pode ser diferente porque só se torna diferente da existência total devido o seu passado e ao seu futuro. O passado e o futuro, cristalizados em redor de você, formam a única barreira entre você e o presente momento que está acontecendo. Assim, quando samadhi ocorre, não há passado nem futuro. Então, não é que você esteja no presente, mas você é o presente, torna-se o presente. 

Samadhi não é um relance, samadhi é uma morte; satori, porém, é um relance, não uma morte. E satori é possível através de muitas formas! Uma experiência estética pode ser uma possível fonte para o satori; a música pode ser uma possível fonte para o satori, o amor pode ser uma possível fonte para o satori. Em qualquer momento intenso que você esteja vivendo no presente (um momento de amor, ou de música, ou de sentimento poético, ou qualquer outro fenômeno estético, no qual o passado não interfira e no qual não haja o desejo do futuro) —, satori torna-se possível. Mas é apenas um relance. 

O relance é importante, porque, através do satori, você pode sentir pela primeira vez o que samadhi pode significar. O primeiro sabor, ou o primeiro perfume que distingue o samadhi, vem através do satori. Por isso, satori auxilia. Mas tudo quanto auxilia pode ser um obstáculo se você se agarra a ele, e se você sentir que ele é tudo. Satori tem uma beatitude que pode enganar-lhe, tem uma beatitude que lhe é própria. 

Por você não ter conhecido samadhi, satori é definitivo, para você, e agarra-se a ele. Mas se você se agarrar a ele, pode transformar o que era útil, o que era amistoso, em algo que se faz uma barreira, um inimigo. Portanto, você deve estar alerta para o possível perigo do satori. Se você assim o fizer, então a experiência do satori será útil. 

Osho em, Meditação: a arte do êxtase

Breve relato de retomada da Perene Consciência - Stanislav Grof

Stanislav Grof
Segundos após fechar os olhos, descobri-me em um estado de completo vazio e ausência de mim mesmo, em um vácuo de dimensões cósmicas. Um modo de descrever minha condição seroa dizer que eu me senti suspenso no espaço interestelar, em algum ponto entre a Terra e Alfa-Centauro. Entretanto, isso descreveria apenas um aspecto muito superficial dessa experiência e não capturaria o senso de profunda paz e tranquilidade desta condição, além dos INSIGHTS metafísicos extraordinários associados com ela. Senti que estava em um estado que transcendia todas as polaridades e que tinha um entendimento total da existência. Parecia que este VÁCUO cósmico de algum modo continha o segredo da existência e da criação.


O que é um estado de Supraconsciência?

Alguns psicólogos negam a existência de estados mais elevados de consciência e rejeitam-nos como "estados utópicos", considerando as experiências dos místicos inteiramente ilusórias. É de se estranhar que Freud, que descobriu tanta coisa acerca dos estados subconscientes, não tenha postulado a existência de níveis de consciência acima bem como abaixo do nível no qual geralmente vivemos. No entanto, Jung, o discípulo talentoso de Freud, reconheceu a importância dos fenômenos místicos. Em sua opinião, a grande maioria de seus pacientes de meia-idade sofriam porque tinham perdido suas antigas crenças religiosas. 

Para alcanças as regiões mais silenciosas da consciência, temos de escapar das regiões barulhentas da nossa mente, nas quais desperdiçamos a maior parte de nosso tempo. Isso requer um controle de nossos pensamentos. Poderemos então ser capaz de alcançar aquela região silenciosa que é a moradia do Espírito, pois não conheço melhor definição para a palavra Espírito senão a de que é a Consciência Pura, desprovida de quaisquer pensamentos e palavras. A aquisição de níveis mais elevados de consciência está intimamente vinculada a certas práticas religiosas e, mais especificamente, às práticas da meditação e contemplação. Estas constituem os primeiros passos para a disciplina da mente, o que, no decorrer do tempo, pode conduzir à aquisição de níveis mais elevados de consciência. A meditação também é a entrada para um caminho novo e muito mais direto do conhecimento, um caminho no qual o "conhecido" e a "coisa conhecida" unem-se e tornam-se a mesma coisa. Trata-se de uma senda difícil de ser trilhada porque nossa atenção está sendo, repetida e novamente, atraída pela incessante tagarelice que ocorre em nossas cabeças. Eventualmente, porém, podemos conseguir, por um curto espaço de tempo, alcançar um estado de consciência pura, isenta de pensamentos, um estado no qual a verdade nos é revelada diretamente e sem o uso de palavras. 

Nesses momentos, vemos, em vez de pensar, e é só mais tarde que começamos a procurar de modo desajeitado as palavras através das quais tentamos expressar o que nos foi revelado. Não há nada "pessoal" ou mesmo individual no conhecimento direto que nos chega num estado Supraconsciente. Nossa consciência individual dissolveu-se numa consciência muito mais ampla, que consideramos Universal. Desse modo, também estivemos cientes da presença, em nosso interior, de algo muito mais elevado do que nós próprios, de algo que, na falta de algum outro termo, fomos forçados a chamar de Deus. 

Os estados supraconscientes podem surgir, mas não necessariamente, como uma recompensa pela autodisciplina da meditação. Embora nunca perdurem por um tempo muito longo, durante esses estados temos a impressão de estarmos habitando num "eterno agora". Em breve, porém, a intensidade de nossa nova sensação do "ser" enfraquece, o nível de nossa consciência diminui, nossas personalidades se afirma de novo e retornamos, uma vez mais, ao mundo do tempo e das tagarelices interiores. Daquilo que se passou, permanece apenas uma sensação de gratidão pelo que aconteceu. A vida então absorve-nos de novo e desaparecemos. Contudo, é bem provável que jamais nos esqueceremos daquilo que nos aconteceu. Nossa experiência do estado supraconsciente permanece para nós como o evento psíquico mais importante de nossas vidas.

Kenneth Walker

Características gerais e universais dos estados alterados de consciência

As dez características gerais e universais dos estados alterados de consciência são:

1. Alterações do Pensamento.
Mudanças subjetivas na concentração, na atenção, na memória e no julgamento podem ser induzidas em vários níveis pala forma apurada de um tal estado, junto a uma possível diminuição ou expansão da consciência reflexiva.

2. Sentido Alterado do Tempo.
Pode haver alteração no sentido do tempo e da cronologia, induzindo a uma sensação subjetiva de que este não existe, assim como a temporalidade pode se apresentar acelerada ou desacelerada. E este mesmo tempo pode ser vivenciado como sendo infinito ou de duração infinitesimal.

3. Medo de Perder o Controle.
O indivíduo tanto pode experimentar o medo de perder a contato com a realidade como o de se ver sem seu autocontrole. Em reação, ele pode desenvolver uma resistência crescente contra a experiência, ampliando o estado de ansiedade. Entretanto, se houver um condicionamento cultural positivo, e uma compreensão também positiva da experiência, podem ocorrer estados transcendentes e místicos.

4. Transformações na Expressão Emocional.
Pode ocorrer uma reação intensamente emocional, que faça um percurso do êxtase ao desespero, junto à redução do controle da consciência.

5. Transformações na Imagem Corporal.
São freqüentes os relatos de alterações na imagem do corpo, associadas com a dissolução das fronteiras existentes entre o eu e os outros, e também com os estados de despersonalização e de não-realização, onde o senso de realidade fica temporariamente perdido ou modificado. Tais ocorrências podem ser consideradas estranhas e aterradoras, ou estados místicos e oceânicos de unidade cósmica. Esta segunda alternativa é mais própria das experiências que ocorrem nos sistemas de crença condicionados pela necessidade emergente de encontros espirituais.

6. Alterações da Percepção.
Tanto pode haver um aumento da imagética visual como uma enorme abertura para as percepções e alucinações. O conteúdo destas alterações é influenciado pelas expectativas culturais: pelas exortações do grupo e fantasias do indivíduo. Elas podem exprimir a psicodinâmica dos medos e outros conflitos internos, ou simplesmente os mecanismos neurofisiológicos indutores dos padrões geométricos e de transformações da luz, da cor e da forma. Estas alterações podem propiciar vivências das chamadas sinestesias, isto é, a mudança de unia determinada forma de experiência sensorial para outra.

7. Transformações dos Significados.
Em meio aos poderosos estados alterados de consciência, alguns indivíduos tendem a se agarrar aos significados especiais de suas próprias vivências, ideias ou percepções. Assim, a experiência tanto pode propiciar grandes insights como a sensação de significâncias profundas, que vão da sabedoria genuína à desilusão auto-imposta.

8. Sensação do Indizível.
A singularidade de tais experiências subjetivas é associada aos estados alterados de consciência, portanto, dissociada dos seus estados comuns. Os indivíduos têm grande dificuldade para comunicá-las a quem não teve esse tipo de vivência.

9. Sensação de Rejuvenescimento.
Depois de sair de um profundo estado alterado de consciência, muitos indivíduos relatam um novo sentimento de esperança, rejuvenescimento e renascimento. Tais transformações podem ser de curta duração ou promover ajustes duradouros e positivos no emocional e na aparência.

10. Hiper-sugestionabilidade.
Em meio a violentos estados alterados de consciência, os indivíduos ficam exageradamente suscetíveis e aceitam ou respondem as questões sem nenhum senso crítico. As insinuações generalizadas, que refletem sistemas culturais de crença ou expectativas de grupo, podem ganhar um peso fundamental. A posição do xamã ou do orientador da sessão, especialmente no contexto do uso alucinógeno, assume Um papel de grande responsabilidade, porque os demais participantes ficam extremamente sensíveis a quaisquer estímulos verbais e não verbais a eles dirigidos. O conteúdo e o resultado das experiências com os estados alterados de consciência são quase sempre diretamente atribuídos à integridade e capacidade do líder.

Trecho retirado do livro: Ayahuasca – Alucinógenos, Consciência e o Espírito da Natureza.

Relato de Henri-Frédéric Amiel

Tornarei a ter, acaso, algum desses prodigiosos devaneios que por vezes me acudiam antigamente? Um dia, quando moço, ao nascer do sol, sentado nas ruínas do castelo de Faucigny; e outra vez nas montanhas, debaixo do sol do meio-dia, acima de Lavey, deitado ao pé de uma árvore e visitado por três borboletas; mais uma vez à noite, na praia cheia de cascalhos do Mar do Norte, com as costas na areia e a visão percorrendo a via-láctea: — grandiosos, espaçosos, imortais, cosmogônicos devaneios, quando alcançamos as estrelas, quando possuímos o Infinito! Momentos divinos, horas extáticas; em que o nosso pensamento voa de um mundo ao outro, penetra o grande enigma, respira com uma respiração vasta, tranquila e profunda como a respiração do oceano, serena e ilimitada como o firmamento azul; ... instantes de irresistível intuição, em que nos sentimos grandes como o universo e calmos como um deus... Que horas, que lembranças! Os vestígios que elas deixam para trás são suficientes para encher-nos de crença e entusiasmo, como se fossem visitas do Espírito Santo.

Journal Intime de Henri-Frédéric Amiel, em
Variedades da Experiência Religiosa - Willian James

Relato de Alfred Tennyson

"Nunca tive quaisquer revelações através de anestésicos, mas tenho tido com frequência uma espécie de transe em estado de vigília — falta-me uma expressão melhor — desde a meninice, quando fiquei inteiramente só. Isso me acontecia quando eu repetia para mim mesmo o meu próprio nome, em silêncio, até que, de repente, por assim dizer, como se saísse da intensidade da consciência da individualidade, a própria individualidade parecia dissolver-se e desvanecer-se num ser sem limites; não era um estado confuso, senão o mais claro, o mais seguro dos seguros, totalmente inexprimível — em que a morte era uma impossibilidade quase risível — parecendo a perda da personalidade não uma extinção, mas a única vida verdadeira. Envergonho-me da minha pífia descrição. Mas eu não lhe disse que o estado é inteiramente inexprimível? Por Deus Todo-Poderoso! Não há ilusão na matéria! Não se trata de nenhum êxtase nebuloso, senão de um estado de assombro transcendente, associado a uma absoluta clareza da mente."

Memórias de Alfred Tennyson, em
Variedades das Experiências Religiosas — Willian James

Relato de retomada da Perene Consciência Integrativa - David Brainerd

Certa manhã, quando eu caminhava por um lugar solitário como de costume, vi, de repente, que todos os meus planos e projetos no sentido de efetuar ou conseguir minha libertação e salvação eram totalmente inúteis; fui obrigado a parar, pois me senti perdido. Vi que me seria para sempre impossível fazer o que quer que fosse no intuito de me ajudar ou libertar, que eu já fizera todas as súplicas que poderia ter feito por toda a eternidade; e que todos os meu rogos tinham sido vãos, pois fora levado a rezar pelo interesse pessoal e nunca movido por algum respeito à glória de Deus. Vi que não havia nenhuma conexão necessária entre minhas preces e a concessão da misericórdia divina: que elas não impunham a Deus a menor obrigação de conceder-me a sua graça; e que não havia mais virtude nem excelência nelas do que haveria se eu ficasse chapinhando na água. Vi que eu andara amontoando minhas devoções diante de Deus, jejuando, orando, etc., fingindo e, com efeito, pensando realmente, às vezes, que estava pondo a mira na glória de Deus; quando, na verdade, eu nunca visara realmente a ela, se não apenas à minha própria felicidade. Vi que nunca fizera nada por Deus, que não me assistia o direito de reclamar dele coisa alguma, a não ser a perdição, mercê da minha hipocrisia e do meu escárnio. Quando vi evidentemente que não tivera consideração por coisa alguma que não fosse o meu próprio interesse, minhas obrigações me pareceram uma vil zombaria e um curso contínuo de mentiras, pois o conjunto não passava de um culto a mim mesmo e um horroroso insulto a Deus. 

Lembro-me de que continuei nesse estado de espírito desde a manhã de sexta-feira até a noite do sábado seguinte (12 de julho de 1789), quando voltei a caminhar no mesmo local solitário. Ali, num estado de lutuosa melancolia, tentei rezar; mas não encontrei ânimo para entregar-me a essa ou a qualquer outra obrigação; meus interesses, exercícios e afeições religiosas anteriores haviam desaparecido. Cuidei que o Espírito de Deus me deixara de todo; apesar disso, ainda não estava angustiado; estava, porém, desolado, como se não houvesse nada no céu nem na terra que pudesse fazer-me feliz. Tendo assim tentado rezar — embora, como eu supunha, de modo muito estúpido e sem sentido — por quase meia hora; nisso, enquanto eu caminhava pelo meio de denso bosque de árvores, uma glória indizível pareceu abrir-se à apreensão da minha alma. Não me refiro a nenhum brilho externo, nem a percepção alguma de um corpo de luz, mas a uma nova apreensão interior, ou visão, que eu tivera de Deus, qual nunca a tivera até então, nem de coisa alguma que tivesse a menor semelhança com ela. Eu não tinha nenhuma apreensão particular de determinada pessoa da Trindade, nem do Pai, nem do Filho, nem do Espírito Santo; mas parecia ser a glória Divina. Minha alma regozijou-se com uma alegria indizível ao ver um tal Deus, um tal glorioso Ser Divino; e eu estava interiormente agradado e satisfeito de que ele fosse Deus acima de todos e para todo o sempre. Minha alma estava tão cativada e deliciada pela excelência de Deus que sempre me senti absorvido nele; tanto que nem sequer pensei na minha própria salvação, e escassamente refleti que existia uma criatura como eu. Continuei nesse estado de alegria, paz e assombro interiores até quase o escurecer, sem nenhum abatimento sensível; e, então, principiei a ponderar a examinar o que vira; e senti-me suavemente composto em minha mente durante toda a noite que se seguiu. Senti-me num mundo novo, e tudo ao meu redor se apresentava com um aspecto diferente daquele com que costumava apresentar-se. Nessa ocasião, o caminho da salvação abriu-se para mim com tão infinita sabedoria, propriedade e excelência que pasmei de haver podido, alguma vez, pensar em qualquer outro caminho de salvação; maravilhei-me de não haver largado meus próprios planos e enveredado antes por esse lindo, bendito e excelente caminho. Se eu pudesse salvar-me por minhas próprias orações ou por qualquer outro modo que engendrara anteriormente, toda a minha alma o teria recusado agora. Admirava-me de que o mundo inteiro não visse e adotasse este caminho de salvação, por meio exclusivo da justiça de Cristo."

David Brained em, Edward's and Dwight's Life  
Extraído do livro de Willian James - As Variedades das Experiências Religiosas

Um estado de espera, onde nada se espera

Deus está na chuva
É um dos momentos mais significativos na vida de um homem, quando ele sente que se esgotaram as ambições e está simplesmente esperando, sem saber o que. Este é o momento em que a iluminação está mais próxima. A iluminação não é uma meta. Não está, longe, para você alcançá-la. Você não pode fazer da iluminação uma ambição: essa é a maneira mais correta de perdê-la. A iluminação acontece neste vazio, quando todas as suas ambições terminaram. Você não sabe o que fazer, onde ir. Neste silêncio  — porque não há um tumulto de desejos, nenhum desejo ardente de ambição — a iluminação acontece por sua própria conta. É um subproduto, não uma meta. 

É por isso que você está se sentindo triste, insatisfeito: muito embora todas as ambições tenham terminado... por que uma pessoa deveria se sentir insatisfeita? Deve existir algo na vida que não seja parte da mente ambiciosa, sem a qual uma pessoa não pode se sentir satisfeita. Você pode realizar todos os seus desejos, todas as suas ambições, ainda assim se sentirá insatisfeito. Na verdade, você se sentirá mais insatisfeito do que aqueles que ainda estão correndo atrás de desejos, porque pelo menos para eles existe a esperança de que amanhã eles alcançarão a meta. Hoje pode parecer vazio, mas a ilusão, a alucinação do amanhã mantém o hoje, de certa forma, escondido para eles. Mas agora para você não há nada que possa esconder sua realidade: você está insatisfeito. 

Portanto, uma coisa fundamental está muito clara: mesmo que todas as ambições sejam satisfeitas, o homem não está satisfeito. Existe algo que não é uma ambição, a não ser que você a alcance — e não é um empreendimento —  a não ser que ela aconteça para você, a insatisfação deixará você triste. Esta situação acontece para todas as pessoas afortunadas; caso contrário, todos estão correndo atrás de seus desejos, e existem tantas coisas na vida a fazer. Não há tempo para se sentir insatisfeito, não há tempo para se sentir tristeza. A esperança no amanhã dissipa toda a tristeza. Mas agora você não tem nenhuma esperança pelo amanhã. Somente o hoje está com você, e é bom que você esteja esperando, sem saber o que. Se você está esperando sabidamente por algo, isto é desejo, então a mente está pregando uma peça em você. Se você está simplesmente esperando, você chegou ao fim da estrada. Não há mais nenhum lugar para ir, o que você pode fazer exceto esperar? Mas esperar pelo que? 

Se você puder responder "eu estou esperando por isso ou aquilo", você perderá a iluminação. Então sua espera não é pura. Então não é uma simples espera. Se você puder ser claro quanto a isso, que é um puro esperar, que não é dirigido a nada, a nenhum objeto, é a situação correta na qual a iluminação acontece. Portanto, você está em um belo estado, inconsciente dele, por causa da pura espera e tristeza... uma pessoa não pode ver o que existe de belo nisso. Somente os despertos podem ver o que há de belo nisso. Esta é a situação na qual, como um subproduto, você desperta. De outra maneira a vida permanece um sono espiritual. Todos os desejos e ambições não são nada além de sonhos deste sono. 

Um tristeza, uma profunda insatisfação, ordinariamente não parecerá algo glorioso, não é algo do que se orgulha, mas eu digo a você que isso é algo para você se orgulhar. Apenas permaneça na sua tristeza. Não tente mudar isso em outra coisa. Permaneça na sua espera — não tente dar a ela um objeto. Uma pura espera atrai a derradeira experiência que nós chamamos de iluminação.  Uma pessoa não deve ir à iluminação como uma meta. A iluminação vem a você quando você está maduro, e este é um tipo de amadurecimento necessário. 

No Ocidente está acontecendo com muitas pessoas, mas elas não sabem. Elas estão tristes, em profunda angústia; elas estão se afogando no álcool, nas drogas, em perversões sexuais, elas estão tentando esquecer a tristeza com todos os tipos de coisas. Elas estão tentando, de alguma maneira, transformar sua espera em objeto. Alguns se tornarão religiosos e começarão a esperar por Deus. Alguns podem começar a filosofar  que a vida não tem sentido, que a vida não é nada além de angústia, que dá náusea. E a beleza é que Jean-Paul Sartre, que estava continuamente dizendo "a vida é sem sentido, apenas ansiedade, angústia, náusea", ele também escreveu o livro chamado Náusea, viveu muito tempo. Então para que viver se a vida é apenas náusea, escrever um livro sobre isso? Se é sem sentido, questionar sobre isso? Conseguir um prêmio Nobel por isso? 

O que eu estou dizendo é totalmente diferente do que está acontecendo no Ocidente. O que eu estou dizendo é o que tem acontecido no Oriente nos últimos dez mil anos; onde quer que um homem tenha chegado, a tal ponto em que todas as ambições são inúteis — ele as viveu, e descobriu que elas não valem a pena. ele alcançou a meta que queria e descobriu então que não havia nada a ser descoberto, que foi apenas uma alucinação, um oásis que pareceu ser real a distância, mas à medida que ele chegou mais e mais perto, ele desapareceu, e havia somente o deserto.

O Oriente tem usado isso de diferentes maneiras. Nem um simples filósofo tem pregado o suicídio. Nem um simples homem neste estado ficou maluco, ou se voltou para as drogas. Mas durante séculos tem sido aceito que este é o maior momento potencial da vida. Se você puder apenas esperar, sem esperar por nada; apenas esperar, pura espera... deixe a tristeza estar lá, deixe a insatisfação estar lá, elas não pode impedir a sua iluminação. Somente uma coisa pode deter sua iluminação: se você fizer da iluminação um objeto. Se a espera é pura, a iluminação irá acontecer, e com o seu acontecimento existe a satisfação, grande regozijo, e a vida vem a florescer. É por isso que eu digo que este é um tremendo belo momento. Não o perca.

O S H O — A transmissão da luz

Breve relato Santa Teresa de Ávila

“Eu vi em sua mão uma longa lança de ouro cuja ponta parecia ser um pequeno fogo. Ele parecia penetrá-la várias vezes no meu coração e perfurar minhas entranhas; quando ele a tirou, parecia atraí-los para fora também, e deixando-me em fogo, com um grande amor em Deus. A dor era tão grande, que me fez gemer, e ainda assim foi superando a doçura desta dor excessiva, eu não pude querer livrar-me dela. A alma está satisfeita agora com nada menos que o próprio Deus. A dor não é física mas espiritual; embora o corpo dela partilhe. É uma carícia de amor tão doce que agora tem lugar entre minha alma e Deus, que rezo a Deus pela dádiva dessa experiência, que podem pensar que estou mentindo.” 

Santa Teresa de Ávila

Breve relato de Jiddu Krishnamurti

Krishnamurti: Certa noite na Índia eu acordei; olhei no relógio e vi que era meia-noite e quinze; e — hesito em dizer isso porque soa como algo fantástico — a fonte de toda energia havia sido alcançada; e isso teve um efeito extraordinário sobre o cérebro; e também sobre o físico. Sinto ter de falar sobre mim, mas, você compreende, não houve, literalmente, em absoluto qualquer separação; nenhum sentido de mundo, de "mim". Você percebe? Havia apenas o sentido de uma tremenda fonte de energia.

David Bohm: Então o cérebro estava em contato com essa fonte de energia?

Krishnamurti: Sim, e como venho dizendo há sessenta anos, eu gostaria que outras pessoas chegassem a isso. Não, chegar, não. Você entende o que estou dizendo? Todos os nossos problemas estão resolvidos, porque ela é a energia pura desde o início dos tempos. Agora, como eu poderei — não "eu", você compreende — como uma pessoa poderá não ensinar, não ajudar ou não pressionar — no entanto, como alguém pode dizer: "Este caminho leva a uma completa sensação de paz, de amor"? Sinto muito ter de empregar todas essas palavras, mas suponha que você tenha chegado nesse ponto e o seu cérebro esteja latejando com essa energia — como você ajudaria outra pessoa? Você está me entendendo? Refiro-me a uma ajuda efetiva — não a palavras. Como você ajudaria outra pessoa a chegar a isso? Compreende o que estou querendo dizer?[...]

David Bohm: Essa situação é sustentável ou existe apenas por um período?

Krishnamurti: É sustentável, obviamente, caso contrário não haveria nela nenhum propósito. Ela não é esporádica nem intermitente.[...] Isso significa que Deus está no homem, e que Deus só pode operar se o cérebro estiver tranquilo, se o cérebro não estiver preso no tempo.[...]  O tempo é o inimigo. temos de encontrá-lo e transcendê-lo.[...]

David Bohm:  Poderíamos dizer que nenhum dos métodos que o homem usa externamente pode libertar a mente do tempo?

Krishnamurti: Definitivamente.

David Bohm: Todos os métodos subentendem o tempo.

Krishnamurti: Naturalmente. É tão simples.

David Bohm: Sempre começamos estabelecendo imediatamente toda a estrutura do tempo; pressupomos toda a noção de tempo antes de começarmos.

Krishnamurti: Sim, isso mesmo. Mas como se pode transmitir isso para outra pessoa? Como você, ou "X", transmitirá isso a um homem que está preso no tempo, e que resistirá a isso, lutará contra isso, porque diz que não há outra maneira? Como se pode transmitir isso a ele?

David Bohm: Creio que só se pode transmitir isso a alguém que esteja no processo; provavelmente, não se conseguirá de modo algum transmiti-lo a uma pessoa que escolhamos ao acaso na rua!
__________
Diálogo entre Krishnamurti e David Bohm em, A Eliminação do Tempo Psicológico

Conhecimento generalizado é relativo


Com o cessar completo de todo o processo-pensamento surge a graça da Iluminação espiritual. Isto é, na verdade, a Sabedoria portadora da Verdade. E esta Sabedoria é a compreensão do único e do particular. 

O conhecimento reunido pela mente é sempre de uma natureza generalizada. Mesmo quando fala do conhecimento particular, aborda-o em função da comparação em relação ao outro. Todo conhecimento generalizado é relativo, governado por leis de probabilidades. Tais leis pertencem às médias. São princípios baseados em cálculos estatísticos. Todas as leis científicas são desta natureza; surgiram de mensurações quantitativas. Mas a Sabedoria não é uma compreensão qualitativa das coisas. Ela se ocupa com a qualidade essencial das coisas. Sua abordagem é qualitativa. Através de uma abordagem quantitativa pode-se, na melhor das hipóteses, conhecer a unidade subjacente do mundo fenomênico. Conhecer esta unidade subjacente é uma coisa, mas conhecer a singularidade das coisas é outra totalmente diversa. O único é incomparável e, portanto, não pode ser compreendido por qualquer processo de comparação. Exige ver cada coisa como ela é, não em comparação com as outras. Requer uma compreensão direta e não baseada em influência ou testemunho. Todo o conhecimento da mente surge através de um processo indireto de inferência ou testemunho. Contudo a Sabedoria é uma compreensão direta das coisas. A mente conhece as coisas por análise, síntese, comparação e classificação. Classificar uma coisa ou experiência é dar-lhe um nome, é a conquista mais elevada do conhecimento da mente. Mas a Sabedoria descobre... o sentido particularizado. Compreender alguma coisa é conhecer sua singularidade. Em qualquer processo comparativo, através do qual surge o conhecimento generalizado, eliminam-se as características de singularidade e particularidade. Tanto na inferência quanto no testemunho há uma régua de mensuração em relação a qual busca-se medir uma experiência. Isso pode levar apenas ao conhecimento indireto. No conhecimento direto não há uma régua de mensuração. A Sabedoria jaz no estabelecimento de um contato direto e imediato com o que é.[...] Com o cessar completo de todo o processo-pensamento surge a graça da Iluminação espiritual. Isto é, na verdade, a Sabedoria portadora da Verdade. E esta Sabedoria é a compreensão do único e do particular. Um conhecimento direto é completo, pois não depende de algo que foi, nem de algo que será. É uma compreensão do presente vivo, sem vestígios do passado nem do futuro. Qualquer toque do passado ou do futuro tornaria a compreensão direta impossível. 

Rohit Mehta - Yoga: A arte da integração

Breve relato de Simeão, o novo teólogo

"Fiz a experiência do amor de Deus pelos homens e de sua compaixão... e tendo recebido a graça, indigno que eu era de toda a graça, não posso suportar permanecer sozinho para ocultá-la no fundo de minha alma, mas é a todos vocês, meus confrades e padres, que manifesto os dons de Deus; além disso, na medida em que depende de mim, apresento a vocês em que consiste o talento que me foi dado e pela palavra, procuro revelá-lo como se estivesse oculto no fundo da minha mão. E não lhes falo às escondidas ou em segredo, mas proclamo em voz alta: 'Corram, irmãos, corram!' e não me contento em gritar, mas indico-lhes o Mestre que me deu tal talento, estendendo minhas palavras diante de vocês à maneira de flecha... O que vi e conheci de fato e por experiência em relação às maravilhas de Deus, não me resigno em deixar de falar, mas dou testemunho de tudo isso diante de todos como se estivesse na presença de Deus... 

Este tesouro que se dissimula sob as divinas escrituras... eu andei à sua procura, não deixei de escavar dia e noite... e acabei por encontrá-lo. E, diante dele, não cesso de proclamar: 'Venham e aprendam que não é só no futuro, mas já agora, diante de vocês, diante das mãos e dos pés de vocês, que repousa o tesouro inefável que supera todo o poder e toda potência... Venham e deixem-se convencer que este tesouro... é a luz do mundo'". 


A diferença entre uma mente vazia e uma mente calma

Nós não estamos trabalhando para uma raça ou um continente ou para uma realização de que apenas indianos ou apenas orientais sejam capazes. Nosso objetivo não é fundar uma religião ou uma escola de filosofia ou uma escola de yoga, mas criar um fundamento de crescimento e experiência espiritual e um caminho que trará para baixo uma Verdade maio, além da mente, mas não inacessível à alma e à consciência humanas. Todos os que forem atraídos por esta Verdade podem tomar este caminho, sejam eles da Índia ou de qualquer outro lugar, do Oriente ou do Ocidente...

Não é possível construir um fundamento no Yoga se a mente é inquieta. A primeira coisa necessária é a quietude na mente. E, também, dissolver a consciência pessoal não é o primeiro objetivo do Yoga; o primeiro objetivo é abri-la a uma consciência espiritual mais alta, e também para isto uma mente quieta é a primeira necessidade.

A primeira coisa a fazer na sadhana é conseguir uma paz e um silêncio estáveis na mente. Se não, você pode ter experiências mas nada será permanente. É na mente silenciosa que a verdadeira consciência pode ser construída.

Uma mente quieta não significa que não haverá de modo algum pensamentos ou movimentos mentais, mas que estes estarão na superfície, e você sentirá seu verdadeiro ser, DENTRO, separado deles, observando mas não sendo levado embora, capaz de vigiá-los e julgá-los e de rejeitar tudo que tem que ser rejeitado e aceitar conservar tudo que é consciência verdadeira e experiência verdadeira.

A passividade da mente é uma coisa boa, mas tome cuidado para ser passivo somente em relação à Verdade e ao contato da Energia Divina. Se você for passivo às sugestões e influências da natureza inferior, você não será capaz de progredir, ou então irá se expor a forças adversas que podem levá-lo para muito longe do verdadeiro caminho do Yoga.

As forças que dificultam o caminho da sadhana são as forças da natureza inferior mental, vital e física. Por trás delas há poderes adversos dos mundos mental, vital e físico sutil. Só se pode lidar com elas depois que a mente e o coração estiverem reunidos em uma só direção e se concentrarem na aspiração única ao Divino.

O silêncio é sempre bom; mas com quietude da mente eu não quero dizer um silêncio total. Quero dizer uma mente livre de perturbação e dificuldade, firme, leve e contente, podendo abri-se à Força que mudará a natureza. A coisa importante é livrar-se do hábito da invasão de pensamentos perturbadores, sentimentos errados, confusão de ideias, movimentos infelizes. Todos eles perturbam a natureza, obscurecem-na e tornam difícil o trabalho da Força; quando a mente está quieta e em paz, a Força pode trabalhar mais facilmente. Deveria ser possível você ver as coisas que têm que ser mudadas em você, sem ficar aborrecido ou deprimido; assim a mudança é feita mais facilmente.

A diferença entre uma mente vazia e uma mente calma é esta: quando a mente está vazia, não há pensamento, nem concepção, nem ação mental de qualquer espécie, exceto uma percepção essencial das coisas, sem uma ideia formada; mas na mente calma é a substância do ser mental que está imóvel, tão imóvel que nada a perturba. Se vêm pensamentos ou atividades, eles não surgem absolutamente da mente, mas vêm de fora e cruzam a mente como um voo de pássaro cruza o céu no ar sem vento. Passa, não perturba nada, não deixa traço. Mesmo se mil imagens ou os acontecimentos mais violentos as atravessam, a calma imobilidade permanece, como se a própria textura da mente fosse uma substância de paz eterna e indestrutível. Uma mente que adquiriu esta calma pode começar a agir, mesmo intensamente e poderosamente, mas ela manterá sua imobilidade fundamental — não originando nada de si própria mas recebendo de Cima e dando a isso uma forma mental, sem adicionar nada de si própria, calmamente, desapaixonadamente, se bem que com alegria da Verdade e o feliz poder e luz de sua passagem.

 Sri Aurobindo - A Consciência que vê - Volume 1

Sobre o necessário estado de PRONTIFICAÇÃO

Se você quiser suportar a pressão da DESCIDA Divina, deve ser muito forte e poderoso, de outro modo você será despedaçado. Algumas pessoas perguntam "Por que o Divino ainda não veio?". Porque você ainda NÃO ESTÁ PRONTO. Se uma pequena gota faz você cantar e dançar e gritar, que aconteceria se o todo descesse? 

Por isso dizemos às pessoas que não têm uma base ampla, forte e firme no corpo, no vital e na mente: "Não puxem", significando "não tentem puxar as forças do Divino, mas esperem em paz e tranquilidade", porque elas não seriam capazes de suportar a descida. Mas àqueles que possuem a necessária base e estrutura, dizemos, pelo contrário: "Aspirem e puxem", porque esses seriam capazes de receber, sem ficar perturbados pelas forças que descem do Divino.

Conversas com A Mãe
Sri Aurobindo Ashram

A questão dos impulsos sexuais

O mundo inteiro está cheio de veneno. Você o absorve em cada respiração. Se você trocar algumas palavras com um homem indesejável ou mesmo se este homem meramente passar por você, você pode apanhar o contágio dele. É suficiente que você chegue perto de um lugar onde exista praga para ser infectado pelo seu veneno; você não precisa saber, de forma alguma, que a praga está lá. Você pode perder, em poucos minutos, o que levou meses para ganhar.

Existe um outro perigo; é com relação aos impulsos sexuais. O Yoga, em seu processo de purificação, vai desnudar e expulsar todos os impulsos e desejos escondidos em você. E você deve aprender a não esconder nada ou deixá-los de lado, você deve enfrentá-los e conquistá-los e remodelá-los. O primeiro efeito do Yoga, contudo, é retirar o controle mental, e os desejos ardentes que jazem adormecidos são subitamente postos em liberdade, precipitam-se e invadem o ser. Enquanto esse controle mental não tiver sido substituído pelo controle do Divino, há um período de transição, quando a sua sinceridade e entrega serão submetidas a um teste. A força destes impulsos, como os do sexo, decorre geralmente do fato de que as pessoas lhe dão demasiada importância. Elas protestam violentamente contra ele e esforçam para controlá-los por coerção, reprimem-nos dentro e sentam-se sobre eles. Mas quanto mais você pensar numa coisa e disser: "Não quero isto, não quero isto", tanto mais se prende a ela. O que você deveria fazer é afastá-la de si, dissociar-se dela, dar-lhe a mínima importância possível e, se acontecer de pensar nela, ficar indiferente e despreocupado.

os impulsos e desejos que sobem pela pressão do Yoga devem ser encarados com um espírito de desprendimento e serenidade, como alguma coisa estranha a você ou pertencer ao mundo exterior. Eles deveriam ser oferecidos ao Divino, para que o Divino os tomasse e transmutasse.

Se você se abriu algum dia ao Divino, se o poder do Divino começou a descer em você e ainda assim você se obstina em se apegar às forças antigas, você está preparando problemas, dificuldades e perigos para si mesmo. Você deve ser vigilante e compreender que não pode servir-se do Divino como uma capa para a satisfação de seus desejos. Há muitos que se intitulam mestres e não fazem outra coisa. Então, quando você abandona o caminho reto e tem um pouco de conhecimento e não muito poder, você é agarrado por seres e entidades de um certo tipo que o transformam num instrumento cego em suas mãos e terminam por devorá-lo. Sempre que há fingimento, há perigo; você não pode enganar a Deus. Não se achegue a Deus dizendo: "Quero união com você" e no coração caminhando direto para a beira do precipício. E, no entanto, é tão fácil evitar toda a catástrofe. Torne-se como uma criança, entregue-se à Mãe, deixe-a carregá-lo e não há mais perigo para você.

Isto não significa que você não tenha que enfrentar outras espécies de dificuldades ou que não tenha que lutar ou vencer outros obstáculos. A entrega não assegura um progresso suave, tranquilo e contínuo. E isto porque seu ser não está ainda unificado, nem sua entrega absoluta é completa. Apenas uma parte sua se entrega; e hoje é uma e no dia seguinte é outra. O propósito total do Yoga é reunir todas as partes divergentes do ser e forjá-las numa unidade indivisível. Até lá você não pode esperar ficar sem dificuldades — dificuldades como por exemplo, a dúvida, a depressão ou a hesitação. O mundo inteiro está cheio de veneno. Você o absorve em cada respiração. Se você trocar algumas palavras com um homem indesejável ou mesmo se este homem meramente passar por você, você pode apanhar o contágio dele. É suficiente que você chegue perto de um lugar onde exista praga para ser infetado pelo seu veneno; você não precisa saber, de forma alguma, que a praga está lá. Você pode perder, em poucos minutos, o que levou meses para ganhar. Enquanto você fizer parte da humanidade e levar a vida comum, não importa tanto se você se mistura com as pessoas do mundo; mas se você quiser a vida divina, você terá que ser excessivamente escrupuloso em suas relações e seu ambiente.

Conversas com a Mãe
Sri Aurobindo Ashram   
    

O novo ser humano é integral

Existe uma nova aventura aqui, uma nova política aqui e até mesmo uma nova revolução, aguardando no horizonte. Você a está percebendo, não está?
 Novo trabalho a ser feito, novas epopéias a serem narradas, novo fundamento a ser descoberto; e recônditos do coração a serem revelados quando ele está repleto demais para falar, exultante demais para ver, infinito demais para conter, eterno demais para tocar, mas simplesmente porque está aqui e agora, mais perto de você do que seu próprio nariz, mas dentro de você do que seus próprios pensamentos e mais próximo do Espírito do que todos eles, esse interior de Você que está agora lendo esta gina, olhando para o mundo e perguntando o que tudo isso significa, quando esse mesmo “o que tudo isso significa” é você. Não o você que pode ser visto, mas o Você que está vendo.
 O observador em você, a Testemunha desta página e do mundo inteiro ao seu redor: ele brilha e cintila com uma alegria esfuziante diante da liberdade de todo e qualquer momento, uma liberdade ardente e sublime que se liberta para o infinito a cada expiração, provocando arrepios em sua coluna com sua radiante intensidade ao deixar seu corpo, levando dádivas de infinita compaixão e perfeição radical e amor radiante, dádivas tão excessivamente imensas que todo o seu corpo explodiria se tentasse contê-las. Você pode sentir agora essa Plenitude que é sua instigando-o, tentando se expandir, essa Liberdade que é sua, se você apenas se colocar de lado e permitir que ela o tome de assalto. E é o que ela faz se você descansar como Testemunha disso e de todos os mundos que facilmente surgem em sua própria percepção, mundos que você mesmo cria a cada nascer e pôr-do-sol, quando a órbita luminosa atravessa a vastidão do céu de seu próprio vazio transparente. A grande e radiante vastidão descerrada mudaram, o ambiente ao meu redor mudou, mas percepção do “Eu Sou” está sempre-presente, radiante, aberta, vazia, clara, ampla, transparente, livre. Os objetos mudaram, mas não a percepção desse “Eu sou” sem forma. Essa óbvia e presente percepção do “Eu sou” está presente agora como esteve presente cinco horas atrás.
 O que esteve presente cinco anos atrás?
 A percepção do “Eu sou”. Muitos objetos apareceram e desapareceram, tantos sentimentos vieram e se foram, muitos pensamentos surgiram e foram embora, muitos dramas e terrores e amores e ódios vieram, ficaram por um tempo e se foram. Mas uma coisa não veio nem foi embora. O que é essa coisa? Qual é a única coisa presente em sua percepção neste exato momento que você se lembra que esteve presente cinco anos atrás? Essa percepção intemporal sempre presente do “Eu sou” está presente agora como esteve presente cinco anos atrás.
 O que esteve presente cinco séculos atrás?
 Tudo que está sempre presente é a percepção do “Eu sou”. Toda pessoa tem essa mesma percepção de “Eu sou” – porque ele não é um corpo, não é um pensamento, não é um objeto, não é o ambiente circundante, não é nada quer possa ser visto, mas é antes Aquele que , o Observador sempre presente, a Testemunha constante, aberta e vazia de tudo o que está surgindo, em toda e qualquer pessoa, em qualquer mundo, lugar e tempo em todos os mundos até o fim dos tempos, existe apenas e sempre essa óbvia e imediata percepção do “Eu sou”. O que mais você poderia conhecer? O que mais poderia haver para conhecer? Existe apenas e sempre essa percepção sempre presente do “Eu sou”, radiante que conhece a si próprio, sente e transcende a si próprio, presente tanto agora, como cinco minutos, cinco horas e cinco séculos atrás.
Cinco milênios atrás?
 Antes de Abraão existir, EU SOU. Antes de o universo existir, EU SOU. Esta é a minha Face original, a face que eu tinha antes de meus pais nascerem, a face que eu tinha antes de o universo nascer, a Face que eu tive por toda a eternidade até ter decidido entrar nesta brincadeira de esconde-esconde e me perder nos objetos criados por mim mesmo.
Eu NUNCA mais vou fingir que não conheço ou não sinto a minha própria percepção sempre presente do “Eu sou”.
 E com isso, a brincadeira chega ao fim. Milhões de pensamentos apareceram e desapareceram, milhões de sentimentos vieram e se desvaneceram, milhões de objetos surgiram e se foram. Mas uma única coisa não apareceu e uma única coisa não desapareceu: o grande Não-nascido e o grande Imortal, que jamais entra nem deixa a corrente do tempo, uma pura Presença fora do tempo, flutuando na eternidade. Eu sou esse grande e óbvioEu sou”, que conhece a si mesmo, valida a si mesmo e libera a si mesmo.
 Antes de Abraão existir, EU SOU.
EU SOU não é nada mais do que o Espírito na primeira pessoa, o Ser último, sublime e radiante de tudo e de todo o Cosmos, presente em mim, em você, nele, nela e neles – como a percepção sempre presente do “Eu sou” que todo e cada um de nós sente.
 Porque em todos os universos conhecidos, o número total de “Eu sou” é apenas um.
 Descanse sempre nessa percepção sempre presente do “Eu sou”, a mesma percepção do “Eu sou” que está sentindo neste exato momento, que é o próprio Espírito Não-nascido brilhando em você e através de você. Assuma também a sua identidade pessoalcomo este ou aquele objeto, este ou aquele eu ou esta ou aquela coisa –, permanecendo sempre no Fundamento de Tudo o que Existe, como essa grande e totalmente óbvia percepção sempre presente do “Eu sou”, e levante-se para prosseguir seu dia, no universo que essa percepção sempre presente do “Eu sou” criou.
 É um novo dia, um novo alvorecer, um novo homem e uma nova mulher. O novo ser humano, assim como o novo mundo, é integral.

Ken Wilber
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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey