Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

A maior hipocrisia: o culto à nossa falsa identidade

Veja apenas o UM em todas as coisas;
O segundo é que induz em erro.
Kabir

Meu Eu é Deus, e não reconheço outro Eu
exceto o meu próprio Deus.
Santa Catarina de Gênova


O conhecedor e o conhecido são um só.
Pessoas ingênuas imaginam poder ver a


Deus como se Ele estivesse lá e elas aqui. Não é assim.
Deus e eu somos um em conhecimento.
Eckhart

Todas as citações acima foram tiradas de uma das mais notáveis obras modernas sobre o eterno impulso espiritual da humanidade, A Filosofia Perene de Aldous Huxley. A maior preocupação de Huxley é mostrar que há um fio condutor comum que transpassa os anseios místicos da humanidade, ligando todas as grandes tradições — a filosofia perene, como Leibniz originalmente a chamou. Ele não se refere de modo explícito à natureza não-localizada da mente humana, embora várias vezes chegue muito perto dessa ideia, como nas alusões à não-localização do ser do homem, expressa nas citações anteriores.

Huxley acreditava que a essência espiritual da humanidade era em certo sentido eterna e, assim, íntegra desde o início — ou seja, era não localizada no tempo —, e portanto nossa espiritualidade não seria algo que pudesse ser obtido ou desenvolvido no tempo. Conforme ele afirmava,

A obsessão pela história e pelo utopianismo do século XIX tendia a cegar os olhos mesmo dos mais argutos pensadores em relação a fatos intemporais da eternidade. Assim, encontramos T.H. Green escrevendo sobre a união mística como se fosse um processo evolutivo e não, como todas as evidências parecem indicar, uma condição que o homem, enquanto homem, sempre teve o poder de realizar... Na realidade, somente em relação ao conhecimento periférico é que tem havido um genuíno desenvolvimento que é o substrato do mundo material, é uma possibilidade realizável por alguns seres humanos em qualquer estágio de seu desenvolvimento pessoal, da infância à velhice, e em qualquer período da história da raça.

Para Huxley, os desígnios mais elevados da experiência humana, os espirituais, não estão subordinados ao desenvolvimento, sendo, portanto, desprovidos de qualquer história. Esta é uma concepção de não-localização no tempo que aparece frequentemente em sua obra, sob diversas formas.

Huxley estava convencido de que nossa preocupação com o tempo linear, fluente e histórico era uma doença, resultando num sentimento de alienação em relação à Divindade. O hábito de nos enxergarmos como seres históricos separados ou "perdidos" de Deus surgiu como consequência de nos fixarmos no tempo e no espaço como indivíduos isolados, egos apartados de todos os outros seres e de todos os outros tempos. Todo o objetivo da filosofia perene era o de desfazer essa ilusão de separação e dualismo. Em outras palavras, era o de ver através da falsa concepção localizada de nós mesmos. Feito isto, a alma seria reencontrada — não "vindo a" Deus através do tempo, não atingindo uma condição futura, nem sendo salva pelo ato benevolente de um deus — mas despertando para o fato de que, agora e sempre, a alma e a Divindade são uma única e mesma coisa.

Mas a fixação do tempo fluente e na história afeta todas as disciplinas, não só a religião e a espiritualidade. Como exemplo, Huxley cita as concepções do etnólogo Paul Radin, o qual observa que,

A etnologia ortodoxa não tem sido outra coisa que uma tentativa entusiástica e não-crítica de aplicar a teoria da evolução de Darwin aos fatos de experiência social... não se alcançará nenhum progresso na etnologia até que os eruditos livrem-se de uma vez por todas da estranha noção de que tudo possui uma história; até que percebam que certas ideias e certos conceitos são tão fundamentais para o homem, enquanto ser social, como as reações fisiológicas o são para ele enquanto ser biológico.

Não se trata de investigar o que pensam os etnólogos sobre o espaço e o tempo, mas de observar que, em todas as áreas do empenho humano, é muito importante o modo pelo qual resolvemos encarar o mundo — se como um conjunto de eventos puramente localizados ou, por outro lado, como um todo não-localizado. Esta escolha tem implicações de grande alcance na vida de todas as pessoas, estando relacionada, por exemplo, aos efeitos da prece sobre a saúde, conforme vimos anteriormente; tem implicações sobre nossos conceitos de eu; e sobre nossas concepções religiosas e espirituais. O que está em jogo é nossa atitude costumeira em relação ao espaço e ao tempo — todas aquelas suposições que nos restringem e nos fixam a localizações específicas e geram a impressão de um eu separado.

A dificuldade em avaliar o papel da prece na saúde surge, em grande parte, como decorrência da estranha maneira pela qual consideramos os conceitos de distância e localização na medicina. Os curandeiros devem estar no local, bem à mão, à cabeceira da cama ou a mesa de operação. Não podem estar do outro lado da cidade ou além da fronteira do estado, como na pesquisa aqui citada. Devido à exigência de proximidade, a cura a distancia transforma-se num absurdo. Logo, em razão apenas da distância, da separação espacial, mesmo sem levar em conta o fato de ser não-material e "mental", a prece é considerada evidentemente ineficaz. Na medicina, a localização tornou-se um critério rígido: efeitos terapêuticos a longa distância são matéria de ficção científica, e não da medicina real.

O fantasma da localização está em toda a parte, infiltra-se em tudo o que hoje fazemos na medicina. Ao insistirmos em que todas as terapias sejam fisicamente fundamentadas, estamos forçosamente na corrida tecnológica, como temos feito por mais de um século. E com resultados discutíveis — pois, ecoando na experiência de todos, pacientes e médicos, há uma crescente consciência de que algo foi deixado de lado.

O que tem sido omitido é a consciência de quem realmente somos. Nossas terapias forçam-nos a tomar o papel de criaturas meramente localizadas. Mas essa é uma falsa identidade. É uma manifestação de hipocrisia, pois nega que somos seres não-localizados no espaço e no tempo.

Larry Dossey - Reencontro com a Alma

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"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey