Não importa o custo, o esforço ou o sacrifício; não se esqueça de que o Caminho existe, de que o Objetivo é atingível e está além de tudo o que você possa imaginar ou conceber agora; de que qualquer preço que tenha sido pago por sua obtenção parece insignificante quando ele é obtido; de que essa é a libertação final da escravidão dos grilhões da matéria e do sofrimento com ela relacionado. A sua obtenção é o serviço e o bem supremos que você pdoe prestar a seus irmãos atados nas correntes de Maia - Mouni Sadhu

A autorrendição nas obras: o caminho do Gita

CAPÍTULO III

A AUTORRENDIÇÃO NAS OBRAS
O CAMINHO DO GITA

A Vida, e não um Mais Além remoto e silencioso ou elevado e extático, unicamente a Vida, é o campo de nossa Espiritual Via Integrativa. A transformação de nossa maneira humana de pensar, sentir, ver e ser, que é agora superficial, estreita e fragmentária, numa profunda e ampla consciência espiritual e uma existência interna e externa integrada, e a passagem de nosso viver humano ordinário à forma divina de vida devem constituir seu propósito central. O meio para conquistar esse fim supremo é uma autoentrega de toda nossa natureza ao Divino. Tudo em nós deve ser entregue ao Divino, ao Todo universal e ao Supremo Transcendente. Uma absoluta concentração de nossa vontade, nosso coração e nosso pensamento nesse singular e múltiplo Divino, uma autoconsagração sem reservas de todo o nosso ser exclusivamente ao Divino, tal é o momento decisivo: a reviravolta do ego para Aquilo que é infinitamente maior que ele mesmo, sua autoentrega e indispensável rendição.

A vida ordinária de uma criatura humana se compõem de uma massa, em parte fixa e em parte fluída, de pensamentos, percepções, sensações, emoções, desejos e alegrias muito defeituosamente ordenados, de atos que são em maior parte habituais e repetidos, só parcialmente dinâmicos e em desenvolvimento, mas todos centrados num ego superficial. A totalidade do movimento destas atividades acontece num crescimento interno que é, em parte visível e operante nesta vida e, noutra parte uma semente de progresso para vidas posteriores. Este crescimento do ser consciente — uma expansão, uma maior autoexpressão, uma evolução cada vez mais harmônica de seus membros constituintes —, encerra o significado total e a essência da existência humana. O Homem, o ser mental, tem entrado no corpo material para alcançar este significativo desenvolvimento de consciência por parte do pensamento, da vontade, a emoção, o desejo, a ação e a experiência, que conduz ao final a um supremo autodescobrimento divino. Tudo o mais é auxiliário e subordinado ou bem acidental e ocioso; o que importa é aquilo que contribui à evolução de sua natureza e ao crescimento ou, melhor, ao progressivo desenvolvimento e descobrimento de seu ser e seu espírito.

O propósito de nossa Espiritual Via Integrativa é nada menos que apressar este supremo objetivo de nossa existência aqui. Seu processo está à frente do método ordinário de lento e confuso crescimento por meio da evolução da Natureza. Visto que a evolução natural não é mais que um crescimento incerto, determinado em parte pela pressão do meio ambiente, em parte por uma educação vacilante e um esforço intencionado, porém, mal iluminado, e um aproveitamento só parcialmente iluminado e semiautomático das oportunidades, com muitos erros, quedas e recaídas; está constituída em grande parte por acidentes, circunstâncias e vicissitudes aparentes, que ocultam, na realidade, a intervenção e a guia secretas e divinas. Na Espiritual Via Integrativa substituímos este lento e confuso avanço por uma evolução rápida, consciente e autodirigida, que cujo fim é fazer-nos avançar tão longe quanto possível, em linha reta para a meta. Em certo sentido, a certa altura, poderia ser um erro falar de uma meta de uma evolução que bem poderia ser infinita. Mas, ainda assim, podemos conceber uma meta imediata, um objetivo ulterior que está mais além de nossa realização atual e ao que a alma do homem pode aspirar. O homem tem diante de si a possibilidade de um novo nascimento; pode existir uma elevação a um plano mais alto e amplo do ser e um descanso deste para transformar seus membros. É possível a conquista de uma consciência dilatada e iluminada que o converterá num espírito liberado e numa força aperfeiçoada e que, se se estender mais além do indivíduo, poderia chegar a constituir uma humanidade divina ou bem uma raça nova e supramental e, portanto, superhumana. Este novo nascimento será nosso objetivo; o desenvolvimento para uma consciência divina constitui todo o significado de nossa Espiritual Via Integrativa: uma conversão holística para a divindade, não só da alma, senão também de todas as partes de nossa natureza.

*

Nosso propósito na Espiritual Via Integrativa é banir a limitada atitude do ego dirigido para o exterior, e coroar a Deus em seu lugar como o Morador que rege a natureza. E isto significa, em primeiro lugar, desinfetar o desejo e deixar de considerar o prazer do desejo como motivo humano dominante. A vida espiritual obterá seu sustento, não do desejo, senão de um puro e generoso deleite espiritual da existência essencial. E não só a natureza vital, cujo selo é o desejo, senão também o ser mental, devem sofrer um novo nascimento e uma mudança que os transfigure. Nosso pensamento e nossa inteligência, divididos, egoístas, limitados e ignorantes, devem desaparecer; em seu lugar deve ingressar a despregar universal e perfeito de uma iluminação divina e sem sombras que culminará numa Consciência da Verdade natural, autoexistente e livre de vacilantes verdades em meio de erros. Nossa vontade e ações confusas e desconcertadas, egocêntricas e mesquinhas em suas motivações, devem Cesar e deixar o lugar para a função total de uma Força rapidamente poderosa, lucidamente automática, movida e guiada em forma divina. Devemos implantar e ativar em todos os nossos atos, uma vontade suprema, impessoal, não declinável e firme, em espontânea harmonia com a Vontade do Divino. O pouco satisfatório jogo superficial de nossas débeis emoções egoístas deve ser eliminado e, em sua substituição, deve revelar-se um vasto e profundo coração psíquico e secreto em nosso interior, que espera que chegue seu momento; impelidos por este coração interior em que mora o Divino, todos ossos sentimentos se transmutarão em calmos e intensos movimentos de uma dupla paixão de divino Amor e múltipla Bem-Aventurança. Esta é a definição de uma humanidade divina ou uma raça supramental. Este, e não uma energia exagerada ou sublimada do intelecto e da ação humanas, é o tipo de super-homem em que nossa Espiritual Via Integrativa as pira a converter-nos.

Na existência humana ordinária, a ação externa constitui as três quartas partes de nossa de nossa vida. Salvo exceções, ao santo e ao profeta, o pensador, o poeta e o artista, podem viver mais dentro de si mesmos; estes indivíduos, pelo menos nas mais intimas partes de sua natureza, se formam mais no pensamento e no sentimento interiores que no ato superficial. Mas o que criará a forma de um viver perfeito, não é nenhum destes aspectos por separado, senão uma harmonia da vida interior e a exterior, totalmente unidas e transfiguradas num movimento de algo que está mais além delas. Portanto, uma Espiritual Via Integrativa das obras, uma união com o Divino em nossa vontade e em nossos atos, e não só no conhecimento e nos sentimentos, é o elemento indispensável e inexpressavelmente importante de uma Espiritual Via Integrativa holística. A conversão de nosso pensamento e nosso sentimento sem uma correspondente conversão do espírito e do corpo de nossas obras constituirá uma realização defeituosa.

Mas, se aspiramos esta total conversão, devemos consagrar não só nossas ações e movimentos exteriores senão também nossa mente e nosso coração. Devemos aceitar e conquistar progressivamente uma entrega de nossas capacidades de obrar a um Poder Superior que está dentro de nós, e abandonar a convicção de que é um o que faz e ele que obra. Tudo deve ser depositado para um uso mais direto nas mãos da Vontade divina que se esconde atrás de todas estas aparências, porque nossa ação só é possível através dessa Vontade. Um poder oculto é o verdadeiro Senhor e Observador normativo de nossos atos e só ele conhece seu sentido total e seu propósito final através de toda a ignorância, a perversão e a deformação introduzidas pelo ego. Devemos efetuar uma completa transformação de nossa vida e obras, limitadas, deformadas e egoístas, numa ampla e direta emanação de uma Vida, uma Vontade e uma Energia maior e divinas, que agora nos ajudam secretamente. Esta Vontade e Energia maiores devem fazer-se conscientes e dominantes em nós; devem cessar de ser, como agora, só uma Força superconsciente, que sustenta e permite. Devemos conquistar uma transmissão não deformada através de nós, do propósito e do processo de um Poder onissapiente e de um Conhecimento onipotente que agora permanece ocultos e que farão convergir nossa natureza transmutada para seu canal puro sem obstáculos, que aceita e participa felizmente. A total consagração e a entrega, e a plena transformação e livre transmissão resultantes, constituem os meios e o fim último de uma Espiritual Via Unitiva holística.

Para essa transformação, a consagração das obras constitui um elemento necessário ainda para aqueles cujo primeiro movimento natural é uma consagração, uma entrega e a resultante transformação total da mente pensante e seu conhecimento, ou uma total consagração, entrega e transformação do coração e suas emoções. De oura maneira, e ainda quando encontrem a Deus em outra existência, não poderão conquistar o Divino na vida; está será para eles uma inconsequência carente de significado e de divindade. Nunca será sua a verdadeira vitória que é a chave do enigma de nossa existência terrestre; seu amor não seria jamais o absoluto amor triunfante sobre o ser, seu conhecimento não será a consciência total que tudo abarca. É possível, sem dúvida, começar unicamente com o conhecimento ou com a emoção dirigidos a Deus, ou com ambos, e deixar as obras para o movimento final da Espiritual Via Integrativa. Mas então corremos o perigo de viver demasiado exclusivamente em nosso interior, sutilizados na experiência subjetiva, encerrados em nossas isoladas partes internas; podemos chegar a endurecer-nos nessa reclusão espiritual e mais tarde nos será difícil voltar-nos triunfantes para o exterior e aplicar a nossa vida o que conquistamos na Natureza superior. Quando pretendemos adicionar este reino externo a nossas conquistas internas, estaremos por demais acostumados a uma atividade puramente subjetiva e inoperante no plano material. Encontraremos imensas dificuldades para transformar a vida exterior e o corpo. Ou descobriremos que nossa ação não corresponde à luz interior; que ainda segue os velhos e habituais caminhos equivocados, que todavia obedece as antigas influências imperfeitas normais; a Verdade em nosso interior segue estando isolada pelo doloroso abismo de mecanismo ignorante de nossa natureza externa. Esta é uma experiência frequente, porque, nesse processo, a Luz e o Poder se retraem e se tornam relutantes a se expressarem na vida ou a utilizar os meios físicos prescritos para a Terra e seus processos. É como se tivéssemos vivido num mundo distinto, mais amplo e sutil, e carecêssemos de um apoio divino, ou, quem sabe, de nenhum tipo de caminho, na existência material e terrestre.

Mas cada um deve seguir sua própria natureza e sempre existem dificuldades que devemos aceitar durante algum tempo se queremos continuar por nosso caminho natural da Espiritual Via Unitiva. Depois de tudo, a Espiritual Via Unitiva significa primariamente, uma mudança da natureza e da consciências, e se o equilíbrio de nossas partes é tal que devemos realiza-lo com certa exclusividade inicial e deixar o manejo do resto para mais tarde, teremos que aceitar a aparente imperfeição do processo. Sem dúvida, o funcionamento ideal de uma Espiritual Via Integrativa holística seria um movimento integral em seu processo e total e múltiplo em seu progresso,ainda desde o início. De qualquer maneira, o que nos ocupa agora é uma Espiritual Via Integrativa que comece com obras e avance por meio das obras, ainda que movida e ajudada cada vez mais por um amor divino, vivificante e iluminado por um conhecimento divino.

*

O maior evangelho das obras espirituais, que tem sido dado a raça, e o mais perfeito sistema de Espiritual Via Integrativa que o homem conheceu no passado, se encontra no Bhagavad Gita. Nesse famoso episódio de Mahabharata se estabelecem os grandes princípios básicos para todos os tempos, com incomparável maestria e a visão infalível de uma segura experiência. É verdade que somente o caminho está plenamente delineado; a conquista perfeita, o mais alto segredo, está sugerido, mais que desenvolvido; encontra-se oculto, como uma parte não expressa de um supremo mistério. Existem motivos óbvios para esta reticência, visto que a realização é sempre uma questão de experiência e nenhum ensinamento pode expressá-la. Não se pode descrever de maneira tal que uma mente que não possua a resplandecente experiência transmutadora possa realmente compreendê-la. E para a alma que tenha transpassado os radiantes portais e que recebe o fulgor da luz interior, toda descrição mental e verbal é tão pobre como supérflua e inadequada. Devemos, necessariamente, expressar todas as consumações divinas com os termos com os termos inadequados e enganosos de uma linguagem criada para expressar a experiência normal do homem mental; nesses termos só pode compreende-las verdadeiramente, aqueles que já sabem e que, portanto, podem dar a estes pobres termos externos um sentido distinto, interior e transfigurado. Tal como os Rishis Védicos insistiram no princípio, as palavras da sabedoria suprema só têm significado pra quem já as possuem. O silêncio do enigmático final do Gita pode fazer pensar que este não proporciona a solução que buscamos, que se detém ante os limites da mente espiritual superior e não os cruza para internar-se nos esplendores da Luz supramental. E, sem dúvida, seu segredo da identidade dinâmica, e não só estática, com a Presença interior seu sublime mistério da absoluta entrega à Guia Divina, Senhor e Habitante de nossa natureza, constitui seu segredo central. Esta rendição é o meio indispensável para a transformação supramental e, por sua vez, é através dessa transformação que a identidade dinâmica chega a ser possível.

Quais são, então, os princípios da Espiritual Via Integrativa que estabelece o Gita? Seu princípio fundamental, seu método espiritual, pode resumir-se como a união dos amplos e elevados estados ou poderes de consciência, igualdade e unidade. A essência deste método é uma aceitação sem reservas do Divino em nossa vida, assim como em nosso ser e espírito interiores. Uma renúncia interna do desejo pessoal conduz à igualdade, realiza nossa total rendição ao Divino, permite a liberação do ego separatista, que traz consigo a unidade. Mas deve ser uma unidade na força dinâmica e não só a paz estática ou a beatitude inativa. O Gita nos promete liberdade para o espírito ainda em meio das obras e das plenas energias da Natureza, se aceitamos a sujeição de todo nosso ser Àquilo que se eleva por sobre o ego que separa e limita. Propõem uma atividade integral e dinâmica, fundada numa quieta passividade; uma maior ação possível, irrevogavelmente estabelecida sobre uma calma imóvel em seu segredo, livre expressão para o exterior de um supremo silêncio interior.

Todas as coisas aqui são o único e indivisível Ser Supremo, eterno, transcendente e cósmico, que se encontra aparentemente dividido nas coisas e nas criaturas; só em aparência, porque, na realidade, é sempre um e igual em todas as coisas e criaturas e a diviso é só um fenômeno superficial. Enquanto vivemos nessa aparência ignorante, somos o ego e estamos sujeitos aos acidentes da Natureza. Escravos das aparências, submetidos às dualidades, nos agitando entre o bem e o mal, o pecado e a virtude, o sofrimento e a alegria, a dor e o prazer, entre a boa e a má sorte, o êxito e o fracasso, seguimos impotentes às voltas do enganoso brilho da Roda de Ilusões. O mais que conseguimos é gozar da pobre liberdade relativa que, em nossa ignorância, chamamos livre arbítrio. Mas, no fundo, isso é ilusório, visto que são os desígnios da Natureza os que se expressam através de nossa vontade pessoal, a força da Natureza, que nos domina, e sobre a qual não exercemos nenhuma influência, determina o que faremos e como o faremos. A Natureza e não um ego independente, escolhe o objeto de nosso anseio, seja por meio de uma vontade raciocinada ou de um impulso irrefletido, em qualquer momento de nossa existência. Se, ao contrário, vivemos na realidade unificadora do Ser Supremo, podemos ir mais além do ego e da Natureza. Porque então retornamos a nosso verdadeiro ser e nos convertemos em espírito; no espírito estamos acima do impulso da Natureza, somo superiores aos seus acidentes e forças. Ao conquistar uma perfeita igualdade na alma, na mente e no coração, realizamos nosso verdadeiro ser de unidade, um com todos os seres, e também com aquele que se expressa neles e com tudo o que vemos e experimentamos. Esta igualdade e esta unidade constituem o duplo fundamento de um ser, uma consciência e uma ação divinas. Não somos espiritualmente divinos se não somos um com tudo. Se nossa alma não é igual a todas as coisas, os sucessos e as criaturas, não podemos vê-los espiritualmente, nem conhecê-los divinamente, nem experimentar um sentimento divino para eles. O Poder Supremo, o Eterno e Infinito, é igual a todas as coisas e a todos os seres e, porque é igual, pode atuar com absoluta sabedoria, de acordo com a verdade de suas obras e de sua força, e de acordo com a verdade de cada coisa e de cada criatura.

Esta é também a única liberdade verdadeira possível para o homem, uma liberdade que não pode alcançar se não se liberta de seu isolamento mental e se converte na alma consciente na Natureza. O único livre arbítrio no mundo é a Vontade Divina cuja executora é a Natureza, visto que a criou e domina todas as demais vontades. O livre arbítrio humano pode ser real em certo sentido, mas, como tudo o que pertence aos acidentes da natureza, é só relativamente real. A mente se encontra num redemoinho de forças, oscila entre varias possibilidades, se inclina para uma e para outra, se decide e elege; mas não vê, nem sequer obscuramente, a Força oculta que determinou a escolha. Não pode vê-la, porque essa Força é algo total e, para nossos olhos, indeterminado. O mais que pode fazer a mente é distinguir com certa clareza e precisão algumas, dentro da complexa variedade das determinações particulares por meio das quais essa Força persegue seus incalculáveis propósitos. Parcial em si mesma, a mente utiliza uma parte da máquina, sem saber nada do resto de seus agentes motores no Tempo e no meio ambiente, ignorante de sua preparação passada e de sua direção futura; mas como a máquina funciona, acredita que é ela quem a dirige. E em certo sentido, isso é verdadeiro; porque essa clara inclinação da mente que chamamos vontade, essa firme determinação da inclinação que se nos apresenta como uma escolha deliberada, é uma das mais poderosas determinantes da Natureza, mas nunca é independente ou única. Por detrás da mesquinha ação instrumental da vontade humana, existe algo vasto, poderoso e eterno que vigia a direção da inclinação e influi sobre a propensão da vontade. Há uma Verdade total na Natureza que é superior a nossa escolha individual. E nesta verdade total, e por detrás e mais além dela, há algo que determina todos os resultados; sua presença e seu secreto conhecimento nos mantém firmemente no processo da Natureza; uma percepção dinâmica, quase automática, das verdadeiras relações, das necessidades variáveis ou persistentes, dos inevitáveis passos do movimento. Existe uma secreta Vontade Divina, eterna e infinita, onisciente e onipotente, que se expressa na universalidade e na particularidade de todas estas coisas aparentemente temporais e finitas, inconscientes ou semiconscientes. Este é o Poder Superior ou Presença a que se refere o Gita quando fala do Senhor dentro do coração de todas as existências, que move todas as criaturas pela ilusão da Natureza.

Esta Vontade divina não constitui um Poder ou Presença estranhos; nos é familiar e nós mesmos formamos parte dela; porque é nosso Ser Superior o que a possui e a sustenta. Mas não é, na mudança, nossa vontade mental consciente; frequentemente recusa o que esta aceita, e vice-versa. Desde que este secreto Uno conhece tudo em sua totalidade e em cada detalhe, nossa mente superficial só conhece uma pequena porção das coisas. Nossa vontade é consciente na mente, e unicamente conhece através do pensamento; a Vontade Divina é superconsciente para nós, porque é, em essência, supramental, e conhece tudo porque é tudo. Nosso Ser superior, que possui e sustenta este Poder universal, não é nosso ego-eu nem nossa Natureza pessoal; é algo transcendente e universal, e estas pequenas coisas não são mais que sua espuma superficial. Se rendemos nossa vontade consciente e permitimos que se uma à vontade do Eterno, obteremos uma verdadeira liberdade; ao viver a liberdade divina, deixaremos de nos aferrar à escravidão que nos impõem o chamado livre arbítrio, que não é mais que uma falsa liberdade ignorante, ilusória, relativa e sujeita ao erro de suas próprias e inadequadas motivações vitais e representações mentais.

*

Nossa consciência deve estabelecer uma clara distinção de capital importância entre a Natureza mecânica e o livre Senhor da Natureza, entre o Ser Supremo ou única Vontade divina e luminosa, e os muitos métodos e forças executivos do universo.

A Natureza — não tal como é em sua divina Verdade, o Poder consciente do Eterno, senão tal como a vemos na Ignorância —, é Força executiva, mecânica em seus passos, não conscientemente inteligente para as experiências que dela temos, ainda que todas as suas obras estejam impulsionadas por uma inteligência absoluta. Ainda que não governa por si mesma, está cheia de um Poder autoconsciente que possui um infinito domínio e, a causa deste Poder que a impulsiona, governa e realiza plenamente a tarefa que o Ser Supremo lhe reserva. Sem gozar, porém sendo o objeto do gozo, leva em si mesma uma carga de todos os gozos. A Natureza como natureza fenomênica é uma Força ativa inerte, — visto que realiza um movimento que lhe é imposto; mas em seu interior existe Um que conhece, — uma Entidade habita ali e consciente de seu movimento e seu processo. A natureza fenomênica age contendo o conhecimento, o domínio, o deleite da Alma, o Ser associado a ela ou que existe nela; pelo que pode participar neles só porque está subordinada àquilo que a enche e o reflete. A Alma conhece e é passiva e inativa; contém a ação da natureza fenomênica em sua consciência e em seu conhecimento e goza com ela e a desfruta. Da a sensação às obras da natureza fenomênica e esta efetua o que aquele sanciona para seu próprio prazer. A Alma, a Pessoa Espiritual, não executa; mantém a natureza fenomênica em ação e lhe permite expressar na energia, no processo e no resultado formado, o que ela percebe em seu conhecimento. Esta é a distinção que fazem os Sankhyas — sistema filosófico indiano —; e ainda que não encerra a verdade total, e muito menos a mais alta verdade acerca da Alma, da Pessoa Espiritual ou da natureza fenomênica, é um conhecimento válido e indispensável no hemisfério inferior da existência.

A alma individual, o ser consciente, pode identificar-se com o Ser Espiritual que experimenta ou com a ativa natureza fenomênica. Se se identifica com a natureza fenomênica, não é mestre, desfrutador e conhecedor, senão que reflete as formas e obras da natureza fenomênica. Adota através desta identificação a subordinação e o trabalho mecânico que é característico daquela. E, se se submerge totalmente na natureza fenomênica, a alma se volta inconsciente ou subconsciente, dormida em suas formas como na vida terrestre e mineral, ou quase dormida como na vida vegetal. Ali, nessa inconsciência, está subjugada pela inércia, o princípio, o poder, a forma qualitativa da obscuridade e da inércia: a harmonia e a ação estão ali, mas se ocultam por trás da espessa capa de inércia. Ao alcançar sua própria natureza de consciência, ainda que não verdadeiramente consciente, porque o domínio da inércia na natureza é ainda demasiado grande, o ser personificado se inclina cada vez mais ante a ação, o princípio, o poder, a forma qualitativa da ação e da paixão impulsionadas pelo desejo e pelo instinto. Se forma e desenvolve então a natureza animal, estreita em sua consciência, de inteligência rudimentar, cujos hábitos e impulsos vitais estão submetidos à influência da paixão de ação e da inércia. Surgindo ainda mais da grande Inconsciência para um estado espiritual, o ser corporizado libera o equilíbrio e a harmonia, a forma da luz, e adquire uma liberdade, um domínio e um conhecimento relativos e, com isso, um qualificado e condicionado sentido de satisfação e felicidade interiores. O Homem, o ser mental num corpo físico, teria que realizar esse estado, mas a verdade é que nenhum, salvo uns poucos entre a multidão de corpos com alma, o alcançam. No geral, a escura inércia terrestre e uma turbulenta força vital animal e ignorante o domina demais, como para que seja uma alma de luz e felicidade ou, sequer, uma mente de vontade e conhecimento harmoniosos. Existe no homem uma incompleta e obstaculizada aspiração ao verdadeiro caráter do Ser Espiritual, livre, magistral, conhecedor e desfrutador, visto que estas são as modalidades relativas na experiência humana e terrestre, e nenhuma delas dá seu fruto único e absoluto; estão todas mescladas entre si e carecem de uma ação individual pura. O que determina as experiências da consciência humana egoísta que oscila no instável equilíbrio da Natureza é, precisamente, essa confusa e inconstante interação.

O sinal que indica a imersão da alma corporizada na natureza fenomênica é a limitação da consciência de ego. O claro sinal desta consciência limitada é uma constante desigualdade da mente e do coração e um confuso e desarmônico conflito e desarmonia em suas variadas reações diante de seus contatos com a experiência. As reações humanas oscilam perpetuamente entre as dualidades criadas pela sujeição da alma à Natureza e por sua luta, muitas vezes intensa, porém limitada e quase sempre não afetada pelo domínio e o gozo. A alma gira incessantemente entre os sedutores e penosos opostos da Natureza: êxito e fracasso, boa e má sorte, bem e mal, pecado e virtude, alegria e sofrimento, dor e prazer. Só quando desperta de sua imersão na natureza fenomênica é que percebe sua unidade com o Uno e com todas as existências, pode chegar a ser livre destas coisas e a encontrar sua verdadeira relação com a Natureza executiva do mundo. Então se torna indiferente a suas formas inferiores, impassível frente a suas dualidades, capaz de domínio e de liberdade, e existe por cima dela como sublime conhecedora e testemunha, plena de deleite calmo, intenso e puro de sua própria existência eterna. O espírito encarnado continua expressando seus poderes na ação, porém já não está envolto na ignorância, nem limitado em suas obras; suas ações não tem a consciência dentro dele, senão somente fora, na natureza fenomênica. Todo o movimento da natureza se converte, para sua experiência, num inchaço ascendente e descendente na superfície, que não afeta em absoluto sua própria paz, seu amplo deleite, sua vasta igualdade universal ou sua infinita existência em Deus. Não é indispensável que a Espiritual Via Integrativa aceite implicitamente toda a filosofia do Gita. Podemos considerar, se assim desejamos, que se trata de uma exposição de experiências psicológicas que podem resultar úteis como uma base prática da Espiritual Via Integrativa; neste caso é perfeitamente válida e está em completa consonância com uma elevada e autêntica experiência. Por essa razão, me parece conveniente mencionar aqui, na linguagem do pensamento moderno até onde ela foi possível, omitindo tudo aquilo que pertence na realidade ao domínio da metafísica e não ao da psicologia.

Estas são as condições de nosso esforço e assinalam um ideal que pode expressar-se nestas, ou em outras formas equivalentes.

Viver em Deus e não no ego; mover-se, com amplo fundamento, na consciência da alma total e do Transcendente e não na pequena consciência egoísta.

Ser perfeitamente igual em todos os sucessos e com todos os seres, e vê-los e senti-los em unidade com si mesmo e com o Divino; sentir tudo em si mesmo e em Deus; sentir a Deus em tudo e a si mesmo em tudo.

Atuar em Deus e não no ego. E, em primeiro lugar, escolher uma ação, não com referência a necessidades ou normas pessoais, senão obedecendo aos ditados da mais alta Verdade viva que está acima de nós. Em segundo lugar, enquanto estamos suficientemente estabelecidos na consciência espiritual, deixar de atuar segundo nossa vontade ou movimento separados e permitir cada vez mais que nossa ação se produza e se desenvolva sob o impulso a guia de uma Vontade divina que nos sobrepassa. E, por último e como supremo resultado, nos elevarmos até uma identidade no conhecimento, força, consciência, ato, e alegria de existir, com a Energia Divina; sentir um movimento dinâmico que não está dominado pelo desejo mortal, pelo instinto e o impulso vitais e pelo ilusório livre arbítrio mental, senão que tenha sido luminosamente concebido e desenvolvido num imortal autodeleite e um infinito autoconhecimento. Esta é a ação que sobrevive por meio de uma subordinação consciente do homem natural ao Eu Divino e ao Espírito Eterno; é o Espírito que transcende e guia eternamente a Natureza do mundo.

Mas, quais são as medidas concretas de autodisciplina que nos permitirão chegar a esta consumação?

É evidente que a eliminação de toda atividade egoísta e de seu fundamento, a consciência egoísta, constitui a chave da consumação desejada. E visto que, no caminho das obras, a ação constitui o primeiro nó que devemos desatar, temos que nos esforçar por fazê-lo em seu próprio centro, no desejo e no ego; de outra maneira, só cortaremos folhas soltas e não o coração de nossa servidão. São dois os pontos em que nossa sujeição a esta Natureza ignorante e dividida é mais forte, o desejo e o ego sensual. O desejo se aninha nas emoções, nas sensações e nos instintos e a partir dali exerce sua influência sobre os pensamentos e a vontade; o ego sensual vive também nestes movimentos, mas suas raízes se inserem profundamente na mente pensante e em sua vontade, e é ali onde chega a ser totalmente autoconsciente. Estes são os dois obscuros poderes da obsessiva ignorância universal qye devemos iluminar e eliminar.

No campo da ação, o desejo adota muitas formas, mas a mais poderosa é o anseio ou a busca do ser vital do fruto de suas obras. O fruto que ambicionamos pode ser a recompensa na forma de prazer interior; ou a conquista de alguma ideia preferida ou de alguma aspiração por longo tempo acariciada, ou a satisfação das emoções egoístas ou o orgulho ante o êxito de nossas mais altas esperanças e ambições. Ou pode tratar-se de uma recompensa externa totalmente material, riqueza, posição, honra, vitoria, boa sorte ou qualquer outra realização de desejos vitais ou físicos. Mas todos são atrativos por meio dos quais o egoísmo nos domina. Estas satisfações nos seduzem sempre com a promessa de poder e a ideia de liberdade, mas, na realidade estamos dominados e guiados, ou escravizados e castigados por alguma imagem, grosseira ou sutil, nobre ou não, do Desejo cego que impulsiona o mundo. Portanto, a primeira regra de ação que estabelece o Gita consiste em realizar a obra sem nenhum desejo pelo fruto.

Trata-se de uma regra aparentemente simples, mas, na realidade é muito difícil praticá-la com absoluta sinceridade e inteireza. Na maior parte de nossa ação a utilizamos muito pouco e logo recorremos a ela só como um contrapeso do principio normal do desejo e para mitigar a ação extrema desse tirânico impulso. No máximo nos conformamos com conquistar um egoísmo modificado e disciplinado que não escandalize demais ao nosso sentido moral e não se mostre brutalmente ofensivo aos demais. E damos distintos nomes e formas a nossa autodisciplina parcial; nos habituamos, por meio da prática, ao sentido de dever, a uma firme fidelidade aos princípios , a uma estoica fortaleza ou a uma resignação religiosa, uma quieta ou estática submissão a vontade de Deus. Mas, por úteis que sejam em sua oportunidade, não é isto o que pretende o Gita; aspira a algo absoluto, inflexível, rígido; uma mudança, uma atitude que modifique toda a postura da alma. Sua norma não é o controle mental do impulso vital, senão a poderosa imobilidade de um espírito imortal.

A prova que propõe é uma absoluta igualdade da mente e do coração frente a todos os resultados, a todas as reações, e a todos os sucessos. Unicamente quando a boa e má sorte, o respeito e o insulto, a fama e o opróbrio, a vitória e a derrota, o prazer e a do, não só não nos afetam, senão que nem sequer nos alcançam, quando somos livres nas emoções, nas reações nervosas, o ponto de vista mental, quando não respondemos com a menor perturbação ou vibração da natureza, realizamos a absoluta liberação que assinala o Gita, e não de outra maneira. A mínima reação prova que a disciplina não é perfeita e que algo em nós aceita a ignorância e a escravidão como sua lei e que segue aferrado à antiga natureza. A conquista só tem sido parcial; em alguma extensão ou parte de nossa natureza segue sendo imperfeita ou irreal; e essa pequena partícula de imperfeição pode destruir todo sucesso da Espiritual Via Integrativa!

Existem certos aspectos de um espírito igual que não devem ser confundidos com a profunda e vasta igualdade espiritual que predica o Gita. Há uma igualdade que nasce da desiludida resignação, uma igualdade feita de orgulho, de dureza e indiferença: todas são egoístas em sua natureza. Levam inevitavelmente ao curso da prática do caminho espiritual, mas devem ser recusadas ou transformadas na verdadeira quietude. Existe também, num nível mais alto, a igualdade do estoico, a igualdade de uma devota resignação ou de um sábio desapego, a igualdade de uma alma afastada do mundo e indiferente ao que nele ocorre. Tampouco estas são suficientes. Podem constituir aproximações numa primeira tentativa, mas não são mais que faces temporárias da alma ou imperfeitas preparações mentais para nossa entrada na verdadeira, ampla e absoluta unidade do espírito, autoexistente e igual.

Porque é certo que não se pode chegar de imediato e sem etapas prévias a um tão grande resultado. A princípio devemos aprender a suportar os ataques do mundo, mantendo a parte central de nosso ser incontaminada e silenciosa, ainda quando nossa mente, nosso coração e nossa vida superficial se vejam fortemente sacudidos; inabaláveis no leito de rocha de nossa vida, devemos separar a alma que observa por trás, o que se encontra imune na profundidade de nosso interior, destas funções externas de nossa natureza. Mais tarde, quando a calma e a estabilidade da alma afastada se estende aos seus instrumentos, será gradualmente possível irradiar a paz, desde o centro luminoso para as escuras periferias. Neste processo podemos recorrer à ajuda temporária de muitas faces menores; certo estoicismo, certa calma filosófica, certa exaltação religiosa, podem nos ajudar a nos aproximar de nossa meta; ou podemos apelar também aos poderes menos efetivos e elevados, porém úteis, de nossa natureza mental. Ao final, devemos descartá-los ou transformá-los e chegar a uma absoluta igualdade, a uma perfeita e autoexistente paz interior e, se podemos, a um inexpugnável, equilibrado e espontâneo deleite total em todos os nossos membros.

Mas, como é possível, então, que sigamos atuando? No geral, o ser humano atua porque sente um desejo ou experimenta uma necessidade mental, vital ou física; é impulsionado pelas necessidades do corpo, a ambição de riquezas, honras ou fama, ou por um anseio de satisfações pessoais da mente ou do coração, ou por uma ânsia de prazer. Ou bem o move uma necessidade moral ou, pelo menos, a necessidade ou o desejo de fazer que suas ideias, seus ideais, sua vontade, seu grupo, sua pátria ou seus deuses prevaleçam no mundo. Se nenhum destes desejos, ou qualquer outro, pode ser a causa de nossa ação, poderá parecer que não existe já incentivo ou poder impulsionador e que a ação mesma deve necessariamente cessar. O Gita responde com seu terceiro grande segredo da vida divina. Toda ação deve realizar-se numa consciência dirigida para Deus e finalmente possuída por Deus; nossas obras devem ser um sacrifício ao Divino e, ao final, a rendição de todo nosso ser, mente, vontade, coração, sentidos, vida e corpo ao Uno, deve fazer de nosso amor e serviço a Deus nosso único motivo. Esta transformação de nossa força impulsionadora e da essência mesma as obras constitui, sem dúvida alguma, sua ideia central; e é o fundamento de sua magistral síntese das obras, o amor e o conhecimento. Ao final não é o desejo, senão a vontade conscientemente experimentada do Eterno, o que permanece, o único que impulsiona nossa ação e que origina nossa iniciativa.

Igualdade, renúncia de todo nosso desejo de obter o fruto de nossas obras, a ação realizada como um sacrifício ao Senhor Supremo de nossa natureza e de toda a natureza, tais são as três primeiras aproximações a Deus no sistema da Espiritual Via Integrativa do Gita.

Sri Aurobindo, A Síntese da Yoga, Volume 3, Capítulo 3 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

"Quem já sentiu o Espírito Supremo não pode confundi-LO com nada, esquecê-LO ou negar SUA existência. Ó Mundo, se recusares a reconhecer SUA existência com voz unânime, irei abandoná-lo e ainda preservar a minha fé".

"A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada." - Albert Einstein

"Enfim, podemos continuar acreditando que somos criaturas localizadas, isoladas e condenadas, confinadas ao tempo e ao corpo, e separadas de todos os outros seres humanos. Ou então abrimos os olhos para a nossa NATUREZA IMPESSOAL e ONIPRESENTE e para a MENTE UNA da qual fazemos parte. Se escolhermos a primeira alternativa, nada nos salvará. Se porém, resolvermos despertar para este divino EU, estaremos frente a frente com um novo alvorecer." - Larry Dossey